Voltando à Viver

19 Diário dos mortos-vivos - Parte 2


CHLOË

Eu estava me sentindo realmente estranha.

Estava com fome, mas aquele frenesi que sempre me tomava quando estava faminta não apareceu. Estranho.

Ryan havia atrasado um pouco o reabastecimento da nossa comida. Imaginei que devia estar se tornando impossível achar pessoas mortas lá fora. Talvez a coisa ficasse tão ruim que Ryan teria que trazer presas vivas.

"Não!", exclamou meu cérebro deteriorado. "Você está se curando. Não pode deixar que a fome faça você voltar ao que era antes. Ryan confia em você!"

Era verdade. Eu me sentia cava vez mais humana, embora ainda estivesse morta e comendo cadáveres.

Eu estava disposta até a comer menos. Afinal, eu preferia que papai pudesse se alimentar melhor e, quem sabe, começar a se curar também.

Infelizmente, doía meu coração degradado vê-lo sem melhoras aparentes.

Se ao menos ele se lembrasse de mim...

Enquanto pensava nisso, um barulho irritante e escandaloso chegou aos meus ouvidos. Gail havia trazido um pacotinho de doces e parecia estar tentando inutilmente abri-lo. O som era enlouquecedor.

– Casseta, Gail! — gritei, finalmente aborrecida.

Vi Ryan e Gail saltarem de susto, e virei o rosto para esconder uma risada. Eles não se refrearam e começaram a gargalhar.

– Nossa... alguém voltou a ter TPM? — disse Gail.

Joguei uma das almofadas que estavam ao meu redor em Gail. Ela se jogou fingindo estar estrebuchando. Quase deixei um sorriso morto escapar em meu rosto.

Fui até ela para pegar a almofada de volta. Porém, uma súbita inspiração me dominou quando olhei para o saquinho de balas. Será que eu conseguiria..?

Não pensei muito para testar. Peguei uma das balas, tirei a embalagem e a pus na boca.

Ryan e Gail me olhavam espantados. Comecei a mastigar.

– Então? Você... sente o gosto? — Gail parecia curiosa.

Franzi a testa enquanto tentava saborear. Um sabor que há anos eu não sentia... meio adocicado, meio azedo... era uma fruta, provavelmente.

Olhei para o corante que havia ficado em minhas mãos e deduzi o óbvio.

– Uva — murmurei, surpresa.

Gail verificou a embalagem e confirmou, pasma.

– Exatamente.

Engoli a bala, ficando maravilhada com seu sabor e textura.

Eu estava me alimentando normalmente outra vez.

– Caramba... o corpo dela está tolerando comida — Gail se virou para Ryan, com os olhos arrgalados — Você sabe o que isso significa?

Eu sabia... eu poderia voltar a me alimentar de verdade. Sem machucar mais ninguém.

Fiquei tão feliz que as lágrimas apareceram em meus olhos sem aviso.

– Ah, não... você vai chorar por que comeu uma bala?

Ryan parecia estar achando graça. E, ao mesmo tempo, parecia muito satisfeito.

Tentei ficar zangada com ele, mas não conseguia. Aquilo era demais para mim.

– É — tentei sorrir. Deveria estar parecendo uma idiota, chorando por ter comido um doce.

Senti dois olhos observadores em mim. Me virei em direção ao outro canto da sala, onde papai estava.

Ele me olhava com uma confusão imensa.

Vi seus lábios tremerem, tentando formar um rosnado.

Mas não era um rosnado... ele parecia estar tentando falar.

Quando eu identifiquei o que ele dizia, recuei vários passos.

– Chlooooooë,,,

Ele estava dizendo meu nome.

"Ele se lembrou de mim", pensei, maravilhada.

Não percebi muito do que ocorreu em seguida. Em um momento, eu e papai estávamos a uns cinco metros de distância um do outro.

No outro, papai estava em cima de mim, rosnando como uma besta.

– Papai..? — gemi, confusa.

Seus braços formaram um torniquete ao redor dos meus. Ele continuava rosnando. Não vi Gail ou Ryan, mas ouvi o som das armas sendo engatilhadas.

"Não!" tentei dizer em meio ao pânico. "Não atirem! Ele não está me atacando!"

Papai estava simplesmente naquela posição, me apertando com força. Foi aí que eu identifiquei o movimento... fiquei chocada.

Papai estava me abraçando.

Era horrorosamente forte e dolorido, mas era um abraço;

Ryan gritou meu nome.

– Chloë!

– Estou bem... — disse finalmente — ele não me machucou.

"Fale por você", ironizou minha mente, se referindo aos meus braços.

Senti os braços de papai se afrouxarem. Ele se virou de repente, ficando em pé, rosnando bestialmente para Ryan e Gail.

Eu tinha passado tempo o suficiente como zumbi para ver que sua posição não era de ataque.

Era de defesa.

Ele estava me defendendo??

Pus as mãos no ombro do meu pai, tentando acalma-lo.

– Papai... — sussurrei em seu ouvido — não vão me machucar. São amigos.

Papai se virou para mim, ainda rosnando. Sua língua tentou formar uma frase trêmula.

– A...migos? Não ata...cam...

– Não — respondi, olhando para o rosto surpreso de Ryan, que nos observava curioso — Ryan cuidou de mim... e Gail... ela me ajudou...

Gail abaixou sua arma, mas Ryan ainda a mantinha levemente levantada.

– Ryan — ralhei com ele — guarde isso... por favor... ele não vai machucar ninguém.

Ryan finalmente guardou a pistola.

Gail olhou de mim para meu pai, que havia se aninhado no chão docilmente ao meu lado.

Passei minhas mãos na cabeça dele. Relembrei a sensação de quando eu acariciava seus cabelos quando pequena. Era relaxante.

Ele ergueu os olhos para mim, a confusão estampada em suas expressões. Ele ergueu os braços para minha mão, mas fez isso apenas para segura-la contra seu rosto.

Ryan parecia estar lutando para falar.

– Ele... acho que ele... se lembrou de você.

– Quando? — indaguei.

– Acho que ele lembrou de quando você comia balas na infância — brincou Gail.

– Talvez... — balancei a cabeça.

Ryan olhou de mim para Gail, parecendo reflexivo.

– Acho que não precisamos acorrenta-lo novamente por enquanto — ele murmurou.

Abracei papai, que ainda se mantinha parado e inexpressivo após nosso abraço esmagador.

– Acho que podemos trazer mais uns dois zumbis para a Clínica – disse Gail, sorrindo ah, e Ryan, você devia fazer um registro da evolução de cada um durante o nosso “tratamento”.

Ryan revirou os olhos.

– Pronto. Isso virou uma enfermaria agora? – brincou ele.

Tentei dizer a ele que tanto fazia o nome do nosso santuário. Eu e papai íamos nos curar. Outros provavelmente também iriam. Era a melhor notícia que eu poderia ter recebido.

– O que será que o Comitê vai achar quando nos descobrir? – Gail ergueu as sobrancelhas.

Ryan fechou a cara.

– Eles nunca vão saber. Não podem. Eles não acreditam numa cura para os zumbis. Matariam todos nós... matariam Chloë...

Ele olhou novamente para mim, com uma emoção muito forte atravessando seu rosto. Parecia angústia.

E uma emoção muito forte passou por mim em resposta.

Era algo avassalador, que não se comparava a nada que eu houvesse sentido antes.

Amor.

Droga... eu tinha que amar essa garoto?

A sensação de ama-lo era quase insuportável. Ele, que estava se sacrificando para tentar me ajudar e ajudar meu pai. Ele, que, contra todas as expectativas, havia salvado uma zumbi de uma segunda, acolhido-a em sua casa e se empenhado para cura-la. Era definitivamente ele que dominava minha vida agora.

Sentia uma falta horrível da sensação de beija-lo... quando será que eu sentiria aquilo de novo?

Meu coração saltou em sincronia com meu pensamento.

Parecia que eu estava me tornando mais humana do que eu imaginava.