Vossa Alteza
2 9 de Abril de 1855
Notas iniciais
Não tive oportunidade de voltar a escrever ontem e nem devia o estar fazendo agora. Está bastante tarde, tenho um dia muito cheio que vai se iniciar cedo e pouquíssimo tempo. Mas estou sem sono, Scarlett conseguiu dormir – na verdade, fechou os olhos em uma velocidade impressionante e depois já não se mexia -, e enquanto eu mesma ia para cama meu olhar se perdeu aqui em sua escrivaninha, então peguei meu diário e uma caneta antes de mudar de ideia.
O dia em que saímos de Paris, ou melhor, de Versalhes, foi muito agitado. Lembro de ter olhado pela janela assim que larguei o diário naquela manhã e não ter visto nada de especial. Um sol tímido aparecia naquela manhã de primavera parisiense e o dia prometia ser quente. Quase me senti ruim pelo fato de não poder montar em Tempête e poder dar uma volta pelos jardins. O céu prometia ficar azul e eu sabia que as flores estariam um maravilhoso espetáculo. De todos os pontos de vista era um dia perfeito para sumir de vista e me enfiar em algum canto mais isolado, qualquer um em que houvesse uma sombra e grama, ah, e uma vista para o céu.
Mas hoje me era negado.
— Bom dia, princesa. – resmunguei enquanto me levantava. – Espiar os outros não é de bom tom.
— E o que seria de bom tom, hem, Blanka? – sua voz estava mansa por ter acabado de acordar, mas eu sentia a leve pitada de mal humor ali, um pouco da antiga criança mimada que se emburrava quando algo não ia de acordo com os desejos. – Você não veio para a cama.
— Você sobreviveu. – respondi caminhando em sua direção. Me deixei afundar no colchão macio enquanto ela passava a mão no rosto. Seu olhar se perdeu na janela, na suave manhã que se iniciava, e soltou um curto suspiro enquanto o fazia. Provavelmente havia pensado o mesmo que eu.
— Hoje tinha tudo para ser apenas mais um dia. – resmungou com a vista perdida. Brinquei com o cabo da minha espada e resisti ao impulso de encolher os ombros. Eu estava, literalmente, entrando em tudo isso de carona e, pelo visto, teria que ser eu a tomar as rédeas. Que seja.
— Sim, porém, hoje é o dia. – me levantei e me apressei em abrir as cortinas e então a grande janela do quarto, dando liberdade para a brisa fresca entrar e o perfume das flores também. – Animação, Scar, é seu último dia aqui. Último dia como princesa da França, último dia na casa de seus pais, último dia como garota. Faça valer.
— Fazer valer... – ela resmungou enquanto se sentava. – Tudo bem.
Scarlett tinha um jeito especial de lidar com coisas de que não gostava de fazer: ela erguia o queixo, aprumava os ombros e começava a falar de forma polida. Era, afinal, ela entrando em seu modo princesa, onde a vontade dela não contava e ela tinha obrigações e regras para seguir, e os fazia muito bem. Eu não gostava dessa Scarlett. Era algo falso e irritante. Mas contanto que ela saísse da cama e terminasse logo com isso eu manteria minha boca quieta.
Depois do banho e da escolha do vestido (o pareceu demorar horas para acontecer, ela queria algo jovial, algo que a realçasse e valorizasse, mas que passasse uma imagem de respeito e dignidade), descemos então para o café da manhã e eu nunca vou me cansar de observar como a família real realmente fazia um belo quadro.
A mesa onde eram feitas as refeições em épocas quentes (como agora, na primavera, e no verão), era comprida e feita de madeira nobre, bem pesada. Ficava em uma sala aberta no leste e oeste por janelas de vitrais e uma varanda de cada lado, deixando o espaço com uma luz natural e calma pela manhã. E estavam todos ali.
O rei e a rainha, apesar de envelhecidos, haviam o feito bem. O rei era um homem de cinquenta anos que tinha cabelos castanhos com entradas esbranquiçadas em um corte curto e incríveis olhos azuis. A rainha também não era nada ruim, elegante e serena, com seus olhos castanhos e cabelos negros presos firmemente em um penteado tão elaborado que eu mudava de ideia quanto a achar os penteados de Scarlett elaborados, eram até simples.
Já os príncipes... Acho que nunca comentei sobre eles. Erro meu. Darei uma pequena descrição. Eram quatro, como já disse, e não havia muitas diferenças de idade (havia um gracejo sobre “a rainha dá um filho por ano e uma filha em doze meses”), mas todos de certo diferentes entres si.
Havia Elliot, o anterior a Scarlett. Era um rapaz de vinte e três anos, quase vinte e quatro, e na verdade não queria nada da vida a não ser frequentar cama de mulheres quase aleatórias e se divertir com os amigos. Ele estava noivo da princesa da Hungria, mas quem se importa? Sua noiva era uma menina de doze ou treze anos, se não me engano, e ele definitivamente não a esperaria. Era bem bonito com seus olhos castanhos mais claros que os da mãe e o cabelo castanho do pai. Também se parecia muito com ele, todos diziam, na juventude. Elliot era engraçado, levava a vida de forma leve e não era uma pessoa para se contar em uma crise, mas se quisesse uma bela noitada não havia escolha mais sábia. Eu mesma já sai com ele algumas vezes e cada uma voltei com histórias memoráveis. Elliot era isso: garantia de bons momentos.
Então havia Jules, e, aliás, não me lembro muita coisa dele. Era sempre um rapaz quieto e responsável, que fazia o que os pais mandavam e, na maioria das vezes, levava a culpa das brincadeiras dos irmãos. Não podia falar muito dele pois, assim que completou quinze anos, decidiu que não queria mais morar na França. Sua alma pedia por aventuras, historias, novos conhecimentos, então subiu em um navio e foi-se para não sei onde. Estudou um pouco em cada lugar e havia voltado a pouco tempo atrás, na verdade, quando Scarlett terminou seus próprios estudos, já um rapaz de vinte e quatro anos e vem estado aqui desde então.
Havia algo em Jules que me incomodava e não era o fato de que, para alguém que aparecia apenas por algumas noites por ano, repentinamente decidir voltar para casa a um ano atrás, era no mínimo fora do comum, mas sim porque talvez ele sempre havia sido isolado e taciturno. Muito educado, muito gentil, mas com algo de ruim nos olhos. Cresci nas ruas, cresci aprendendo a reconhecer perigo e ameaças, e, toda vez que olhava para o príncipe, um antigo alarme disparava no fundo de mim. Tinha cabelos negros longos e olhos verdes, puxados da bisavó da rainha, pelo que sei.
Já Filip, o segundo mais velho, era o melhor em comédia na minha opinião. Não que ele contasse piadas bem, ou qualquer coisa do tipo, mas era engraçado o jeito como ele morria de medo de mim. Quando cheguei na casa, todos ficaram desconfiados e com o pé atrás, é claro. Alguns até com um verdadeiro medo, ainda mais depois do evento do garoto da estrebaria. Mas Filip deve me ter elevado ao princípio de seu bicho papão. Era um rapaz de doze anos quando cheguei no castelo, e por meses ele se escondia de mim. Não falava comigo, dava meia volta quando me via no corredor e, quando tinha que me dizer algo, sua cabeça ficava tão baixa e seu rosto tão lívido que eu tinha receio que caísse duro no chão.
Posso ter achado isso graça e posso ter o infernizado um pouco, apenas para me divertir, mas juro que não fui muito má. No final e com o tempo, ele foi perdendo o medo e conseguia manter conversas cada vez mais longas comigo, de modo que foi um dos primeiros a perceber que, afinal, eu não era tão ruim assim. Era inteligente e gostava mais de ler do que de ar livre, sendo uma fonte incrível de conhecimento. Outro gracejo, até mesmo iniciado por mim, era “transformem a biblioteca em algo mais útil, temos o Filip”. Já sua aparência havia puxado os cabelos castanhos do pai, porém em um tom mais suave, quase loiro, e os olhos de um tom também distorcido dos da mãe: os da rainha eram bem escuros, Filip tinha os dele claros como folha seca.
Era o único que já estava casado (e muito feliz, se podem acreditar) e vivia na expectativa de um filho. Tinha apenas vinte e seis anos e ainda não me olhava nos olhos (não por mais um segundo, ao menos), apesar de ser um bom amigo.
E finalmente (e talvez estivesse usando essa palavra por estar particularmente ansiosa para chegar nele), havia o mais velho. Jean-Paul, ou apenas Jean, era o príncipe herdeiro. Além de Scar, foi o único a puxar os olhos azuis impactantes do pai, fazendo um belíssimo contraste com os cabelos negros herdados da mãe. Tinha vinte e sete anos e foi o primeiro a me estender a mão.
Jean sempre foi diferente. Com apenas treze anos quando o conheci, ele já era um pequeno adulto. Para ele, ele já tinha treze anos. Estava em pleno treinamento para se tornar rei e tinha total consciência de sua carga. Sempre foi responsável e maduro, centrado e disciplinado, além de gentil e de coração aberto. Nós tornamos amigos em questão de semanas e eu me sentia feliz pois alguém, que não a princesa, conseguia me olhar nos olhos, e não me tratava como um monstro, ou como se eu estar ali fosse um enorme erro. Em pouco tempo nos tornamos melhores amigos.
Era comum eu estar sempre dividida: se não estava sendo a sombra de Scarlett, estava, com certeza, na companhia de Jean. Scarlett, que sempre foi extremamente ciumenta (ela estava falando sério no quarto, quando disse que eu agora era dela), não via problemas em me dividir com ele. Talvez porque, dentro todos os irmãos, fosse com ele com quem se dava melhor, também. Eram muitos parecidos em vários aspectos além da cor dos olhos e era engraçado reparar. Diziam que se a princesa houvesse tido o desprazer de nascer morena (desprazer, pois ela amava, se orgulhava e adorava seus cabelos ruivos), ela poderia ser gêmea de seu irmão mais velho, tanto na aparência como personalidade.
Quando ele fez quinze anos e se enfiou entre as pernas de uma mulher pela primeira vez, foi para mim que contou, com riquezas de detalhes. Eu tinha dez anos e rimos tanto, e ele estava todo orgulhoso de si mesmo, chegamos até a brincar de beber em seu quarto. Foi a primeira vez que virei uísque na minha garganta e descobri que adorava. Com Jean, não fazia a mínima diferença se eu não tinha nada que balançasse entre as pernas. Nunca teve e nunca terá. Ele conversava comigo como se eu fosse um homem, sobre assuntos que até mesmo Scarlett deixava o queixo cair com a riqueza de detalhes e o gosto ao se conversar. Eu sabia de todas as garotinhas que ele comia (que, depois da primeira, foram inúmeras, Jean era voraz) em todos os detalhes mórbidos.
Eu sabia que os seios dela eram caídos, ou realmente duros. Se ela rebolava bem, se chupava com gosto, se babava, se gemia baixo ou alto, como uma cadela no cio ou era mais contida. Se era atrevida na cama, ou se deixava guiar. Todos, todos os detalhes viam para meu conhecimento. E não entenda errado, eu não sentia o menor ciúmes. Jean era Jean. Era meu melhor amigo. Sempre íamos por terra em lutas, e vivíamos com vários tipos de jogos como dardos e xadrez, qualquer coisa que envolvesse uma competição saudável e terminasse com um de nós se gabando perante o outro.
E foi em no final de uma dessas competições saudáveis que adicionamos, finalmente, o sexo na nossa relação.
Eu já tinha catorze anos e já havia começado a me sentir “diferente”. Garotos ainda eram criaturas de dar pena e dignos do meu mais alto desdém, mas agora também tinham muito atrativos. Jean, no auge dos seus dezenove, era decididamente o único garoto que além se referência no meu quesito “beleza”, não era digno de pena e nem merecedor de desdém. Eu já havia beijado antes, e até mesmo sentido mãos correndo pelo meu corpo. Mas ainda era virgem. Não que isso significasse grande coisa para mim. Odiava como os nobres davam tanto significado para uma coisa tão pequena. Cresci no meio de putas, sexo para mim era algo rotineiro e casual. Nobres tornavam isso tão ruim. Anos e anos de cortejo, ou você pode ser um libertino e desvirtuar as jovenzinhas na calada da noite, como Jean. Eu ria dele, pois na corte tinha que se esconder. Se fosse um plebeu, poderia comer quem quisesse e quando quisesse.
Nós, meros mortais que não pertencemos a realeza, a nobreza, a qualquer coisa. Nós, que não temos títulos ou reputação. Nós, que sobrevivemos, temos que agradecer a qualquer coisa por aí por isso. Pelo menos, para nós, sexo era algo que envolvia apenas duas pessoas e um desejo. Não duas pessoas, talvez um desejo, muitos planos mirabolantes para não serem pegos, colocar a vida em perigo...
De qualquer forma, o fato de eu ter catorze anos e ainda ser virgem não significava que eu estava esperando meu amor, ou que eu estava me guardando para meu marido (acabei de borrar um pouco a folha depois de soltar uma risada, minha reação natural ao haver a minha pessoa e a palavra marido na mesma frase, Scarlett não acordou), simplesmente significava que ainda não havia tido vontade e nem oportunidade.
Até aquele momento.
Foi no final de um jogo de dardos. Eu havia ganhado. Eu estava me gabando. Jean estava irritado e mal-humorado. Ele sempre detestou perder. Eu continuei rindo e o irritando, pelo simples fato de que podia. Ele me mandou calar a boca. Eu o irritei ainda mais. E me beijou.
Acho que não havia pensado muito bem na hora. Acho que ele já queria fazer isso a muito tempo. Acho que, simplesmente, mandou tudo para o inferno. Mas estávamos na parede do salão de jogos e o que começou com sua boca grudada na minha se tornou algo muito mais carnal quando (até hoje não sei direito como), fui parar com as pernas enlaçadas em sua cintura, suas mãos fortes apertando meus quadris e as minhas afundadas em seu cabelo negro.
Fomos para seu quarto. Não havia o que falar. Não houve perguntas. Ele tirava minhas roupas e eu as dele, estávamos com o coração disparado e respirações descompassadas. Ele queria que eu abrisse as pernas, eu queria abrir, era um cálculo simples. Eu não era nenhuma criança, nem de corpo e nunca havia sido por dentro. Sempre aparentei ser mais velha do que era, meu corpo havia dado sinais de desenvolvimento cedo e continuado, enquanto se mantinha forte e definido pelas aulas de luta. Eu bem sabia, antes mesmo de Jean abrir minha blusa naquele dia, que era desejável. Os olhares que se arrastavam quando eu passava, de homens velhos ou jovens, me eram dicas o suficiente. Então não me arrependo nem um pouco.
Foi espontâneo e impulsivo, mas mesmo que houvesse passado meses pensando no assunto, ainda seria Jean. Ele era meu melhor amigo e era de confiança. Eu não estava preocupada com quando seria minha primeira vez, mas era digna de analise com quem. Afinal, as putas contavam casos horríveis de clientes péssimos de cama. Virgem ou não, um homem que soubesse o que estava fazendo era essencial. E não tive esse problema com ele. Jean-Paul sabia muito bem o que estava fazendo.
Mantemos nosso caso desde então. Oh, ele ainda sai por aí se divertindo, e ainda me conta todos os detalhes. Eu também me divirto por aí, e chega a vez dele de ouvir tudo. Então rimos, comparamos e rimos mais um pouco. O bom disso tudo era o equilíbrio que encontramos. Não era apenas sexo, e também não era apenas bons amigos. Transávamos, e então conversávamos sobre tudo enquanto a fumaça do cigarro saia de nossas bocas: política, religião, filosofia, a França, nossas vidas, nossos sonhos. Nunca havia um assunto proibido, ou algo que não merecesse comentários. Mesmo no silencio, enquanto ele corria os dedos distraidamente por qualquer cicatriz minha que aparecesse, conseguíamos conversar.
E ninguém sabia. Apenas Scarlett, pois não há nada da minha vida que ela não saiba, assim como não há nada da vida dela que não seja do meu conhecimento (uma troca justa), e, talvez, Elliot. Mas era apenas uma suposição. Depois que ele tentou me beijar e acarretou uma briga com Jean quando eu tinha por volta dos dezesseis anos, ele passou um tempo nos olhando torto, com sorrisinhos. Mas nunca disse nada.
Scarlett andava à minha frente, muito bonita com seu vestido vermelho escuro, quase bordô, o cabelo solto pelas costas (coisa que ainda lhe era permitido, apesar da rainha lhe lançar olhares reprovadores) e o rosto limpo de maquiagens. Seu cabelo ainda estava um pouco úmido do banho, e seu humor havia melhorado.
Eu ainda estava enfiada em uma calça de couro, um corpete negro e meu inseparável casaco pesado de couro. Era impressionante como a luz do sol me irritava. Mesmo ali, na luz suave da manhã que entrava delicadamente pelas janelas e vitrais, eu sentia meus olhos doerem e minha pele protestar um pouco.
Como de costume, tive a enormíssima honra de me sentar com a família real, e, apenas hoje, não a recusei. Eu não me sentia inferior a eles, nunca me senti e nunca me sentiria. Ainda eram pessoas morando em casas grandes que tinham gente demais prontas para atender os desejos. Mas não me sentia confortável. Eu podia ficar em um canto da sala, observando e esperando Scarlett terminar, ou até mesmo buscar alguma coisa nas cozinhas. Mas, no geral, eu comia sozinha ou com os outros meros mortais. Porém, apenas hoje, no meu último dia, me permiti sentar entre Scarlett e Elliot.
— Bom dia papai, mamãe. – ela cumprimentou em um sorriso enquanto eu puxava sua cadeira para se sentar. Ninguém fez nenhum comentário ou objeção. Todos já sabiam que era eu quem fazia essas coisas para ela. – Garotos.
O rei e a rainha sorriram, ambos muito orgulhosos, embora eu pudesse perceber a vaga tristeza por sua única filha estar indo para longe, os príncipes sorriram: Elliot fez um comentário malicioso (na verdade, apenas deu bom-dia, que ele conseguiu se parecer malicioso), Jules assentiu em reconhecimento, Filip sorriu em um bom-dia e Jean foi o único que se deu o trabalho de formar uma verdadeira frase.
— Bom dia, irmãzinha. – e sorriu para ele, que sorriu de volta. Então seus olhos buscaram os meus e trocamos um breve e curto sorriso, nosso cumprimento costumeiro. Não disse bom dia, e, também, ninguém os dirigiu diretamente para mim. Eu fui as aulas de etiquetas, mas não quer dizer que eu as usava. Ninguém mais se ressentia ou se resguardava de meus modos. Eu apenas era assim. Blanka não é um poço de educação e simpatia, todos sabem disso.
Tudo que comi foram torradas e um pouco de café, nunca me sentia particularmente faminta pela manhã. Ao contrário de Scarlett que sempre me parecia acordar como se tivesse estado na guerra na noite anterior. Acredito, e talvez seja digno de nota, que minha criação nas ruas e o fato que vivi cerca de quase dez anos passando fome foram uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que eu dava valor em demasia para a comida a minha frente (nunca, em hipótese alguma, pense em desperdiçar comida na minha frente, o ultimo que fez isso assegurei que não voltasse a comer outra vez), eu também nunca me servia muito, sempre comi pouco. Talvez o hábito de não ter o que comer.
— Scarlett – a rainha chamou, ganhando a atenção da filha que estava concentrada em beber um pouco de chá. – Quando terminar, gostaria de passar um tempo com você. Suas coisas já estão arrumadas?
— Sim, mamãe.
— Ótimo. Então poderemos ter tempo.
Maldito tempo. Não consegui evitar olhar pela janela, e nem em torcer os lábios pela claridade do lado de fora. Seria incomodo sair. Eu ainda estava olhando para fora, já tendo terminado de comer, quando senti a princesa se inclinar e quase grudar os lábios em minha orelha.
— Irei passar um tempo com minha mãe, o que pode levar o dia inteiro. – sussurrou. – Aproveite e também se despeça. Não se preocupe comigo, vou sobreviver. – seu tom de voz era malicioso e, quando se afastou, o canto dos seus lábios exibiam um sorriso bem parecido com o de Elliot. Não sorri, não a olhei, continuei olhando para frente por mais que eu quisesse olhar em olhos azuis: de uma ruiva, ou de um moreno.
No geral, eu nunca saia de perto de Scarlett. Por mais que a atividade que estivesse exercendo fosse monótona ou incomoda, eu definitivamente estava com ela. Seja andar pelos jardins em um dia de particular Sol (coisa rara, eu tinha uma amiga atenciosa que sabia de meus infortúnios e os evitava também), seja passar duas horas em uma audiência, seja se reunir em uma mesa para fofocas, chás e biscoitos, seja ir às compras.
Mas em alguns dias, como esse, em ocasiões especiais, me era permitido me afastar por um tempo. Ela estaria com a mãe o dia inteiro, e, se estivesse com a mãe, estaria com dez guardas atrás dela. Nenhum deles era melhor do que eu, mas eram melhores do que nada. Eu estava dispensada. Me servi de mais um pouco de café para esperar o momento de sair.
Estava uma bela manhã de primavera.
i
Tudo que aconteceu depois daquilo é demais para tentar colocar em um pedaço de papel em tão pouco tempo. Talvez algum dia, um que eu não esteja vendo o dia amanhecer e lamentando internamente minha falta de sono, eu o faça. Mas hoje? Hoje digo que tudo que aconteceu foi que fui me despedir propriamente de Jean-Paul.
Transamos.
Eu podia avistar o céu por entre as cortinas parcialmente fechadas de sua janela. O dia já havia avançado muito e, se eu tivesse de apostar, diria que já eram meio dia, ou por volta disso. Eu estava nua na cama excepcionalmente macia de Jean e ele estava entre as minhas pernas, se divertindo ao fazer o contorno das minhas cicatrizes nas coxas.
— Onde ganhou essa mesmo? – perguntou ao traçar um risco alto e curto, do tamanho de um polegar, que ficava logo acima do meu joelho. Desviei os olhos da janela e consegui me focar nos dele enquanto deixava a fumaça do cigarro sair de meus pulmões pelo nariz.
— Briga de rua, sete anos. – nossos olhos se encontraram. — Na verdade, foi isso que começou a briga. Um idiota me empurrou no meio do lixo e tinha uma garrafa quebrada.
— E você venceu?
— Eu sempre venço, Jean.
— Não comigo, quem vence sou eu.
— Menos em dardos.
— Vai a merda, Blanka.
Soltei uma risada com aquilo enquanto o observava voltar a se concentrar. Eu não disse que ele odiava perder? Sete anos depois e ele ainda fica puto quando o lembro de sua derrota, que acarretou o acontecimento que fez o momento presente ser possível. Continuei o olhando, tentando não ser sentimental, mas disposta a guardar cada detalhe.
Eu não sabia quando o veria de novo. Ele ainda era o príncipe herdeiro, e estava cada vez mais se tornando o rei não oficial. Na verdade, já era. Todos sabiam que a maioria das decisões agora eram tomadas por Jean, os decretos, planejamentos, tudo. O rei apenas aparecia, logo atrás do filho, dando um conselho ou outro, guiando uma coisa ou outra. A cada dia mais o rei sumia e era o príncipe que assumia o país.
A Inglaterra não ficava longe da França. Duas horas de barco, pelo que me recordo de ouvir. Mas ele não poderia simplesmente acordar um belo dia, subir a bordo e ir tomar chá no Palácio de Buckingham. Assim como eu não poderia voltar para França quando me desse na telha.
Sempre fomos de mundo diferentes, mas até aquele momento sempre conseguimos enganar a nós mesmos. Agora, era hora de seguirmos em frente. Cada um em uma única direção. De qualquer modo, eu queria me lembrar e eu iria. De seus braços fortes, sua barriga trincada, suas próprias cicatrizes. Até mesmo seu sorriso sempre gentil e por vezes o mais cafajeste que já vi. Principalmente de seus olhos. Olhos azuis, tão azuis como o céu em dia em que eu morreria pelo Sol.
— E essa? – ele me interrompeu, tinha subido suas mãos e agora afagava um corte quase no quadril, na parte de trás de minha coxa. Ele segurava com força demais para ser algo inocente, e também estava debruçado demais sobre mim.
— Treinamento. Quando fui para trás Elliot me acertou com a ponta da espada.
— Ah, é verdade. Tenho suspeitas de que foi proposital.
— Foi proposital, Jean. E eu me vinguei. – dei um sorrisinho. – Ele teve que ficar um tempo de cama depois desse dia, lembra?
— Ah, eu sabia que ele não tinha caído do cavalo e sigo arrastado por três milhas. Porque não me disse que era você na época?
— Estou dizendo agora.
— Engraçadinha. – ele, finalmente, se cansou de se divertir com minhas marcas e ficou parado entre as minhas pernas, cada mão sua em uma coxa minha, enquanto ele se debruçava e colava os lábios nos meus. O beijo do príncipe era forte e intenso, me levando para um mundo mais calmo e bom, onde nós podíamos ficar um com o outro o dia inteiro, não havia mais nada para se fazer no mundo.
Mas não era verdade.
Eu senti isso enquanto o beijava, e sabia que ele sentiu também. Quando nossos lábios se afastaram e ele ficou me encarando nos olhos, controlei a minha língua para não soltar nada que arruinasse aquilo. Eu não queria aquilo. Aquele ar de despedida, de última vez. Mas assim como me perdi nele a pouco tempo atrás, ele tinha o direito de se perder em mim. Não negaria isso a ele. Não, não a Jean.
— Tenho algo para te dar. – murmurou antes de se afastar de novo. Observei ele atravessar o quarto em toda sua gloria e pegar algo do bolso de um casaco. Deu meia volta e voltou para cama, se sentando de pernas cruzadas e não ligando nem um pouco para o decoro. Bom, eu também estava como no dia em que vim ao mundo, sem nada me cobrindo, então estávamos no mesmo nível.
Sem dizer nada ele pegou minha mão e me fez abrir, antes de colocar um anel na minha palma. Eu demorei um pouco para entender o que era aquele anel, e o que ele significava. Era um anel que eu já havia visto, algumas vezes, e eu nunca, jamais, imaginei que estaria na minha mão.
Era um anel de ouro branco, muito opulento e ostensivo, mas que carregava certa delicadeza. Era trançado e incrustado, fazendo-o brilhar aqui e ali, de diamantes pequeninos. Ornamentando por uma granada magnifica, firmada no lugar pelo que parecia ser prata derretida. Era lindo, completamente lindo.
E eu senti meu estômago afundar.
— Jean...
— Nem pense nisso, Blanka. É seu. Não aceito de volta.
— Não faça brincadeiras! Isso, isso é...
— O anel de noivado da minha mãe, que eu devia dar somente a mulher que ficaria para sempre do meu lado, a próxima rainha da França.
— Perdi alguma parte da história? – minha garganta estava seca enquanto olhava para a joia. Não. Jean não podia estar fazendo isso. Depois de todos esses anos, achei que ele me conhecesse...
— Não, não perdeu. – ele levou os dedos até meu queixo e me obrigou a olhá-lo nos olhos. – Amo-te, Blanka. E sabe disso. Também sei que você me ama. Mas não fomos feitos para ficar juntos, e nós dois sabemos disso. Eu poderia te fazer rainha, poderia lutar e, no fim, de ter ao meu lado. Mas sei que te veria infeliz a cada dia de sua vida. Você não nasceu para viver em um Palácio, andando sempre um passo atrás de mim, seguindo todo o protocolo e tendo o cotidiano de uma rainha. Não consigo te imaginar em um vestido, dando ordens e posando para fotos ao meu lado. E é uma das coisas que eu amo em você.
— Jean, eu... – eu juro que tentei falar alguma coisa, argumentar com aquele louco. Mas não havia nada para se falar. Era a mais pura verdade. Eu nunca me tornaria rainha, eu nunca me tornaria uma nobre. E não porque não posso, mas porque não quero. Eu poderia me casar com Jean, eu poderia pedir uma pequena fortuna para a princesa e deixar de prestar “meus serviços”. Mas não queria.
Eu nasci para a aventura. Nasci para correr, para brigar e para lutar, nasci para a espada. Nasci para salvar Scarlett de suas próprias aventuras, nasci para rolar na grama, usar calças e dar graças a qualquer coisa que estivesse lá em cima que eu não nasci em berço de ouro.
Eu não era uma nobre, ou uma princesa, ou uma rainha.
Eu não era nem ao menos uma senhora, ou senhorita.
Eu era Blanka. Só Blanka.
A aberração da Rue de Demes.
O Fantasma da França.
E Jean sabia disso, e eu sabia disso, e não poderíamos ficar juntos. Pois ele tinha que ser leal ao seu povo, e eu tinha que ser leal a mim mesma.
— Mas um dia, eventualmente, irei me casar. E quando esse dia chegar, Blanka, quando essa notícia chegar em você através do oceano, quero esteja com esse anel e quero que olhe para ele. Quero que saiba que eu estou casado, e que a França tem uma rainha. Mas a mulher que eu escolhi, a que tem meu coração e é a única rainha que vejo, está do outro lado do mar dando chutes em traseiros ingleses.
Me lembro de ter ficado em silencio, e de ter aceitado o maldito anel. Nos beijamos depois disso, e ele me teve mais uma vez. Agora estou segurando-o através do tecido. Ele está pendurado por uma corrente fina em meu pescoço e é aqui e vai ficar.
Apenas gostaria de lembra-lo que não sou nenhuma rainha.
Sou apenas um fantasma.
ii
Scarlett não disse uma palavra desde que entrou na carruagem depois de desembarcar no porto inglês. Se sentou na janela e lá ficou, olhando para fora com um olhar perdido. Também não falei nada, respeitando sua súbita atitude de reflexão.
Me contentei em ficar em silencio, também, enquanto observava a cidade. Era bem diferente de Versalhes, e mais parecida com Paris. Era cinza, mórbida e sóbria, como as pessoas que via pelo caminho. As mulheres usavam roupas bastante claras (o que me fez olhar para o lindo bordô que Scar estava usando), e todas seguiam um padrão: os cabelos de todas eram cacheados, e algumas andavam com ombros curvados, como se quisesse que parecessem caídos. Já os homens, em sua maioria, eram ou tentavam ser um só: peito e ombros estufados, cintura minúscula, as roupas de cores fechadas e sérias, nada de acessórios pelo que pude reparar.
Finalmente entendi porque a maioria dos ingleses que aportavam em Paris realmente não sentiam muita falta da pátria.
Mesmo assim, desde o porto, era possível ver os rostos ansiosos. Já se fazia uma fila na rua, seguindo pela cidade até o palácio. Era possível ver as fileiras de homens e mulheres, crianças e idosos, se aglomerando ao criar um caminho para a futura rainha. Eles seguiam a carruagem com olhares curiosos e cochichos, o que me fez ficar tensa. Odiava olhares curiosos e cochichos.
Quando finalmente chegamos as portas do palácio (uma estrutura colossal e surpreendente, devo admitir, mas nem aos pés de Versalhes), eu imaginei que o rei e a mãe, antiga rainha, eram os centralizados na porta, aguardando rodeado de guardas.
Não me decepcionei.
Assim que a carruagem parou, Scarlett tomou fôlego, ergueu a cabeça e empinou o nariz, dando seu melhor sorriso. Tive vontade de perguntar para ela porque estava sorrindo, mas me controlei. Não era hora de piadinhas. Algum lacaio inglês abriu a porta da carruagem e eu, que não tinha berço algum e era acompanhante ali, fui a primeira a descer. Esperei do lado de fora com minha mão estendida para ela sair, o que ela fez. Segurou minha mão e segurou na barra do seu vestido, ainda sorrindo, e enfim se mostrou para o povo inglês.
Todos os olhos estavam sobre ela, a nova rainha.
E ela fazia questão de causar uma boa impressão.
Corri os olhos pelas pessoas mais uma vez e me impressionei. Toda a Inglaterra estava ali, era o que parecia. Mas eu sabia que era apenas os habitantes de Londres. Tanto a plebe como a nobreza estavam prostradas, esperando. Senti mil olhos curiosos e avaliativos sobre nós duas e tive que me controlar para não rir ou fazer alguma gracinha pela atenção e pelas reações distintas. Enquanto me olhavam eu podia sentir, e ouvir, sua surpresa e até mesmo seu medo. Me analisavam, tentando decidir se deviam ou não me temer. Surravam e apontavam olhando para mim, os olhos curiosos e quase amedrontados.
É claro que eles tinham ouvido falar de mim. Fantasma da França. E, mesmo quem não ouviu, estava me vendo agora. E me ver já era um grande motivo para um passo para trás. Nunca tinham visto alguém como eu. Eu era a única da França, e seria da Inglaterra também. E eles estavam tentando decidir se confiavam em mim ou não. Me satisfiz por dentro pensando que sim, eles até poderiam confiar em mim. Mas eu ainda demonstraria, mais cedo ou mais tarde, que não seria amiga de ninguém e que o medo é a única coisa para se sentir por mim.
Já Scarlett, por outro lado... Deu um passo à frente, confiante. Percebeu a comoção por minha causa e pelo seu olhar sabia que queria me dizer alguma coisa, mas seguiu o protocolo e não se virou. Ela tentava ao mesmo tempo se mostrar tímida e curiosa e, admito, estava conseguindo. Com seu sorriso perfeito e olhos brilhantes, meio baixos, ela aguentava os olhares sobre si com extrema naturalidade.
Quase revirei os olhos quando a multidão explodiu em animação.
A plebe sorria e acenava, animada em conhecer a nova rainha. Queriam ser vistos, queriam que ela olhasse para eles. Afinal, era a mulher que veio do outro lado do mar para os governar. A nobreza já se controlava, fincava os olhos em Scarlett e eu finquei os meus neles. Meus anos em Versalhes foram ótimos. A família real foi muito boa comigo, de um modo geral, e todos se davam bem, de um modo geral. Mas a corte...
Nunca confie na corte. Nunca.
Eu não confiava na de Paris, e não confiaria na de Londres. Seus sorrisos meio forçados e olhos afiados estavam cravados na minha princesa. Ela era uma estrangeira, ela tinha roubado o príncipe delas, nobres e damas inglesas. Alguns, realmente, pareciam meramente curiosos. Mas outra parte me fez ter vontade de pegar minhas espadas.
Ignorando isso, Scar avançou. Com os olhares fascinados, curiosos e avaliativos sobre si. Sorria para as pessoas, tentava ser gentil. A rainha viúva e o rei estavam logo ali, olhando-a também. Eles a aprovavam com o olhar, e até se fascinavam, enquanto me olhavam com certo temor. O leve movimento na mandíbula dela me mostrou que também percebeu, e se segurava para não rir.
Sim, isso iria ser extremamente engraçado.
Mas era fácil ver, ao menos para mim que a conhecia tão bem, ver o quanto ela estava nervosa. Claro, como a boa nobre que era, não havia nada em sua postura que demonstrasse isso. Seu andar era calmo, a cabeça erguida e a postura relaxada. Mas eu sabia, mais como uma sensação própria, que ela estava nervosa e se esforçando para não errar. Tive vontade de tirar sarro com a cara dela, sempre tão confiante, agora tensa. Mas eu sabia que ela tinha todo o direito do mundo de estar dessa forma.
Scarlett atravessou o mar para conhecer o homem com quem iria se casar. Um completo desconhecido, de que ela não sabia nada além do nome, da reputação e de que era rei. Estava sendo avaliada por milhares de pessoas e aqui, agora, ela não podia falhar. Passou a vida inteira se preparando para isso e agora era seu teste final. Ou passava ou era melhor nem pensar em alternativas. Também, pela primeira vez, estava longe de seus pais. Em fato, era bem possível que nunca mais fosse vê-los ou que, na melhor das hipóteses, se demorasse anos para acontecer. O rei e a rainha já não eram jovens. E para completar ela estava em um país estrangeiro, onde não conhecia nada e nem ninguém. Onde toda a corte provavelmente a queria ver pelas costas.
Por isso eu a admirava. E talvez fosse a única pessoa do mundo (tudo bem, existe Jean, mas está em segundo lugar) que tinha minha admiração. Scar era forte. Ela não vacilava ou corria, mesmo que quisesse. Foi criada para ser rainha, e rainhas não podem sentar e chorar. Rainhas fazem o que for preciso, rainhas seguem em frente.
E foi isso que ela fez até parar perto da rainha viúva, Margareth.
O rei James morrera no ano passado, o que fazia esse ano o segundo de sua morte. E segundo as regras estranhas da Inglaterra, a rainha ainda estava de luto por ele. Já descobri que são duas fases de luto, ao menos para os maridos. O luto fechado e o luto ordinário. A rainha já estava na segunda fase, que era consideravelmente mais relaxada que a primeira, e mesmo assim quase tive pena dela. Seu vestido era completamente negro e pesado, com apenas um brilho branco nos punhos. Não usava chapéu e um véu negro feito de tule estava caído em seu ombro. Usava um leque, mas estava fechado, e joias feitas de jet, uma pedra completamente negra.
Ela estava no luto ordinário, e assim teria de ficar pelo resto de sua vida, uma vez que já não era uma jovem. Mas ainda era muito bonita. Tinha os cabelos presos em um penteado perfeito e elaborado, e eles tinham a cor de chocolate. Seus olhos eram de mel e, apesar da morte em suas roupas, ela sorria fácil. A rainha viúva deu um passo à frente, enquanto a futura rainha permaneceu a olhando. Quase lhe dei um cutucão por isso. Que feio encarar a mulher dessa forma. Margareth estendeu as mãos e pegou as de Scar. Acho que isso quebrava algumas regras de protocolo, mas ela não pareceu se importar. E ainda era a rainha.
— Querida! Estávamos tão ansiosos para sua chegada! – em um movimento automático, arrumou uma mecha ruiva fujona para trás da orelha. – O retrato que seu pai nos mandou não lhe faz justiça. Você é muito mais bonita pessoalmente.
Scarlett sorriu.
— Obrigada, majestade. Mas sei que minha beleza jamais chegará aos pés da sua. – e abaixou o olhar. Mesmo, Scar? Mesmo, mesmo? Já está bajulando a velha rainha?
— E também é gentil! – com um sorriso a mais, ela soltou as mãos da minha princesa. – Meu filho, venha. Deve conhecer sua noiva.
E, finalmente, o momento que todos esperavam. Rei Henry parou em frente a Princesa Scarlett, em breve, Rainha.
Mesmo eu, que julgava a todos os homens, tinha que admitir que ele possuía beleza. Não se parecia em nada com um rei, na verdade. Não era como Jean, que irradiava soberania, que agia, respirava e pensava como um rei. Apesar de ainda ser jovem e musculoso, tal como os príncipes e herdeiros com quem estou acostumada, ele tinha muito mais pinta de garotão do que de um governante. Para mim, ele era mais Elliot do que Jean-Paul, e não se se isso é boa coisa. Mesmo assim, era bonito. Os olhos de um verde profundo, provavelmente herdados do pai, e o cabelo de um tom loiro dourado, também do pai. Já o sorriso era a cópia fiel do da mãe. Doce e gentil.
Sabendo que toda cidade os observava, Scarlett abaixou os olhos e o rei pegou sua mão, a beijando.
— Vossa alteza. – disse suavemente, os olhos grudados nos dela, que sorriu em resposta e fez uma reverencia.
— Vossa majestade. É um prazer conhece-lo.
— Ah, não, acredite. O prazer é todo meu. – ele ainda sorria enquanto soltava sua mão delicadamente, e então, enfim, seu olhar pousou em mim. Vi a confusão e o receio em seus belíssimos olhos verdes.
— E quem é aquela?
— A minha dama de companhia. – Scar respondeu com a maior calma do mundo. A rainha voltou para o lado do filho, os lábios comprimidos enquanto também me observava. A gentil rainha não me aprovava, maravilha. A da França também não gostava muito de mim.
— Mas ela usa roupas de homem!
— Eu sei, majestade. Mas é uma amiga por quem tenho grande estima e que já salvou minha vida mais vezes do que seria capaz de contar. Peço que a recebam do mesmo modo como estão fazendo comigo. – a gentil rainha e seu doce filho trocaram um olhar. Por fim, ela aquiesceu e voltou a sorrir.
— É claro, querida. Não me surpreende que você queira trazer alguém de sua própria casa consigo. Eu fiz a mesma coisa.
A palhaçada havia acabado e, enfim, estávamos entrando no castelo. O rei um passo à frente, Margareth e Scarlett um passo atrás, lado a lado. Nosso cortejo era composto de nobres e guardas, e na mesma hora fiz questão de desaparecer. Me juntei em alguma sombra, calei meus passos e silenciei meu coração. Me senti em casa quando desapareci. Lá estava eu, invisível de novo. Algumas cabeças se viraram para me procurar, e ficaram confusas quando não me viram. É claro que não me viram. Eu sou um Fantasma. O Fantasma da França.
Agora da Inglaterra.
— Majestade não era daqui? – Scarlett continuou como se nada houvesse acontecido, e, de fato, nem a rainha nem o rei pareceram notar alguma coisa.
— Não querida, eu vim da Dinamarca. Me tornei inglesa e membro da casa Lancaster por casamento. – respondeu.
— Eu jamais desconfiaria disso, majestade. – e eu conhecia aquele brilho nos olhos dela. Era esperança, era objetividade. A rainha era como ela: uma estrangeira que, pelo visto, conseguiu cair nas graças do povo inglês. Algo me dizia que minha princesa ia se tornar muito próxima da antiga rainha. Observei quando chegamos a antessala e todos os criados estavam à espera. Scarlett lhes deu um sorriso gentil, mas manteve a cabeça erguida.
Eles não são únicos, e não merecem sua atenção e gentileza especial, eu pensava. Não que Scarlett fosse má e detestável. Havia muito, muito piores do que ela. Mas nunca vi ela estender a mão para nenhum ser de classe inferior a ela. Podia não pisar, mas não ajudava a se levantar. E, às vezes, me perguntava se ela teria me ajudado se eu não tivesse minha maldita aparência.
— Minha mãe é uma perfeita inglesa, não acha, alteza? – o rei voltou a falar, ganhando um aceno de cabeça.
— Eu concordo, majestade. Eu jamais imaginaria o contrário. – Scarlett falou enquanto juntava as mãos. – Espero conseguir me tornar tão inglesa quanto a senhora, majestade.
A rainha sorriu.
— Você é adorável. – respondeu. – Mas não queremos que fique totalmente inglesa. Eu gosto do seu sotaque francês.
Isso arrancou uma risada baixa da futura rainha.
— Merci. – brincou, fazendo a rainha rir também.
— Meu francês pode estar um pouco enferrujado, – um pouco? Se não entendeu isso, minha senhora, duvido que tenha sabido algum dia – isso foi um agradecimento, certo? – Scarlett, ao contrario de mim, que revira os olhos nas sombras, assentiu pacientemente. – De rien.
Margareth não tinha a melhor das pronuncias, mas era compreensível que havia dito “não há de que”. Scar sorriu para ela.
— O seu francês ainda é bom. – bom? Aceitável. Tem o nível de uma criança.
— Acho que é uma língua muito romântica. Não acha, Henry? – ela se virou para o filho. O futuro marido da minha princesa aquiesceu e sorriu enquanto a olhava.
— Sim, mãe. – o sorriso dele se alargou. – Na verdade, a cada momento que se passa, eu gosto mais e mais dos franceses.
Eu queria soltar um grande e extremamente mal-educado bufo de exaltação. Quem ele pensava que era? Com quem ele pensava que estava lidando? Com a princesa da França. Uma moça virgem e estudiosa, dedicada e pura. Mas Scarlett não era nada disso. Se ela fosse qualquer garota idiota, teria corado pelo elogio. Mas ela não era qualquer garota idiota. Era minha princesa, e tudo que o rei teve em resposta foi um sorriso.
Ainda estávamos andando pelo castelo, em uma espécie de reconhecimento. Ou exibição, algo como “somos ricos e poderosos, tanto quanto vocês”. Para mim podiam ostentar o quanto quisesse. Nunca chegaria aos pés de Versalhes.
— Imagino que esteja curiosa quanto a data do casamento, alteza. – Henry disse.
— Realmente estou, majestade. Demorará muito?
— De modo algum. Daqui a três dias nos casaremos e em duas semanas ocorrera a sua coroação oficial, alteza. – ele respondeu, o que a fez morder o lábio inferior. Propositalmente. Ela não tinha essa mania.
— Espero que não acha que pretendo tomar o seu lugar, majestade. – começou, em um tom de desculpas, mas a rainha a impediu com um sorriso e um movimento de mãos.
— Não se preocupe com isso. Eu reinei por um bom tempo. Hora de passar a coroa em frente e sei que ela estará em boas mãos. – seu riso foi suave. – Ou melhor, em uma boa cabeça.
Todos riram em resposta, até mesmo Scarlett. O rei e a rainha pareceram não perceber, mas eu quase a ofereci uma cadeira pois seu riso foi um pouco forçado. Sinceramente, “coroa”, “mãos” e “cabeça”? Não teve a menor graça. Mas ela tinha que agradar e estava realmente se esforçando para aquilo.
— Está muito cansada da viagem, ou vossa alteza me acompanharia em um chá? Meu filho tem algumas coisas para resolver, por isso não se juntará a nós.
— É uma pena, majestade. – não era, não. – Eu adoraria tomar chá. Apenas gostaria de me trocar e descansar um pouco.
— Claro, claro. A viagem deve ter sido muito estressante. – e com um movimento de mãos, um mordomo se deslocou até nós. – Esse é Charles. Ele a acompanhará, a você e sua dama de companhia, aos seus aposentos. O chá será servido as quatro da tarde. – e lhe deu mais um sorriso antes que o mordomo pedisse para ser seguido.
Scarlett se reverenciou e então deu as costas, sendo seguida por mim. Eles não estavam me vendo, mas é bom ressaltar que não fiz reverencia alguma. Só para registro de memória.
iii
Scarlett foi para o chá, pontualmente, as quatro horas. Eram por volta das duas quando chegamos ao quarto, e o que fizemos nesse meio tempo não cabe a ninguém saber. Talvez comente sobre isso, algum dia. Mas sinto necessidade de finalizar meus relatos, pois um novo dia já se aproxima e tenho de me apressar, já era para Scar ter acordado.
Terminei contanto como tinha o desprazer de conhecer o duque de Liverpool.
Como disse, eram quatro horas quando Scarlett foi para o chá, e eu fui com ela. Como era costume, eu geralmente a acompanhava em tudo que fazia. E eu tentei, Inferno, juro que tentei. Aguentei por duas horas, até chegar o chá das seis. E quando vi que estavam se preparando para outra rodada, até mesmo Scarlett pôde sentir meu desespero. Foi quando fui autorizada a sair e fumar para acalmar os nervos.
Muitas mulheres na mesma sala me apavoravam. Elas eram muito complicadas, muito difíceis de se lidar. No mundo dos homens, ao qual me firmei nesse quesito a bastante tempo, quando há desentendimentos, eles são resolvidos quando a espada é puxada. O mais forte, o mais habilidoso vence, e não tem o que se falar a respeito. Com mulheres era algo totalmente diferente. Suas espadas são palavras e sua habilidade é descobrir os segredos, quanto mais e piores, melhor. Sorrisos falsos, olhos aguçados, vozes afetadas.
Eu odiava isso.
Então estava aproveitando minha paz quando cheguei aos jardins. Coloquei um cigarro na boca e o acendi, puxando lentamente. Os jardins eram bonitos, e como já estava escuro, úmido e frio, era o tempo perfeito para mim. Eu poderia ficar ali e fumar mais um ou dois cigarros. Pegar um tempo para mim mesma. Apenas para mim.
Claro, se não tivesse sido o honorável duque.
Eu vi quando ele se aproximou. Com aquele sorriso galanteador e mais bonito do que seria recomendado. Vi pelo canto dos olhos quando me examinou de cima a baixo, como parou nos meus lábios e tentou descer pelo meu corpo, me tirando a roupa com os olhos. Ele entendeu o recado quando viu minha mão na bainha da espada. Voltou para o meu rosto, o sorriso sem falha alguma.
— O que uma moça tão bonita quanto você faz sozinha em um lugar como esse, ao invés de estar com as outras senhoras?
Tive que soltar, muito lentamente, a fumaça depois disso. Oh, várias conjunções erradas a mesma frase, senhor. Busquei paciência naquilo e virei o rosto para o olhar. Tinha certeza que meu olhar não era agradável. Na verdade, Jean uma vez me disse que meu olhar para os homens em geral, principalmente nobres, era da mais pura altivez e arrogância. Talvez, também, desprezo e desdém. Como se o cujo em questão fosse um fardo, um incomodo. Como se tivesse, ao menos, virado a cara por educação. Costumeiramente meus olhos eram frios e meu sorriso brincava nos lábios, cruel como uma puta e afiado como uma navalha.
— Um lugar como esse? Ora, achei que os jardins do palácio eram protegidos. – minha voz saiu fria, quase invernal, e carregada de ironia. – De qualquer forma, senhor, meu lugar não é e nunca foi com as senhoras. Me dou melhor sozinha.
Pensei que ele havia entendido o recado. Ao menos ficou quieto por um tempo, a expressão de um demente. A testa franzida e a boca aberta, me fazia pensar que nenhuma honorável dama jamais o havia dispensado. Ele fez menção de se aproximar, mas segurei com mais forte a bainha pensando seriamente, seriamente em usá-la. Para arrancar sua cabeça.
Ou qualquer outra parte do seu corpo.
Então o duque se resignou em ficar onde estava, passando a mão pelos cabelos, desconcertado. Continuava olhando para o meu rosto, seus olhos verdes viviam indo para minha cicatriz nos lábios. Enfim, se armou novamente com um sorriso.
— É claro. Eles são protegidos, mas normalmente as mulheres preferem ficar dentro do palácio. – caro duque de Liverpool, eu não tenho nada de “normal”. Seus olhos agora estavam meu cabelo e eu sabia o que ele estava pensando. Ainda me fugia a compreensão como um simples cabelo podia despertar tanto desejo e fascínio para um homem, mas o fazia. A prova foi o modo como respirou fundo e desviava novamente os olhos para meu rosto. Homens. – É mesmo? Bem... Soube que a senhorita é dama de honra da futura rainha, então eu imaginei que passasse muito tempo com as damas. – tombou a cabeça. – Será que posso saber seu nome, senhorita? Eu sou Richard Underwood, duque de Liverpool e primo do rei Henry. Ao seu dispor.
— E, normalmente, meu senhor, homens respeitáveis não conversam com mulheres sozinhas. – rebati com os olhos estreitos a menção de Scar. – E eu passo, meu senhor, passo até demais. Mas sua alteza se viu bastante bem e me dispensou para tomar um pouco de ar fresco e fumar. Bem sabe ela que me ver em um ambiente cheio de damas me leva a loucura. Se tivesse de ouvir mais uma palavra sobre como cetim é melhor ou pior que seda, e amarelo não combina com verde e, também, uma lista dos homens mais ricos e disputados da corte, eu iria me enfiar a espada. – soltei a fumaça pelo nariz e lhe dei um sorriso de desdém ao ouvir seu nome. – Duque de Liverpool... Está em primeiro lugar agora que o rei está comprometido, meus parabéns. Ouvi falar bastante do senhor. Lady Brown, cabelos castanhos e lábios cheios demais, se for do tipo de não guardar nomes, está crente que você a pedirá em casamento. Acho que pode ter haver com algo que o senhor fez, mas ela não deu muitos detalhes. Quero dizer, não em palavras. Mas o que suas bochechas pegarem fogo e engasgar com o chá querem dizer? – soltei uma risada seca. – Meu nome é Blanka. Apenas Blanka. As putas não tinham sobrenome para me dar. Amiga, guarda e dama de companhia da princesa Scarlett, breve rainha. Não estou ao seu dispor.
— Então a senhorita não me toma por um homem respeitável? – ele havia cruzado os braços, e tentava não rir. – Mas, ah, sim, é claro. As mulheres e suas conversas podem ser muito entediantes, compreendo a razão de sua fuga. – Richard passou a mão pela barba por fazer. – Lady Brown? Acho que não me recordo dela... – ele desconversou, desconfortável. – Blanka... É um nome lindo, para uma moça igualmente linda.
— De forma alguma. – respondi sem nem pensar. Não precisava o conhecer mais do que esses momentos. Vivi grande parte da minha vida com Elliot, e aqui estava outro. Mas agora um inglês. – Acho-o um total libertino, meu senhor. Um homem que não pensa duas vezes antes de ir atrás de uma mulher sozinha, que leva para cama pelo menos uma mulher da corte, e sabe-se lá quantas mais. E apenas lhe conheço a alguns momentos, olhe tudo que já sei sobre você. Tenho certeza que tem muito mais a descobrir. Não só de você, mas de todos. Tenho certeza que será um ótimo passatempo nessa terra estranha.
Ele sorriu. Oh, sim. Era tão detestável que se deixou sorrir. Bem no canto dos lábios, se esgueirando como uma cobra.
— Um libertino... Tudo bem. Eu não posso dizer que não mereço essa fama. Muito pelo contrário, eu me esforcei muito para tê-la.
— É bom ver que sabe disso, meu senhor. – eu havia sido irônica. – Mas não muda sua constatação infeliz. Pois agora sei que, além de libertino, também é um canalha. A sós comigo, ninguém em volta, não é nem capaz de admitir que a fodeu? Uma dama tem de manter suas reservas, mas achei que os homens fossem diferentes. Bom, tenho certeza que ela ficará de coração partido ao saber que não faz ideia de quem seja. Ou é muito bom no que faz e vai lhe fazer a raiva passar, ou terá que procurar outra.
— E como eu poderia saber se você não tomaria as dores dela e não me estapearia por tê-la fodido, e não ter a menor intenção de casar-me com ela? – resmungou, se revelando. Achei que realmente poderíamos começar a conversar depois disso, mas ele voltou a sua fachada de perfeição ao respirar fundo. – Perdoe-me, senhorita. Eu não deveria ter falado nesse tom e nem usado esse tipo de palavras. Não sou um canalha, como a senhorita deve estar pensando. Eu certamente não obriguei Lady Brown a nada e foi ela quem encontrou o caminho para os meus lençóis, não o contrário. – se endireitou enquanto me olhava. – De qualquer modo, não nos demoremos mais nesse assunto. Eu não devia falar assim na presença de uma dama.
— E o que ela fez quando chegou lá, duque? – arqueei uma sobrancelha, meus lábios rasgando em um sorriso cruel. – Amarrou-lhe na cama e lhe abaixou as calças? Poupe-me. Não me importa quem foi o primeiro a abaixar as calças ou levantar as saias, me importa teu caráter. E, oh, ele é detestável. – traguei novamente o cigarro, devagar. – É um nome sem muita criatividade dado por putas sem muita criatividade. Mas tenho que admitir que me serve bem.
— Underwood! Venha cá! Não é educado não apresentar a dama para nós! – um homem gritou, mais distante. Olhei através do duque e localizei o grupo sentado em volta a uma mesa. Richard respirou fundo e resmungou, eu lhe lancei outro olhar de desdém, e ele me ofereceu o braço.
— Vamos? – perguntou e eu o deixei falando sozinha, seguindo em frente e sozinha. Não precisava de homem algum para me guiar o caminho. Quando chegamos a mesa, todos os quatro homens se levantaram, um deles eu reconhecia como o rei. Não fiz nada, nem mesmo uma mesura, não estava de bom humor para isso. O único que ganhou algum sinal de respeito foi o rei em uma inclinação de cabeça, nada mais. – Essa é Blanka, a dama de companhia de sua futura esposa, Henry. – o duque me apresentou. – Blanka... Esses são alguns amigos. Thomas de York, Sebastian Lewis, e sua majestade, o rei da Inglaterra. – ele os apresentou, indicando cada um.
Sebastian me deu um sorriso contido, pegou minha mão livre e a levou até os lábios.
— É um prazer conhece-la, senhorita. – disse e olhou para meu cigarro que já passava da metade. – A senhorita teria mais um desses? Cansei-me dos charutos.
— O prazer é seu. – o respondi enquanto olhava para minha mão beijada com uma torção de lábios. Porque porra ele havia feito isso? – Tome o meu, pegarei outro em breve. – e lhe entreguei o que eu tinha, e assisti enquanto o punha diretamente nos lábios.
— É claro que é. – retorquiu enquanto tragava. – Obrigado pelo cigarro. – e sorriu para Richard, em uma espécie de provocação. Decidi que gostava de Sebastian. Depois dele, Thomas tomou a dianteira, também beijando minha mão.
— Prazer, senhorita. – ele sorriu, um sorriso quase tão malicioso e cretino quanto ao do duque. – Estava curioso para conhece-la. – a fala arrancou um riso baixo de Richard, o que já me fez decidir que não gostava de Thomas. Lhe dei um sorriso cruel.
— Estava? Agora curiosa sou eu, meu senhor. Devo dar-lhe um murro por esse olhar tão descarado, ou me contentar em guardar seu rosto para uma vingança futura?
Thomas, ah, Thomas, esse não me respondeu, apenas deu um sorriso amarelo. Então, foi a vez do rei. Como o aparente modelo de educação que era, ele abaixou a cabeça, fez uma reverencia e beijou minha mão.
— Guarde para uma vingança futura, senhorita. Assim terá mais tempo de estuda-lo e descobrir suas fraquezas. Será mais fácil destruí-lo assim. – Henry piscou para o amigo, e decidi que gostava dele também. Não tínhamos sido apresentados formalmente, mas fico feliz em conhece-la. – o rei me puxou uma cadeira. – Por favor, sente-se. E pegue um charuto, se quiser. Já experimentou algum?
— Majestade. – foi tudo que lhe respondi enquanto me sentava na cadeira. Não cruzei as pernas, ao invés disso deixei os joelhos juntos e os pés separados. – Já. Mas nunca é demais experimentar outro. – estendi minha mão e peguei um, buscando o fósforo no bolso do casaco e o acendendo, puxando devagar. – Cartas? – olhei para a mesa. – Quem ganhava?
O rei riu baixo e também se sentou, pegando um charuto. Todos seguiram seu exemplo.
— Underwood ganhava. – Sebastian resmungou, soltando a fumaça. – Ele não para de nos atazanar falando sobre como é melhor do que nós nisso. – ele deu duas batidas no cigarro para tirar as cinzas e voltou a tragar. – A senhorita joga? Porque, se jogar, por favor, derrote-o. E vai lhe fazer pagar por ter passado cantadas baratas, como creio que ele fez.
— Devo, realmente, um acerto de contas para com o duque. Creio que ele me toma por algo que não sou, e tem de pagar o preço. – eu não sou uma dama, não sou. Nem dama, nem lady, nem senhora e nem senhorita. Sou um fantasma. Só isso. Finquei meus olhos nos dele como se ele fosse meu jantar. – Mas, meu senhor – e eu tinha fama de ser a única no mundo ao conseguir fazer que refletia respeito soar como uma maldição – Você nunca jogou comigo.
Eu queria da forma mais humilhante possível, me lembro. Comecei a perder. Uma mão atrás da outra. Os humores na mesa foram despencando. Eu podia sentir a raiva e impaciência ao meu redor, os outros homens desacreditados e o duque nos olhando de cima, arrogante. Oh, aquilo foi fantástico. Pois sem ele perceber, havia perdido. Acumulei pontos e ele os perdeu, de mão em mão, até que eu não havia apenas o vencido.
Havia o trucidado.
Underwood ficou boquiaberto, completamente perdido. Passou a mão pelo cabelo, olhou as cartas, voltou a passar a mão no cabelo. Não sabia se estava tão abismado por uma mulher o ter vencido, ou alguém o ter vencido. Ele fechou os olhos e apoiou a cabeça nas mãos, soltando um rosnado de raiva.
— Para puta que pariu. – bufou, e foi quando todos os outros soltaram gargalhadas. Até mesmo eu me permiti dar um sorriso que não fosse ruim, me deliciando com a sensação de ter puxado o tapete sob seus pés. Nobre arrogante e metido. Mas observei quando Henry se levantou com um sorrisinho.
— Como é que você disse? – ele tombou a cabeça para o lado e fingiu estar pensando. – “É difícil que ganhe de mim”, “ninguém nunca me venceu”. – o rei fez uma péssima imitação da voz do primo e todos riram ainda mais.
— Em primeiro lugar, a minha voz não é assim. – Richard resmungou de volta. – Em segundo lugar, isso nunca me aconteceu antes.
Thomas riu.
— Sabe qual é o combinado, certo?
Combinado? Parei de rir e comecei a prestar atenção. Era algo não muito agradável para o duque, já que se levantou e tinha os olhos estreitos.
— Não sei do que você está falando, de York. – desconversou, dando mais um passo para trás. Sebastian foi o último a levantar, abotoando o terno que usava e me sorriu, agradecido.
— Obrigado por ter vencido ele, Blanka. Finalmente, chegou a nossa vez de nos divertimos um pouco. – ele passou a mão pelo cabelo. – Nem pense em fugir. Vamos mandar os guardas pegarem você. Agora, Henry... – ele sorriu para o rei. – O que é que o duque de Liverpool sempre dizia?
— “Eu sou o melhor. Se um dia eu perder, arranquem minhas roupas e me joguem no lago”. – Henry estalou os dedos. – Bem... Promessa é dívida, certo?
— Isso não é justo! Essa é a primeira vez que eu perco! – o duque rosnou. Em resposta, o sorriso de Thomas foi cruel.
— Você não vai honrar o que prometeu? Vai deixar a Blanka com uma opinião ainda pior de você.
— Ele tem razão. – sorri para o duque, piscando lentamente como via as damas na corte fazerem. – Libertino, canalha e sem honra, um homem que não cumpre o que fala.
Sebastian riu.
— Se não for por bem, vai por mal. Não vamos ter dó de você. – ele piscou.
— Olhe...
— Estamos enrolando demais. – Henry resmungou. – Se deixarmos, Richard vai ficar nisso a noite toda e nos passar a perna. Vocês sabem como ele é. Então, o melhor a se fazer é leva-lo até o lago de uma vez.
— Não se atrevam! – o duque rosnou, mas seus amigos apenas riram.
— Tenho certeza de que Blanka ficou curiosa para saber o que vamos fazer. – o rei disse.
— Curiosíssima. – completei com um sorrisinho. Finalmente, meu dia estava valendo a pena.
— Vai ser muita falta de educação deixa-la curiosa. – ele continuou lentamente, visivelmente se divertindo com o desespero do primo, que resmungou.
— Vão se foder. – e riu, logo em seguida virando as costas para correr. Mas agora eu não poderia deixar ele ir. Ah, não mesmo. Me estendi e peguei uma faca na minha boca e a puxei, lançando em direção ao duque e acertando bem onde queria: na bainha de sua calça, o prendendo no chão.
— Parabéns, Blanka! – Sebastian riu para mim. – Bela pontaria.
Eles se jogaram em cima dele. Se livraram da faca, agarraram suas pernas, seus braços e o impedir de fugir. Sebastian, sendo o mais musculoso de todos, jogou o duque sobre seus ombros e mesmo que ele o chutasse e todo o tipo de coisa, não o soltava. De algum jeito, Thomas agarrou as suas pernas, ajudando também.
O desespero do duque crescia de modo considerável a medida que nós nos aproximávamos do enorme lago que havia no jardim.
Meu olhar recaiu sobre os guardas. Alguns deles estavam se aproximando de onde estávamos, tanto pela curiosidade, quanto pela nossa própria segurança.
— Me soltem! — Richard rosnou, enquanto olhava para mim. Eu ia ao lado deles e estava rindo, além de olhar ansiosa para o lago, que se aproximava cada vez mais.
— Vamos solta-lo num minutinho, vossa graça. — Henry gargalhou, ficando cada vez mais animado conforme meu desespero aumentava.
— Henry, você é o mais sensato de nós... Não deixe que eles...
— Sinto muito, vossa graça, mas acho que Blanka merece rir um pouco as suas custas depois de toda a raiva que você a fez passar hoje. — ele respondeu, dando de ombros.
— Henry...
— Ah, pare de choramingar. Parece uma garotinha. — Thomas resmungou e olhou para mim. — Sem ofensas, é claro.
E então eles continuaram o levando para o lago, desprezando os seus esforços de se afastar. E quando chegamos na beira, eles pararam. O colocaram no chão, embora ainda o segurassem.
— Porque pararam? — perguntei.
— Ainda falta uma parte. — Thomas disse. Era de longe o mais animado de todos. — Não vamos só joga-lo no lago. Vamos jogá-lo no lago... Nu. — ele riu. Underwood fechou a cara e Henry sorriu.
— Vamos, meu amigo. Desfaça essa carranca. — ele disse. — E tire suas roupas de boa vontade. Não quer que a gente faça isso, certo?
Richard rosnou, mas parece que sabia que não adiantava brigar. Começou a tirar o casaco e continuou. Eu acho que ele não queria nenhum homem encostando nele e tirando suas roupas.
E eu não duvidava que eles fizessem aquilo, se ele tentasse fugir.
Mas ele não tirou a última peça e eles reviraram os olhos.
— Vamos lá.
E antes que o pobre duque de Liverpool estivesse preparado, eles o jogaram na agua. Ele afundou com tudo e então quase parecia que o palácio inteiro estava rindo. O rei, seus amigos, os guardar. Até mesmo eu me dobrava de rir. E quando Richard voltou a superfície e observou a cena, soltou outro rosnado.
— Felizes? Já me jogaram. Posso ter as minhas roupas de volta?
Sebastian lhe mostrou um embolado de coisas molhadas.
— Ah, não. Estão molhadas. Não queremos que você fique muito tempo com elas e pegue um resfriado. E não temos outra roupa para colocar em você. A menos que... — ele sorriu. — Henry, sua mãe tem alguns vestidos velhos, certo?
— Tem, sim, Sebastian. Por... Ah não. Você não vai...
— Não vou? — ele riu.
Franzi a sobrancelhas, mas foi o duque que perguntou.
— O que?
— Rick, temos mais um castigo para você. — Henry falou. — Como você perdeu para uma mulher...
—... Nós vamos te transformar em duquesa.
Foi quando o duque se levantou com tudo, raivoso, e se exibiu da forma com que veio ao mundo para quem quisesse ver.
— O que?! De jeito nenhum!
Henry lhe puxou do lago, fazendo-o sentir o frio em sua pele molhada, pela forma que se arrepiou. Ouviu a minha risada e me procurou. Eu estava bem na sua frente, os braços cruzados e os lábios abertos em um sorriso que, pela primeira vez, não era cruel, desdenhoso, sarcástico, irônico ou cínico. Não. Era divertido. Eu estava verdadeiramente feliz e me divertindo as suas custas. Mordi os lábios para conter a risada, e mesmo assim sabia que meus olhos brilhavam de tal forma que ele sabia que eu nunca iria esquecer, ou lhe deixar esquecer, desse momento. Fiz uma mesura perfeita, mas apenas eu conseguia colocar deboche em atos respeitosos, e foi o que pareceu. Na verdade, era exatamente a intenção.
— Belas partes, duque de Liverpool. — eu se ajeitou novamente e observei enquanto um casaco era displicentemente jogado sobre seus ombros. Foi Henry que se apiedou do primo, ao menos um pouco.
— Queremos fazer você pagar o maior mico da história, e não te matar com algum resfriado. – explicou.
Começamos a andar em direção ao palácio, e não precisaria se ter vivido nas ruas e aprendido a ler o corpo das pessoas para saber que o duque queria correr. Mas era como se ele tivesse seu próprio comitê de honra. Henry ia na sua frente. Sebastian na sua esquerda. Eu a direita e Thomas bem atrás. Estava cercado e com a única opção de continuar andando. Começamos a ouvir vozes femininas, risadas e sentir o cheiro de chá. Separadas por uma porta estavam todas as damas da corte no meio de uma tarde de fofocas. O duque percebeu isso e agarrou o braço de Henry.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você não vai me expor assim, ou vai? – perguntou quase em pânico.
— Não, fique calmo. Chamarei minha mãe. — ele lhe acalmou e bateu na porta. Richard abaixou a cabeça e parecia querer se encolher. Quase tive pena dele. Quase.
A porta da sala foi aberta e ele realmente se encolheu. Henry adentrou na sala e em poucos minutos saiu, junto com a rainha Margareth. Ela olhou para o sobrinho, respirou fundo e fechou a porta atrás de si. Em seguida, estreitou os olhos para cada um dos presentes e cruzou os braços.
— Um casaco? É tudo o que dão para ele? O nosso país é frio, ele está molhado e tremendo, e tudo o que vocês lhes dão é um casaco? — ela ergueu a mão e deu um tapinha na nuca do filho, que encolheu os ombros, embora sorrisse de canto. — Henry não me explicou direito. Para que precisam dos meus vestidos antigos?
Thomas passou a mão pelos cabelos. Parecia que a sua animação tinha diminuído um pouco, agora que estava frente a frente com a rainha e ela não parecia estar muito satisfeita em ver o sobrinho molhado e tremendo.
— O duque perdeu o jogo hoje, mamãe. — Henry começou a explicar. A rainha escutava tudo e parecia dívida entre rir ou puxar as orelhas dele. Bem. Ele era o rei. Acho que passou da fase de puxões de orelha. — E como ele perdeu para uma mulher, vamos transformá-lo em duquesa.
Ela deu alguns passos para perto do duque. Suspirou e abotoou o seu casaco, esfregando os seus ombros e revirando os olhos para o filho.
— Se ele morrer de gripe, espero que volte e assombre a todos vocês. — ela resmungou e depois se virou para o filho. — Henry Edward Lancaster... Você está, por acaso, insinuando que foi uma humilhação ele ter perdido para uma mulher? Quer dizer que somos inferiores e incapazes de ganhar um reles jogo? É isso?
Henry balançou a cabeça.
— Não, mamãe. Só vamos vesti-lo de mulher porque acho que vocês são inteligentes e fortes. Quem sabe ele não se inspira? — Henry mentiu, oferecendo um sorriso angelical a mãe, que revirou os olhos.
— Céus, Henry, em matéria de mentira você é igualzinho ao seu pai. — ela respirou e virou as costas. — Vou buscar os vestidos.
— Mas... Majestade! Eu achei que a senhora não concordasse com eles! — resmungou. Até eu estava surpresa. Até meio segundo atrás, ela estava do lado dele! O que tinha mudado?
Ela se virou para ele e sorriu docemente.
— E não concordo, querido. Mas eu ouvi também as partes em que Henry falou em que você deu em cima da senhorita Blanka. — ela estreitou os olhos. — Chegou a ser inconveniente, querido, e eu não a culparia se ela o acertasse com a espada. Mas ela não o fez. Ela teve muita paciência. Mas você merece um castigo. — então ela sorriu de novo e virou as costas, voltando a andar.
Henry se encostou a parede, com um sorriso de canto.
— Isso vai ser hilário.
— Devíamos chamar toda a corte. Ele nunca iria esquecer. — Thomas disse. Henry balançou a cabeça.
— Não. Seria cruel. — ele disse e Thomas se calou.
— Além de tudo... — Sebastian sorriu de canto. — Richard nunca vai se esquecer disso. Não vamos deixar e a vergonha dele é tanta que nem ao menos precisaríamos lembrá-lo de que isso aconteceu. — ele deu de ombros, olhando para o corredor, esperando a rainha voltar. — Ser vestido de mulher já é castigo o suficiente. — ele tombou a cabeça e olhou para mim. — Me tire uma dúvida... A princesa usa maquiagem, certo? Todos na França usam?
Me limitei a assentir e um sorriso surgiu nos lábios de Sebastian.
— Perfeito!
— Não! Isso não, Lewis! – resmungou, fazendo o amigo dar de ombros.
— Você não vai ficar vestido assim nem por meia hora, se acalme. Merecemos dar algumas risadas. — e se virou para Henry. — Majestade, chame sua noiva e peça a maquiagem dela emprestada.
Henry franziu a testa.
— É melhor você pedir. — ele respondeu e Sebastian franziu as sobrancelhas.
— Porque?
— Convenhamos que não é muito normal que eu peça a maquiagem da minha futura mulher emprestada. Isso não soará bem. E eu não quero passar a minha noite de núpcias ou a minha lua de mel com a minha mulher pensando que eu posso ser gay. — ele deu de ombros.
Lewis bufou.
— Então tudo bem ela achar que eu sou gay?!
Henry riu.
— Claro. Você não vai para a cama com ela.
Ele resmungou alguma coisa, mas logo depois suspirou resignado.
Se aproximou da porta e bateu. Chamou a princesa, minha princesa, e ela saiu, olhando para nós um pouco confusa.
Como fez com a rainha, Richard se encolheu com o olhar dela sobre ele, mas ao invés de corar, os lábios de Scar tremeram, como se ela segurasse a risada. E eu sabia que estava.
— Senhores. — ela fez uma mesura.
— Vossa alteza teria um minuto? — Sebastian perguntou, também a olhando. Ela assentiu.
— É claro. Precisam de algo?
Henry se adiantou.
— Não queremos incomodá-la, Scarlett. – como? Ele já a estava chamando pelo primeiro nome? Eu perdi alguma coisa? — Mas você trouxe alguma maquiagem da França?
Ela franziu as sobrancelhas e olhou para mim, confusa. Eu, por minha vez, assenti e sorri pequeno para ela.
— Trouxe, majestade, é claro. — Scar assentiu.
— E quanto a pintas postiças? Dizem que os franceses usam, mas eu não vejo nenhuma em vossa alteza. — foi Sebastian quem falou e ela sorriu pequeno.
— Eu trouxe algumas, mas não os usos porque não me agradam. — explicou. — Mas... Eu posso perguntar o porquê disso?
Henry abriu a boca, mas a rainha escolheu esse exato momento para aparecer.
— Vamos vestir o duque de Liverpool como uma dama, Scarlett, querida.
Uma risadinha escapou dos lábios dela.
— Bem... Então será o meu prazer ajudar. — ela olhou para ele e sorriu, os olhos preenchidos com divertimento. — O senhor dará uma bela dama. — ela riu baixo. — Vou agora mesmo buscar as coisas que me pediram. Blanka, você vem comigo?
Fui junto dela buscar tudo que precisávamos, enquanto dei um rápido relato da situação. Como esperado, ficou toda enciumada e mais determinada ainda a fazer do duque uma duquesa. Quando voltamos, seu sorriso era tão perverso quanto o meu.
Entramos assim que ele tinha acabado de se “vestir”, e Scarlett tinham um brilho de diversão cruel nos olhos enquanto o olhava. Estava com a roupa completa. Vestido, crinolina, anágua, corpete. Tudo que uma dama tem direito e obrigação de usar no vestuário. E iria ter mais, pois Scar trazia as maquiagens.
Ela sorriu quando o viu.
— Vossa Graça seria uma linda duquesa! — ela aprovou, batendo palmas. Foi para trás dele e bufou. — Mas o que foi que fizeram com o corpete? Que tipo de nó deram? — eu pude vê-la balançando a cabeça em desaprovação. — Blanka, você pode arrumar isso?
Não a respondi, simplesmente fui para trás da nova duquesa e desfiz o “nó” que eles deram, dando o meu próprio. Um nó especial. Ele um grunhido e eu soltei uma risadinha.
— Olha só! Quase parece que você tem peitos! — Thomas disse e reconsiderou ao olhar para a rainha. — Desculpe, alteza.
Ela dispensou o comentário dele com um aceno de mão. Depois de o corpete estar arrumado, a princesa o fez sentar numa cadeira, de frente para espelho.
Elas, Scarlett e a rainha, fizeram questão de o maquiar. Encheram a sua cara de coisas que eu nem ao menos sei o que são (imagine ele), passaram batom em seus lábios e colaram pintas postiças em seu rosto. Quando terminaram, seus amigos estavam se dobrando no chão de tanto rir e até mesmo elas riam. Eu ri muito. Por fim, eles se deram por satisfeitos e disseram que o duque podia trocar de roupa.
As damas iam saindo, — os cavalheiros tinham que esperá-las -, mas alguns segundos depois, eu voltei, vendo que ele já começava a querer se debater dentro do vestido.
— Esqueci de avisar. O nó que eu dei foi cego. Precisará de uma tesoura para cortar os cordões do espartilho. E fiquei sabendo que a costureira fica do outro lado do castelo... Boa sorte. — e então sai, rindo.
Fiquei sabendo que o duque foi visto por metade dos habitantes do palácio, e foi motivo de risada de todos. Hoje saberei sua reação. Espero que ele não leve tudo para o lado pessoal. Eu só o estava ensinando uma lição.
De que não sou dama nenhuma.
De que não acredito em palavras bonitas.
E de que nunca deixo uma ofensa para trás.
E as vezes, até mesmo o destino contribui para mim. Eu realmente não tinha como saber a aposta sobre o lago e a ideia do vestido.
Scarlett me chamou, é hora de ir. Voltarei amanhã, se sobrevier. Ela não está com uma cara boa.
Minha princesa acordou de mal humor.
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