A véspera de natal amanheceu cinza, fria e um tanto chuvosa; se fosse qualquer outro dia seria deprimente, mas como era véspera de natal — e aniversário de Louis -, acordaram animados, especialmente Caleb, que pulava aos pés da cama de Louis gritando que era natal e aniversário. Não houve exatamente um susto por parte do mais velho, já que seu filho fazia isso desde que aprendera a entender datas, além do fato dele não ser exatamente silencioso ao acordar — um Tomlinson, afinal -, por isso Louis já estava acordado quando o pequeno começou a gritar e pular.

Depois de conseguir controlar a empolgação do filho, Louis e ele tomaram um bom banho de banheira juntos, jogando sabão para todo lado, o que fez com que Louis pisasse em ovos para sair do banheiro sem sofrer algum acidente, e então seguiram para a cozinha, dispostos a cozinhar tudo o que tivessem vontade de cozinhar. Louis pegou do armário os mais diversos ingredientes, colocando-os todos sobre o balcão, na frente de Caleb, que estava sobre um banquinho para poder enxergar tudo, foi quando estava prestes a quebrar os ovos que o interfone tocou.

— Sim? — Louis atendeu com um sorriso, apontando um dedo acusador para o filho, que comia as gotas de chocolate que teoricamente deveriam ir para a massa de cookies.

Senhor Tomlinson, feliz aniversário!— A voz do senhor John, o porteiro de sessenta anos do prédio soou empolgada. — O senhor tem presentes para receber.

— Obrigado, senhor John. Eu e meu grande e forte ajudante vamos descer para buscar os presentes. — Ouviu o grito empolgado do garoto e agradeceu o porteiro antes de desligar o interfone e vestir um casaco para sair, já que Caleb já tinha o seu sobre seu pequenos ombros.

Desceram pelo elevador cantarolando uma música infantil que estava tocando na rádio ligada no apartamento deles, com direito a uma pequena dancinha improvisada. Caleb apostou uma corrida até o porteiro, que, obviamente, ele ganhou já que: primeiro Louis o deixaria ganhar de qualquer forma e, segundo, Louis não tinha a menor condição de correr, tanto por estar proibido de fazê-lo quanto por estar pesado demais para qualquer movimento ágil.

— Bom dia senhor John! — Caleb cumprimentou assim que alcançou sua cabine, sorrindo para o homem de cabelos bem grisalhos, quase totalmente brancos.

— Ah, bom dia alegria do dia. — O senhor sorriu para si e bagunçou seus fios castanhos. — Olhe, é para você, mas não deixe seu pai ver. — Piscou um olho de forma divertida enquanto entregava para o garoto um pirulito.

— Obrigado, mas não posso ter segredos com o papai. — E dito isso, o garoto se virou com um sorriso largo e balançando o doce para Louis, que se aproximava. — Olha papai, o senhor John me deu.

— E você o agradeceu? — Tirou a franja do garoto de sua testa e sorriu quando ele concordou. — Obrigado por isso senhor John.

— Ah, não agradeça, ele é uma das melhores crianças desse prédio, se não a melhor. — O senhor respondeu prontamente, logo o fitando com certa apreensão. — Bem, não conte isso aos outros pais. — Louis riu e concordou. — Bem, aqui estão seus presentes. — O senhor lhe apresentou um canto do local, onde havia uma cesta generosa de café da manhã, um grande buquê de rosas vermelhas ornamentado com gipsófilas brancas e preso com um lindo laço verde, uma caixa de bombons e um urso de pelúcia branco com uma jaqueta jeans estilizada com os dizeres “Tomlinson’s clan” que o fez rir.

— Nossa… Eu… Como eu vou levar tudo isso? — Riu com a surpresa de tantos presentes. — Brotinho, hora de por a mão na massa. — Louis pegou o urso de pelúcia, que tinha a metade do tamanho de Caleb, e a caixa de chocolates e deixou nos braço da criança.

— Precisa de ajuda, senhor? — O porteiro perguntou com um olhar um tanto exasperado.

— Não, está tudo bem, o senhor não pode deixar seu posto, ou haverá reclamações… — Louis lhe lançou um olhar e ambos riram ao lembrar do episódio em que uma morada armou um grande escândalo pelo porteiro não estar em seu lugar, sendo que o pobre homem apenas tinha ido ao banheiro. — Não deve estar tão pesado assim, mas obrigado por se oferecer.

Louis pegou a cesta pelo aro, pedindo em silêncio que o material fosse resistente o bastante para aguentar até seu apartamento, e encaixou as flores em seu braço. E era claro que dizer que a cesta não pesava era uma enorme mentira, por isso a deixou no chão do elevador enquanto subiam de volta para seu apartamento; Caleb estava especialmente ansioso para descobrir quem havia mandado os presentes, já que Louis afirmou não saber de quem eram, mesmo que desconfiasse de Zayn e Niall. Colocaram tudo sobre a mesa da sala de jantar e Louis logo foi em busca de um vaso para deixar as flores, encontrando o cartão no meio do processo.

Apesar de você não ter me contato ser seu aniversário, Zayn é um ótimo amigo e me contou.

Espero que goste de rosas.

Com amor, H.

Não conseguiu impedir-se de sorrir ao terminar de ler, involuntariamente acariciando sua barriga e desviando o olhar para as flores. Havia um cartão no bolso da jaqueta do urso e Louis o alcançou.

Esse ursinho é igual a vocês: pequenos, fofos e estilosos. Feliz aniversário!

Ps: Não me mate.

Zayn

Girou os olhos e riu do cartão, entregando para Caleb, que o leu em voz alta e com uma facilidade impressionante para sua pouca idade; Louis o parabenizou pela boa leitura. Os chocolates também tinham um cartão próprio e Louis notou outro na cesta, leu o dos doces primeiro.

Eu não sabia bem o que te dar, mas precisava te enviar algo!

Espero que goste de chocolates, esses são os meus preferidos.

Feliz aniversário!

Niall :)

Abriu a caixa e deixou que Caleb pegasse alguns enquanto lia o cartão da cesta.

Nada que eu te comprar para o aniversário ou natal será o suficiente para agradecer pelo maior presente que você está me dando.

Espero que essa cesta te poupe o trabalho de cozinhar o café da manhã.

Com amor, H.

— A cesta e as flores foram mandadas pelo tio Harry, brotinho. — Informou para o garoto que o olhava em expectativa. — O que você acha da gente agradecer ele?

— Foto! — Caleb ergueu os braços em animação e Louis riu.

Abriram a cesta e pegaram o bolo de chocolate com cobertura, comendo de forma desleixada de propósito, sujando todo o rosto com o doce e então juntaram os rostos para tirar a foto que Louis mandou para Harry, junto com um texto em agradecimento. A resposta veio em poucos segundos, era apenas uma foto do empresário com os cabelos completamente bagunçados, mas cheios de glitter, presilhas coloridas e talvez um pouco de maquiagem no rosto também; Zoe ria de forma sapeca ao seu lado. Louis mostrou para Caleb, que riu e perdeu cerca de cinco minutos perguntando quem era aquela menina e porque ela estava com o tio Harry — Caleb podia ser muito ciumento -.

E era o ciúmes do primogênito que às vezes preocupava Louis. Caleb era carinhoso, meigo e risonho, mas também podia ser um tanto mimado, teimoso e possessivo, e sua última característica nunca estava relacionada às coisas, sempre às pessoas. Houve uma crise de choro e gritos, que resultaram em seu castigo mais longo, quando Caleb flagrou Zayn brincando com outra criança no parque em que estavam há alguns meses. Isso deixava Louis apreensivo para quando Ethan nascesse; Caleb estava amoroso e atencioso com o bebê em sua barriga, mas ele ainda estava lá, não tinha Louis correndo para acudir um bebê sempre que este chorasse, mesmo que significasse deixar Caleb sozinho na sala; e isso, essa ansiedade toda, quase o fazia arrancar os cabelos. Mas não naquele dia, porque era véspera de natal e ele podia deixar as preocupações para depois.

Harry, por outro lado, admirava a foto que recebera e logo a estava salvando em sua galeria, não se sentindo nem um pouco culpado ao colocá-la como fundo de tela de seu celular. Zoe ria ao seu lado, tratando de embaraçar todos os seus fios e prender ainda mais acessórios neles.

— Harry… Meu deus! — Gemma tentou segurar o riso, mas falhou e logo estava gargalhando do estado do irmão. — Por que você deixa ela fazer isso com você? — A mulher tinha lágrimas nos olhos enquanto se sentava ao lado de Harry, no chão.

— Por que ela é a minha princesinha, e não sei do que está rindo, eu to maravilhoso. — Jogou os cabelos para trás, fazendo Zoe rir. — Não estou , Zoe?

— Titio lindo, mamãe! — A garotinha gritou as palavras de forma um pouco embolada, ainda aprendendo como pronunciá-las.

— Certo, certo! — Gemma ergueu as mãos em rendição, mas ainda sorria. — Vai passar o natal com a gente? — Perguntou depois de algum tempo estudando o irmão, que a fitou em dúvida.

— Como assim? A tradição Styles. — Respondeu como se fosse óbvia a resposta.

— A tradição pode ser mudada e os nossos pais vão entender quando você contar que vai passar o natal com o pai do seu filho. — Ela fez uma careta ao terminar de falar. — É estranho chamá-lo assim, quando vai pedi-lo em namoro?

— Gemma…

— Eu sei que é isso que você quer. Tanto o namoro quanto passar o natal com ele. — A mulher puxou Zoe para seu colo quando a garotinha se aproximou. — E eu gostei muito dele, mamãe vai adorá-lo, tenho certeza.

— O que me preocupa é toda a carga que ele tem nos ombros. — Desabafou com um suspiro cansado. — O passado dele, Gems. — Acrescentou quando a irmã lhe lançou um olhar confuso. — Faz parte dele e eu entendo e aceito, afinal foi assim que nos conhecemos, mas eu não sei se ele aceita, entende? — Gemma lhe fez um gesto, pedindo por um minuto de silêncio.

— Hey filhota, que tal ir atrás do seu papai? Não deixe ele comer tudo, tem que sobrar comida para gente, ok? — Ajeitou o casaco de moletom que a pequena usava enquanto a menina balançava a cabeça e sai com passos tortos da sala. — Liam, pegue a Zoe! — Gritou, logo ouvindo a resposta do marido e a risada da filha. — Agora podemos conversar melhor.

— Apenas se você não gritar no meu ouvido de novo. — Harry lhe fitou com os olhos estreitos e a boca em uma linha reta.

— Prometo. — Gemma levantou a mão como em uma promessa de escoteiro. — Você estava falando sobre o Louis aceitar o passado dele, o que quer dizer, exatamente, com isso?

— Ele nunca falou sobre a família dele, quando discutimos sobre o Ethan a primeira coisa que ele falou foi sobre ele ser um garoto de programa e eu um empresário milionário…

— É o que ele sabe e o que ele conhece, Harry. — A mulher cruzou as pernas em lótus. — Ele era um garoto de programa, você é um empresário milionário. — Observou a expressão do irmão. — Ele não te viu assim… Todo pintado e brilhoso com glamourosas presilhas pelo cabelo.

— Ele viu sim, eu mandei uma foto. — Retrucou com um sorriso, entendendo bem o que a irmã queria dizer, mas preferindo puxar para algo mais leve.

— Ah é? E qual foi a resposta dele? — Ela sorriu em expectativa.

— Na verdade, a minha foto foi a resposta, a mensagem dele foi essa aqui. — Mostrou a tela do celular para irmã, exibindo a foto de Louis e Caleb sujos de chocolate. — Eles não são fofos? — Ostentou um sorriso orgulhoso nos lábios, pouco reparando na expressão de Gemma. Harry não tivera muitos namoros na vida, e apenas com um, se muito, ele foi tão atencioso e carinhoso como estava se mostrando com Louis, mas ele não estava com medo de se mostrar tão entregue e aberto, tinha medo apenas de não ser aceito por ele.

— Você gosta mesmo do filho dele? — A voz de Gemma soou baixa, curiosa, e Harry desviou os olhos do celular para a irmã.

— Como assim? É claro que eu gosto, ele é um amor.

— Harry… Você e Louis vão ter um filho, talvez você e ele se entendam e sejam um casal mais pra frente, e se isso realmente acontecer, qual será o lugar desse garoto na vida de vocês? — Ela tinha uma expressão séria e olhos rígidos colados nos do irmão.

— Como assim Gemma? Ele é filho do Louis, o lugar dele é ao lado do pai…

— Você entendeu o que eu quis dizer Harry… — Ele lhe lançou um olhar entediado. — Você será capaz de amar esse garoto? Será capaz de ser o pai dele? E será capaz de levar isso por toda sua vida? Porque existe ex-marido, ex-namorado, mas não existe ex-pai. — Harry não respondeu de imediato, ele não tinha certeza da resposta. — Isso não significa que não é para você se relacionar com o Louis, isso significa que você deve ter em mente o que você vai querer ser para o Caleb caso queira se relacionar com o pai dele. Você pode ser apenas o tio que mora com o pai dele, e que futuramente se tornará o padrasto dele, ou pode ser um pai. — O homem deixou de sustentar o olhar da irmã; ele não havia parado para pensar naquilo, para ser sincero, a única coisa que tinha em mente era viver cada dia de uma vez, o mais perto possível deles, o mais perto possível de Ethan, mas Gemma tinha razão. — Mas seja qual for sua decisão quanto ao menino, precisa pensar bem nela porque ela será para sempre.

Harry manteve seu silêncio, apenas dando um sorriso um tanto forçado quando a irmã deixou a mão sobre seu joelho, como se o avisasse que estaria ao seu lado em qualquer decisão que viesse a tomar; o ponto era que Harry não tinha uma para aquele momento. Não tinha certeza se deveria “bater o martelo” naquele exato momento, de levantar a cabeça e dizer que seria o pai de Caleb, era diferente, e um tanto mais complicado, do que ser o pai de Ethan. Pelo menos era o que lhe parecia naquele instante.

Gemma se levantou depois de alguns minutos, e poucas horas depois, que passaram rápidas e em meio a novas brincadeiras com Zoe, Harry estava conversando com a mãe, que não parava de falar sobre a festa que aconteceria de noite e sobre o dia seguinte, quando ela finalmente conheceria seu futuro genro — palavras próprias -. O homem sorria diante da empolgação da mãe, mas também sentia que precisava contar algumas coisas para ela.

— Mãe… Tem algumas coisas que eu não te contei. — Começou de forma incerta, mordendo a ponta do dedo polegar enquanto a fitava. Seus planos era ter tido uma conversa sincera com a família no jantar do dia anterior, mas não viu oportunidade e ali estava ele.

— Como o quê, querido? — Anne ainda dobrava alguns guardanapos, sem dedicar sua atenção para o filho.

— Como Louis estar grávido de sete meses. — Comentou como se a informação não tivesse grande importância.

— Ele o quê?! Harry! Como assim? Por que não contou antes? Meu deus eu achei que ele estivesse de dois ou três meses… Eu queria ter acompanhado tudo, por que não me falou antes? — Sua mãe disparou a “metralhadora de palavras”, como ele e Gemma costumavam falar quando eram menores.

— Ele está de sete meses, eu não contei antes porque eu fiquei sabendo há pouco tempo, quase um mês na verdade. — Explicou de forma calma, assistindo sua mãe abrir a boca de forma surpresa. — E e o Louis nos afastamos e ele não queria que eu soubesse sobre o bebê.

— Por que não? — Anne puxou uma das cadeiras da sala de jantar e se sentou, Harry a imitou, ficando de frente para ela. — O que você fez?

— Eu não fiz nada, para ser sincero. — Ele estava nervoso quanto ao nível de detalhe que deveria contar à mãe, mas não tinha como simplesmente aparecer com o Louis com a barriga daquele tamanho. — Ele só… Ele ficou com medo de que eu não quisesse o bebê a agisse como um babaca, ou pegar a guarda dele…

— Você faria isso Harry? Faria qualquer uma dessas coisas? — Anne tinha um olhar sério sobre o filho, como se o desafiasse a dizer que sim.

— Não! Mãe, claro que não! — Levantou-se da cadeira, andando em círculos na sua frente. — Mas ele não tinha certeza sobre isso, na verdade eu acho que ele ainda não confia em mim totalmente, mas estou tentando.

— Harry… E o que mais você não me contou? — Anne se inclinou um pouco para frente, e Harry respirou fundo antes falar..

— Ele tem um filho de seis anos, Caleb. — Abriu um sorriso largo, mesmo que sua mãe ainda não tivesse tido reação alguma sobre o assunto.

— Harry ele é seu também? Você tem um filho de seis anos?! — Anne se exasperou, respirando de forma acelerada.

— O quê? Não! Mãe, não. — Sentou-se outra vez, segurando a mão de Anne entre as suas. — Caleb não é meu filho, não biologicamente falando...

— Deus…! — Anne tinha a mão sobre o peito, tentando controlar suas emoções que mudaram rapidamente nos últimos segundos. — Você me deu um grande susto! — Bateu sem força alguma no braço do filho. — E como ele é?

— Encantador. — Harry sorriu carinhoso e Anne acariciou seu rosto.

— Então será maravilhoso conhecê-lo amanhã.

Harry sorria para a mãe da mesma forma que ela lhe sorria, mas logo foi expulso do local por ela, mandando-o se arrumar pois logo os convidados chegariam para a festa e posterior ceia de natal. E enquanto fitava seu reflexo no espelho de seu closet ele tomou uma decisão, que, se fosse verdadeiro, ele já a tinha tomado há dias, especificamente quando encontrou Louis e Caleb no shopping.

Louis saiu do banho vestindo um roupão felpudo azul-claro e esfregava da melhor forma possível seus cabelos e Caleb logo entrou no seu quarto, já vestido com o pijama vermelho cheio de desenhos de renas de narizes vermelhos e estrelas, com um cookie de chocolate nas mãos e o rosto sujo de farelo.

— Você não vai parar de comer não? — Brincou com o filho, pinçando seu nariz. O garoto apenas negou com a cabeça e se sentou na cama; Louis já previa a dor de barriga que ele teria, por isso fez seu melhor para fazê-lo tomar alguns chás em meio a toda a sua comilança. — Vem, ajuda o papai a se vestir. — Louis pegou a calça de seu pijama idêntico ao do filho, que obviamente ele demorou a encontrar um tamanho que comportasse sua barriga, e Caleb logo se abaixou para ajudá-lo a colocar cada pé no lugar certo e a subiu até que Louis fosse capaz de alcançar e ajustá-la na sua cintura. — Muito obrigado.

— De nada, papai. — Voltou a se sentar na cama e a balançar os pés no ar enquanto Louis vestia a blusa, cobrindo toda sua protuberância abdominal. — Hora dos filmes? — O garoto perguntou quando Louis voltou do banheiro, onde havia pendurado o roupão e a toalha.

— Hora dos filmes com chocolate quente. — Respondeu ao puxar o garoto pela mão, em direção à sala.

Eles havia feito toda a decoração natalina, com direito a uma árvore de natal cheia de presentes, luzes piscantes por todo o cômodo e duas meias penduradas na chaminé elétrica; também haviam ampliado o sofá e forrado-o com diversas mantas e espalhado almofadas para ficar mais confortável. Caleb havia se recusado a dormir no quarto, afinal ele queria ver o Papai Noel entrando pela varanda — já que não havia a menor chance dele vir pela chaminé — e deixando os presentes, eles haviam até mesmo preparado uma mesa com biscoitos e leite para o bom velhinho e alguns pedaços de cenoura para as renas.

Louis deixou Caleb sobre a cama improvisada diante da televisão e foi para a cozinha preparar o chocolate quente, que era praticamente uma barra de chocolate ao leite derretido no creme de leite, com um toque de canela e um pouco de leite de vaca para deixar mais líquido. Quando colocou a bebida em duas canecas, também natalinas, e acrescentou os marshmallows foi que a campainha soou pelo apartamento. Deixou uma das bebidas com Caleb, que o fitava curioso, e a outra sobre a mesa de centro.

— Cuidado, está bem quente. — Avisou o filho e seguiu até a porta, abrindo sem muita preocupação, já que imaginava ser algum dos vizinhos para lhe desejar feliz aniversário ou feliz natal, mas se surpreendeu ao encontrar Harry de pé do lado de fora, com um sorriso lindo e brilhante e diversas sacolas de presentes nas mãos. — Harry… Hey… O que faz aqui?

— Oi, eu… Eu vim passar o natal com vocês. — Encolheu os ombros. — E-eu posso?

— Claro! Vem, entra! — Deu espaço para que o homem entrasse e fechou a porta enquanto ele tirava os sapatos e deixava ao lado da porta. — Eu só fiquei surpreso com você aqui… Não tem uma festa na sua casa ou algo assim?

— Tem, mas preferi ficar vocês, se estiver realmente tudo bem. — Ele tinha um sorriso incerto no rosto, como se esperasse Louis expulsá-lo a qualquer instante.

— Você é bem vindo, Harry. — Sorriu para ele e indicou as sacolas. — O que é tudo isso?

— Ora… São presentes! — E sendo seguido por Louis, caminhou até a sala, tendo a intenção de deixar tudo debaixo da árvore, junto com os demais.

— Tio Harry! — Caleb deixou sua caneca ao lado da do pai antes de correr até o homem, que largou as sacolas de qualquer forma no chão e o abraçou. — Veio desejar feliz aniversário pro papai? Eu gostei das flores! E na cesta tinha um monte de coisa gostosa!

— Que ótimo que você gostou. — Apertou a ponta de seu nariz e sorriu. — Eu trouxe alguns presentes de natal para vocês três, mas só pode abrir depois da meia noite. — Piscou um olho. — Mas esse aqui você pode abrir agora. — Entregou uma embalagem pequena, toda azul, para o garoto, que o agradeceu e sorriu largamente, pulando de um pé para o outro e mostrando o embrulho para o pai.

— Olha papai, o tio Harry me deixou abrir esse! — Exclamou todo empolgado.

— Que legal, o que será que é? — Caleb correu para o sofá, onde se pôs a rasgar o papel enquanto Harry tirava os demais embrulhos das sacolas e os juntava ao pé da árvore, logo juntando as embalagens vazias e se levantando. — Você não precisava comprar presente algum.

— Eu sei, mas quis mesmo assim. — Sorriu calmamente e voltou seu olhar para Caleb, que já tinha a pulseira em mãos, exclamando sobre como era bonita e mostrando para o pai que tinha seu nome nela. — Você gostou? — Sentou-se ao lado do menino, que tinha um sorriso brilhante.

— Sim, tio Harry, é muito bonito. Obrigado! — Esticou a pulseira e o braço. — Coloca para mim?

— Claro! — Harry colocou a pulseira no pulso do garoto que sorriu em agradecimento, logo voltando a pegar sua caneca de chocolate quente. — Eu tenho um presente para você também. — Harry sorriu para Louis e alcançou outra embalagem azul, do mesmo tamanho que a de Caleb. — Bem… Não é bem para você, mas enfim… — Louis lhe sorriu e abriu o presente, encontrando uma pulseira de ouro branco com o nome de Ethan gravado nela.

— É linda Harry. — Louis tinha os olhos marejados e um sorriso encantador nos lábios. — Obrigado, tenho certeza que ficará linda no pulso do nosso filho. — E dessa vez foi Harry quem ficou com os olhos marejados, Louis nunca havia falado sobre Ethan daquela forma antes, como o filho deles dois.

— E tem outro. — Pegou uma embalagem um pouco maior dessa vez, segurando a caixa com a pulseira da cerejinha para que Louis pudesse abrir o presente e esperando por sua reação. — Esse é realmente para você.

Louis o fitou antes de abrir a caixa e encontrar um cordão de ouro branco em estilo “rabo de rato” e dois pingentes ao lado, de safira, um em formato de coração e outro parecia um pequeno pedaço do universo. Eram lindos e Louis se emocionou mais um vez.

— Você… Você escolheu bem os presentes, são lindos. — Passou a mão pelas joias, admirado com a beleza delas. — Muito obrigado, mesmo.

— Fico feliz que tenha gostado. — Harry sorria, contente por ter conseguido agradar o rapaz.

— Mas eu não vou dar o seu presente antes, pode esquecer. — Louis tinha um sorriso brincalhão nos lábios ao fechar a caixa das joias, deixando-a, junto com a pulseira de Ethan, sobre o aparador próximo à árvore de natal.

— Oh, tudo bem, eu posso superar isso… Aliás, esses presentes foram de aniversário. — Harry piscou um olho e Louis sorriu ainda. — Feliz aniversário Lou! — Abriu os braços e Louis se deixou ser abraçado enquanto agradecia.

— Tio Harry, cadê seu pijama de natal? — Caleb perguntou do sofá/cama depois que Harry e Louis desmancharam o abraço; o garoto tinha um bigode de chocolate enfeitando seu rosto.

— Eu… Não tenho um pijama de natal. — Fez um pequeno bico com os lábios e deixou as mãos na cintura. — Mas eu acho que tudo bem, porque…

— Não! Papai, dá um para ele! — O garoto interrompeu Harry imediatamente. — Papai tem mais no armário, porque ele teve que comprar outro por causa do Ethan… Dá para ele papai! Tem que vestir tio Harry, é tradição!

— Está bem, está bem, entendi… — Harry se virou para Louis com um sobrancelha arqueada e o rapaz riu antes de guiá-lo até o quarto.

— Caleb é muito rígido com essa tradição, esteja ciente. — Avisou ao abrir seu closet e procurar pelo pijama extra. — Esse não é realmente meu, eu comprei para o Zayn, quando ele passou o natal com a gente, não sei se vai te servir, mas…

— É melhor do que ficar sem, pelo jeito. — Brincou ao pegar as roupas das mãos de Louis.

— Com certeza! Pode usar o banheiro daqui mesmo. — Indicou uma porta ao lado do closet e Harry seguiu para lá, logo se trocando.

Minutos depois estavam de volta à sala, cada um dos três com sua caneca de chocolate quente e Grinch passando na televisão. Harry compartilhou algumas histórias de natal memoráveis, com Gemma banguela e vestido verde correndo pela casa, presentes ruins que ele gritou na hora ter detestado e gerou um grande constrangimento na família e algumas outras que fizeram Caleb rir até finalmente cair no sono e Louis pedir para que o levasse para cama, o que Harry fez de prontidão.

— Agora tenho que pegar os presentes do Papai Noel. — Cochichou ao fechar a porta do filho e seguir para a cozinha, Harry o seguiu e quando viu que ele pretendia subir numa cadeira em frente ao armário o impediu na hora. — Harry! Os presentes estão aqui em cima.

— Eu pego, por deus, você está de sete meses! — Harry subiu na cadeira e pegou os quatro embrulhos escondidos ali, logo os deixando sob a árvore. — O que fazemos com isso? — Apontou para o pequeno lanche do Papai Noel e das renas.

— Comemos, oras. — Louis girou os olhos de forma divertida e avançou sobre os biscoitos, comendo metade de um enquanto espalhava farelos pelo prato e ao redor dele. — Papai Noel vive com pressa, por isso faz uma bagunça danada… — Brincou ao fitar Harry e beber metade do leite que estava no copo. — Certo, eu comi tudo o que minha gravidez permite… Quer comer as cenouras?

— É sério isso? — Perguntou em descrença.

— Não! — Louis riu com vontade, logo colocando as mãos sobre a boca para abafar o barulho. — As cenouras são das renas. — Quebrou dois pedaços delas e seguiu para a varanda, jogando-os no chão e deixando a porta entreaberta; as demais foram embrulhadas em um papel toalha e jogadas no lixo. — Prontinho. — Sorriu vitorioso e Harry o imitou.

Voltaram para o sofá e enquanto assistiam Kevin McCallister tentar se livrar de ladrões bem atrapalhados depois de ter sido esquecido em casa por toda a família, Louis sentiu vontade conversar, na verdade não. Louis não queria conversar, Louis queria falar, e Harry seria um bom ouvinte, provavelmente o melhor deles e, acima de tudo, eram coisas que Harry queria, e talvez precisasse, ouvir. Por isso ele começou a falar, sem coragem de fitar o rosto de Harry, sentado ao seu lado.

— Eu tinha dezesseis anos quando meus pais… Quando eu resolvi que seria uma boa ideia contar para eles que eu não queria tirar meu útero e que isso era pelo fato de eu ser gay e querer gerar meus próprios filhos. — Mordeu o lábio com força, tentando se concentrar nas tramóias de Kevin na televisão. — Eles não aceitaram bem, na verdade eles não aceitaram nada e me expulsaram de casa. — Deu um sorriso forçado, sem humor algum. — Eu estava com raiva, magoado, mas eu tinha um namorado, Lucas. — Desistiu do filme e deixou os olhos caírem em suas mãos sobre sua barriga, contornando os desenhos com a ponta do dedo. — Ele era mais velho, morava sozinho, então eu simplesmente fui para sua casa… Algum tempo depois consegui emprego numa lanchonete e estava tudo indo bem, pelo menos eu achava que sim. — Parou de falar por alguns segundos, apesar dos anos que passaram, as lembranças ainda doíam. — Ai eu fiquei grávido. Lucas comemorou, disse que estava tudo bem, que daríamos um jeito e todas as histórias nas quais eu acreditei. E então ele foi embora, simples assim. Sem cartas, sem conversa, apenas cheguei um dia e suas coisas não estavam mais em casa. — Louis ainda não tinha coragem de olhar para Harry, estava concentrado em não se permitir chorar. — Eu pensei que eu conseguiria dar conta, que eu, no meus dezessete anos, conseguiria cuidar de mim e do meu filho, mas ai veio a carta de despejo… A casa era alugada, Lucas estava devendo meses de aluguel e eu não tinha a menor condição de pagar, o dono teve pena de mim e me deixou ficar num quartinho minúsculo que tinha no terreno e alugou a casa para uma família. — Sentiu Harry se aproximar mais de si, mas ainda sem tocá-lo realmente, apenas suas pernas encostadas. — Eu continuei na lanchonete até quando pude, terminei o colégio e quando Caleb nasceu eu estava absolutamente desesperado. — Foi nesse ponto da história que a primeira lágrima caiu. — Ele era tão lindo, com suas bochechas gordinhas e olhos tão azuis, eu… Eu sabia que se o deixasse num orfanato ele seria adotado em questão de poucos meses, mas eu… E-eu não conseguia fazer isso, eu não conseguiria deixar meu filho para trás. — Secou o rosto com as costas das mãos e o braço de Harry finalmente envolveu seus ombros, o deixando mais próximo de si. — Enquanto eu não podia trabalhar, a família que morava na casa me dava comida, quando estava forte o bastante eu voltei para a lanchonete, mas já tinha uma pessoa lá, no meu lugar… E então eu sai de lanchonete em lanchonete, de bar em bar, de boate em boate até conhecer Linda. — Sua voz estava mais baixa, quase um sussurro, já que estava tão perto de Harry. — Eu e Caleb a conhecemos juntos, afinal, onde eu o deixaria? — Riu em ironia. — Ela me estendeu a mão, me ofereceu um trabalho, o trabalho mais antigo no mundo, e eu não tinha opção. Aceitei. — Brincou com a gola do pijama de Harry, o máximo que conseguiu erguer dos olhos. — Ela cuidou de mim, me levou para um apartamento modesto, mas infinitamente melhor do que o cubículo que eu morava, comprou roupas para mim, para Caleb, até encontrou o colégio interno onde eu poderia deixá-lo. Ela investiu em mim, e eu me senti na obrigação de retribuir tudo, então fiz o melhor que eu pude, mesmo que o trabalho fosse tão… Enfim… Não demorou para ela me tirar das ruas e me colocar em um catálogo e logo depois eu estava frequentando festas como a qual nos conhecemos. — Harry não o respondeu. O que ele poderia falar afinal? Louis passara por coisas que não deveria ter passado, uma família que o rejeitava por ser quem era, um namorado cretino e egoísta… Tudo o que Harry fez foi abraçá-lo mais forte, trazê-lo para mais perto. — Eu paguei o dono da casa, com quase dois anos de atraso, mas eu paguei. — Riu com certo humor. — Também ajudei a família que me alimentou por meses… Mas nunca consegui voltar, eu nunca consegui sequer passar na rua em que meus pais moravam, ou moram… Eu sinto… Eu sinto que seria capaz de perdoar Lucas por ter ido embora, eu o perdoaria por ter me deixado, mas não conseguiria perdoar por ele ter abandonado Caleb, mesmo que ele nem sequer fosse nascido, e eu acho… Eu acho que é por isso que não consigo perdoar meus pais. Eu era o filho deles!

— Eu sinto muito. — Foram as palavras que Harry se viu capaz de pronunciar diante do silêncio de Louis.

— Não o abandone, Harry. — Pediu em um fio de voz, com o rosto colado no peito do empresário. — Eu jamais o perdoaria.

— Eu jamais abandonarei vocês.

Poderia parecer uma promessa feita ao vento em uma noite fria de natal, mas Harry sabia que não estava mentindo, ele sentia no canto mais profundo de seu coração e de sua existência que nada o faria quebrar aquela promessa. Poderia não haver rótulos, nem papeis assinados ou qualquer outro símbolo que os envolvesse, mas aquela família formada por Louis, Caleb e Ethan também era a sua família, e Harry nunca se perderia deles.