Voltei por você (literalmente)
1 Todos os amigos de Lily Luna
Notas iniciais
Lily Luna era a mais dócil e gentil neta da senhora Weasley. Nas palavras de sua prima Dominique ela também era “inconveniente e estupidamente distraída”.
Lily, no sexto ano da Grifinória, era mais comumente conhecida pelo apelido de Lilo, embora ela adorasse seu nome. Lily adorava nomes compostos. Achava os nomes compostos não-sonoros de seus irmãos mais velhos, Tiago Sirius e Alvo Severo, as gracinhas mais bem inventadas por seus pais.
Também era apaixonada pelos nomes dos melhores amigos, Hugo Arthur (também seu primo) e Colin Harry (uma homenagem adorável ao seu pai).
Pouca coisa incomodava Lily. Tanto que seu irmão Tiago Sirius costumava dizer que ela era como um cupcake com vida.
Lily Luna tinha muitos amigos em Hogwarts. Ela adorava tagarelar e ocupar os ouvidos alheios com sua voz suave e rápida.
O Barão Sangrento, por exemplo, era um dos fantasmas amigos de Lily. Ele adorava brincar de assustá-la quando eles se encontravam pelos corredores e ficava berrando para que ela parasse de falar (uma vez muitos alunos nas masmorras desataram a correr depois que ele começou a sangrar sem parar nas vestes, gritando por ajuda para o professor Slughorn), mas Lily entendia que ele só tinha medo da aproximação de humanos vivos. Lily continuou contando como tinha sido a aula de Poções antes de subir as escadas.
A Dama Cinzenta também era muito sua amiga. Ela era tão tímida que ficava invisível e parava de responder quando Lily aparecia. Ela pouco respondia, como o Barão Sangrento, que sempre a ameaçava de morte (com uma faca, algo assim), e desaparecia assim que via Lily. No entanto, Lily continuou a falar com ela por todos os anos de Hogwarts, já que supôs que a vida de fantasmas devia ser muito triste e solitária (ainda mais da Dama Cinzenta que era obrigada a ver o ex-namorado assassino todos os dias).
Nick-Quase-Sem-Cabeça já era mais sociável. Ele adorava responder todas as perguntas de Lily e por vezes a procurava pelo castelo. Teve uma vez que ele adentrou o dormitório feminino da Grifinória e o resultado foi catastrófico. As suas companheiras de quarto desataram a gritar e correr. Lily e Nick decidiram bater papo só fora do Salão Comunal.
Pirraça, o poltergeist, já era muito agressivo para Lily querer como amigo. Ele a insultava e gritava pelos corredores, o que, na opinião de Lily, não era uma boa maneira de manter uma conversa nem uma amizade. Era um dos poucos que Lily não considerava uma companhia agradável.
— PIRADA POTTER FALANDO SOZINHA DE NOVO! – insultava Pirraça.
— Estou falando com a Dama Cinzenta! – reclamava Lily. – Desculpe Helena. Ele é muito grosseiro. – explicava para a invisível Dama.
Os elfos domésticos também adoravam Lily. Ela sempre ia à cozinha perto da Sala Comunal da Lufa-Lufa. Ela fazia cócegas em uma pêra num quadro de cesta de frutas e entrava, como ensinou seu tio Jorge.
Todos os elfos domésticos pareciam treinados para alimentar Lily, de modo que quando ela botava o pé para dentro, pelo menos uma vez por semana (Lily era apaixonada por sobremesas), algum enfiava um bolinho na boca dela, impedindo-a de falar. Eles faziam caretas para ela, que falava mesmo com a boca cheia, elogiando os dotes culinários deles, pedindo algum doce especifico ou simplesmente falando algo aleatório que pensou no momento. Eles gostavam bastante de se amontoar, encher o colo de Lily de pratos com doces e a empurrar porta afora. Lily os achava amigos maravilhosos porque eles sabiam seus gostos açucarados preferidos. Parecia que tinham decorado só para jogar em cima dela quando ela entrava cozinha adentro. Ela ficava chateada porque isso diminuía o tempo de conversa com seus (em média) cem amigos pequeninos.
Ela também gostava muito de conversar com a Lula-Gigante, que por razões de idioma inteligível, não era compreendida por Lily.
Uma vez, no quarto ano, ela explicitou o desejo de ir até a Floresta Proibida conversar com os centauros. Tiago Sirius, ao perceber que ela falava sério, a fez prometer que não ia. Escreveu até para os pais dos dois de tão preocupado. Lily achou um exagero e foi uma das poucas vezes que ficou chateada com o irmão mais velho.
Ela estudava serêiaco na esperança de fazer alguns amigos sereianos. O problema era que não era muito boa na pronuncia e ninguém queria treinar com ela.
[...]
Foi assim, pela facilidade e encanto por fazer amigos, que Lily e Hugo viraram amigos de Colin.
A família de Colin era cercada de trouxas, já que seu pai, Denis Creevey, era originalmente um filho de trouxas. Alguns primos e amigos que Colin fez antes de entrar em Hogwarts eram trouxas e ele os adorava.
Colin era um grifinório normal até seu quarto ano, ano em que parou de falar. Lily foi a primeira a notar sua apatia.
Ela estava debatendo com Hugo a possibilidade de descer até a cozinha e pegar um pedaço de pudim, já que Hugo estava com um hematoma horroroso no rosto de um balaço que recebeu no treino de quadribol (era goleiro). Ela também fez um Feitiço Duplicador nas anotações de Hugo da aula de História da Magia daquela tarde, porque ela não conseguia escrever com tinta. Lily sempre borrava o pergaminho, deixava rastros de tinta preta, tentava consertar com a mão e piorava a situação, então, no terceiro ano, simplesmente parou de fazer anotações.
Até o terceiro ano ela perdeu muitas notas nos deveres por conta disso. Perdeu alguns pontos para Grifinória também. Depois do terceiro ano aprendeu a fazer um Feitiço de Ditação, que deixava o pergaminho pairando ao seu lado enquanto ela ditava o texto e a pena simplesmente escrevia tudo que ela entoava. Melhorou muito suas notas e deixou seus pais mais tranqüilos quanto ao seu futuro.
— Não quero pudim. – reclamou Hugo, um rapaz tão ruivo que seus cabelos brilhavam como um farol, arrepiados para cima. Era também corpulento, de olhos castanhos, algumas pintinhas ao lado da boca e nariz torto. – Quero que minha bochecha pare de doer. – resmungou.
O lado direito do rosto dele estava arroxeado e verde, o que Lily achou muito atraente, todo colorizado com aquele laranja de seus cabelos. O problema é que também estava inchando loucamente.
— Ala hospitalar. – cismou Lily.
— Nem que você aprenda serêiaco e faça uma delas me comer vivo. – respondeu Hugo. – Não vou demonstrar fraqueza pro time da Corvinal.
Lily revirou os olhos discretamente.
— Você perdeu um dente.
— Posso viver sem ele. – sorriu Hugo.
Ele tinha perdido um dentro de trás, provavelmente um siso, o que fazia dele um sortudo. Lily o guardou para o caso dele precisar futuramente.
— Você não quer pudim porque está doendo pra mastigar. – adivinhou Lily.
Hugo fez cara de falsamente culpado, a mão na bochecha inchada, desfazendo a careta de dor.
— Você está claramente correta, Lilo. Você não sabe algo pra desaparecer com esse machucado? Quero dizer, você faz pergaminhos levitarem e escreverem.
Ela balançou dramaticamente a cabeça em negativa. Seus cabelos ruivos, bem mais claros do que os de Hugo, beirando ao loiro, se balançaram junto, roçando no rosto do primo e em seus olhos.
— Para Lilo! Você vai me cegar!
— Desculpe. – pediu ela, focalizando de novo os olhos no garoto Colin, que estava apático perto da lareira.
Colin Harry tinha cabelos loiros (quase castanhos) e os olhos cinzentos. Era fã empolgado do time de quadribol da Grifinória e adorava usar uma velha câmera fotográfica para registrar os jogos.
Até voltar das férias de natal.
Agora, Colin era uma figura patética, jogado de lado, andando por ai como um dos fantasmas amigos de Lily. Ele não entregava os deveres das aulas, não falava mais com os amigos, mais de uma vez teve reunião pessoal com o diretor da casa, o professor Longbottom, não estava ansioso para o jogo contra a Corvinal que se aproximava, não comia e por mais de uma vez faltou às aulas.
— O que você acha que aconteceu com ele? – perguntou Lily para Hugo, que tocava delicadamente seu hematoma com os dedos, como se fosse um vício.
— Você não ouviu? – perguntou Hugo, surpreendido. – Esqueço que você só ouve o que quer. Ele perdeu o amigo trouxa.
Lily Luna ficou confusa.
— Perdeu? Perdeu aonde? O feitiço accio não funciona com pessoas?
Hugo deu tapinhas no ombro de Lily.
— O amigo dele se matou, Lilo.
Os olhos castanhos de Lily se abriram, horrorizados. Ela nunca tinha ouvido falar de alguma tragédia daquelas com algum conhecido. Ficou sensibilizada e triste por Colin. Ela se levantou e foi até a figura de Colin. Os colegas passavam por ele como se não existisse. As conversas, as gargalhadas, os insultos pelos deveres, tudo parecia extremamente banal para Lily perto da dor de Colin.
— Sinto muito.
Lily o abraçou. Colin chorou por muito tempo no abraço dela e foi assim que se tornaram amigos.
[...]
Lily Luna era sonâmbula, mas isso acontecia raramente. Pelo menos uma vez por ano acordava em lugares que não sabia como tinha ido parar, o que foi extremamente constrangedor de explicar no primeiro ano de Hogwarts. Seus pais tiveram que enviar uma carta para a diretora Mcgonagall acreditar na história maluca quando ela apareceu, aos onze anos, na porta de seus aposentos, exigindo, aos gritos, que Alvo Severo fosse imediatamente transferido para Grifinória, já que o irmão estava na Sonserina há dois anos.
— Alvo tinha medo de ir para Sonserina! – berrou uma adormecida Lily de onze anos na porta dos aposentos de Minerva Mcgonagall. – Devolva-o à Grifinória!
Porém, naquele sexto ano durante a madrugada, ela acordou em um salão cheio de armários idênticos. Para seu consolo, estava sozinha e não tinha gritado com ninguém. Suspirou alto, se preparando para ver o estrago que o sonambulismo tinha causado.
— Lumus.— ordenou Lily para a varinha.
Os armários eram cinza e cheios de gavetas. Lily contou dezenas de corredores deles. Havia alguns que balançavam perigosamente. Outros faziam sons estranhos, como melodias que a deixavam sonolenta ou rosnados perigosos. Ela chegou perto de uma gaveta aleatória e empoeirada. Viu letras entalhadas na porta das gavetas. Ao abrir uma ao acaso, achou fichas de estudantes que já tinham se formado. Havia fotos, nomes completos, notas, detenções, pontos tirados, prêmios, posições em clubes. Era um amontoado de compilações de toda a vida do estudante em Hogwarts. Curiosa, procurou por alguns minutos o “P” (de Potter) para fuçar a ficha de seu pai. A ficha de seu pai era ouro puro, cheia de aventuras que ele pouco contou aos filhos. Trasgo no primeiro ano. Basilisco no segundo. Centenas de dementadores no terceiro (e um fugitivo de Azkaban!). Torneio Tribruxo no quarto. Um clube secreto de alunos no quinto. Caramba! Harry Potter ia passar por um interrogatório sofrível nas férias feito pela curiosa filha (ela não estava fazendo nada de errado, tinha chegado ali sem querer).
Procurou pelo Weasley, da sua mãe, em seguida. Demorou um pouco para achar. Eram muitos Weasley. Além disso, perto das fichas de seus tios Jorge e o falecido Fred, estavam muitos artigos mágicos confiscados. Alguns dos artefatos davam medo por sua aparência. Outros pareciam inofensivos. Lily se esqueceu de procurar a ficha de sua mãe e analisou os objetos.
Achou uma coisa brilhante e não empoeirada no meio das relíquias Weasley. Não estava tão velha como as outras. Era parecida com uma ampulheta pequena de ouro. A areia dentro era dourada também. Tinha uma delicada corrente de ouro para o dono pendurá-la no pescoço.
Lily colocou a varinha perto dos arquivos para ver a quem tinha pertencido o objeto.
Molly II Weasley.
Sua prima Molly! Aquilo era um vira-tempo! O vira-tempo que Molly usou para assistir todas as aulas até seu sétimo ano em Hogwarts (a pobre Molly sempre estava cansada por isso) (se bem que com seu atual cotidiano por ser medibruxa não tinha melhorado nada, Lily suspeitava que ela gostasse de viver a vida beirando a exaustão).
Lily estava quase, irresponsavelmente, experimentando o vira-tempo. Foi quando aquela gata feiosa do zelador, Madame Norra, que Lily suspeitava ser uma fênix encarnada em gato porque nunca morria, a encontrou.
O próprio Filch entrou pela porta alguns minutos depois. Lily deixou o vira-tempo escorregar para dentro da roupa íntima (já que pijamas não tinham bolsos, o que para ela, àquela hora, foi uma inconveniência) e fez cara de paisagem.
Argo Filch não pareceu feliz de ter percebido que era ela.
— TE PEGU...! Ah, Potter, é você. – constatou desapontado, apontando o lampião para os olhos dela, fazendo-a recuar pela claridade. A gata ficou ronronando nos pés do zelador.
— Eu e meu sonambulismo. – confirmou Lily vendo o desagrado de Filch.
— Ainda acho que você é uma bruxa mentirosa. – Filch fez um sinal para que ela saísse porta afora, a gata os seguindo. – De volta ao dormitório.
Lily, andando desconfortavelmente pelo vira-tempo no meio das pernas, resmungou de volta:
— Seu gato deve ter uma pedra filosofal.
Argo Filch olhou para ela visivelmente confuso e irritado.
Notas finais
Não seja fantasma, por favor :) Seu comentário é essencial para meu animo de escritora e eu gosto de conversar por aqui.
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