Voltando à Viver
31 Epílogo - Voltando a Viver
CHLOË
Eu mal acreditava no que havia acontecido.
Na noite anterior, eu havia ido dormir como uma morta-viva. E agora... agora...
Encarei minhas mãos coradas, sentindo vontade de chorar, quando me levantei com Ryan de nosso ninho improvisado.
A minha volta à humanidade já fora aterradora por si só. Mas tudo tomou um caminho inesperado... deliciosamente inesperado.
Não havia nenhuma justificativa para o que aconteceu entre nós dois. Eu simplesmente estava tão feliz por me ver humana outra vez que aquilo causara a necessidade irracional de que tudo acontecesse.
Eu não tinha mais dúvida alguma. Ryan era o garoto da minha vida...
Precisei daquilo como, agora, novamente, precisava do ar para respirar. Precisei de seu corpo, de seus lábios em mim... de tudo aquilo, para expurgar o resto de angústia e de memórias sombrias que ainda restavam em mim.
E Ryan havia sido dão maravilhoso, tão carinhoso, que minha vontade de chorar ao lembrar só aumentava a cada minuto.
Meu coração recém-curado nunca batera tão vigorosamente, antes ou depois da minha morte.
Mas, depois de tudo, eu realmente não esperei receber, após uma manhã já fantástica, um pedido de casamento.
Minha vontade era de gritar, chorar e cantar de alegria.
Não foi fácil contar nenhuma das três — duas, no caso dos meus pais, lógico — novidades que haviam ocorrido comigo naquela manhãzinha.
Minha família, obviamente, pirou quando me viu completamente humana outra vez.
Para minha surpresa, naquela mesma manhã, descobri que papai melhorara inesperadamente. Ainda estava um bocado pálido, e comeu uns dois ou três baços durante o dia, mas estava quase tão bem quanto eu.
Explicarmos para os Baxter e para meus pais que Ryan e eu estávamos noivos é que foi o cão.
– O quê? — arfou papai.
– Alô? Fim do mundo.... eu amo esse garoto... por que esperar? — bufei, revirando os olhos.
– Ah, querida... estamos tão felizes — mamãe sorriu, acotovelando papai. Parecia contente da vida com a novidade.
O que definitivamente me impediu de comentar que já havíamos tido uma nefasta, maluca e inesperada lua-de-mel ali mesmo.
Gail bateu palmas.
– Ah, não creio! Vou ter uma cunhada! — brincou ela.
Pim apareceu, sabe-se lá de onde, no meio das pernas de mamãe, olhando pasmada para mim.
– Cê tá gente di novu? — murmurou, parecendo um bocado na defensiva.
– Sim — ri, me adiantando e afagando os cabelos rebeldes de Pim — e logo, logo, você também vai ser outra vez.
– Com certeza — Ryan surgiu atrás de mim, enlaçando minha cintura e plantando um beijo em meu ombro. Papai olhou feito, mas não comentou nada.
Meu estômago recém-curado ainda não voltara a se acostumar com comida humana, mas eu engoli o almoço da tarde com uma voracidade que assustou Ryan o suficiente para provavelmente lembra-lo de minha fome zumbi. Ele ria e sorria o tempo todo, me fazendo sentir contrações de carinho em minha barriga.
Eu amava demais aquele moleque. Era um amor tão insano e tão grande que eu me perguntava como aguentava senti-lo.
– Com fome? — Ryan piscou.
– Cheia — sorri, enchendo a boca de Doritos. Ryan mordiscou um dos pedaços que ainda estava dependurado em minha boca, me fazendo rir. Garoto bobo.
Apertei a mão que ele me deu, pensando no como tudo estava voltando à ter sentido outra vez.
_______________________OO_________________________
Nas duas semanas seguintes, tudo se resumiu ao tratamento dos zumbis no shopping, a divulgação do tratamento em outros núcleos de sobreviventes e o início das operações de reabilitação nas comunidades mais próximas.
Papai e Pim se curaram completamente uma semana depois de mim. Finalmente começamos à nos acostumar com a menininha alegre e serelepe que entrava todo santo dia na casa de Ryan para vir brincar comigo. Queria dizer que não era nenhuma pedagoga para ficar jogando Uno o dia inteiro com a peste, mas o entusiasmo de Pim era contagiante. Não tinha como dizer não para aquela garotinha.
No meio da segunda semana, Ryan e eu fizemos uma cerimoniazinha reclusa dentro da loja da Adidas, com Gail nos casando numa cerimônia quase hippie — eu de calça jeans e blusa azul, e Ryan com suéter e calça de moletom. Teria sido engraçado se não tivesse sido tão bizarramente perfeito e alegre. Rolou até um bolo fossilizado de chocolate para representar o bufê. Mamãe chorou horrores, papai ficou com aquela expressão carrancuda a festa inteira, e os Baxter pareciam oscilar entre as duas emoções, encarando o filho com um misto de alegria e desespero.
– Quando essa loucura toda acabar — Ryan me disse mais tarde, enquanto desfrutávamos de nossa "segunda lua-de-mel" — quero oficializar tudo no papel.
– Pra quê? Já não sou sua em todos os sentidos? — olhei para ele, surpresa.
– Só falta nesse — ele riu, beijando meu ventre e iniciando uma tilha de beijos em direção ao meu pescoço.
– Até que a morte nos separe — murmurei, rindo — irônico, não é? Foi a morte, na verdade, que uniu nós dois...
Ryan me olhou, com um meio sorriso que me deixou sem fôlego.
– Sim... e foi ela quem deixou começarmos uma vida juntos... uma vida longa e verdadeira... — ele beijou minha testa, acariciando minha bochecha.
Me aninhei em seu corpo, sentindo-me leve e estupidamente contente.
__________________________OO____________________________
Em menos de dois meses, o estado todo de Washington já havia aderido ao tratamento dos zumbis. A população de mortos-vivos caiu drasticamente, enquanto as comunidades humanas aumentavam e se expandiam cada vez mais. Segundo Garret, mais de quinhentos zumbis estavam sendo tratados em todo o território americano. Se continuassem progredindo, Gail estimou que, em menos de um ano, toda a população estadunidense já estaria sendo no mínimo reabilitada, se não já curada.
Nesse meio tempo, as coisas no shopping começavam a se ajeitar. Com a diminuição de zumbis nas ruas, as incursões ficaram mais longas e abrangentes, até por que, agora, o objetivo não era mais matar, e sim apenas procurar alimentos e roupas. Aos poucos, ali começou à se tornar, de certa forma, um verdadeiro conjunto habitacional, enquanto consertava-se os encanamentos e a rede elétrica. Doutor Shawn conseguiu até abrir um pequeno ambulatório com sala cirúrgica aonde, antes, havia sido um laboratório anexado ao shopping.
E essa novidade veio no tempo certo.
________________________OO_________________________
Dali a cinco meses, soubemos que oitenta por cento do território americano já havia sido livrado de qualquer zumbi. Garret anunciou à comunidade que o programa de reabilitação estava finalmente sendo expandido para os países mais próximos. Inglaterra e Brasil foram os primeiros contatados, e iniciaram os programas assim que foram aprovados nos Comitês de cada núcleo.
Ryan sorriu assim que ouviu a notícia. Parecia contente da vida por ver o que ele havia começado de modo tão simples e insano fazer efeito em toda a humanidade.
– Estou orgulhosa de você — abracei-o — olhe só o que você fez...
– Tive meus motivos — ele respondeu, levando a mão até minha barriga. Senti-a escorregar pela protuberância que começava a crescer em meu ventre. Segurei sua mão ali, imaginando que Ryan tocava a pequena e linda inquilina que agora crescia em meu corpo.
O bebê chutou, fazendo nós dois pularmos de susto.
– Já decidiu o nome?
– Hum... — mordi o lábio — que tal... Laisa? É um nome lindo...
– Bonito — Ryan abriu um sorriso estonteante — é. Laisa... Laisa Baxter...
– Eu ainda prefiro Helena — bufou Gail, se metendo na conversa com sua não menos avantajada barriga.
– E o seu devia se chamar Buzz — brinquei — por que a mãe só sabe zunir no ouvido dos outros.
Ryan gargalhou, enquanto Gail fingia fechar a cara para mim.
Eu tinha minha família de volta... amigos que agora seriam inseparáveis... um marido fantástico, que salvara minha vida — ou minha morte- de todas as maneiras possíveis. E agora, aquela pequena fagulha de felicidade crescendo dentro de mim.
Tinha como tudo estar ficando mais perfeito?
Isaac — que crescera quatro meses desde que se curara — agarrou minha perna, como se quisesse responder minha pergunta mental.
Ah... não. Achei que não.
Por que, contra todas as convenções, expectativas e esperanças possíveis, eu e tantos outros zumbis estávamos tendo um destino muito mais digno e humano do que levar balas na cabeça. Estavam sendo curados por algo que, agora, era completamente previsível e óbvio. Amor, cuidado, amizade e compaixão eram humanos demais para que um zumbi não fosse contaminado com os mesmos sentimentos.
E não só os zumbis, como também nós, humanos, estávamos finalmente fazendo algo em comum. Algo que nos unia numa fraternidade inesperada e — por mais estranho que parecesse — entrelaçada...
Voltando a viver.
Fale com o autor