Vollfeit - Interativa

2 Capítulo 1: pães de chocolate


Notas iniciais
Hey, pessoal (: Ainda não apresentei personagens mandados por vocês, pois estou usando o capítulo para arrecadar mais fichas. Agradeço por todas que recebi, animei-me por terem se interessado :3 (Acho que eu tinha algo mais a dizer, porém esqueci ;-;) Espero que gostem. Boa leitura, :)

– Bom dia, senhorita Arkan.

– Bom dia, senhor Ulaf – Neri retribuiu o cumprimento enquanto passava na frente do guarda, estático ao lado da porta enorme de madeira.

Empurrou-a após bater e, com passos leves e rápidos, adentrou o cômodo de estreitas janelas. Seguiu até o fundo da sala, onde uma plataforma carregava o peso de uma grande cadeira – pela aparência simples, não achava que aquilo fosse um trono – com o rei Inira descansando. Ao vê-la, largou no colo os papéis que segurava e levantou as mãos, exclamando sorridente:

– Minha querida! Como está?

Aproximou-se da plataforma e se ajoelhou com a perna esquerda.

– Estou bem, e o senhor?

– Ah, estou ótimo! Estamos organizando os expositores e artistas do Festival Anual, certo, Amara? – olhou com entusiasmo para a mulher em pé ao lado do trono.

– Estamos, senhor Inira – a mulher, braço direito do rei, assentiu rapidamente e com um sorriso fechado que logo desapareceu. Neri sabia que era um tanto constrangedor para a trabalhadora ter um companheiro tão animado e caloroso, diferente dela. Para a espiã, era difícil não rir nessas situações.

– E o que me traz, querida? – o velho fitou o envelope nas mãos pequenas da visitante.

– A análise das últimas terras, senhor – estendeu o braço, entregando o relatório de sua missão mais recente.

– Obrigado – recolheu o fino pacote pardo e, com a mão livre, abafou os cabelos à sua frente, bagunçando-os. – Não saberia no que confiar se não tivesse a melhor espiã de todos os reinos em Vollffeit.

Neri sorriu.

– Senhor, já sou profissional em arrumar cabelos depois de tanto tempo entregando-lhe relatórios – disse enquanto ajeitava seus fios.

– Ah, minha cara pequenina – o rei riu. – Suas filhas serão as mais bem arrumadas do reino então. Eu deveria dizer “minhas netas”? – questionou com um brilho nos olhos.

– O senhor sabe que não quero seguir esse lado da vida... – respondeu lentamente, sorrindo no final.

– Eu sei, eu sei! – abanou as mãos. — Mas ainda irá mudar de ideia, por favor. Você já faz parte da família, mas ficarei ainda mais feliz se casar com um de meus filhos. Sabe, os ihenes se maravilhariam em ter uma rainha assim!

– Deixarei a opção em aberto – sorriu e abaixou a cabeça em respeito, levantando-se em seguida. – Retirar-me-ei agora, senhor. Fiquem em paz – olhou para o rei e para Amara antes de voltar-se de costas.

– Cuide-se, querida! E não se esqueça de vir à reunião de hoje!

De volta ao corredor, caminhou até o fim da mesma, onde uma escada a aguardava. Descendo-a, topou com um garoto de cabelos pretos e olhos tão escuros que pareciam homenagear o símbolo de sua casa, a noite.

– Ah, senhorita Neri – parou no penúltimo degrau e disse com surpresa, abaixando a cabeça em saudação.

– Olá, senhor Asfield – imitou-o e sorriu rapidamente.

– Já disse, não precisa me chamar assim – desviou o olhar. — Meu pai está no salão?

– Está sim, e desculpe – sorriu com culpa.

O rapaz fitou a garota de vestuário quase completamente marrom, camuflando-se com seus longos cabelos ondulados. As roupas pareciam ser as únicas coisas que lhe davam volume, já que Neri era extraordinariamente magra e pequena.

– Algo errado, senhor?

– Não – percebeu que se demorara observando-a. – Ainda não me acostumo em ver um rosto jovem trabalhando com espionagem.

Neri sorriu com diversão. Estava acostumada a ouvir coisas como “parece uma criança no lugar de um espião” e “você não é feminina demais para isso?”. Ingênuos, não sabiam como isso era vantajoso para sua função.

– Tudo bem, você sempre diz isso – disse inocentemente.

– De qualquer forma, obrigado. Falarei com meu pai agora – começou a andar novamente, passando a escada. — Tenha um bom dia, senhorita.

A espiã de Inira saudou-o novamente antes de terminar a escada. A ideia do rei voltou-lhe à cabeça, fazendo-a rir internamente. Se não engraçado, era insano imaginar governar Ihene – ou Diellor, já que o rei deste pensava da mesma forma. Olhou para a mão esquerda, que ainda segurava um envelope, agora destinado ao senhor de Ranica, e imaginou a caminhada que a aguardava até o reino vizinho. Por sorte, seus antepassados foram bondosos em construir diversas pontes que ligavam os territórios aliados, tornando a viagem mais prática. Puxou o capuz, que cobria seus olhos e narinas, ocultou seus cabelos e saiu da construção imponente.

Andando por meia hora, chegou ao castelo do Sol. Foi recebida pela rainha Onola, que vagava pelos jardins da frente. A mulher tinha quase cinco décadas, mas seus olhos azuis emanavam tanta pureza que não parecia que vira e sentira as coisas ruins da vida.

– Pequena Neri, seu olhar está radiante hoje – olhou para a face encoberta da garota.

– Como viu, senhora? E isso é bom? – indagou um tanto confusa.

– Ah, mas é claro! E é visível para mim – riu carinhosamente. – Não percebestes, não é? Uma hora entenderá, querida – entrelaçou o braço com o da garota.

Dessa forma, levou-a até a sala do rei. Ao chegar à larga porta do cômodo, soltou-se.

– Passe na cozinha, ok? A Aldith sabia que você estava de volta de uma missão e preparou aqueles pães de chocolate.

– Sim, muito obrigada – Neri sorriu e observou-a se afastar antes de bater na porta.

A entrega do relatório ocorreu da mesma forma que em Ihene, mas sem as piadas sobre possíveis casamentos – para o alívio da espiã. Como sugerido, passou na cozinha do castelo antes de voltar para casa. As portas de madeira não conseguiam segurar o aroma magnético que vinha do local.

– Sua comida tem o melhor cheiro de todos os reinos que já visitei – falou após se aproximar silenciosamente de uma mulher tão baixa quanto ela, porém com o dobro de peso.

– Ah, Neri-Neri! – a cozinheira se sobressaltou e farinha voou para os lados. – Nunca me lembro dessas suas entradas! – suspirou enquanto limpava as mãos brancas no avental. – Venha cá, garota.

Aldith cercou a jovem com os braços e sorriu.

– Sabe que só vim pelos pães, certo? – retornou o abraço, sorrindo e abaixando o capuz.

– E eu não saberia? – bufou, separando-se e pegando um embrulho de toalha branca.

– Não são de feijão, certo? – encarou o pacote com desconfiança.

– Prometi que nunca mais faria essa pegadinha! – rebateu e riu com uma perversidade quase oculta.

– Tudo bem – desviou o olhar receoso para a mulher. – Obrigada, Aldith! – abraçou-a rapidamente outra vez e correu até a porta do outro lado do local, com visão de parte dos jardins dos fundos.

– É para dividir com ele, Neri! – gritou, mas a garota já estava fora de alcance.

A menina atravessou a área de descanso do quintal, indo em direção aos arbustos médios que formavam espirais se vistos do último andar. No centro do parterre, árvores finas cercavam um quiosque arredondado branco e de colunas altas. Dentro, bancos de pedra clara acompanhavam o formato da construção. O campo de visão de Neri captou a imagem de um garoto alto e de cabelos castanhos concentrado em tosar um dos arbustos ao redor. Aproximou-se do rapaz, que segurava uma grande tesoura de bronze e que se virou no mesmo instante.

– Olá – a espiã sorriu.

– Olá – abaixou o objeto cortante e voltou o sorriso. – O que tem aí? – lançou um olhar para o embrulho.

– Pães de chocolate. Na verdade, é melhor você provar primeiro para ter certeza disso –alarmada, sugeriu.

O garoto riu e pegou o pacote, retirando um pão dos vários que ali estavam.

– Chocolate? – Neri questionou com olhar ansioso enquanto o observava mastigar.

–Sim – disse após terminar o pedaço. – Esse pão é incrível – disse com satisfação.

– Valeu, Belch – sorriu e andou até o quiosque, sendo seguida pelo amigo.

Sentou-se em um dos bancos altos enquanto Belchior pousava o pote ao lado para que ambos pudessem pegar mais pães.

– Qual foi o reino da vez? – o rapaz perguntou entre mordidas.

– Chama-se “Okarios” — flexionou o braço para coletar o alimento. – Eles vivem bastante de comércio com outros reinos. Consegui a localização de mais lugares dessa forma.

– Entendi. E o que comprou?

– Isso – enfiou a mão livre no bolso interior da capa e puxou dois fios. – Um colar e uma pulseira das estrelas. Qual prefere?

– Ambos são femininos, Neri... – suspirou.

– Escolha um logo! – disse frustrada, mas logo sorriu com a expressão de decepção do rapaz.

– Fico com a pulseira então, assim você não se enrosca se ficar com ela – apanhou o acessório da mão esticada da menina.

O rosto da espiã se iluminou com um sorriso. Depois de uma viagem de dois meses, finalmente estava de volta ao lar, com direito à sua refeição preferida, em seu segundo lugar favorito e com o garoto que era considerado seu herói desde a infância.

Notas finais
O que dizer dessa Aldith que mal criei e já me orgulho? haheae Até a próxima, galerinha, :3