Voulez-vous coucher avec moi ce soir?
3 Capítulo 03: Amigos
O que Harry mais admirava em Niall era sua capacidade de transparecer que não se importava com coisa alguma em momento algum, quando na verdade ele estava se remoendo de preocupação e repassando repetidas vezes fosse o que fosse que originou sua preocupação e cogitando toda e qualquer solução. E definitivamente Harry não fazia ideia do que estava incomodando tanto seu amigo, mas não se daria ao trabalho de perguntar porque eventualmente ele lhe contaria qual é o problema e Harry, para ser sincero, não está tão interessado em apressar nada disso.
Por isso, e por vários outros motivos, estão sentados no meio da sala, com a mesa de centro arrastada para baixo da televisão de muitas polegadas coberta de porcarias, desde aperitivos para comerem enquanto tentam vencer um ao outro no jogo de corrida a bebidas ingeridas a grandes goladas pelo vencedor da rodada. Niall ria a cada cinquenta segundos, mais ou menos, e Harry o chutava sem força alguma apenas para que ele parasse de guinchar ao seu lado.
— Mas então… Eu já tenho quase trinta anos. — Niall se pronúncia por fim e Harry quase ri; quase porque se realmente risse seu amigo lhe lançaria um olhar mortal e pararia de falar sobre o que o está incomodando, no caso, sua idade.
— Você tem vinte e oito anos, não quase trinta. — Girou os olhos e virou o corpo junto com o carrinho na tela, em uma mania que tinha desde se entendia de gente e perdia alguns minutos de sua vida na frente de uma televisão.
— Estou mais próximo dos trinta do que dos vinte. — O rapaz dá de ombros, movimento que Harry apenas consegue ver rápido por sua visão periférica.
— Então eu tenho trinta, considerando que tenho vinte e nove…
— Cala a boca, isso não é sobre você! — Niall pausa o jogo e joga o controle de qualquer forma sobre o tapete, não se importando com o palavrão que Harry solta diante da sua ação. — Eu só… Ando frustrado, eu acho… Carente… Pensando se eu já não deveria estar casado, com filhos…
— É sério isso? — Era estranho para Harry falar sobre crises existenciais e carência que ia além de ter alguém em sua cama.
É claro que Harry se perguntou algumas vezes se não deveria frear um pouco sua vida profissional, que recebia cerca de 85% do seu tempo e atenção, e procurar por alguém com quem gostaria de compartilhar sua vida, ter filhos e tudo o mais que pessoas tidas como normais fariam. Entretanto todas essas questões caiam por terra quando chegava em seu escritório para iniciar o trabalho que aprendera a amar e conquistar o mundo, como algumas revistas diziam; ou então quando chegava a sua casa depois de um dia particularmente exaustivo e tudo o encontrava era o silêncio e uma infinidade de possibilidades para relaxar, indo desde de um banho quente e cama até ligar para alguns amigos e fazer uma pequena festa. Harry, absolutamente, amava sua liberdade e independência.
— Estou falando sobre ter uma família, Styles, seja mais sensível. — Niall girou os olhos e alcançou sua long neck, tomando longos goles antes de voltar a falar. — Não gosto da ideia de ser um solteirão com quarenta anos, sabe? — Lançou um rápido olhar para Harry, que tinha sua melhor expressão de tédio. — Eu sei que você está perfeitamente confortável com isso, H, mas eu não. Eu quero casar, quero filhos, afinal de contas, eu faço parte da não-tão-rara-quanto-querem-fazer-parecer porcentagem de homens que podem engravidar.
— Um dia ouvi minha mãe e Gemma falando algo sobre relógio biológico. — Harry sorriu com sarcasmo. — Será que é isso que está te afetando? Tem medo da menopausa Horan?
— Primeiramente, vai se fuder. — Mais cerveja garganta abaixo. — E segundamente, se é que essa palavra existe, homens não sofrem com menopausa, independente de ter ou não um útero. — Mais uma vez Niall girou os olhos e fitou a imagem congelada do jogo.
Harry sempre considerou que era de fato algo curioso que homens, como parte de um desenvolvimento da raça humana, passaram a ter úteros, considerando que gerações antes tal situação era considerada impossível. Para ele, como homossexual, não era um real problema se ele pudesse engravidar — o que, por escolha aleatória da natureza, não podia — ou envolver-se com algum homem que pudesse, mas questionava-se quanto aos homens heterossexuais que nasciam com úteros. Lera um artigo anos antes, para uma pesquisa do colégio, que mais de 90% dos homens heterossexuais que nasciam com útero o removia assim que atingiam a maioridade legal. Os outros 10% demoravam mais um pouco, mas eventualmente removiam; poucos homens heterossexuais — pouco o bastante para não completarem sequer 1% — mantinham o órgão pensando na possibilidade de envolver-se com alguma mulher que, por qualquer motivo, não pudesse gerar seus filhos. Achou apenas dois artigos que falam sobre homens em um relacionamento heterossexual que geraram suas crianças, e ambos foram porque suas parceiras não podiam fazê-lo.
De um jeito totalmente inesperado, afinal ninguém imaginava que homens fossem eventualmente nascer com útero, toda essa situação fez com que a sociedade — aquela parte não tão pequena assim — fosse praticamente obrigada a engolir os homossexuais como o que eles eram, pessoas normais. Houve, no começo de tudo isso, muita violência contra os homens ‘uterinos’ — como passaram a ser chamados -, especial e principalmente quando sabiam que eles estavam grávidos. Foi uma covardia, e o Estado teve de que intervir para acabar com tudo isso, mas Harry era alguém cético demais para não acreditar que homens continuavam a sofrer em algum lugar, assim como as mulheres sempre sofreram.
— E você, pelo menos, já tem um pretendente a marido? — Perguntou sem interesse algum, o fizera apenas para provocar o amigo.
— Se eu tivesse a solução, meu caro, não perderia tempo aqui com você, jogando um jogo de mais de vinte anos…
— Respeite Mário Kart!
— Comendo diversas porcarias e bebendo cerveja no sábado a tarde quase noite. — Ignorou por completo a interrupção desnecessária de Harry e concluiu seu raciocínio.
Quando Niall abriu sua preocupação para Harry não esperava um belo discurso ou que ele lhe apontasse o caminho a ser seguido, uma vez que ele sequer tinha noção do que realmente queria. Ele estava de fato sentindo-se cada vez mais solitário, de uma forma que as horas no escritório, com reuniões e conversas sobre negócios, não estavam mais o ajudando, assim como gastar um tempo com pura inutilidades — como videogame — cercado de amigos — ou apenas um, no caso — também não sanavam. Queria alguém para dormir ao seu lado, para dividir preocupações, decepções, agonias, alegrias, sorrisos e tudo o mais que acontecesse em seu dia; assim como engravidar e participar de reuniões no colégio, eventual e futuramente ser chamado à sala da diretoria por alguma travessura de algum de seus filhos — ele queria dois -.
Entretanto, apesar de tudo aquilo estar de fato rondando a mente de Niall, não era como se ele tivesse um plano ou um prazo para realizar seus desejos. Queria apenas falar sobre o assunto, talvez ouvir que devesse sair mais, conhecer novas pessoas, conversar mais e toda essa baboseira, porque, bem, era de fato o que ele precisava fazer. O ponto era que Niall tinha receio de todas essas vontades. Ter alguém fixo, um marido, com quem poderia sempre contar, mas que também sempre contaria com ele, e filhos dependentes de si e toda essa coisa sobre responsabilidades e família o fazia repensar todas essas vontades. Era confuso e Niall sabia, ele só não sabia como deixar tudo simples.
— Falando assim até parece que foi obrigado a vir, eu te fiz um convite, sabe? Convites podem ser negados. — Harry pegou o pote de amendoim, deixando-o sobre seu colo enquanto comida de forma distraída.
— Falando assim até parece que você não me queria aqui, Hazz… — Arrastou a voz enquanto falava o apelido de seu amigo. — E eu sei que você me ama.
— Agora está exagerando, de novo. — O homem se levanta, decidido que precisa de um copo de água antes de voltar à cerveja. — E Liam está absurdamente preocupado com o crescimento da Iriran… — Comentou de forma casual, enquanto seguia até a cozinha.
— Por que gente? — Niall grita da sala para ser ouvido, com preguiça o suficiente para não seguir o amigo. — Não é como se fossemos varrer vocês do mundo tecnológico.
— Eu sei, e Liam também. — Voltou para sala com dois copos e uma jarra de água bem gelada. — Mas ele apenas se dará por convencido quando houver um contrato de parceria assinado entre a Iriran e a Styles. — Serviu um copo e deixou o outro, junto com a jarra sobre a mesa de centro, logo sentando-se no estofado.
— Meu pai jamais assinaria esse contrato, independente dos termos. — Decretou com um suspiro frustrado.
— Mas você sim. — Os olhos azuis de seu amigo se voltaram para ele, com fingido interesse. — Espero que seu pai tenha uma ótima aposentadoria, e desejo do fundo do meu coração que ela se inicie logo.
Niall não o respondeu, apenas manteve seu olhar de falso interesse até que Harry se irritou e lhe tacou uma almofada. Passaram mais algum tempo conversando, mas Niall tinha outros planos para sua noite, e Harry não foi incluído, obrigado, então o homem logo foi embora, deixando seu cansado, porém não tanto assim, amigo para trás.
Harry estava decidido a sair quando terminou de arrumar a pequena bagunça que protagonizou com Niall e caminhou até seu banheiro, mas desistiu ao fitar a chuva fina que caía do lado de fora. Londres estava quase sempre cinzenta, quase sempre chovia, e quase nunca impedia os planos de Harry de se concretizarem, mas naquela noite o impediram; naquela noite as gotas calmas que caíam do céu já escuro o fizeram resgatar seu violão da sala de música que mantinha no fim do corredor, seguir para sua varanda vestindo nada mais do sua boxer preta e sentar-se em uma das confortáveis poltronas que comprara especialmente para momentos como aquele. Não foi difícil perder-se entre músicas conhecidas e músicas que rabiscava em um caderno com capa de couro gasto que guardava junto com o violão no case; era seu hobbie favorito, mesmo que não o praticasse com tanta frequência.
O domingo encontrou Harry ainda perdido entre notas e palavras sussurradas para ninguém, o cansaço e o sono esquecidos em algum lugar de sua mente e corpo que não o incomodava mais, até que seu celular apitou com uma mensagem e ele por fim atentou-se para o horário. E então reparou nos raios do sol que se infiltravam entre os prédios e atravessavam os vidros banhando a varanda em que estava em dourado. Harry se encostou melhor na poltrona e, deixando o violão de lado, concentrou-se no nascer do sol com o qual era presenteado; seria, muito provavelmente, o único momento do dia que teria a oportunidade de fitar o sol, as nuvens cinzentas ainda estavam presentes, deixando claro que seria mais um dia chuvoso e acinzentado.
Os olhos verdes pesavam e desejavam por descanso, e Harry estava cedendo quando seu celular apitou uma vez mais, o homem pretendia ignorar, se o celular não continuasse a apitar até ele entender tratar-se de uma ligação. E a mera constatação foi o bastante para despertá-lo de vez; ninguém o ligava tão cedo num domingo. Sua preocupação apenas aumentou ao fitar o nome de Niall na tela, atendendo-o no instante seguinte.
— Hey, Niall! O que houve? — Sua voz transbordava aflição.
— Heeeyyy Hazzyyy… — A voz arrastada do irlandês denunciava seu estado de embriaguez. — Eu achuuu qui bebi dimaiiiix… Vuche podi me buxcar? — Uma risada de fundo, de uma voz mais grossa e desconhecida por Harry o fez levar em um pulo e caçar sua carteira e celular pelo apartamento.
— Onde você está Niall? Me manda sua localização agora! — Falava com o amigo enquanto descia pelo elevador até a garagem do prédio.
Depois de descobrir o endereço de onde Niall estava não foi difícil encontrá-lo conversando com diversas pessoas ao seu redor, algumas tão embriagadas quanto ele, outras sérias e possivelmente desesperadas pelo tal amigo que o homem tanto dizia que chegaria logo. Niall sempre foi muito expansivo, muito falante, carismático e divertido; era uma pessoa extrovertida, conquistava amigos por onde passava. O problema de Niall, e provavelmente o problema da maioria dos irlandeses, era que ele não conhecia, ou não admitia, o próprio limite quando se tratava de bebidas alcóolicas.
Aquela não era primeira vez, e muito dificilmente seria a última, que Harry o buscava em algum canto da cidade depois dele beber demais e não conseguir voltar para casa dirigindo. Ele poderia chamar um táxi ou ligar para o motorista da família, mas Niall tinha a mania de sempre ligar para Harry; e Harry tinha a mania de sempre resgatá-lo.
— Niall. — O moreno se aproximou do amigo, que incrivelmente continuava a ter um copo cheio na mão. — Vamos embora.
— Hazzyy! — O homem jogou os braços sobre os ombros de Harry. — Vuche veio! — Riu sem motivo algum e se virou para as demais pessoas que os fitavam com certa curiosidade. — Essi é u melhor amigo du mundo inteirinho e é shó meu! — Quando o homem tentou voltar a beber Harry puxou o copo, jogando a bebida no chão e saiu puxando Niall enquanto vasculhava o local atrás de uma lixeira para o copo. — Eu ia bebe!
— Você já bebeu demais. — Harry continuou puxando o amigo, que passou a distribuir sorrisos enquanto balançava as mãos dando tchau e mandava beijos vez ou outra. — Entra ai, cuidado com a cabeça. — Ajudou o rapaz a sentar no banco do passageiro e logo estava dirigindo de volta para sua casa com Niall zapeando pelas rádios em busca de alguma música que quisesse ouvir. — Como você parar naquele bar? — A curiosidade de Harry era genuína.
Apesar de toda a extroversão, Niall não tinha muitos amigos de classe social diferente da dele, e o bar onde ele estava definitivamente não tinha nada de requintado ou elegante o bastante para que os bajuladores que Niall sempre tinha por perto quisessem ir. O que o fazia pensar que a noite do amigo não se iniciara ali, mas de alguma forma acabou por terminar no local.
— Eu não faço ideia… — Niall gargalhou depois de respondê-lo, abrindo a janela do carro completamente. — Isso é tão legal! — Colocou a cabeça para fora do carro e fechou os olhos enquanto o vento o despenteava ainda mais.
Harry só podia se conformar em dirigir; o fato de Niall não estar falando mais tão confuso e entorpecido era um bom sinal, talvez ele não estivesse tão bêbado quanto deixara transparecer no primeiro momento. Mas é claro que quando chegaram ao prédio e Harry percebeu que o amigo dormia pesadamente no banco do passageiro ele mudou de ideia. Levou Niall no colo, com certa dificuldade, e o fez acordar quando chegaram no quarto de hóspedes.
Sabia que tudo o que Niall mais queria no momento era dormir, mas também sabia que seria melhor se ele tomasse um bom banho gelado, por isso, apesar das piadinhas sujas e uma tentativa falha de sedução por parte do irlandês, Harry o despiu e logo o colocou debaixo d’água fria. Niall protestou e até xingou, mas logo desistiu e se ensaboou e até mesmo lavou os cabelos; Harry ainda o ajudou a escovar os dentes e a vestir o pijama confortável que sempre deixava naquele quarto. Quando Niall estava finalmente debaixo do grosso edredom e ressonando baixinho, Harry se deixou ir para o próprio quarto e tomar um banho quente.
Ao sair do chuveiro parou diante do espelho para escovar os dentes e seu olhar se perdeu nas diversas marcas que havia pelo peito e pescoço, virou-se um pouco e viu suas costas completamente arranhadas e com mais marcas arroxeadas. Normalmente detestava que o marcassem, fosse quem fosse e fosse pelo motivo que fosse. Não gostava da ideia de possessividade que ter marcas provocadas por outra pessoa passava, mas não se conteve quando esteve com Tommo; ele fora o primeiro a marcar o garoto, para ser honesto, não conseguiu se impedir de castigar o pescoço tão cheiroso e delicado, então como poderia reclamar de ter algumas marcas também?
Aliás, não se lembrava de ter tido encontros profissionais, por assim dizer, que fossem tão intensos e bons como fora com Tommo. Aquele homem com certeza valia cada centavo que Harry tivesse que pagar para tê-lo novamente, e ele não enganaria a si mesmo dizendo que não haveria outras vezes. Harry o queria de novo, e tinha a impressão que seria muito em breve.
Saiu de seus devaneios sobre Tommo, o garoto lindo de excelentes dotes sexuais e misterioso o bastante para que não soubessem seu nome, e deitou-se na cama ainda bagunçada — Harry nunca se importou em ter sua cama sempre feita, especialmente aos finais de semana -, o cheiro de Tommo o envolveu quase que imediatamente e pela primeira vez em todas as vezes que contratava garotos de programa, não se importou. O perfume importado que Tommo usava tinha fragrância adocicada, embora não ao ponto de ser enjoativo, o cheiro próprio do rapaz era tão bom quanto. E Harry se deixou dormir entre aquela mistura de aromas e as lembranças de uma boa noite de sexo.
E acordou sem saber quanto tempo depois, mas com barulhos vindo da cozinha e vozes que não reconheceu de imediato. Levantou-se ainda com sono e cansado e seguiu até o cômodo barulhento enquanto tentava despertar melhor ao esticar os braços ao máximo que conseguia.
— Eu te acordei? — Niall tinha um olhar um tanto culpado, embora não tanto assim, enquanto tinha um garfo na mão direita e um prato na esquerda. — Eu só acordei com muita ressaca, muita sede e, definitivamente, muita fome.
— Você é a única pessoa que eu conheço que sente fome quando está de ressaca… — Harry comentou fitando a pequena bagunça que o irlandês fez em sua cozinha.
— Isso se deve ao fato dele estar sempre com fome. — Uma terceira voz se fez ouvir e Harry se virou para encontrar Zayn confortavelmente instalado num dos bancos altos do balcão.
— Você não estava com seus pais?
— Como sempre, não foi uma visita agradável e eu resolvi voltar para casa um pouco antes. — O moreno deu de ombros, como se não fosse algo que merecesse importância. — Eu te liguei, mas foi o Niall quem atendeu. Só fui aceito na sua casa ao pagar o pedágio de um café da starbucks…
— Que é óbvio que você tomou, certo Niall? Para que deixar para o dono do apartamento, não é mesmo? — Harry o fitou em ironia.
— Como se você se importasse, aliás, se eu tivesse deixado para você, já estaria frio. — O irlandês deu de ombros e voltou a dedicar sua atenção às panquecas não muito atrativas que estava fazendo.
— Péssimos amigos, isso sim. — Harry tomou um lugar ao lado de Zayn, observando enquanto Niall trabalhava no café da manhã mais que tardio, já que, segundo o relógio redondo na parede, passava das 15 horas.
— Liam me contou que você teve alguém para lhe esquentar os lençóis na sexta. — Zayn tinha um sorriso ladino e um olhar felino para Harry, que girou os olhos e soltou um muxoxo.
— Meu cunhado é fofoqueiro demais!
— Nha, ele é apenas amigo demais, e amigos como nós não temos segredos uns para os outros. — Zayn pegou alguns amendoins de uns dos potes de vidro que Harry mantinha sempre abastecido. — Contar algo para o Liam é ter certeza que, eventualmente, eu ficarei sabendo, e vice-versa.
— E eu deveria ficar sabendo por você, Harold! — Niall ralhou ao empilhar mais uma panqueca. — Mas tudo bem, eu te perdoo.
— Vocês são péssimos.
— Não desvie do assunto, queremos nomes. — Niall lhe apontou a escumadeira que utilizava para ajudá-lo. — Idade, fotos…
— Não exagerem, por favor, ele é apenas mais um dos garotos de programa que costumo chamar, só isso. — Roubou alguns amendoins de Zayn, que o fitou sem grande interesse.
— Liam disse que era o garoto. — Deu ênfase ao artigo ‘o’. — O mais charmoso, o mais bonito, o mais caro… Ele é o melhor na cama também?
— Foi o melhor que tive, é verdade. — Deu de ombros, como se não tivesse ido dormir lembrando dos toques e beijos que o garoto lhe deu. — Mas não sei se ele é de fato o melhor, não sai com tantos assim…
— Mas você recomenda então? — Niall o fitou com curiosidade, e tanto Zayn quanto Harry devolveram o olhar com certa descrença. — O que foi? Eu tenho meus momentos de solidão também, está bem? Talvez eu queira um sexo sem compromisso de vez em quando…
— Você não precisa pagar para isso. — Zayn falou com tanta certeza que Harry até mesmo desviou a atenção de Niall para o moreno.
— Falando desse jeito até parece que está se candidatando a acabar com minhas noites de solidão Ze… — Niall brincou enquanto voltava a preparar as panquecas.
— Talvez eu esteja… — Deixou um sorriso ladino nos lábios ao passo que Niall esquecia das panquecas por alguns instantes enquanto o fitava em análise.
— Certo, só não usem meu apartamento como motel. Isso apenas eu posso fazer, obrigado.
Algumas risadas, e flerte gratuito por parte de Zayn, depois os três se sentaram na mesa, que fora arrumada pelo moreno, para comerem. Niall ainda tinha reclamações sobre ressaca para fazer, Harry ouviu e, obviamente, não deixou de cutucar o amigo sobre reduzir a quantidade de álcool que ele ingeria, e sobre a quantidade de vezes que fazia isso. Zayn não se manifestou muito sobre o assunto, mais concentrado em comer as panquecas e frutas que havia posto no próprio prato.
— Zayn…? — Harry o fitava com certa preocupação. — Aconteceu algo nessa sua visita, não foi? Não vai nos contar?
— Foi só… Meio que mais do mesmo. — O moreno encolheu os ombros e fitou os amigos sem muita perspectiva. — Meus pais não apoiam minhas decisões, não gostam da forma como levo a vida…
— Te pressionaram sobre casamento?
Harry tinha dois amigos em situações completamente diferentes naquele momento; de um lado tinha Niall que iniciara a conversa sobre querer casar e ter filhos, mas sem pressão alguma da família, ou se si mesmo; e do outro lado havia Zayn, que havia rompido com a namorada há cerca de dois anos e desde então os pais o pressionam sobre uma nova namorada, uma que dessa vez ele se casasse e tivesse filhos, e Zayn não demonstrava interesse em suprir a vontade dos pais.
— Ele sempre pressionam, o problema é que dessa vez talvez eu tenha falado demais…
— Eu duvido muito, você sempre foi educado, seus pais que devem ter exagerado na reação, mais uma vez. — Niall girou os olhos ao terminar de falar, apesar de não ser tão próximo de Zayn quanto Harry e Liam eram, ele conhecia boa parte da história de vida do rapaz.
— Gritar “parem com isso, eu nunca vou me casar com uma mulher porque sou gay” não era a reação educada que eles esperavam que eu tivesse… — Zayn largou os talheres e sentou-se mais ereto, fitando os amigos com interesse.
— Quando pretendia nos contar que é gay? — Harry questionou a contragosto.
— É isso que te preocupa?
— Seus pais surtando não é novidade Zayne…
O rapaz tentou manter a pose de seriedade, mas logo riu, afinal de contas, desde que se entendia por gente seus pais surtavam por algum motivo. Era provável que eles ficassem sem conversar por cerca de um ou dois meses e logo sua mãe o ligaria e perguntaria se ele havia esquecido que tinha mãe e pai e o chamaria para o almoço de domingo como se não tivesse brigado. E Zayn teria que repetir que era gay, dessa vez sem tanto drama e muito menos sem ir embora logo em seguida.
— E o que vamos fazer nesse resto de domingo? — Niall mudou de assunto com a sutileza de um elefante passando por uma loja de cristais. — Podemos montar um pequeno campeonato de videogame, o que acham?
— Eu não posso, combinei de jantar com um amigo já. — Zayn logo negou, fitando seu celular para verificar se havia alguma mensagem.
— Amigo é? Que amigo é esse? — Harry o olhou com malícia e Zayn riu.
— Não! Ele é meu amigo mesmo, o conheci há alguns anos na academia. — Deu de ombros como se o assunto não o abalasse. — Hoje ele está com o filho em casa e eu adoro o filho dele, então vamos jantar e jogar videogame por lá mesmo.
— Tudo bem, podemos migrar o campeonato para lá.
— Niall, pelo amor de deus, para de se convidar para casa alheia. — Harry ralhou com o amigo. — Você sequer o conhece!
— Posso conhecer ao ir na casa dele. — Encolheu os ombros com um olhar que dizia que ele realmente não via problema algum nisso.
— A ordem dos fatos não é essa…
— A ordem dos fatores não altera o resultado, Harold.
— Ele não vai gostar disso, pessoal. — Zayn cortou a discussão sem sentidos dos amigos. — Ele é bem reservado e vai me odiar se eu simplesmente aparecer com mais dois desconhecidos na casa dele. — Terminou de beber seu suco de laranja e se levantou. — Mas podemos marcar alguma coisa depois para apresentar vocês todos.
— Acho ótimo. — Niall sorriu largamente e logo Zayn se despediu dos amigos, informando que precisava passar no mercado, visto que prometera ao amigo comprar a sobremesa e o vinho que o acompanharia no jantar. — Achei um ar meio romântico só para um jantar… Você não?
— Eu achei também, mas quem somos nós para falarmos alguma coisa… — Harry deu de ombros e seguiu para sala logo após recolherem a louça e guardarem o que havia sobrado do lanche deles.
E de fato se sentaram diante da televisão e mais uma vez fingiram ser adolescentes sem responsabilidade alguma enquanto desperdiçavam seu tempo em meio a personagens fictícios e acumulavam pontos para conseguir vencer. Foi um final de semana um pouco atípico do que Harry estava acostumado, mas ainda assim foi confortável e divertido. Harry sentia-se leve, feliz e pronto para iniciar mais uma semana.
E se na terça a tarde seu humor já havia mudado e ele ligou para a agência em busca de Tommo, não era problema de ninguém além dele próprio.
Fale com o autor