Voltando para as Estrelas
6 ✭ O Nascimento de Erétria ✭

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Em Greirhea, nascimentos não eram celebrações de paixão, mas procedimentos cósmicos. O surgimento de uma nova estrela, especialmente na linhagem real dos Dáiltes da Casa Sírius, era um evento de precisão astronômica, monitorado, medido e registrado com a solenidade de um alinhamento galáctico. O amor, como emoção crua, foi há muito exilado; e substituído pelo conceito de legado, a continuação calculada de uma linhagem de luz, um dever para com a estabilidade do Fluxo.
No Grande Salão Sírius, uma estrutura de cristal cantante e luz condensada que pairava sobre a capital celeste, o silêncio era absoluto e solene. Sacerdotes, com vestes que imitavam a escuridão pontilhada de estrelas, pareciam fantasmas ao se mover entre os orbes de monitoramento. Cada um media uma faceta do evento iminente: a vibração do Fluxo Cósmico, a ressonância da alma de Pétria, a pulsação do planeta-espelho que se formaria em uníssono com a nova vida. O líder da casa, e marido de Pétria, Alroy, estava presente, não como um pai ansioso, mas como um guardião. Sua postura era régia, seus olhos fixos no orbe central, onde a energia vital de sua consorte se manifestava como uma nebulosa dourada e turbulenta. Sua preocupação não era com a dor dela, mas com qualquer desvio que o evento pudesse causar no delicado equilíbrio universal. Um nascimento real deveria ser exemplar: limpo, harmonioso, perfeitamente alinhado com os ditames da Ordem.
Dentro da Câmara do Sopro de Luz, a realidade era muito menos clínica. Pétria não estava reclinada em serena meditação, como os manuais da Ordem sugeriam. Seu corpo estelar, uma forma humanoide, estava contraído sobre si mesmo. O processo, que a teoria descrevia como uma "transferência energética harmoniosa", era, na prática, um ato de dilaceramento e criação. Cada contração não era apenas uma onda de dor física, mas uma maré sísmica que abalava sua própria essência. Ela sentia o universo se dobrar ao seu redor, o Fluxo se concentrando em seu ventre como um buraco negro faminto por dar à luz uma nova galáxia.
— A ressonância está instável. — murmurou um sacerdote no Salão, sua voz soava como um alarme discreto.
— A estabilizem. A Casa Sírius não gera anomalias. — Alroy disse, ao cerrar os punhos, um gesto quase imperceptível.
Mas Pétria, em sua solidão, sabia que aquilo não era uma anomalia a ser corrigida. Era vida. Era a força primordial do Caos, a energia que a Ordem tanto se esforçava para negar, abrindo caminho através de seu corpo. Ela se lembrou de histórias sussurradas, fragmentos de lendas proibidas sobre a Era da Emoção, quando as estrelas nasciam de gritos de alegria e fúria, e não do silêncio. Por um instante, em meio à agonia, ela desejou aquela liberdade para a criança que estava por vir.
Então, veio o momento. Um som rasgou o silêncio da câmara, não a melodia harmônica esperada, mas um grito. Um grito que era ao mesmo tempo de Pétria e da nova vida. No Salão, os cristais vibraram em discordância, emitindo um zumbido agudo. O orbe central tremeluziu violentamente. Uma esfera de luz ofuscante, menor e mais intensa que qualquer outra já registrada, emergiu do corpo dela. Por um instante, a luz foi tão branca e caótica que pareceu consumir todo o espectro, antes de se assentar em um tom dourado, manchado por veios prateados que pulavam como relâmpagos sob a pele.
E então, o primeiro choro da criança estelar ecoou. Não foi um som, mas uma onda de pura emoção que se propagou. Não era uma vibração de "existência sistêmica", mas um lamento cru de chegada, de separação, de ser. Por um breve momento, em todo o reino de Greirhea, as estrelas sentiram um eco fantasma de algo que haviam esquecido: a dor pungente e bela da solidão.
— Flutuação de 3.7 no Fluxo Primordial. — anunciou o sacerdote-chefe, sua voz carregada de uma gravidade que não ousava se transformar em medo. — Anomalia registrada.
Alroy olhou para a pequena forma de luz que agora repousava nos braços de sua mãe. A criança era pequena, mas sua energia era densa, quase pesada. Ele sentiu o amor que a Ordem o ensinara a chamar de "responsabilidade pelo legado", mas sob essa camada de doutrina, algo mais se agitou: uma apreensão ancestral.
Pétria, ignorando os protocolos e os olhares dos assistentes, aninhou a filha contra seu peito. A luz da recém-nascida era quente, irregular, viva. Ela olhou para o rosto minúsculo, onde os olhos ainda não haviam se formado, mas a intenção já brilhava. Em um dialeto antigo, quase esquecido, uma língua que celebrava a dúvida e a paixão, ela sussurrou o nome que guardara em segredo em seu coração.
— Erétria... — ela disse, a palavra um ato de rebelião silenciosa.
No mesmo instante, a milhões de anos-luz de distância, o planeta-espelho de Erétria completou sua formação. Não era uma esfera de harmonia pastoral. Era um mundo de extremos selvagens. Montanhas pontiagudas rasgavam os céus, tão altas que arranhavam as órbitas de suas próprias luas. Oceanos profundos e turbulentos escondiam uma vida feroz em suas fossas abissais. Havia florestas de cristais que cantavam com o vento e desertos de areia prateada que mudavam de forma com as marés emocionais de sua estrela-regente. Era um mundo de beleza perigosa. Um mundo, como sua estrela, que se recusava a ser simples.
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Os primeiros ciclos de vida de uma estrela pertencente a uma Casa Alta eram passados em reclusão, naquilo que era chamado de "Estufa Anímica". Não era um quarto de criança, mas um ambiente de contenção, uma câmara esférica onde a luz, o som e as frequências energéticas eram meticulosamente controladas para moldar a jovem consciência de acordo com os princípios da Ordem. O objetivo era claro: instigar o equilíbrio, a racionalidade e a supressão de qualquer impulso caótico. Com Erétria, a Estufa estava constantemente em estado de reajuste.
Seu irmão mais velho, Theryon, quatro ciclos à sua frente, havia sido um pupilo exemplar. Sua presença na Estufa era calma e estável; sua luz pessoal, um brilho constante e sereno. Ele absorvia as lições de controle com uma facilidade inata, sua mente já se alinhando com a lógica fria e o dever que se esperava do herdeiro da Casa Sírius. Erétria, por outro lado, era uma tempestade em miniatura.
Quando ela ria, um som borbulhante e contagiante que Pétria ouvia às escondidas com o coração apertado, os cristais de luz que pendiam do teto da Estufa não apenas brilhavam mais intensamente; eles chacoalhavam e por vezes desenvolviam pequenas fissuras, incapazes de conter a pura alegria descontrolada. Os tutores registravam o evento como "surto de emissão energética" e ajustavam as frequências para "acalmar" o ambiente.
Quando ela se frustrava durante uma lição, ela não ficava quieta. Um tremor sutil percorria o chão. Pequenas ondas se formavam nos tanques de névoa nutritiva. Os tutores chamavam isso de "resistência à harmonização" e prescreviam períodos mais longos de silêncio indutivo.
Mas a diferença mais gritante era sua curiosidade. Theryon aceitava. Erétria questionava.
— Mestre Lyren — ela perguntou uma vez a seu tutor, uma estrela antiga cuja luz era pálida e fraca. — Por que o amor deve ser apenas legado? O que acontece com a parte que... queima por dentro?
Mestre Lyren parou, seu corpo tremeluzindo com desconforto.
— A queima, jovem estrela, é ineficiência. É o Caos tentando desequilibrar a equação da existência. O amor funcional, o legado, é eterno. O sentimento que queima... se consome e vira cinzas. Como Vaernox.
O nome foi dito em um sussurro, um deslize, e o mestre se arrependeu no instante seguinte. Mas Erétria o agarrou.
— Vaernox? Quem foi Vaernox?
— Uma lição decautela. Nada que deva ocupar sua mente. — respondeu ele, encerrando a conversa abruptamente. Mas a semente estava plantada.
Sua relação com a família era um reflexo dessa dicotomia. Pétria a amava com uma intensidade que ela própria era forçada a esconder. Nas raras ocasiões em que estavam sozinhas, a rainha ensinava Erétria a sentir a textura da luz, a ouvir a canção de um planeta distante, a reconhecer a beleza na imperfeição de uma nebulosa disforme. Eram seus pequenos atos de rebelião, gotas de água tentando impedir que a alma de sua filha se tornasse um deserto.
Alroy, por outro lado, via em Erétria um projeto a ser corrigido. Ele a amava, à sua maneira distante e regrada, mas seu amor estava entrelaçado com o medo. Medo de que a "anomalia" de seu nascimento fosse um presságio, medo de que sua intensidade trouxesse desonra à Casa Sírius, cuja reputação se baseava em sabedoria e controle impecáveis. Suas interações com ela eram quase sempre instrutivas, focadas em seu dever, em seu papel, em suas falhas.
Mas era com Theryon que a dinâmica se tornava mais dolorosa. Ele não era cruel. Pelo contrário, ele encarnava o ideal de um irmão mais velho da Ordem: um protetor, um guia. Ele se esforçava para ensinar Erétria.
Numa tarde, no Salão das Constelações, ele a estava instruindo sobre como canalizar a luz de Sírius para criar um escudo protetor. Era uma das habilidades fundamentais de sua linhagem.
— Se concentre, Eri. — disse ele, sua voz calma e paciente. — A luz não responde à vontade, mas à clareza. Esvazie sua mente de tudo o que não seja o propósito. O escudo é uma afirmação de ordem contra a desordem.
Theryon demonstrou. Um disco de luz pura, perfeitamente circular e impenetrável, materializou-se diante dele, sem um único cintilar de instabilidade.
Erétria fechou os olhos e tentou. Ela tentou esvaziar a mente, mas sua mente não era um espaço vazio. Era um cosmos em si, cheio de ecos de risadas, sombras de frustração e a pergunta persistente sobre Vaernox. Ela pensou em proteger, não como um conceito abstrato, mas no desejo visceral de proteger sua mãe dos olhares tristes e seu pai da decepção. Impulsionada por esse sentimento, ela estendeu as mãos.
Um escudo se formou. Mas não era um disco frio e perfeito. Era uma cúpula de luz dourada, quente e pulsante, que ondulava suavemente, como uma respiração. Era mais brilhante que o de Theryon e, talvez, até mais forte, mas era visivelmente viva.
Theryon observou por um momento e depois desfez sua própria criação.
— Está instável. — declarou ele, não com malícia, mas com a objetividade de um mestre apontando uma falha. — Você está usando emoção como combustível. A energia é mal direcionada, o foco é difuso. É ineficiente.
Ineficiente. A palavra a atingiu como uma pedra. Não era "errado" ou "fraco". Era pior. Era inútil. Em um universo que prezava a função acima de tudo, ser ineficiente era a maior das falhas. Naquele dia, olhando para o brilho perfeito e desapontado de seu irmão, Erétria fez uma promessa silenciosa. Ela provaria a ele, a seu pai, a todos, que ela poderia ser tão boa quanto ele. Ela se tornaria eficiente. Ela aprenderia a ser perfeita.
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