Voltando à Viver
21 Implosão
CHLOË
Eu realmente não estava gostando muito da presença dos novos intrusos da Clínica.
Julia era petulante como uma mula, apesar de nós termos nos identificado com um interesse em comum: Skype. Julia adorava animais, mesmo depois de morta, e se apaixonou pela calopsita assim que a viu. Ryan tinha ficado assustado ao vê-la avançar em Skype, mas pareceu barbaramente surpreso quando ela pegou-a nas mãos e aproximou Skype da bochecha para afaga-la com o rosto.
Já Pim era uma "pimstinha", como Ryan começou a chama-la.
– Ryan... a menina já tem um apelido — lembro de ter resmungado enquanto Ryan tentava passar para Pim uma bandeja com dois estômagos sem que sua mão fizesse parte do bufê. Pim parecia um macaco que pulada de um lado para o outro, mas, apesar de tudo, ao contrário de dias atrás, não parecia arisca nem perigosa... apenas agitada.
Papai havia começado a conversar conosco poucos dias. Quando ele me chamara de "pardal", lembro de ter lutado para evitar que lágrimas sangrentas turvassem minha visão. Ele só vinha melhorando à cada dia.
– Chloë... — ele gemeu baixinho enquanto observávamos Pim brincar tontamente com a bola de plástico que Gail a presenteara — tudo bem?
Virei-me para papai. Ele me olhava de um modo cauteloso.
Não pude deixar de notar que sua pele havia ficado mais clara e sua fala mais compreensiva. Ainda tinha alguns ferimentos, que estavam fechando aos poucos.
– Estou bem, papai — murmurei em resposta.
– Queria comer... — ele balançou a cabeça vagamente para o pedaço de pizza crua que Ryan deixara sobrar no sofá.
Arfei baixinho. Desde o incidente de Julia com as balas de uva, Ryan e Gail não haviam tentado induzir os novos zumbis à largarem aos poucos a dieta de corpos.
Peguei o pedaço que jazia na caixa de papelão e o dividi em dois, dando um para papai. Ele olhou para a pizza crua e arriscou morder um pedaço. Vi sua boca se mexer como se tentasse mastigar.
– Ryan... — chamei.
Ryan veio até nós.
– O quê?
Revirei os olhos, indicando meu pai com a cabeça.
Papai engoliu o que mastigava com uma careta.
– Então? — Gail surgiu sabe-se lá de onde atrás de Ryan — Carl?
Papai olhou de um jeito entediado para Gail.
– Sim... dá para comer.
Suspirei, aliviada.
– Opa, mais um ponto no relatório — Gail catou rapidamente o caderninho de notas de cima do balcão e anotou ali com o lápis, botando a língua para fora na beira da boca, como um personagem de desenho animado.
Julia bocejou. Ia dormir de novo? Caramba, aquela garota só roncava...
Pim assistia a tudo impassível, como uma estátua, segurando a bola que ganhara como se dependesse dela para viver — quer dizer, para continuar morta-viva.
Ryan se aproximou de mim antes que eu percebesse. Um arrepio novo correu pelas minhas costas.
Me lembrei, com prazer, do dia anterior, quando eu tinha deixado meia dúzia de códigos éticos e morais para lá e o beijei. Morri de medo que Ryan recuasse, talvez tendo chegado à conclusão que nosso primeiro beijo havia sido apenas um experimento bobo e que nunca beijaria uma garota morta de novo.
Fiquei agradavelmente surpresa quando ele retribuiu de um modo que eu não esperava.
Mas preferiria levar mil tiros outra vez do que admitir que aquele pequeno agarramento me deixara quente em lugares completamente inapropriados para uma menina — morta ou viva — de família.
Caramba, eu devia ser uma raridade. Uma garota virgem viva decididamente já era uma pérola naquele mundo em caos. Uma morta-viva virgem, então, era um milagre imaculado.
Não podia deixar de sentir medo e angústia ao pensar que, mesmo que algo entre mim e Ryan evoluísse de tal modo que algo mais sério parecesse iminente, talvez ele não estivesse pronto. Talvez eu nunca me curasse, e Ryan descobriria que aquela paixonite passageira jamais o faria ser louco o suficiente para continuar com um cadáver ambulante. E eu não o impediria de me largar. Quem poderia continuar amando um corpo que já deveria ter sido morto e enterrado?
Ele sentou ao meu lado e pegou minha mão. A mão dele era quente, provocando pequenos espasmos de choque térmico em minha pele gelada. Meu coração saltou quando sentiu o contato.
– Tudo bem, Chloë?
– Aham — murmurei, ainda refletindo.
– Parece triste... — Ryan virou o rosto, preocupado.
Olhei para Ryan, me deixando afundar em seus olhos.
– Você vai acabar... descobrindo que tudo isso... é loucura, não vai? — arfei, tensa — que nós somos... perda de tempo...
Ryan arregalou os olhos antes de abarcar meu queixo com a mão.
– Chloë... se conseguirmos salvar quatro zumbis... só quatro... e provarmos ao Comitê que vocês podem se curar, tudo voltará a ser como era. Não entende? Assim que vocês se curarem, poderemos fazer um tratamento de cura em massa com os zumbis que ainda estão lá fora. Todos voltarão à vida que tinham antes. Poderemos salvar esse mundo e recomeçar do zero. Poderemos ver nossas famílias de novo.
Meu coração doeu quando lembrei de mamãe e de tio Fred.
Ryan tinha razão. Eu poderia ver minha família outra vez. E mesmo que eles já tivessem virado zumbis, poderiam ser curados. Ryan e Gail não estavam fazendo isso com papai e eu?
Papai parecia ter ouvido a conversa. Olhava com um misto de reflexão e raiva para nós — ou a raiva era só uma ciumeira paterna voltada contra Ryan?
– Makennah... — ele murmurou.
– Sim... — balancei a cabeça, segurando as lágrimas que já me embaçavam a vista — mamãe... o senhor lembra dela... não é?
Os olhos de papai pareceram brilhar. Ele assentiu.
Ryan olhava para nós, parecendo estranhamente calculista.
– Vou dormir... — gemeu Julia, se aninhando nas almofadas.
– Eu também. Partiu — brincou Gail, se ajeitando no sofá.
– Boa ideia — papai deu um sorriso torto que mostrava — literalmente — seus dentes, através do corte em sua mandíbula. Ele pousou a cabeça em outra almofada e se virou para o lado.
Passei a mão em suas costas, tentando fazer um afago desajeitado nele. Coitado do meu pai...
Ele tremeu com o contato, mas não se virou para mim outra vez. Devia estar cansado.
Pim ficou me olhando com aqueles olhos pretos arregalados. Me lembrava de um filme que eu havia assistido quando viva... o Exorcista. É, era igualzinha àquela menininha do filme. Só faltava o vestido branco ensanguentado.
Ela piscou de um jeito estranho e empurrou a bola que segurava, até que ela chegou aos meus pés.
Peguei a bola, rolando-a entre minhas mãos. Pim parecia aguardar que eu lançasse-a de volta, como um cachorrinho.
Joguei a bola de volta, mas calculei tão mal o lance que a bola teve um encontro bem macio na testa de Pim. Ela se desequilibrou e caiu no chão como uma bonequinha.
– Pim? — murmurei, preocupada com a falta de reação dela — tudo bem?
Ouvi um som que decididamente contagiou o ambiente. Algo estridente, infantil e nada cadavérico ou bestial.
Pim estava rindo.
Ryan e eu nos entreolhamos agradavelmente surpresos. Ryan sorria.
Pim se levantou, com um sorriso que, em todas aquelas últimas semanas, não havia passado de um esgar. Era um sorrisinho lindo, que fazia uma covinha aparecer em seu pequeno queixo.
Ela jogou a bola de volta para mim, ainda rindo. Era um quadro engraçado e ao mesmo tempo aflitivo: uma criança acinzentada, com os cabelos encaracolados cheios de nós e com olheiras negras nos olhos, um corpinho morto reavivado, dando uma risada completamente humana e viva.
Ficamos naquele jogo bobo por mais uns dois minutos, até que Pim deu um inacreditável bocejo, abraçou a bola e deitou no chão como um gato.
Fiquei olhando Pim cochilar no chão duro da Clínica, até que um instinto ancestral, superior aos instintos de zumbi, me fez levantar de onde estava, levando umas três almofadas em minha mão.
Aninhei as almofadas ao lado de Pim, e puxei seu corpinho para cima delas. Ela era leve como um saquinho de arroz.
Senti um movimento atrás de mim, e me virei para deparar com um cobertor que Ryan me estendia.
Nós cobrimos Pim e nos afastamos devagar.
Ryan sorriu de novo, me olhando.
– Nada mal, Chloë. Vai ser uma ótima mãe.
Arfei baixinho, me lembrando do que eu pensara minutos atrás.
– Se eu for... — gemi, angustiada — se... eu for humana... outra vez.
Ryan segurou meus braços. Olhei para sua expressão séria.
– E vai... — ele acariciou uma mecha de meus cabelos — Você vai voltar ao normal. Vai ver sua família. Vai fazer sua própria família, e vai ter uma vida de verdade outra vez.
– E você faria... parte dela? — indaguei, me sentindo perdida.
Ryan me abraçou, rindo.
– Claro que vou fazer... enquanto você quiser, é claro — ele suspirou — não vou te prender por nada... você não tem nenhuma dívida comigo só por que eu estou te ajudando... vai estar livre para gostar de quem quiser.
– Mas eu gosto... de você — franzi o cenho — não quero mais ninguém.
– Até por que sou o único garoto com quem você teve um contato prolongado — ele revirou os olhos. Ficava tão lindo quando fazia isso... — você vai ter muito o que viver quando tudo isso acabar. Pode mudar de ideia com o tempo.
– Não vou — murmurei teimosamente. Que droga, por que ele achava que eu ia abandona-lo? Quem era o morto-vivo nessa história, afinal?
Toda a minha raiva com essa questão se derramou nele em forma de um beijo completamente impensado.
Ele quase bambeou quando me joguei em seus braços, mas recuperou o equilíbrio a tempo. Ou pelo menos foi o que eu pensei, já que nós caímos no sofá que havia aonde antes fora um almoxarifado.
Meu coração parecia tentar explodir no peito. Caramba, Ryan nunca me jogara em lugar nenhum. Muito menos com tanto carinho.
"Ah, menina inocente", riu meu inconsciente mortuário. "Vai me dizer que não sabe o que ele está fazendo..."
Ele só descolou os lábios quentes de minha boca fria para pousa-los em meu ombro.
"Ih, caramba", pensei.
"Espere um pouco. O Ryan pirou? Isso não é necrofilia?', gemeu meu inconsciente.
Morta ou viva, não me incomodava não ter uma resposta para essa questão ética, sarcástica e moralista.
Mas Ryan pareceu pensar na mesma coisa, pois parou aquela deliciosa tortura de beijos no circuito boca-ombro e levantou-se para olhar para mim.
– Chloë... tudo bem?
– Tô — falei baixinho, ainda tentando me orientar dentro do meu corpo. Meu coração devia estar lendo um mapa da rodoviária venosa agora mesmo, completamente perdido.
Ryan riu de minha expressão tensa.
– Calma, Chloë — ele tampou a própria boca para que sua risada não acordasse os outros — nem eu nem você somos loucos para fazer isso... não agora, pelo menos.
– Não comigo assim... você quer dizer... — suspirei, emburrada.
– Não, não é por isso — ele me deu um beijo na bochecha que derreteu minha resistência aborrecida igual uma fogueira no gelo — é por que o bobão aqui não está preparado pra isso. Pode tirar sarro de mim. Não ligo.
Senti meu peito morto estufar com algo novo. Seria ternura? Era parecido com o que eu sentira ao ver Pim adormecida no chão.
– O seu problema... é ser bom demais... — eu sorri, retribuindo seu beijo com outro no nariz.
Ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas não falou nada.
Por que, fosse lá o que fosse que Ryan iria dizer, foi interrompido por um barulho alto e ensurdecedor nos fundos da Clínica.
Fale com o autor