Volta?

2 A escuridão da cidade


Ergo meu rosto cansado, procurando a luz da lua. Kurode dorme com a cabeça sobre meus joelhos, babando em minha calça. Bêbados e prostitutas passam por mim, falando em voz alta. Coisas do subúrbio da cidade.

No fundo, sei que estava errado. Sei que não deveria ter me comportado daquele jeito. Sei que aquelas palavras feriram você. Mais importante do que tudo isso, eu sei que me arrependo.

Tudo parecia tão certo naquela noite. Minhas ofensas, nossos gritos, seus insultos, nada me afetava. Eu só queria impedi-lo de fazer besteira. Talvez trancá-lo no banheiro como daquela vez em que você estava com febre, mas se recusava a tomar banho frio.

Eu queria segurar você pelos braços. Queria convencê-lo a ficar em casa em vez de partir sozinho em uma missão suicida. Queria abraçar você, dizendo que ficaria tudo bem. Que encontraríamos os olhos.

Juntos.

E agora estou aqui... Perdido nesta rua de subúrbio. Envolto pelo cheiro de bebida, urina e perfumes baratos. O cachorro sujando minha calça com sua baba. E eu desejo que você me encontre. Sei que é impossível. Mas desejo mesmo assim.

Acho que estou ferido. Não fisicamente, mas sim aqui dentro, nesse mesmo lugar que sempre dói um bocado quando você vai embora. Esse lugar chamado coração. Ele dói porque fui orgulhoso. Eu fui orgulhoso e saí de casa. Fui orgulhoso e abandonei você.

É que eu estava me sentindo sufocado. Precisava de um tempo para pensar. Ou talvez esquecer. Peguei minha maleta, guardei o estritamente necessário e assobiei. Kurode aproximou-se no mesmo instante, e eu prendi a guia em sua coleira.

Era hora de passear.

Quando percebi, estava fugindo. Não havia destino certo. Apenas peguei um ônibus qualquer e me deixei levar. Acho que adormeci. Quando acordei, um homem gordo e feio gritava comigo, dizendo que aquela era a estação terminal e que o maldito do meu cachorro havia vomitado no chão do coletivo.

Com um sinal de desculpas, saltei do veículo e olhei a podridão à minha volta. Não sabia onde estava e senti medo. Uma prostituta tentou se enroscar em mim. Eu a dispensei. Depois pedi minha carteira de volta, dizendo que aquela brincadeira não tinha graça e que furto é crime.

Agora estou aqui, procurando a luz da lua. Esperando você me encontrar. Sentado neste velho banco de madeira, faço carinho na cabeça de Kurode. Ele abre seus olhos castanhos, ganindo baixinho, e abana a cauda. Em seguida, volta a dormir, tranquilo.

O apartamento estava estranho quando eu decidi ir embora. Não parecia um lar sem você dormindo na minha cama, escovando os dentes no banheiro ou lendo algum livro no sofá da sala. Não parecia um lar sem o som da sua voz.

Deixei a televisão desligada. Deixei a geladeira vazia. O quarto continuou bagunçado, os livros de Medicina jogados de qualquer jeito no chão. O cesto ficou sem cachorro. Minha cama ficou sem você.

Aquele apartamento deixara de ser um lar.

Não procurei nenhum hotel ainda. Já são quase três horas da madrugada, mas eu não penso em dormir. Estou incrivelmente desperto. Tenho de cuidar de Kurode. Mas tenho de cuidar de você também. Será que eu deveria voltar? Como eu suportaria ficar sozinho em casa sem a sua companhia, sem a certeza de que você está vivo e bem?

Um bêbado cumprimenta-me como se fosse um velho amigo. Eu tento acenar de forma educada, mas ele grita e balança a garrafa de cerveja, chamando a atenção de alguns homens em um bar. É a minha deixa para acordar Kurode e arrastá-lo para longe dali.

Respiro fundo, tentando manter a calma. Péssima ideia. O cheiro da bebida, da urina e dos perfumes baratos invade meus pulmões. E há algo a mais desta vez. Acho que é maconha.

Onde eu fui me meter?

Agoniado, procuro a luz da lua, desejando que ela me dê uma resposta. Eu estou tão arrependido de ter deixado o apartamento, mas tenho medo de não aguentar ficar sozinho naquele lugar escuro e frio. Eu amo o Kurode, mas mesmo ele não é capaz de me acalmar quando meu coração fica assim.

Deixo as lembranças fluírem livres em minha mente. Deixo-as irem até você. Vejo-me pegando-o no colo para levá-lo do sofá à minha cama. Vejo-me colocando o livro que você estava lendo sobre a minha escrivaninha. Vejo-me lançando-lhe olhares furtivos quando deveria estar concentrado nos livros, porque amanhã tem prova, e o professor é carrasco.

Eu sinto tanto falta da sua presença. Ela sempre me deixa seguro. Porque eu sei que, quando você está ao meu lado, nada de ruim acontecerá a você. Eu posso protegê-lo. Posso cuidar de seus machucados, mesmo que você sempre reclame da ardência provocada pelos remédios. Posso cobri-lo quando vejo que está encolhido de frio na minha cama. Posso até beijar sua testa para desejar boa-noite, sem temer uma represália.

Queria tanto saber onde você está, para onde você foi. Queria voltar para casa e descobrir que você nunca fugiu de lá. Acontece que fugiu. E sua ausência me machuca. Mas, Kurapika... Se eu disser que ainda te amo, você volta?