Voltando para casa

1 Capítulo único


Vinha, em meio ao labirinto de casas, carregando sua mochila. Ao canto, pisava folhas secas. Apesar de lentos, eram confiantes seus passos, mesmo que não olhasse para a rua asfaltada — a cabeça mantinha-se levantada e fixa. Porém não se atentava ao azul que morria, nem às folhas, as que teimavam e não cediam mas chacoalhavam ao vento. Os olhos da menina, às vezes, fugiam à sua volta e ela permitia-se rápidos movimentos de cabeça, deveras deslocado, para um lado e para o outro, seus olhos bem abertos. E no alivio de não encontrar ninguém, acelerava seus passos. Freava um à premonição de que se aproximavam, então retomava sua calma dissimulada.

Se um daqueles ocasionais transeuntes, retardasse o passo a fim de fitar-lhe o belo rosto, não poderia adivinhar o que ocultava impassível, achando demasiado frio e esquecendo tratar-se de uma garota, sentir-se-ia apreensivo.

Dessa feita, também de uniforme, este que consistia em saia xadrez de pregas e camisa branca, avançava outra garota. Cantarolava com seus exames numa das mãos. Ao passar, acenou. Retribuiu o cumprimento, mas não foi capaz de retribuir o sorriso. Hoje também recebera seus testes. Seus pais tinham orgulho de suas notas; sempre fora excelente aluna. Na presença de amigos, que antigamente vinham visita-los, gabavam-se deixando-os sem-graça e talvez envergonhados de seus filhos. Uma única vez ousara tirar um sete. No mesmo dia, fora merecidamente repreendida, mais que repreendida, o castigo necessário impedira-lhe de assistir às aulas por alguns dias, só até que os hematomas fossem menos visíveis e fosse possível esconde-los ou mentir.

Contudo, o dia de hoje era diferente, pois não recebera um sete, longe disso, recebera um cinco. Um grande, vermelho e circulado, acompanhado de recomendações e censuras de uma professora preocupada.

Sempre que podia, acelerava o passo.

A saia se agitava ao vento. Só se fazia seus sussurros e o solitário latido ao longe. Ao vento, as arvores se tornavam conjuntos de vultos. Ainda não havia se escurecido o suficiente para os postes se acenderem. A menina observava os primeiros pontos de luz que fugiam da espessa cortina de nuvens. Fechou seus olhos suavemente e, caminhando, sonhava.

Ao recebe-la, não houve o menor tremor, nem na fala, nem na face, apenas sorrira e agradecera. A avaliação ficara lá mesmo, esquecida em cima da carteira. Os últimos acontecimentos tornavam a nota infinitamente insignificante, assim como seus pais, aos quais era incapaz de temer.

Nesse trecho em que o estrondo de motores era sem fim, e era impossível fugir aos olhos, mantinha os seus semicerrados. Atravessa cruzamentos, sonambula. Não existia. Não era real e sabia que nada no mundo poderia lhe ferir.

Desviavam, uns buzinavam repetidas vezes e motoristas esbravejavam de suas janelas. Quase causou mais de um acidente, porém não despertara. Era nele que se centralizava o universo. Sua mente vagava pelas possibilidades, se deleitava com o que ele lhe mostrara.

Refletia sobre os impulsos que nunca deixou de sentir após conhece-lo; sempre pronta a se entregar. Mordeu o lábio inferior para conte-los. Sou uma outra pessoa. Um carro passou rente ao seu corpo. Quem, além dos pais, foi capaz de perceber sua alteração? Recordava a admiração daqueles que souberam dos cãezinhos abandonados que levou para casa, cuidou e arranjou-lhes um fim, os salvou. Tornou a morder os lábios, dessa vez para conter o riso que forçava a prisão que lhe impunha. De súbito, lembrou-se do velório de seu priminho, ela o vira chorando naquele mesmo dia, feito qualquer outro bebê, e morrera. Lembrou-se do caixãozinho branco e de sua tia em pranto abraçando-a. Abraçando-a. A ela. Então escaparam. Gargalhou. E um homem voltou um olhar inquisidor.

Deu-se com o telhado ao longe. Sorriu imediatamente. Só mais alguns passos. Deu um passo maior e outro imenso. Seus braços tornaram velozes pêndulos. Corria.

Abria a porta de sua casa. À menina pareceu distantes, mesmo que viessem da cozinha ao lado, um soluço antecedendo o som de um vidro se quebrando. Nenhum outro, de nenhuma espécie, se fez. A casa tornava-se silenciosa, abandona a séculos, mesmo que tão nova e limpa. Soltou as alças e deixou que a mochila deslizasse até o piso branco imaculado. Simplesmente arremessou, com chutes, seus sapatos, que voaram ao acaso pelo vestíbulo. A escada se encontrava logo à frente. Por nenhum momento deixara de sorrir. Olhava para cima enquanto subia as escadas. Atentou ao som oco de casco vindo de seu quarto. Depois, os pés batendo rapidamente em cada tecla e depois pulando uma. Os cabelos também batendo, despenteando-se. Uma gota escorrendo despercebida. Eternamente. Respirava fogo.

Escorada à porta, seu peito estava subindo e descendo, e seu sorriso tornou-se maior ao contemplar seu amante. À aguardava sentado na cama desarrumada, de lençóis cor de iogurte-de-morango, amassados sob seu peso. Tinha o mesmo sabor o guarda-roupas, os quadros e a penteadeira, nela estava uma confusão de produtinhos de beleza e, dentre eles, um gato apodrecia. Descruzou a perna e seu casco tocou o piso, repetindo o som oco. Ele segurava uma das pelúcias que ali reinavam, principalmente sobre cama de solteiro ou tapete felpudo. Distraidamente arrancava com as garras um dos olhos do ursinho branco. Seus olhos amarelos, nenhum arrancado, se erguiam e se fixavam na menina estancada. Então seus lábios vermelhos se repuxavam num sorriso de dentes brancos e pontudas presas. Estava nu e sua pele vermelha se destacava envolta ao rosa e paredes brancas. Nele destacava-se, entre as mechas de cabelo, os córneos.

A menina avançou lentamente até ele. Ajoelhou-se no colchão e seus braços se esticaram e envolveram. Fechou os olhos quando aconchegou sua cabeça ao peito. Deixaram-se cair. A menina afagou os cabelos e os chifres.

Notas finais
Apenas reescrevi essa história. Ficou diferente e mais claro. Por outro lado, sugere menos coisas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!