Voltando à Viver

7 E o Comitê praticamente me manda mata-la...


RYAN

Nunca mais eu ia caçar pela Chloë.

Achar um cadáver fresco na cidade foi quase impossível.

Saí do shopping com a desculpa de querer respirar um pouco de ar e matar mais alguns zumbis. Gail, a pessoa mais próxima de ser uma amiga que eu tinha na comunidade, uma loira baixinha que parecia ter supersentidos, achou estranho. Eu detestava ir nas caçadas, e só fazia isso porque o Comitê obrigava todos á fazer incursões pelo menos uma vez por semana. Gail sabia disso e quase tropeçou quando eu lhe disse que ia sair.

– Sair pra respirar? — ela riu — desde quando você "sai pra respirar"?

– Me deu vontade, ué... não aguento mais ficar só dentro desse shopping...

Eu rezava para que Chloë ficasse quieta em casa. Com a porta trancada, eu sabia que ninguém iria bisbilhotar lá... mas e se alguém a visse pela vidraça de longe?

Gail revirou os olhos.

– Tá, mas volta logo... dá um pulo depois lá na minha casa. Nós achamos um pacotinho de Doritos, e Fred falou para chamar você pra gente dividir.

– Pode deixar — caramba. Fazia anos, literalmente, que eu não comia um salgadinho.

Me despedi de Gail e fui atrás de algum defunto.

Foi demorado. Consegui não me encontrar com nenhum zumbi, uma sorte que eu não esperava.

Finalmente, achei um corpo caído do lado de uma lata de lixo.

Era um mendigo que parecia ter morrido de causas naturais. Não tinha mordidas e nem estava podre, apesar do mau cheiro. Devia ter falecido no dia anterior, quando a temperatura caiu de noite.

Prendi a respiração e meti o corpo dentro de um saco de lixo preto que eu trouxera junto com a arma. Por sorte, a distância entre aquele lugar e o shopping não era grande, então saí arrastando-o pelo chão.

Quando cheguei, o pátio do shopping estava vazio. Aonde estava todo mundo? Era como o destino tentando me ajudar...

Aproveitando o pátio deserto, acelerei o passo, puxando o peso morto do mendigo até minha casa. Destranquei-a rapidamente, olhando para os lados, como coração acelerado. Assim que a porta abriu, joguei o saco com o corpo e minha arma dentro da loja, ainda sem entrar nela.

Através da vidraça, pude ver toscamente a silhueta de Chloë, que se mexera de susto ao ouvir o saco bater no chão. Pude ver seus olhos saltarem de mim para o saco.

Ela se aproximou e fez um aceno quase imperceptível com a cabeça. Como se estivesse elogiando meu trabalho.

Quase ri ao me dar conta desta outra demonstração de sentimento humano. Chloë só fazia aumentar minha simpatia, coisa que, desde o início do apocalipse zumbi, nunca me ocorrera com nenhuma outra criatura morta-viva.

Como ela fazia isso? Agora entendia seu choque. Ela se sentia muito humana para uma zumbi... e eu estava me sentindo e agindo muito humano com um zumbi.

Ela estreitou os olhos como se pensasse no mesmo que eu.

Um movimento repentino atrás de mim assustou nós dois. Com o coração aos pulos, tranquei apressadamente a corrente outra vez. Chloë se escondeu atrás do balcão de novo, bem a tempo de não ser vista por Gail, que saltou atrás de mim como um lince.

– Caracoles, Gail! — exclamei, assustado.

– Desculpa — Gail deu risada. Menina bobona — só vim avisar sobre a reunião.

Ah, não. Outra reunião do Comitê. Qual tema ia ser desta vez? Formas de matar zumbis rapidamente? Como empilhar os corpos?

– Eu sei... — Gail pareceu ler minha expressão — são um saco, mas eles fazem questão de reunir todo mundo.

– Bom, vamos lá — murmurei, agoniado — quem sabe acaba logo.

Olhei para o ponto aonde Chloë desaparecera, torcendo para que ficasse ali até eu voltar.

Na antiga sala de cinema do shopping, todos os duzentos e vinte humanos já estavam sentados nos assentos, exceto os seis carinhas velhos que formavam o Comitê. Estes estavam em pé num palco improvisado em frente á tela.

Quando todos já estavam acomodados, Bob, o presidente do Comitê, iniciou aquele discurso chato de sempre.

– Bom, senhoras e senhores, sejam bem vindos á esta nova reunião. Como todos sabem, estas reuniões são a base para arquitetarmos nossa sobrevivência...

– "... no mundo apocalíptico, para nos unirmos e estabelecermos novos métodos" e blá blá blá — murmurou Gail ao meu lado, olhando para o teto com uma expressão martirizada — chega. Vou ler meu mangá de dois mil e nove. Me avise quando a patacoada acabar.

Depois que Gail desapareceu atrás do livrinho da Cardcaptor Sakura, minha atenção foi divagando até o teto mofado da sala de cinema. Quando ouvi a expressão "zumbi humano", porém, ela caiu do teto e se espatifou, chocada, bem no meio do Comitê.

– Descobrimos alguns destes zumbis durante as últimas incursões. São mais rápidos, sagazes e inteligentes do que um zumbi comum. Parecem ter expressões e sentimentos humanos, mas não passa de um método, infelizmente eficaz, para atrair vítimas, conseguir sua confiança e, finalmente, fazerem sua refeição. O Comitê debateu sobre essa nova vertente de zumbi e decidiu que qualquer exemplar deste tipo deve ser morto assim que surgir durante as incursões.

Meu olhos piscaram, atordoados. Era como se eles estivessem descrevendo Chloë. Mas não era possível...

Chloë era realmente diferente. Mais rápida. Mais inteligente.

Mas todas as suas ações humanas, suas expressões, seus olhares... não podiam ser mera tática de caça. Ela não podia esta fingindo todo este tempo...

Ou podia?

O que eu sabia de verdade sobre ela? O Comitê sabia bem mais do que eu sobre a vida "morta-viva" lá fora. Eles poderiam estar certos.

Eles deveriam estar certos.

– Ryan... você está branco...

Gail me sacudiu. Virei para ela, me sentindo nauseado.

– Enjoado... — gemi, me levantando — vou no banheiro... já volto.

Mas o banheiro estava longe da minha mente.

Andei apressado até minha casa.

Tinha acabado de descobrir que tinha um zumbi, completamente morto-vivo, dentro de casa. Uma criatura nada humana. Que estava fingindo ser um só para conseguir confiança e se alimentar.

O Comitê tinha sido claro. Era para uma criatura dessas ser morta imediatamente.

E eu, burro, tinha caído na lábia dela. Não tinha feito isso.

Mas agora faria. Terminaria o que eu devia ter feito à muito tempo.

Num assomo e pânico, me lembrei de Skype.

Tinha deixado minha calopsita sozinha com aquele monstro. Meu Deus, o que Chloë devia ter feito com ela? Tinha vontade de vomitar só de pensar.

Cori até a porta da loja e a destranquei. Assim que entrei e fechei a porta, ergui minha espingarda do chão e a engatilhei. Chloë deveria estar escondida.

Tropecei levemente no corpo do mendigo que eu trouxera; agora, era apenas um cadáver ensanguentado, sem as vísceras. Ela já deveria ter feito uma refeição pesada, e não estaria rápida o suficiente para fugir.

Tinha medo de achar o corpinho de Skype pelo chão. Não queria ver o que Chloë havia feito. Isso nunca sairia de minha memória.

Achei Chloë em pé, diante do poleiro de Skype. Não, Skype não podia ter... eu não queria ver.

Ia atirar dali mesmo. Enquanto aquela morta-viva estava distraída, provavelmente mastigando minha pobre calopsita.

Mirei bem na testa de Chloë, que se virou para mim no exato instante em que eu aninhei meu dedo no gatilho.

Eu estava pronto para atirar, quando ouvi um som que me fez congelar.