Volta por Cima

6 Livin' On A Prayer


Notas iniciais
Gente, desculpa, desculpa por ter demorado tanto pra postar mas é que tava no final das aulas, cheia de trabalhos, sabe como é. Mas eu tenho duas boas notícias pra vocês:
1- Férias!!! Semana que vem acaba a tortura e eu vou ter mais tempo pra escrever pra vocês!!!
2- Eu fiz um roteiro da fic, tipo o que vai acontecer em cada capítulo, o que significa que a fic já está toda planejada. Só falta escrever mesmo os capítulos. E a não ser que eu dê uma reviravolta criativa eu já sei como a fic vai acabar. E vai ser bem legal, eu prometo.
Enfim aproveitem o capítulo.

5 de março

Fim da primeira semana de popularidade

Início de todas as outras...

- Ah, esse nem é lá grande coisa. – Sam comentou.

O mesmo comentário, toda sexta-feira.

Sexta-feira era o dia de folga do Roy no trabalho, ele era ilustrador em uma revista nerd qualquer, e era também o dia que ele e a Sam vinham comigo pro trabalho e seguiam suas rotinas normais da sexta-feira, ele ia direto pra seção de mangás, e ela pegava uma G Magazine e sentava no balcão na minha frente e comentava as fotos com displicência, isso quando ela não comparava os tamanhos dos modelos de uma página para outra.

- Eu já disse, se quiser continuar olhando isso vai ter que pagar – e olhei a capa da revista – dois e cinquenta.

Ela bufou e jogou a revista no balcão.

- É sério, de que adianta minha amiga ser dona de um sebo se eu não posso nem ler as revistas de graça?

- Não é um sebo – eu falei com a voz monótona – é uma Livraria Comercializadora de Livros Novos e Usados.

- Que seja.

- E eu não sou a dona, sou só a vendedora, se eu fosse a dona não venderia nenhum deles pra falar a verdade.

Quando meu avô morreu uma das melhores coisas que ele deixou, além de uma casa enorme com sótão, foi uma biblioteca cheia de livros. Eu sempre fui fascinada por livros e sempre achei um crime minha mãe montar uma livraria para vendê-los, acontece que a coleção do meu avô era muito preciosa. Meu avô tinha um gosto tão variado quanto o meu, por onde quer que ele viajasse ele trazia um livro pra casa, e sempre anotava na folha de rosto a data e o local de onde ele trouxe o livro. Eu adorava, nas tardes de pouco movimento, ficar folhando os livros e ver a data que ele o comprou, alguns tinham mais de cinqüenta anos.

Mas claro que a minha mãe não se importou de vendê-los, na verdade ela nem gosta de ler. Ela tratou logo de montar o sebo, digo, Livraria Comercializadora de Livros Novos e Usados, como ela gosta de chamar, e logo angariou uma boa clientela. Logo as pessoas trouxeram livros para trocar, e alguns traziam até revistas, minha mãe pode ser péssima em literatura mas reconhece um bom negócio quando vê um. E lá estava a oportunidade.

A livraria não é muito grande e não lucramos tanto assim, mas temos uma clientela bem fiel, tipo as velhinhas que compram revistas de crochê, as mães que tentam ser cultas e acostumar seus filhos com os livrinhos infantis, os pervertidos que compram a Playboy ou G Magazine, ou os dois, os nerds como o Roy que compram mangás, os nerds de verdade que compram revistas de ciência e por aí vai. Quase nunca vem gente nova.

E a Sam, é claro, que vem me atormentar e ler revistas de graça.

- Por que você olha esse negócio afinal? Se tá sempre reclamando que não é grande coisa.

- Você devia fazer isso também, é uma questão de utilidade. – e acrescentou, vendo meu olhar de espanto – Olha só Ellie, você namora um cara, certo? Aí você acha que está pronta pro próximo passo, e depois acha que foi muito bom, mas na verdade você não pode dizer isso porque não tem padrão de comparação. Como você vai saber se o seu parceiro é bem equipado se você não vir outros caras pra comparar, mas é claro que você não vai andar por aí pedindo pros caras baixarem as calças, e pra isso servem as revistas. Esse aqui, por exemplo, o que você acha?

Ela me mostrou a foto de um cara vestido de homem aranha da cabeça aos pés, bem, exceto em uma certa parte que estava obscenamente me encarando.

- Ah, eu sei lá, pra mim parece enorme. – eu disse corando.

Ela sacudiu a cabeça com uma expressão de pena.

- Olha esse então.

Ela virou a página e era uma cara deitado vestido de Batman, se bem que nem todo ele estava deitado.

- Oh meu deus Sam, guarda essa coisa senão eu vou acabar vomitando.

Ela riu e guardou a revista bem na hora que um cara tava saindo da sala reservada. Ele chegou no balcão e me entregou os livros. Eu me esforcei para fazer uma expressão impassível enquanto somava os valores e tentava ignorar a tentativa de segurar o riso da Sam quando eu achei, entre uma National Geografic e o exemplar 8 da Enciclopédia, três G Magazines.

O cara corou de verdade, eu fui o mais profissional possível e somei os valores.

- Vinte três e cinqüenta.

Eu queria matar a Sam quando ela olhou pro cara com uma expressão que dizia claramente “safadenho”. Eu mereço!

O cara tirou uma nota de cinqüenta e acrescentou em tom conspiratório quando eu devolvi o troco.

- Não me interprete mal, eu não sou gay. É que eu e minha namorada gostamos de apimentar as coisas às vezes. Sabe como é? – e piscou pra mim.

Assim que ele pôs o pé na rua eu e Sam nos olhamos e caímos na gargalhada. O Roy chegou carregado de revistas.

- O que foi?

A Sam tentava falar em meio aos soluços.

- Se esse cara não é gay então a Mulher Melão tem os peitos maiores que os meus.

Aí sim que nós rimos. Quando conseguimos parar eu somei as contas do Roy.

- Quinze e oitenta e quatro senhor.

- Põe na conta.

Ele sabia que eu ficava furiosa quando ele dizia isso. Não que ele fosse me dar calote, na verdade ele era rico, como todos que estudavam no Gensa, mas ele era uma artista sensível e preocupado demais em traduzir os problemas da sociedade exclusiva capitalista pra carregar dinheiro na carteira. E se ele deixasse pra acertar quando queria eu ia fechar o mês no vermelho.

- Talvez queira saber que a tua “conta” já está mais de cem.

Ele deu de ombros, dinheiro não era problema. Como eu queria poder dizer o mesmo.

- Pode por na sacola?

- Roy se tu não vai me pagar, eu é que não vou gastar sacolas com você.

- Ah, esquece isso, vamos que hora você sai hoje?

- Sam, eu saio todo dia na mesma hora há cinco anos, por que tu sempre pergunta a mesma coisa?

- Porque eu sempre esqueço. Vamos o Roy vai se desculpar pela conta obscena dele e vai nos levar pra tomar um Top Sunday do McDonalds pra comemorar a primeira semana da revanche de Eleanor Satler.

Hum, Top Sunday, talvez eu pudesse perdoar o Roy. Não, lembra da dieta, quilos a menos, cintura fina, poder usar biquíni de novo...

- Desculpa mas não vai dar, eu deixei de comer essas coisas industrializadas.

O Roy ignorou o olhar de desaprovação da Sam.

- É isso aí Ellie, o McDonalds não é nada mais do que uma organização que visa alienar e induzir nossa juventude ao consumismo e a obesidade para que fiquemos tão preocupados em comer que não vemos o caos da sociedade à nossa volta. Por que o capitalismo...

- Tá, tá, tá Roy, já chega. E então como se sente sabendo que você vai entrar no fim de semana desbancando a Tom-tom.

Eu não me sentia tão bem assim na verdade. Embora eu realmente tivesse desbancado a Tom-tom.

As coisas mudaram muito nesses últimos dias. O povo adora uma fofoca nova e eu aparentemente era a bola da vez. Era só eu entrar na escola e todo mundo me cumprimentava. As garotas começaram a me procurar nos intervalos das aulas pra dizer que elas sempre detestaram a Tom-tom e que achavam maldade ela me chamar de Elliefantinha, e que aderiram total ao meu time, embora eu não soubesse que time era esse, acho que só queriam dizer que estavam do meu lado.

Meu armário rapidamente se encheu de bilhetinhos enfiados pelas frestas de metal. Na maioria eram telefones seguidos de nomes de caras que eu reconhecia tanto do time de futebol quanto do clube de debates, e alguns que eu não fazia idéia de quem eram. A Sam até se ofereceu para ir lá em casa ajudar a filtrar os telefones e decidir quem merecia uma ligação. Mas eu não tava muito afim de aproveitar minha popularidade com aqueles caras. Acontece que eu só queria um cara, e ele era o único que não tava nem aí pra mim.

O Robert continuou a vida normal dele, sentado com os caras do futebol, sem mostrar a menor indicação de saber que eu existia. Eu até pensei em aceitar o convite do Chaz pra sentar na mesa deles e ver se eu conseguia alguma conversa mas o convite também não surgiu mais.

O Chaz me cumprimentava todo dia, e sentava perto de mim na aula, mas nunca mais conversou diretamente comigo. Eu não me importava porque eu obviamente não estava nem aí pra ele, mas mesmo assim sentar com os caras do futebol até que viria a calhar, mesmo tendo que olhar pro cara que fez minha vida um inferno durante muitos anos.

A Tom-tom estava humilhada e oficialmente destituída do cargo de garota mais popular da escola. Depois de trair o cara mais legal da escola (é a opinião de todo mundo pelo menos) pra ficar com o cara mais nerd do mundo e depois de a garota que ela humilhou durante tantos anos dar a volta por cima ela estava temporariamente excluída. Por quanto tempo é o que iríamos ver, mas eu estava preparada para ela.

- Ah, por favor, não me diga que você está assim por causa do idiota do Robert. Garota acorda, o Chaz Sullivan tá te dando bola e você fica aí suspirando por causa de um babaca que nem percebeu a gata que você ficou? Manda ela pra...

- Você não entende.

- Não mesmo, por que não explica?

Mas nessa hora chegou a velhinha que morava no final da avenida com uma pilha de revistas de “Faça Você Mesmo”. Pelo que eu sabia ela agora ficaria horas me contando sobre a gata dela, a Miss Plinker, e as doenças que ela imaginava que a gata tinha. Sam me olhou resignada, me atirou um beijo e saiu da loja.

Às sete horas da noite o movimento na livraria é praticamente zero, mas a minha mãe insiste em aparecer pra fechar as portas só às oito da noite. Geralmente é o momento que eu fico escutando música, já que eu não consigo ler por causa do barulho dos caras socando uns aos outros no ginásio que fazia parede cega com a livraria. Sete horas era a hora do treino de boxe, por isso eu assistia o Chaz sair do treino com os cabelos molhados todos os dias às oito da noite parecendo extremamente gostoso, embora eu soubesse que ele não valia nada.

Quando os barulhos começaram eu me resignei a largar o meu exemplar de Os Imortais que eu passei o dia inteiro lendo. Eu achei muito interessante embora não conseguisse entender o aquela tal de Ever achava de tão ruim nos poderes dela, eu também tinha poderes estranhos, mas nem por isso eu surtava. Foram os meus poderes que me ajudaram a chegar aonde eu cheguei agora, sem eles eu não era nada. Que garota burra.

Guardei o livro na mochila e peguei a vassoura, eu geralmente aproveitava essa hora pra varrer a loja e ouvir música a todo volume. Fui até o rádio e coloquei minha pen drive e achei a minha música preferida pra dançar. Eu sei que eu parecia uma completa retardada dançando com uma vassoura e cantando Bom Jovi sozinha no meio da loja, mas eu nem ligava, nessa hora as chances de chegar alguém eram zero, e também quem é que não gosta de dançar igual uma louca pra se distrair.

Eu fechei os olhos só ouvindo os acordes iniciais da música. Eu fazia sempre a mesma coreografia, tudo aquilo me ajudava a esquecer de todo o resto, e atualmente eu precisava esquecer algumas coisas, como o Robert me ignorar por exemplo. Ou o professor Newman me olhando com aquele olhar de “sei que você fez alguma coisa errada”.

Eu virei de costas pro balcão e de frente para as prateleiras de livros enquanto cantava:

Once upon a time

Not so long ago

Tommy used to work on the docks

Union´s been on strike

He´s down on his luck...it´s tough, so tough

(Era uma vez

Não há muito tempo

Tommy costumava trabalhar nas docas

O sindicato entrou em greve

Sua sorte está baixa ... É duro, tão duro)

Eu comecei a caminhar entre as prateleiras e baixava a cabeça com tristeza como se aquilo estivesse acontecendo comigo mesma. Girei com rapidez no corredor e cantei:

Gina works the diner all day

Working for her man, she brings home her pay

For love — for Love

(Gina trabalha no bar todos os dias

Trabalhando para seu homem, ela traz o seu salário

Por amor, por amor)

Eu levantei o braço direito, segurando a vassoura com o esquerdo como se fosse um microfone, enquanto rebolava no ritmo da música, essa era a parte que eu mais gostava:

She says: We´ve got to hold on to what we´ve got

´Cause it doesn´t make a difference

If we make it or not

We´ve got each other and that´s a lot

For love — we´ll give it a shot

(Ela diz: Temos que agarrar no que temos

e não faz diferença

Se nós conseguiremos isso ou não

Nós temos um ao outro e isso é suficiente

Por amor — nós iremos tentar)

Eu berrava o refrão junto com o Bon Jovi e me atirava de joelhos no chão. Sem largar minha vassoura/microfone.

Oh, We´re half way there

Whoah, Livin' On A Prayer

Take my hand, we´ll make it, I swear

Whoah, Livin' On A Prayer

(Estamos a quase lá

Vivendo em oração

Pegue a minha mão, nós vamos conseguir isso, eu juro

Vivendo em oração)

Me levantei e comecei a andar para trás cheia de estilo segurando o microfone. Deitei o microfone enquanto cantava:

Tommy got his six string in hock

Now he´s holding in what he used

To make it talk — so tough, it´s tough

(Tommy tem suas seis cordas empenhadas

Agora ele está segurando no que ele usava

Para fazê-lo falar — tão duro, é duro)

Virei de lado enquanto fazia o moonwalk e cantava:

Gina dreams of running away

When she cries in the night

Tommy whispers: Baby it´s okay, someday

(Gina sonha em fugir

Quando ela chora à noite

Tommy sussurrar: Querida, está tudo bem, algum dia)

Comecei a rebolar mais do que nunca nessa parte:

Oh, We´re half way there

Whoah, Livin' On A Prayer

Take my hand, we´ll make it, I swear

Whoah, Livin' On A Prayer

Enquanto me inclinava pra frente no esforço de gritar Linvin’ on a Prayer o mais alto que eu conseguia eu vi algo que realmente me fez gritar.

Quando minha mãe comprou esse lugar que serviria de livraria ela não imaginava que nós fossemos crescer tanto, a loja acabou ficando pequena e ela espalhou espelhos no final dos corredores para dar a ilusão de que o lugar era maior. Foi o que eu vi no espelho que me fez gritar. Atrás de mim, no lado de fora do balcão debruçado com a cabeça entre as mãos tinha um cara. Um cara que segundo eu pude perceber tava morrendo de rir da minha cara.

Eu corri e desliguei o rádio. Eu tava morrendo de vergonha, quem ia aparecer aqui há essa hora?

- Espero que esteja se divertindo. – eu acrescentei com frieza para a criatura deitada no balcão soluçando de tanto rir.

Ele levantou a cabeça e eu congelei, era o Chaz. Aquele maldito garoto que ferrou completamente com a minha vida e agia constantemente como se nada tivesse acontecido e agora ia ter como me humilhar na frente de todo mundo contando minha dancinha ridícula, isso se ele não tivesse filmado. Procurei por uma câmera ou celular nas mãos dele mas não havia nada, ele já devia ter guardado. Droga, logo agora que havia passado uma semana inteira sem ninguém me chamar de Elliefantinha.

- Desculpe. – ele falou, ainda rindo – Eu cheguei e vi você, não quis atrapalhar sua performance.

Eu fechei os punhos de raiva, ele ainda por cima me zoava.

- O que você tá fazendo aqui? Que eu saiba você só sai do treino às oito.

Ele parou de rir e me olhou curioso, tarde demais eu percebi que dei bandeira. O cara podia pensar que eu tava vigiando ele o que eu obviamente não estava já que eu não era nem um pouco afim dele. Eu gosto de morenos.

- Eu saí mais cedo. Eu sabia que vocês fechavam as oito e como eu queria passar aqui pedi dispensa do treino. Eu não sabia que você trabalhava aqui. Desculpa, esqueci seu nome.

Ele tava se fazendo né? Tipo, provavelmente ele tá envergonhado de ter me pego em uma situação constrangedora e tá fingindo não saber quem eu sou pra não ficar na cara que além de me pegar dançando ele me colocou aquele apelido maldito. Eu não ia esquecer o meu nome quando a escola inteira estava comentando sobre mim, ninguém podia ser tão tapado.

- Ellie.

- Então Ellie, me desculpe por não ter me anunciado. É que eu quase não acreditei que uma garota como você também gostasse de Bon Jovi.

- Como assim uma garota como eu? – eu estava realmente ofendida agora.

- Uma garota bonita.

Eu corei absurdamente. Ele me pega em uma cena completamente ridícula e eu estou corando porque ele disse que eu era bonita. É só papo garota, acorda!

- Você é muito preconceituoso sabia?

- Provavelmente. – ele sorriu.

Ele era bonito demais pra eu manter minha pose de garota furiosa. Aquilo estava me incomodando demais. Eu olhei pro relógio.

- Bom, são dez pras oito e já vamos fechar, posso ajudar você em alguma coisa?

Ele pareceu se lembrar do que veio fazer. Teatro, tudo teatro, não cai nessa.

- Na verdade vocês são minha última esperança, eu tenho toda a coleção de livros do Arquivo X só falta um exemplar, o número 4, vocês têm?

E o meu queixo caiu. Qual é, ele era um jogador de futebol idiota, cujo passatempo era socar um saco de areia, namorava a Rainha da Futilidade, era o estereótipo do bonitinho americano e era podre de rico. Ele não devia ouvir Bon Jovi, muito menos ler o Arquivo X, que era absolutamente nerd.

Ele riu da minha expressão.

- Que foi, tô parecendo nerd demais pra você?

- Pra falar a verdade sim.

- Quem está sendo preconceituosa agora?

Eu fiquei quieta e fiz sinal pra ele me seguir pelo corredor. Nós tínhamos a coleção inteira, eu lembrava porque eu tinha lido todos, e o livro quatro era o meu preferido. Eu procurei pelas prateleiras amaldiçoando minha mãe por colocar esses livros no canto mais isolado da livraria, porque com certeza a última coisa que eu queria era ficar em um canto escuro com o Chaz. Eu queria ter o mínimo de contato possível com ele, e isso incluía conversar, mas aparentemente ele tinha outra idéia.

- E vai ficar muito chocada se eu disser pra você que eu leio Stephen King, que eu assisti todos os filmes de Star Wars e que minha banda preferida é Kansas?

Ah deus, ele ouve Kansas.

Eu procurei desesperada o maldito livro na prateleira. Estava lá em cima, eu podia vê-lo, mas de jeito nenhum eu ia voltar pelo corredor pra pegar a escada, os corredores eram pequenos e eu não ia me arriscar a chegar tão perto assim dele. Me empoleirei em um banquinho enquanto tentava pegar o livro.

- Mas é claro que isso não combina com o estereótipo de atleta chapado e idiota que você faz de mim.

A voz dele tinha um certo tom de irritação. Achei o maldito número 4, é só tentar tirar ele da droga da pilha mais alta. Quase conseguindo...

- Só porque eu ando com aqueles caras não significa que eu sou como eles...

Claro, vindo do cara que teve a brilhante idéia de me chamar de Elliefantinha. Meus braços estavam doendo e meus pés escorregando. Quase lá...

- Sei lá, achei que garotas como você pudessem ver através das aparências. Talvez você não seja quem eu estou...

Tarde demais. Só deu tempo de eu agarrar o maldito livro e escorregar do banquinho pra cair com tudo no chão. Ou teria caído se o Chaz não estivesse no meio do caminho pra amparar minha queda. Eu caí com tudo em cima dele e ele nem se mexeu, apenas colocou os braços em volta da minha cintura pra me segurar, eu acabei de cara no peito dele e vi o Slash olhando pra mim com aquele cabelo de poodle, só aí que eu percebi que ele devia curtir Guns n’ Roses também. Eu olhei pra cima e me afastei um pouco, o que eu pude pelo menos já que ele ainda segurava a minha cintura. A luz era fraca mas eu ainda podia ver os cabelos dourados e molhados dele caindo sobre os olhos enquanto ele sorria pra mim. Estávamos muito perto um do outro, perto demais pro meu gosto.

- É incrível como sempre terminamos assim quando nos encontramos não é?

Ele estava se referindo obviamente à vez que eu cai na fila do Buffet porque estava preocupada demais tentando notar se o Robert ia me notar.

- Deve ser porque eu sou muito desajeitada.

- Ou deve ser o destino.

Eu já havia recuperado o equilíbrio mas ele não havia notado, ou não estava afim de me soltar. Acontece que ele estava com o rosto mais perto do meu do que da última vez que eu tinha notado. Perto demais. Mas eu não conseguia me mexer. Havia algo que estupidamente me pregava no lugar embora minha mente gritasse pra eu chutar ele onde realmente ia doer. Mas o meu corpo nem se mexia, eu só conseguia sentir, sentia o rosto dele perto do meu, o perfume dele, as gotas do cabelo molhado que caiam no meu rosto, a respiração calma dele enquanto eu sabia que a minha estava a mil. Se me concentrasse podia até sentir os batimentos dele. Eu sabia o que ia acontecer, e não podia fazer nada pra impedir. Até que eu ouvi uma voz no corredor.

- Ellie o que você... ah.

Nós dois pulamos como se tivéssemos levado um choque, ou como se tivéssemos percebido o que estávamos prestes a fazer. Mas a minha mãe chegou para salvar o dia.

- Ah querida, desculpe eu não quis atrapalhar.

Já eram oito horas e minha mãe tinha vindo me buscar e fechar a loja como ela sempre fazia. Eu nem tinha visto o tempo passar. Ela estava envergonhada, como uma mãe que pega a filha dando uns amassos, acontece que eu não estava dando uns amassos, eu acho.

- Ah tudo bem mãe. eu só estava tentando pegar um livro e escorreguei.

Era a mais pura verdade mas eu percebi assim que saiu da minha boca que parecia a pior desculpa do mundo. Minha mãe nos olhou com aquela cara de “aham, sei” e pro meu imenso horror resolveu ser simpática com o Chaz, como se quisesse deixar meu namorado a vontade depois de nos pegar em uma cena constrangedora.

- Ellie, não vai me apresentar seu amigo?

- Ele não é meu amigo – acrescentei rápido demais – a gente, hum, só estuda junto. Mãe esse é o Chaz Sullivan.

- É um prazer conhecê-la senhora...

- Satler. Mas pode me chamar de Bárbara.

Pode me chamar de Bárbara? Mas que merda é essa? Eu me apressei em interromper a confraternização.

- Bom nós já vamos fechar. Aqui está o livro. – estendi pra ele – Volume 4, Assassino Imortal.

Ele podia ter pego o livro no outro lado, mas resolveu pegar na minha mão enquanto pegava o livro.

- É cinco. – eu disse feito uma retardada.

Ele me estendeu uma nota de dez.

- Pode ficar com o troco, como ingresso pela performance. – ele sorriu.

- Volte sempre querido. – minha mãe falou, e acrescentou em um tom que pretendia ser baixo mas que até o mendigo do outro lado da rua deve ter ouvido – Uau Ellie, ele é lindo.

Ignorei a minha mãe e corri atrás dele, tinha lembrado de algo importante.

- Chaz espera.

Ele já estava na rua. A noite estava bem fria. Ele se voltou pra mim sorrindo, o que ele esperava que eu desse um beijo de boa noite nele?

- Sobre o que você viu, você sabe, será que podia, tipo, não contar pra ninguém?

Ele riu ainda mais.

- O que? Você pensou que eu gravei pra mostrar pra todo mundo ou algo assim?

Eu corei. Foi exatamente isso que eu pensei. Ele se aproximou e sussurrou no meu ouvido de modo conspiratório.

- Contar o quê? Que você é uma garota legal? Não se preocupe, será nosso segredinho.

Ele ia se afastando quando se voltou.

- Aliás, te vejo amanhã.

- Mas amanhã é sábado. – a rainha do óbvio.

- Mas amanhã é o dia do jogo. Não vai ir fazer sua parte no espírito escolar torcendo pro time? Eu definitivamente não vou jogar bem se você não estiver lá pra gritar meu nome.

Ele sorriu e sumiu na escuridão. Eu podia ouvir minha mãe trancando as portas, no carro eu ia ter que contar todos os detalhes pra ela. Eu praticamente tinha esquecido do jogo, e realmente tinha considerado não ir, mas eu precisava mostrar meu espírito escolar se quisesse ser popular.

Eu te vejo lá sim Chaz, mas não vai ser o seu nome que eu vou gritar.

Notas finais
Atire a primeira pedra quem nunca dançou feito uma louca quando estava sozinha. Eu AMO Bon Jovi e essa é a minha música preferida ever. Esse capítulo pode parecer bobinho mas vai ter importância no futuro.
Ah, a propósito eu tô lendo os Imortais e eu tinha que falar sobre isso na fic. Eu recomendo o livro é muito bom.
Deixem reviews que eu prometo postar mais até o final da semana.
Beijos
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.