Voulez-vous coucher avec moi ce soir?
12 Capítulo 13: Ligação
Era a terceira vez no dia que Harry abria aquela última gaveta da sua mesa e fitava a pasta amarela ali guardada; e ainda não eram sequer onze horas da manhã. Passou a mão pelos fios cacheados em frustração, mordendo o canto da boca com os olhos verdes ainda presos no objeto; não precisa ler tudo, apenas o necessário. Mas ler “apenas o necessário” já era invasão de privacidade o suficiente… Por outro lado, se ele já não tivesse aquele dossiê, montado e perfeitamente organizado por ordem de relevância, Harry acabaria pagando alguém para montá-lo, ou será que acabaria esquecendo Louis e o deixando em paz?
Desde que seu noivado fora oficialmente desfeito, há cerca de três dias, Harry vivia entre o dilema de abrir aquela pasta e ler absolutamente cada palavra ali escrita, em ler apenas o necessário e em ler coisa alguma e jogá-la no lixo. A parte de jogar no lixo ele estava praticamente convencido de que não conseguiria realizar, mas acreditava que era perfeitamente capaz de ler apenas o suficiente para saber onde encontrá-lo; um endereço ou número de telefone diferente do que havia em sua agenda… Ao pensar na ética, porém, ele deveria apenas esquecer e seguir sua vida; talvez se apegar ao velho ditado de “se for para ser, será”. Isso significava deixar a vida levar e Harry não estava acostumado com isso, mas poderia conseguir.
Não, não poderia. Alcançou a pasta e a deixou sobre a mesa, uma leitura rápida, apenas na primeira página, o que precisava saber estaria na primeira página, e então não leria mais. Simples assim, fácil assim.
— Senhor Styles, sua reunião é em cinco minutos. — A voz de sua secretária à porta do escritório o forçou a tirar sua atenção da pasta, ainda fechada. — Já estão todos lá, senhor.
— Ah… Obrigado. — Não sabia se estava aliviado ou não com essa reunião que ele sequer lembrava da existência, mas voltou a guardar a pasta e se levantou. Isso teria que esperar.
E esperou por cerca de uma hora, que foi o todo o tempo que a reunião durou; teria esperado mais se Zayn já não tivesse compromisso para o almoço e Liam não tivesse desaparecido da sala assim que a reunião se encerrou. Apenas a primeira página, foi o que Harry prometera a si mesmo. E, de fato, a primeira página tinha uma informação muito valiosa e Harry não sabia se ria ou se xingava, mais uma vez.
Zayn chegou ao restaurante com dez minutos de atraso, mas não se importou muito, sabia que Louis o estaria esperando, talvez um pouco mal humorado, mas o moreno o havia avisado sobre a reunião que poderia se estender um pouco além do previsto. Encontrou o amigo em uma mesa mais ao fundo; Louis sempre prezava pela discrição e Zayn apreciava isso.
— Hey, tudo bem? — Sorriu para o amigo e assumiu o lugar à sua frente. — Como foi a consulta? Como está Ethan?
— Hey! — Louis lhe deu um largo sorriso, deixando o celular de lado. — Estamos ótimos, Ethan está no peso ideal, eu estou um pouco acima, mas quem liga de verdade? — Encolheu os ombros enquanto Zayn sorria. — E está previsto para nascer no final de fevereiro, eu realmente espero que ele não resolva nascer no dia vinte e nove. — Riu com certo humor, mas estava de fato preocupado com isso; sabia que em ano bissextos as crianças que nasciam no dia vinte e nove de fevereiro eram registradas com a data ou do dia anterior ou posterior, mas Louis não queria isso.
— Final de fevereiro, sério? — Zayn tinha um sorriso curioso nos lábios e quando Louis confirmou a informação ele riu brevemente antes de se explicar. — O aniversário de Harry é dia vinte e um de fevereiro. Era só o que faltava o Ethan nascer no mesmo dia que o pai.
— Zayn, pare de falar sobre o Harry. — O rapaz girou os olhos. — E ainda não marcamos a data da cesariana, eu vou me lembrar de não permitir que seja no dia vinte e um.
— Chato.
— Insistente.
— Eu te avisei que não deixaria de tentar te convencer de contar para ele a verdade. — O moreno deu de ombros e logo depois ditava para o garçom seu pedido, sendo imitado por Louis.
— Achei que iria parar depois que veio com a história sobre nos mudarmos para Atlanta… — Comentou depois de beber metade da água que estava disposta em sua taça.
— Você não me disse se quer ir, além disso, talvez, e só talvez, eu nem me candidate. — Louis o fitou em curiosidade, esperava ver uma expressão frustrada ou talvez com uma leve angústia, mas o que via era um sorriso impedido de sair enquanto Zayn desviava o olhar de si.
— O que quer dizer? Achei que você queria se afastar de Harry e Niall depois do casamento deles… — Louis estava confuso com a nova decisão do amigo, a não ser que ele pretendesse ir para outro lugar. — Recebeu proposta melhor em outra empresa?
— Não, na verdade não, eu só… — Zayn riu e coçou a nuca enquanto sentia seu rosto esquentar. — Eu e Niall temos nos encontrando, desde sábado, sabe?
— O quê?! Sério isso? Como aconteceu? Zayn, ele está noivo! Do seu amigo e chefe! — Louis foi de empolgado e feliz para preocupado em menos de cinco segundos.
— Calma, deixa eu explicar. — Correu os olhos pelo restaurante, observando se havia alguém prestando atenção em sua conversa, antes de começar a falar. — Depois do jantar na sua casa eu fui para uma balada, lembra? Eu te disse que iria. — Louis concordou e lhe fez um gesto para ser mais rápido. — Acontece que eu bebi demais, tipo… Eu bebi mesmo. E em alguma hora eu estava me pegando muito fortemente com um cara, minha cabeça nublada e avoada de álcool não me deixou me concentrar demais e então eu soltei um “vamos para minha casa?” e ele topou. — Louis tinha uma expressão engraçada no rosto e Zayn foi obrigado a fazer uma pausa para rir, o que fez com o amigo resmungasse e o apressasse mais uma vez. — Calma! Me ouve! — Zayn bebeu um pouco de sua água. — Fomos para minha casa de táxi, ele também não estava nem um pouco sóbrio, foi uma pegação total no carro, não sei como não fomos largados no meio da rua…
— Zayn Malik, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, para de enrolação! — Louis estava a beira de tacar sua faca no amigo. — Eu estou grávido! Não faça isso com um grávido!
— Pare de usar o Ethan como desculpa para conseguir tudo o que quer! — Louis apenas girou os olhos e ameaçou jogar o talher no amigo. — Tá bem, tá bem. — Zayn ergueu as mãos, em rendição. — Nós transamos e dormimos juntos, e quando eu acordei, com ressaca e tudo o mais, Niall estava na minha cozinha preparando um café da manhã junto com a Sarah. — Ficaram em silêncio enquanto Louis absorvia as informações e juntava as peças como em um quebra-cabeças em sua mente, até que o rapaz abriu os olhos de forma exagerada e a boca formou um perfeito “o”.
— Mentira… Você transou com o Niall? — Perguntou em um quase sussurro, chocado com a informação, mesmo que Zayn já tivesse adiantado essa parte antes.
— A essa altura foi mais de uma vez… — Tentou segurar o sorriso, mas não conseguiu e logo estava rindo. — Nem eu consigo acreditar nisso, para falar a verdade, quando ele chega perto de mim e me beija como se fosse natural, como se sempre tivesse sido dessa forma, eu… Eu me sinto mergulhando em um oceano de alegria e euforia… Eu… Eu nem sei como definir…
— Caramba, Zayn, isso é incrível! E ótimo! E… Tudo o mais… Você se declarou? Contou para ele que é apaixonado por ele há sei lá eu quanto tempo? — Louis estava mais do que empolgado e feliz, ele sabia as lágrimas que Zayn tinha derramado pelo loiro.
— Não, claro que não. — Zayn o olhou como se fosse um louco. — Se eu contar isso é capaz dele sair correndo, quero dizer… Ele só me enxergou agora, não quero parecer o cara idiota que ficava o olhando pelos cantos… Vai parecer que era um stalker ou coisa assim.
— Claro que não, vai parecer que você é um romântico à moda antiga. — Louis sorriu, mas logo desmanchou o sorriso, lembrando-se de um detalhe não tão pequeno assim. — Mas e o casamento? Ele continua sendo o noivo do Harry, seu amigo e chefe.
— Não, ele não é. — Louis inclinou a cabeça em confusão e o sorriso de Zayn se ampliou. — Eu te disse que o casamento deles era por puro marketing e negócios, lembra? — O rapaz confirmou com a cabeça, ainda sem entender onde o moreno queria chegar com isso. — Então, no sábado, ele me contou que estava na casa da Gemma, irmã do Harry, junto com o Harry, para montar a lista de convidados e escolher o modelo do convite, e que foi então quando eles perceberam a besteira que estavam fazendo. — Zayn o fitou calmamente. — Eles desmancharam o noivado no próprio sábado e Niall saiu para se divertir um pouco e então tudo aconteceu…
— Meu deus… Parece até coisa do destino, se você acreditar nisso, é claro…
— Eu não sei no que eu acredito, o eu sei é que desde sábado eu e o Niall nos vimos todos os dias e eu estou absurdamente feliz.
Louis não se aguentou e se levantou, fazendo o amigo se levantar também e dando um abraço tão apertado quanto sua condição de grávido lhe permitia. E é claro que os hormônios ainda estavam aflorados e Louis se viu chorando com a história que ouviu, mesmo não tendo romantismo algum em dois adultos bêbados numa balada que decidiram transar. Zayn lhe deu um lenço para secar as lágrimas e Louis riu, voltando para seu lugar.
— Eu to tão feliz por você, não se engane com essas minhas lágrimas. — Disse secando o rosto da melhor forma possível. — São os benditos hormônios que ainda mexem com minhas emoções e tudo o mais… Meu deus Zayn você está namorando! — Louis apoiou os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, fitando Zayn com um sorriso, deixando o moreno mais sem graça ainda.
— Na verdade, não, ainda não. — Zayn enrugou o nariz e o coçou em seguida.
— Mas logo, ne?
— Logo, eu espero.
— Own…
— Louis! Para com isso, está me envergonhando já.
Louis riu do amigo e voltou a se sentar apropriadamente em sua cadeira, e logo o garçom surgiu com seus pedidos, servindo-os rapidamente para logo os deixarem a vontade. Louis ainda se sentia absurdamente feliz por seu amigo estar finalmente com a pessoa por quem ele sempre foi apaixonado, ao menos um deles seria realmente feliz no amor.
Não era como se Louis foi um desacreditado desse sentimento tão nobre, ele apenas havia se conformado de que isso não fora feito para si. Apaixonou-se duas vezes em sua vida, e teve um filho com cada um, e isso era tudo o que teria. Na primeira vez era jovem e iludido, achava que tudo poderia dar certo se os dois se amassem; aparentemente Lucas não o amava tanto assim e não queria ter um filho. Na segunda vez… Não existe “Uma Linda Mulher” na vida real, Louis era apenas um garoto de programa e Harry um homem milionário que o contratara, fim da história. Louis já não era tão jovem e muito menos iludido, e ele estava feliz por ter seus filhos junto a si; era o suficiente.
— Como acha que eu deveria fazer o pedido de namoro? — Zayn perguntou depois de alguns minutos de silêncio entre eles.
— Eu não sei Zayn… Do que o Niall gosta? Flores? Chocolate? — Louis era romântico, e ele jamais seria capaz de negar isso, mesmo que parecesse irônico considerando toda sua vida, mas sabia que havia diversas pessoas que não eram e talvez um pedido feito de forma errada pudesse ser desastroso.
— Para ser sincero Niall é muito fácil de agradar, mas eu queria que fosse algo especial… Mas também acho que está cedo demais e eu posso acabar colocando o carro na frente dos bois.
— Eu acho que você se conhecem a tempo o bastante para saberem se uma tentativa de relacionamento sério vale a pena. — Louis comeu alguns de seu legumes antes de continuar. — Além disso, você não está o pedindo em casamento, ainda, apenas em namoro. — Zayn sorriu, imaginando como seria se casar com Niall. — Por que vocês não viajam? Para algum lugar mais paradisíaco e então você o pede em namoro?
— Não acha exagerado? Sei lá… Tenho medo de fazer algo muito grande e ficar estranho ou não sei…
— Eu acho que será bom, e você precisa precisa mesmo descansar. — Deu de ombros enquanto comia. — Junte o útil ao agradável.
— É… Talvez você tenha razão… Vou conversar com ele sobre isso.
Louis sorriu e eles então terminaram o almoço discutindo o fato de Caleb ainda não ter esquecido totalmente sua fixação por sapos, embora Louis tenha conseguido alterá-la de sapos de verdade para pelúcias e desenhos. E, para completa desilusão de Louis, Caleb perdera o interesse pelo Homem-Aranha e estava se bandeando para o lado do Flash; Louis até gostava do Flash, achava ele divertido e tudo o mais, mas o Homem-Aranha sempre seria melhor e ele e Caleb talvez tenham discutido mais de uma vez sobre o tema.
Zayn gostava de ouvir sobre tudo o que envolvesse o afilhado, dando sua não tão humilde opinião e admirando a relação tão bonita e forte de pai e filho que Louis e Caleb tinham. Olhando para seu passado, Zayn gostaria de ter tido um pai tão presente quanto Louis era, o que era irônico se considerar que Caleb estudava em um colégio interno. Mas quando Louis o busca no sábado de manhã, às vezes na sexta à noite, o mundo parava e por dois dias inteiros eram só os dois ali. Caleb tinha 48 horas de total atenção de Louis, e eles conversavam de tudo, desde heróis e sapos até o fato do garoto não ter outro pai — e isso era o que Zayn mais admirava no amigo -, Louis nunca mentira; não inventou uma história sobre Lucas ter morrido ou algo do tipo, com as palavras certas e o nível de detalhes necessários ele explicou que Lucas tinha ido embora e que não voltaria, Caleb ficou triste e chorou, mas entendeu. Zayn sabia desse detalhe pois Louis o ligara naquela fatídica noite, chorando e se sentindo o pior pai do mundo, explicando todas as palavras trocadas com o filho.
A verdade era que, para Zayn, Caleb estava infinitamente melhor tendo apenas Louis como pai do que tendo qualquer outro casal exercendo esse papel. Zayn tinha os pais ainda casado, tinha mais duas irmãs, tivera um cachorro, eram o perfeito retrato da família perfeita, mas sua mãe não lhe dava atenção, sequer sabia qual era a cor preferida dos filhos e mal se lembrava a data de nascimento deles, enquanto seu pai estava sempre trabalhando, inclusive aos finais de semana. A única vez que Zayn tivera toda a atenção dos pais para si foi quando lhes contou ser gay e eles tiveram a pior reação possível. Zayn ainda os visitava, mais por suas irmãs do que ele pelos pais, ainda tinha que reafirmar sua sexualidade toda vez que seu pai lhe perguntava sobre uma esposa e sua mãe lhe cobrava um neto, mas sabia que sua vida, e até mesmo sua personalidade, seriam diferentes se tivesse tido metade da relação que Caleb tem com Louis. Por isso ele observava tão bem os dois juntos, por isso gostava de participar, ele queria aprender a ser um pai tão bom quanto Louis era para quando finalmente tivesse seus filhos.
A bolha em que os amigos haviam se inserido foi estourada pelo toque de celular de Zayn, que estranhou ao constatar que era Harry quem o ligava. Despediram-se rapidamente depois que o homem exigiu a presença do moreno de volta ao escritório, mesmo que não houvesse dito para o exatamente precisava dele. Zayn apenas imaginava tratar-se de algum problema com a filial. Não via a hora de contratarem os executivos que seriam responsáveis por ela, assim poderiam dividir um pouco as atribuições e ele poderia voltar a ter uma certa rotina na vida.
Chegou ao escritório poucos minutos depois de deixar o restaurante e seguiu direto para a sala de Harry, o encontrando andando de um lado para o outro com um copo de uísque na mão. A cena era no mínimo preocupante, Harry quase não bebia durante o dia, e raramente ficava tão preocupado ao ponto de precisar gastar energia andando pela sala.
— O que foi que aconteceu? — Perguntou ao fechar a porta atrás de si, fazendo com que Harry saísse de seu transe e o fitasse. — Por que está tão nervoso? Algo deu errado em Atlanta?
— Atlanta? — Harry pareceu confuso por alguns segundos, como se não fizesse ideia do que Zayn estava falando. — Ah, Atlanta. Não, não aconteceu nada com a filial. — E então fora a vez de Zayn ficar confuso; se nada havia ocorrido, o que tinha de tão urgente? — Quando ia me contar que você é padrinho do filho do Louis?
Zayn o fitou em silêncio, com a boca aberta em surpresa e absolutamente nada passando em sua mente. Não era como se ele não esperasse que isso acontecesse um dia, para ser franco sempre achou que poderia acabar esbarrando com Harry em algum lugar quando estivesse acompanhado de Louis, mas nunca imaginou que ele saberia sobre sua relação com Caleb. E isso o deixou confuso e preocupado.
— Como você sabe disso? — Foi tudo o que conseguiu formular, fitando o amigo com atenção. Harry não deu uma resposta, apenas encolheu os ombros e disse que fizera uma pergunta primeiro. — Quando eu ia te contar? Nunca. Por que eu contaria?
— O que? Por que contaria? — Harry mudou seu olhar para um indignado enquanto se aproximava do amigo. — Por que eu te contei sobre Louis, eu reclamei sobre diversas coisas, eu desabafei com você e você o conhecia o tempo todo!
— Você falava sobre o Tommo, eu nunca conheci o Tommo. — Encolheu os ombros, sem se importar se o gesto, ou até mesmo sua resposta, iria irritar Harry.
— Isso não faz o menor… — Harry parou de falar na metade de frase, soltando um suspiro e olhando ao redor da sala antes de retomar a fala. — Eu não vou ficar aqui discutindo sobre o motivo de não ter me falado que conhecia Louis, eu quero o telefone dele.
— O quê?
— Eu quero o telefone dele, quero falar com ele. — Harry voltou para perto de sua mesa, deixando o copo pela metade sobre o tampo e alcançando seu aparelho celular. — Você pode me falar o número ou me mandar o contato dele.
— Não. — Zayn cruzou os braços e fitou Harry de forma séria. — Eu não vou te dar o telefone dele, ele não quer falar com você e eu não tenho que fazer nada sobre isso.
— Ok. — Harry devolveu o celular para a mesa, respirando fundo algumas vezes antes de voltar a falar. — Eu sinto falta dele, Zayn. — Usou de toda sua energia para manter-se calmo e tentar convencer seu amigo. — Sinto falta de conversar com ele, de chegar em casa e ele estar lá para me ouvir reclamar de como as reuniões podiam ser e-mails e de como você me faz participar de almoços longos e chatos… — Harry se encostou na mesa, deixando os ombros caírem. — E você tem razão, eu não conheço o Louis, eu conheço o Tommo, o personagem que ele criou para lidar com sua vida profissional, mas eu sinto falta dele.
— Contrate outro Harry, na mesma agência em que o Lou trabalhava tem vários rapazes que podem te agradar. — Zayn não estava convencido do interesse de Harry, e mesmo que estivesse, ele não poderia fazer coisa alguma sem que Louis concordasse.
— Não! Zayn, você não está entendendo. — Harry voltou a andar pela sala, dando duas voltas antes de parar e fitar o amigo novamente. — Eu sinto falta de conversar com ele, não estou falando de sexo, não é só do corpo dele que eu sinto falta. Eu… Eu quero conversar, eu quero falar mais e quero ouvir mais, eu quero conhecer o Louis e esquecer o Tommo.
Zayn o fitou por alguns instantes antes de desmanchar sua pose séria e rígida, Harry também era seu amigo, tanto quanto Louis era — embora Louis soubesse e participasse muito mais da sua vida do que Harry -, ele se sentia na necessidade de ajudá-lo também. Só não sabia muito bem como fazer isso.
— Harry, não é assim… — Aproximou-se do sofá ao canto da sala, sentando-se nele. — Eu não posso apenas te dar o número dele, existe um motivo bem claro para ele ter trocado.
— Eu sei, mas… Zayn me ajuda. — Harry parou diante do amigo, o fitando em súplica.
— Como é que você descobriu sobre eu e ele nos conhecermos afinal? Como sabe do Caleb? — Voltou a sua perguntar primária, observando o amigo assumir uma postura mais defensiva. — Harry…
— Eu paguei alguém para investigar o Louis, ok? Foi assim que descobri sobre o Caleb, e foi assim que descobri, há pouco mais de uma hora, que você é o padrinho dele. — Jogou as palavras para fora quase como se elas pesassem uma tonelada.
— Você o investigou outra vez? — Zayn se levantou em um salto. — Sério isso? E quer que eu te ajude? Você já deve ter o número novo dele.
— Não! Não, Zayn, me ouve. — Harry contornou a mesa e pegou a pasta amarela, deixada no canto da mesa sob outras pastas na tentativa de esquecer sua existência e não ler mais coisas. — Esse dossiê foi montado pelo investigador que paguei há meses, — entregou a pasta para Zayn — eu recebi depois que o Louis e eu encerramos o contrato, não tinha lido até hoje de manhã…
— Você leu? — Zayn balançou a pasta na mão, exibindo-a para Harry. — Está ficando difícil te defender, amigo.
— Eu li a primeira página, só tem o nome dele, do Caleb e o seu nome! Eu nem li as outras coisas que tem na página porque seu nome parecia ter neón em volta. — Passou a mão pelo cabelo enquanto Zayn verificava se seu nome estava de fato na primeira página. — Sério Zayn?
— Sério. — Fechou a pasta e fitou Harry por alguns instantes. — Eu não posso te dar o número dele, não sem que ele autorize.
— Então fala com ele, liga para ele e pede, por favor Zayn faz alguma coisa! — Harry o segurou pelos ombros e Zayn girou os olhos, suspirando frustrado e já imaginando os castigos que Louis lhe daria por fazer aquilo.
— Está bem, eu vou falar com ele. — Harry continuou olhando para o amigo, indo do seu rosto para seu bolso e Zayn suspirou mais uma vez. — Ok, vou falar com ele agora. — Sacou o celular do bolso e discou o número do amigo, não demorando muito para ser atendido. — Oi, Lou. Tudo bem? — Mal ouviu a resposta do amigo, já que estava ralhando com o Harry, dizendo que não colocaria no viva-voz. — Eu sei, acabamos de almoçar, mas aconteceu uma coisa. — Virou as costas para Harry, não estava aguentando o olhar ansioso do amigo sobre si. — O Harry descobriu que sou padrinho do Caleb. — Soltou a bomba e aguardou a explosão, que veio com gritos e xingos. — Calma, Louis, respira, é a única informação adicional que ele tem. — Lançou um olhar mortal para o amigo, como se avisasse que era bom aquilo ser verdade, antes de seguir até a janela. — Eu sei Louis, eu sei de tudo isso, mas ele quer falar com você. É claro que eu não passei seu número, sua anta! — Ouviu a risada do Harry e acabou rindo também, mesmo que Louis estivesse brigando do outro lado do telefone. — Louis ele está na minha frente, vou passar o telefone para ele. É só uma conversa, é por telefone. Louis! Louis? — Afastou o aparelho de sua orelha e constatou que o amigo havia desligado o aparelho. — Que filho da mãe… Desligou na minha cara. — Apertou para discar novamente e entregou o aparelho para Harry, ouvindo claramente o “eu não quero falar com ele” antes de Harry falar.
— Nossa, Louis, o que foi que eu te fiz para você não querer sequer falar comigo por telefone? — Harry fitava seus lustrosos sapatos enquanto falava.
— Sério Harry? Além de investigar minha vida e falar sobre meu filho?
— Seja justo, Louis, eu apenas perguntei se ele estava bem.
— Não era sequer para você saber que ele estivera doente… Não era para você saber que ele existia, Harry!
— Eu sei, está bem? Eu sei e eu sinto muito por isso, mas eu já fiz, eu já falei e eu já sei sobre ele. Desculpe. — Lançou um olhar nervoso para Zayn, que encolheu os ombros, deixando claro que não tinha o que fazer.
— O que você quer Harry? — A voz soou depois de algum tempo, sendo que Harry até mesmo confirmou se o rapaz não havia desligado novamente.
— Te ver.
— Para quê? O contrato já foi desfeito, eu inclusive nem sequer trabalho mais com isso…
— Eu sei, e não quero ver o Tommo, eu quero ver o Louis, quero conversar com você. Sinto sua falta. — Admitiu com um pequeno suspiro. Estava se sentindo como um adolescente de dezesseis anos que está convidando o garoto que gosta para o baile.
— Eu não acho que seja uma boa ideia, Harry, eu não sou mais o Tommo, e você só conhece ele, e eu…
— Louis, por favor, eu não sinto falta do Tommo, porque falar que sinto falta dele seria praticamente dizer que só sinto falta de transar com você e não é isso. — Exasperou-se um pouco, voltando a andar pelo escritório. — Eu sinto falta de conversar coisas banais, de rir com você, da sua companhia… Me deixa conhecer o Louis, o Louis que o Zayn conhece, por favor. — Ouviu um suspiro do outro lado, mas não houve resposta, assim como o rapaz não desligara; a cada segundo sem que Louis desligasse a ligação era uma pequena vitória para Harry. — Vamos almoçar amanhã? Por favor?
— Harry eu não acho que isso vá…
— Por favor. Você escolhe o restaurante! — Louis suspirou mais uma vez antes de concordar com o empresário, já pensando que fora uma péssima ideia. Harry, por outro lado, estava exultante com a sua conquista. — Posso pegar seu número com o Zayn?
— Pode, aproveita para avisar que ele não precisa aparecer na minha frente pelo próximo mês.— E com isso Louis encerrou a ligação, mas ainda assim Harry sorriu ao devolver o aparelho para o amigo.
— Ele deixou você me passar o telefone dele, mas disse que não é para você aparecer na sua frente pelo próximo mês. — Sorriu de forma forçada para o moreno, que fez um careta engraçada enquanto mandava o contato de Louis para ele.
— A raiva dele vai durar só uma semana, ou menos até. — Deu de ombros e fitou Harry, que já tinha o próprio aparelho em mãos, salvando o contato. — Tenha cuidado, Harry. Eu realmente não conheço o Tommo, não sei que persona é essa que ele criou, mas com certeza é diferente do Louis. E o Louis vale ouro.
— Eu… Vou fazer o meu melhor. — Sorriu para Zayn, genuinamente contente pelo primeira vez em alguns meses. — Obrigado, Zayn, de verdade.
— Por nada. — O moreno guardou seu celular e fitou a pasta que ainda segurava. — O que vai fazer com isso?
— Eu? Nada. Você? Jogar fora, bem longe de mim. — Sorriu largamente para o amigo que apenas concordou e saiu da sala.
Zayn talvez recebesse uma ligação de Louis dali a algumas horas, ou talvez minutos, o xingando primeiro e depois surtando sobre ter que encarar Harry depois de tanto tempo, mas ele sobreviveria, ele sempre sobreviveu aos surtos de Louis de qualquer forma. Seguiu até sua sala, mas parou no triturador de papel que havia no corredor, colocando o dossiê ali e esperando até todas as páginas estivessem transformadas em finas tiras de papel, largando a pasta ao lado da máquina. Seu dia não estava nada parecido com o que havia imaginado, mas estava se revelando muito melhor.
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