Vozes

4 Um bom começo


Notas iniciais
E aí galerinha? Eu peço mil desculpas que eu não tenho postado ultimamente, estou com muitas coisas, uma hora é treino, a outra, lição, adaptação pro colegial e tudo o mais. Eu achei que tinha postado um terceiro capítulo mas parece que ele não foi salvo... Fiquei mto brava, claro, demais, mas, temos que seguir em frente. E aqui estou eu, seguindo em frente e tentando fazer deste o melhor terceiro capítulo possível, rs.
Boa leitura,
Dorrit Division.

Eram verdes. Não daquele verde convencional, da cor da grama ou sei lá. Era de um verde suave, belo. Um pouco menos forte que o verde-musgo, era verde oliva claro. Como uma pintura. Era surreal. E o dono dos olhos era ainda mais surreal.

Ele não tinha aquela beleza convencional, estereótipo. Ele era diferente. Um sorriso tímido porém audacioso se abria para mim, o que fez com que eu corasse um pouco. O formato retângular era harmonioso com o tamanho do nariz e seus olhos, que me encaravam. O cabelo castanho escuro caía em uma franja na frente da testa, e não era nem longo nem curto, chegando na altura de sua nuca.

– Ehr... Obrigada. — Simplesmente, todas aquelas alucinações pararam. De repente. Logo, me dei conta que minha mala abriu e vomitou todo o meu material enquanto as vozes me atacavam. Ótimo. Me agachei, e comecei a recolher aquela bagunça. Nem mesmo me importei com o cara — incrível, por sinal, — que estava plantado do meu lado, tentando ser simpático.

– Deixa que eu te ajudo. — Ele pegou quase todos os cadernos que descansavam no chão. Ele colocou elas na minha mochila, e nosos dedos roçaram. Minhas mãos começaram a tremer de nervosismo, e respirei fundo.

– Obrigada. — Ele sorriu, em retribuição. Começamos a andar juntos pelo espaço.

– Você é a menina nova, não é? Amanda. — Ele disse, calmamente, como se quisesse fazer com que eu andasse mais devagar. Sua voz era grave, e tinha um tom sedoso e afinado. Mas ao mesmo tempo, estremeci. Ninguém nunca se importou em me chamar de Amanda. Com exceção dos meus pais, evidentemente.

– Mandy. Eu prefiro Mandy.

– Mandy.

Senti alguns olhares passando por mim e vi uma fila de meninas me encarando, quase me cercando, como uma roda. Olhei de volta pra ele. Eu não sabia o que dizer. Não era todo dia que um garoto como aquele puxava assunto comigo. Tá, tudo bem, eu era nova, a sensação do momento daquela cidadezinha pacata onde todos se conheciam. Todo mundo queria saber um pouco de mim, certo?

– Você já tem os seus horários? Se você quiser, eu posso te ajudar. Se você estiver a fim de saber sobre os cursos e tal. Você tem cara de atriz, devia fazer teatro. Ah, e eu faço parte do grêmio estudantil, e acho que seria legal se...

– Olha, cara, você já virou santo por ser legal comigo agora, mas eu não tenho muito tempo pra conversar, então deixa pra lá, eu sei me virar, já sou grandinha. — Isso soou um pouco grosseiro. Eu não tive a intenção de ser grosseira. Só que não consegui controlar minhas palavras. Estúpida, estúpida.

– Tudo bem então. — Ele pareceu ficar ofendido. Queria me explodir, pedir desculpas ou refazer toda aquela cena. — Se vire.

Fiquei calada. No mesmo segundo, quem se virou foi ele. Ele deu as costas e saiu andando. Cumprimentou alguns amigos e eu fiquei lá, parada, olhando a cagada que eu tinha acabado de fazer. Observando cada movimento que ele fazia, até perder ele de vista. Tinha como ser mais ridícula do que isso?

Bom, ele não se interessaria pela Mandy doce de qualquer maneira, ninguém se interessava. Apenas Jimmy. Mas eu sentia que o meu lado agressivo também fazia parte de mim. Eu só tinha reprimido ele, por medo, todos esses anos. E eu precisava aprender a controlá-lo. Mandy, relaxa, cara, relaxa. É só mais um garoto. Era só o primeiro garoto. E eu já o tinha espantado.

Fiquei mal. Eu mal sabia o nome dele. Pressenti que seria um desastre em Cooperfield de qualquer maneira.

No final das contas, acabei achando o caminho para a Secretaria, pedindo informação para alguns estudantes. Ele me olhavam com desdém, apesar de me tratarem como se me conhecessem havia anos.

Ao chegar na secretaria, arranjei um bilhete para explicar o meu atraso e retirei todas as informações sobre as aulas, armários, obrigações, etc. A aula tinha começado há cinco minutos, mas como aluna nova, era compreensível chegar um pouquinho depois.

Estava na fila, esperando ser atendida. Ao chegar a minha vez, um garoto, loiro, olhos azuis, camiseta pólo com datas e nomes, chegou e foi na minha frente descaradamente. Fiquei indignada, mas não pretendia arranjar mais um problema com garotos em menos de vinte minutos. Fiquei encarando ele, que percebeu, e riu. Revirei os olhos.

Ao chegar na classe, na primeira aula, Química, o professor Richards me apresenta à turma, e percebo que o garoto dos olhos cor-de-oliva estava na mesma sala, me encarando e cochichando com outros dois do seu lado, que me olharam. As pessoas são bonitas, simpáticas, calmas e tem um sotaque engraçado, mas eu gosto disso, é diferente.

Sentei do lado de uma menina com um problema um pouco sério demais de Acne e um cabelo alisado que parecia ter tomado uma chuva de toxinas. Ela era tímida, que nem eu. Uma característica minha que eu não pretendia mudar. A aula corre com um ar descontraído e leve. A matéria aqui parece mais fácil, mesmo sendo complexa.

Não pude deixar de olhar para trás sempre que o garoto dos olhos de oliva falava. Ele era genial. Me senti oficialmente arrependida. Eu sempre tive um fraco por garotos inteligentes. Eu queria tanto falar com ele...

As vozes não apareceram até o acontecimento que mais me indignou no dia, saindo da escola. O mesmo garoto de camisa pólo com datas e nomes, loiro, olhos azuis, batia numa criança, como que dando uma lição. Ouvi um berro vindo da criança. Tinha por volta de oito anos e meio. Era familiar...

– E aí, retardado, o que você vai fazer agora, hein?

Ao ouvir essa palavra, meu coração arde de raiva. Quero metralhar o garoto imbecil e ignorante que diz isso. Provavelmente xingando alguém com necessidades especiais.

– O que é que tá acontecendo aqui?

Toda roda que se formou ao redor daquela barbaridade se abre para mim, e então eu percebo que fui eu que falei aquilo. O loiro joga o garotinho magro, choroso — e já sem forças para gritar — e indefeso no chão. Se vira pra mim. Dá um sorrisinho sádico.

– Ora, ora. Não é a menina nova? Cara, você é sensacio... — Ele olha para mim, de cima para baixo, mas eu o interrompo:

– QUAL. É. O. SEU. PROBLEMA.

– O que foi? — Ele fala, casualmente.

– Hein? O QUE VOCÊ TEM? VOCÊ É IDIOTA? VOCÊ É DOENTE? — Meu sangue começa a ferver. A criança quase inconsciente no chão, que apanhou de um garoto do dobro de sua idade, é, ninguém mais ninguém menos que o meu irmão. Jimmy. Dou um passo em sua direção e dou um tapa na cara dele, tão forte que minha mão arde como carne viva. E é aí mesmo que eu não me controlo.

– Quem você pensa que é? Hein, cara, quem que você acha que é? Você acha que pode chegar aqui, e furar a fila só porque você usa uma blusa com data e escritos? Você acha que você pode ficar zuando com seus amigos e chegar aqui e chamar o meu irmão de RETARDADO? Que você pode bater numa criança da metade do seu tamanho que não tem as mesmas possibilidades que você? De onde surgiu seu complexo de superioridade? Você é Deus? Você é terrorista? Você é louco? QUE PORRA É ESSA?

– Olha aqui, Mandy... — Pelo jeito ele sabe o meu nome.

– Não, sai caralho. Olha você aqui. Nunca mais encosta um dedo no meu irmão, ou eu vou fazer com que eu tenha certeza de que você seja queimado até a morte. — Pego o meu pequeno Jimmy nos braços, tonto. Vejo que estou dando um show, e todos ao redor nos assistem. — E vocês aí que estão aproveitando o meu show, não pensem que estão fora dessa putaria que rolou aqui. VOCÊS TEM A CORAGEM DE SE SUBMETER PRA UM BOSTA QUALQUER DESSES QUE APARECE BATENDO NUMA CRIANÇA ESPECIAL? E NÃO FAZEM NADA? PELO MENOS UM MÍNIMO DE DEFESA POR DIREITOS IGUAIS?

– Mandy, ele é retardado, ele jogou meu celular no chão, mijou em cima...

– E você deixou ele quase inconsciente por causa disso? Bom, Jimmy fez o certo pra um canalha que nem você. Merecido, e não pense que eu não vou levar essa história adiante. Cara você tá fudido na minha mão.

– Agora vou me fuder por causa de uma aberração dessas?

Na hora, não me aguento. Algumas pessoas decentes me ajudam e seguram o meu pobre irmão. INCOMPREENDIDO. Estava dando as costas para aquele merda quando giro o meu corpo e dou um soco fenomenal no nariz dele que o faz cair no chão. Silêncio. Todos olham para mim.

– NUNCA. MAIS. MEXE. COM. A GENTE.

E na minha cabeça, eu ainda podia ouvir alguns murmúrios me agradecendo.



Notas finais
Tudo bem, o que acharam? A leitura tá confusa? Alguma crítica? Positiva, negativa, deixem seus comentarios, por favor. Ficou meio forte essa ultima parte. Pesada. A vida é dificil de vez em quando, mas as coisas vão se encaixando. Acham que as coisas vão se encaixar pra Mandy? Ou ela se meteu numa encrenca? O que acharam do comportamento dessas pessoas? Dicas, traumas, observacoes, sempre bem-vindas. Continuem acompanhando!!!
Abraco forte e beijao,
Dorrit Division.