Voo 186

10 Gravador - Fim


O avião queimava. E então o coro de vozes ecoou em gritos agonizados.

– Acha... Maria... Vingada...? – BR olhava para toda aquelas chamas.

E de repente a calmaria de Marcelo diante toda aquela confusão transformou-se em uma euforia ao ver o quê BR não percebera. A bomba que ainda estava em seu corpo fora ativada. – provavelmente pelo calor das chamas a tinha disparado. –

Eles gritavam. Mas estavam perto demais das chamas. Marcelo tentava tirar a bomba, mas suas mãos se atrapalhavam nas mãos de BR. – aconteceu mais rápido do que era previsto. – Eles explodiram. Juntos. Os pedaços de seus corpos voaram para todas as direções jorrando sangue para todos os lados.

Um silêncio havia feito por alguns segundos, até novas explosões eclodirem do avião. Pedaços de metal voaram para todos os lados. As vidraças do aeroporto explodiam com o calor e com pedaços da lataria que se chocavam-se contra. As poltronas do aviões voavam para cima e caiam como meteoros. Corpos em chamas eram expulsos dos destroços para um outro canto em chamas.

Barulho, explosões e caos era a única coisa que acontecia ali. Não sobrara uma construção em pé. Tudo fora destruído por chamas e metal. O fogo lambia tudo que havia pela frente."

– Espera. E o local onde você estava não estava no meio de tudo aquilo? Como não aconteceu nada com você?

– Era o que eu ia dizer agora. – respondi.

"O calor estava ainda mais perto de Fernando, e graças a isso ele podia mover seu corpo. O carro que estivera servindo de escudo pegava fogo com um pedaço de metal em chamas que estava cravado em um dos pneus. Ele levantou para correr e no mesmo segundo o carro explodiu. Ele gritou com o peso de algo que caíra sobre suas costas. Levantou-se e correu dali, com dificuldades, sem saber para aonde ir. Tudo estava em chamas. Os gemidos das pessoas morrendo o assustava. Era impossível que ele entrasse no aeroporto destruído para procurar por Helena ou Marcela. Ele correu por entre a fumaça negra.

Sirenes. O som das sirenes estavam perto. Aos poucos aproximavam-se mais. Ele correu na direção do som, procurando por uma saída. Sem saber para aonde corria, parou no meio de uma rua no momento que as luzes e os altos sons de diversas sirenes o atingiram ao mesmo tempo.

Ele se encolheu no meio da rua, as pessoas desciam do carro e passavam por ele, correndo, eles não o percebiam ali. Levou as mãos aos ouvidos e gritou, se desfazendo de todo aquele medo que sentira, em vão. Ninguém o notara. Sua garganta explodiu em dor e por algum motivo seus ouvidos sangraram. Então, o breu veio. Desmaiou."

***

– Como você está hoje, pequeno? – um homem de calça e camisa brancas me perguntou.
Não consegui responde-lo.
– Não se preocupe. Tudo irá melhorar. Tome seus remédios.
Disse, aproximando-se, abrindo minha boca e entornando alguns comprimidos goela abaixo.
– Vamos. Vamos. Tudo vai melhorar daqui a pouco.
Ele disse, afastou-se e saiu com o som da porta pesada de ferro fechando-se.
Os minutos que se passaram foram de pura displicência onde a saliva escorria da minha boca e a única coisa que poderia ver eram as paredes brancas almofadadas.

A hora que se passaram meu corpo se mexia um pouco, levantei, forçando meu corpo. No quarto branco só havia uma porta de ferro, branca também. No canto, uma camisa de força do avesso. Ao meu lado, um pequeno gravador preto que reproduzia antigas falas, talvez uma história que criara.

O som da alavanca sendo empurrada e levantada na porta de ferro acordou meu corpo por completo.

O mesmo homem que me dera os remédios entrara.
– Está bem, Fernando? Está na hora de você pegar um ar fresco. Você tem visitas.
Ele disse, me colocando à sua frente.
Caminhei lentamente, olhando para o chão em direção ao pátio. O homem andava logo atrás de mim, assobiando uma canção que eu conhecia, mas não lembrava como cantar.

O pátio era caloroso. Flores, árvores, pássaros cantarolando no altos ninhos. Os outros pacientes que estavam internados conversavam com seus familiares ou faziam atividades com outros funcionários.
– Fernando! – Marcela pulou em cima de mim. – Que saudade de você!
A abracei de volta. A olhando meio diferente.
– Vou deixar você a sós por alguns minutos. – disse o homem atrás de mim e afastou-se.
Marcela pegou minha mão e me puxou para um banco onde havia mais duas pessoas, meu pai e minha madrasta.
– Como vai, filhão? – ele me abraçou.
– Tudo bem, Fernando? – Helena me deu um beijo na testa, carinhosa.
– Tudo sim. – respondi, sem ânimo.
– Está animado para seu aniversário? – me perguntou Marcela.
– Tenho uma surpresa para você. – disse meu pai. – Conversei com o diretor e o seu médico. Eles permitiram que você saísse desse hospício por alguns dias. Vamos viajar. O que acha? – ele perguntou, alegre.
– Vai ser divertido! – disse Marcela com um enorme sorriso ao ver meu espanto.
Helena concordou com a cabeça.
– Para aonde vamos? – perguntei, forçando um sorriso.
– É uma surpresa, filho. Só irei te dizer que iremos de avião.
Ele quis gritar ao ouvir isso, levou a mão a boca, segurou um grito enquanto os olhos reviravam. Seus ouvidos começaram a sangrar. Ameaçou a cair, mas seu pai o segurara.
– Filho, você está bem? Filho?
– Sim, pai. É só que... Há algo. Não lembro de nada. Meu gravador. – levou a mão ao bolso. – Onde está meu gravador?
– Deve estar no seu quarto.
Ele esboçou um pequeno sorriso para seu pai ao chamar sua sala psiquiatra de quarto.
Ele correu tonto em direção ao quarto depois de um mórbido sorriso.
Fernando alcançou a alavanca de ferro do quarto em meio ao desespero, seu gravador estava deitado no chão, no fundo da sala, zumbindo palavras fracas, Fernando tentou alcança-lo e leva-lo ao ouvido para ouvir melhor a história que era sussurrada às falhas.
– Bzzz... bzz.. Mas comzzzz – o gravador parava da funcionar. A luz do visor piscava, falhando.

Então silenciou-se por fim.

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