Notas iniciais
...

Não sei se vou voltar e muito menos se quero retornar. É tanta coisa pra pensar. Se assim escolhesse, talvez até pudesse ficar. Mas não seria isso uma forma de se acovardar?

Foi assim que me criaram. Pra viajar, inovar, sempre querer voar.

Mas e se eu ache que disso vou acabar por me cansar?

A verdade, é que eu não tenho outra experiência pra comparar.

Talvez seja egoísmo, narcisismo, individualismo ou qualquer coisa que termina com ismo.

O fato é que eu já não sei mais como deveria me portar.

….

Desde muito cedo, foi quando eles começaram a se mudar, sempre comigo pelas costas. Vivi em um trailer, e então em um espaço tão pequeno que mal de casa se poderia chamar. Pelo menos ambos eram á beira do mar.

Um ano depois, porém, com um belo apartamento de luxo no meio da cidade grande eu pude minha vida contrastar.

Felizmente, não é de dinheiro que hoje eu quero desabafar.

É engraçado como o ser humano sempre busca algo concreto pra se aconchegar. Todo mundo está sempre certo. O outro é quem está errado. Honestamente, por muitas vezes a psicologia eu quero contestar.

Eles dizem que aquele que cresce um nômade, que perde amigos e ganha outros ao longo da sua jornada sem nunca por muito tempo em um lugar ficar, aprende a família á se apegar e a solitário aprender a sempre estar.

Será que vai haver alguém que eu conheça por tempo suficiente para poder confiar?

É melhor antes de tudo aprender a consigo mesmo pensar.

Talvez seja um pouco como trapacear. Conflitos que envolvem memórias, eu nunca preciso vivenciar. Problemas que eu enfrento, vão embora quando a gente retorna a se mudar. O problema é que com isso, a gente aprender á ninguém se apegar. Com o tempo, das mesmas pessoas se anojar.

Por Deus, talvez eu simplesmente não saiba mais como por muito tempo socializar.

Me disseram que eu não pareço com ninguém me importar. Respondi que simplesmente tenho problemas para demonstrar.

Mas a verdade, eu não sei. Talvez me importe, talvez não. Já se passou o tempo em que tentava os outros amar. Agora parece que se eu for me esforçar, logo o meu tempo vai acabar. Pra longe de novo vou estar.

Não faz sentido no futuro pensar. Nunca é possível planejar.

Meu pai me disse que antes dos 30 tudo que alguém na vida precisa se preocupar é viajar.

O problema é que eu tenho medo de não ter ninguém para quem retornar.

Afinal, depois de uns anos, quem ainda se importa em de mim se lembrar?

Aprendi a pensar que quem em um único lugar resolve ficar, á vida está á se acovardar. Que ás novas experiências e lugares, está a se fechar. Isso me causa medo. Se eu ficar, será que o tédio irá me dominar? Mas e se eu não ficar? Devo mesmo abandonar aquelas pessoas as quais eu talvez jamais vá reencontrar?

Amigos pendem pra mim não ir. Dizem que muita falta vão sentir. Eu também vou, na verdade. Mas tudo que posso responder é um “tá bom”.

É mentira dizer que gente igual nunca mais irá se conhecer. Lá no fundo, todo mundo é meio parecido. Lá no fundo, eu sei que posso encontrar gente pra substituir cada um. O problema é a falta de sentimentos que isso parece ter construído.

Eu também não quero me tornar um nômade incapaz de amar. Isso é algo que eu ainda quero poder experimentar.

Estranha é a sensação de nunca poder em ninguém se ancorar. Se desta pessoa eu realmente gostar, como vou poder depois dar tchau sem data pra voltar?

Maldade da minha parte, se omitir o fato de que daqui logo vou me ausentar.

Maldade da vida, por não me permitir a ninguém me apegar.

Ainda quero fazer uma viagem. Daquelas sem parada nem destino. 3, talvez até 4 anos sem rumo por aí. Quando eu me menciono isso pra alguém, me perguntam se a saudade da família e dos amigos vai me permitir. As vezes é difícil responder essa pergunta sem parecer um mero egoísta sem sentimentos para sentir.

Talvez essa seja minha sina. Talvez simplesmente as maneiras que o destino me dá pra preparar um futuro vagando e vivenciando.

Mas que droga, por que que parece tão chato não ter histórias da infância com os amigos pra contar? Por que que parece tão chato ser sempre a pessoa nova que todo mundo pensa que está aqui pra ficar?

Pra variar, passei a achar que nunca vou estar.

Estou no mesmo lugar á quase dois anos. As ruas, as pessoas, as falas... Já é tudo tão familiar. Uma pena admitir que já começo a me entediar.

Ainda digo que um dia vou parar. Um dia vou poder me assentar. Um dia vou dizer estou aqui pra ficar. Ás pessoas vou poder amar, me apegar e lutar pra conquistar.

Não me entenda como um monstro, pra mim é difícil compreender a sua própria capacidade de no seu ambiente se aconchegar. Invejo aqueles que em um único lugar possam parar.

O pior de tudo, é que da mudança eu passei a gostar.

Apesar do vazio, um lugar novo eu sempre quero almejar.

Sei que a vida passa sem que eu possa aproveitar.

Cada vez que algo novo pra mim eu assumo, espero a mudança para que isso possa tomar seu rumo.

Embora esse presente seja o futuro do meu passado, tudo que eu penso é no futuro que me aguarda.

É difícil viver o agora quando você sabe que independente do quão bom ele seja, seu fim o aguarda na próxima curva.

Pela crença dos hippies, me chamariam de brisa. Aquele que passa, esperado ou não, agradável ou não, mas que vai embora. E só é lembrado até quando o próximo chegar.

E o quão é sempre por fora estar?

Meu irmão perguntou se com ele vivendo eu quero ficar. Aqui de verdade me assentar. Poder me apegar.

Respondi que não. As vezes nos criamos para que nosso ninho seja exatamente onde nos sentimos um estranho novato fora dele.

Todos temos um lugar para finalmente parar. Eu acho que vou saber quando essa hora chegar.

Até lá, apesar de tudo, ah, como eu amo voar.

Como posso eu a oportunidade de viver em outro país negar?

Não, eu não posso me acovardar.

Notas finais
Enfim,

resultado de uma noite sabática de puro tédio, uma garrafa de kislla sob estômago vazio e um breve pensamento meio bobo sobre o quanto o nosso ambiente é importante, mesmo de um ponto de vista um pouco diferente do comum.

Gostou? Não? Pode comentar, prometo que vou escutar. (Ou ler, sei lá).

"deixai fazer, deixai passar, que o mundo caminha por si mesmo" Quesnay.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!