Vollfeit - Interativa
4 Capítulo 3: Kilston
Notas iniciais
– CAPÍTULO TRÊS -

Kilston
– Oliver, não faça isso... Já o avisei diversas vezes, garoto...
Sebastian olhou para o menino de cinco anos, que pulava no sofá, e suspirou. Manter dois empregos era exaustivo, principalmente se um deles pedia por paciência como requisito principal. “Pelo menos não irão passar por o que passei”, imaginou.
– Hadrian, pode me dar uma força? – gritou em direção ao segundo andar do orfanato. – Essa garotada está surpreendente hoje! – olhou para um garotinho que passou correndo quase sem vestes pelo cômodo. – Peter, ache sua calça! Temos que sair!
Com o apoio de Hadrian, um rapaz de quinze anos com cabelos ondulados, Sebastian e as crianças conseguiram sair a tempo para a caminhada matinal. O garoto era o único que conseguia assustar os mais novos, fazendo-os seguirem as ordens do adotante.
O exercício durava aproximadamente meia hora e era quase sempre o segundo desafio do dia – o primeiro se constituía em deixar todos apresentáveis antes de saírem nas ruas. Tentavam caminhos diferentes a cada semana para que as crianças soubessem se virar pelas vilas caso um dia necessitassem. Sebastian tinha dezenove anos, mas os moradores locais que os conheciam costumavam dizer que agia como um pai de elevado nível. Anos atrás, quando realizou o teste para descobrir seu poder, tinha a opção de trabalhar e morar no castelo como qualquer outro que passasse na prova. Sua resposta surpreendeu os reis, que decidiram dar um dinheiro extra
ao saber que o jovem guardaria todo seu salário até atingir a maioridade, quando construiria um orfanato na vila de Diellor.
– Sebastian – um dos meninos o chamou. – Estou me sentindo estranho...
O rapaz o fitou e esticou os braços como convite. Aceitando, a criança se deixou ser pega e carregada.
– Não se preocupe, você melhorará, ok? – sorriu docilmente para a criança, embora também sentisse algo diferente. Algo como hienas perversas os observando.
– Sebastian, diga que passaremos pelo Thorodan hoje – Hadrian, que segurava pelas mãos uma garota e um menino, questionou com os olhos brilhando após um tempo.
O soldado riu
.
– Há quanto tempo passamos por lá?
– Três semanas – respondeu com expressão de dor.
– Oras, isso é pouco! – Sebastian sorriu. – Tudo bem, mudaremos o início do caminho hoje.
Hadrian exclamou um “Isso!” e soltou as crianças, levantando rapidamente os braços em comemoração. Como dito, entraram por uma rua que não estava nos planos. Ela dava para outra mais extensa e larga, considerada a principal da região por ter mais lojas e atividades de lazer. Após alguns minutos, pararam em frente a um grande terreno com uma placa colorida escrita ”Thorodan”. Na frente, uma belíssima ruiva distribuía panfletos com os horários do circo.
– Bom dia, senhorita Vittelie – o jovem de cabelos castanhos proferiu com gentileza enquanto recebia um dos papéis.
– Bom dia, meu caro Hadrian – a mulher sorriu graciosamente. – Virá nos assistir esta noite?
– Falando assim, não há como não vir, certo, Sebastian?
– Ah, é cla...
Sua fala foi interrompida pelas crianças, que começaram a cumprimentar – em euforia – Cecília. A mulher, como todos diziam, apresentava um encanto único, principalmente quando estava em uma de suas performances de acrobata. Seus traços delicados contrastavam com as curvas de seu corpo e com os lábios um tanto carnudos, mas sempre com um delicado tom de rosa. Junto com os cabelos compridos e brilhantes, costumava fazer os homens se comportarem como Hadrian.
– Peçam para esses rapazes trazerem vocês mais tarde, certo? – Cecilia conversava com as quinze crianças que pulavam ao seu redor.
– Se o Hadrian pagar todas as entradas... – Sebastian cochichou sarcasticamente para o colega, que parecia totalmente focado na figura feminina. – Tudo bem, hora de irmos, bagunceiros!
Com esforço, Sebastian conseguiu reuni-los outra vez. Despediram-se e seguiram reto, retornando ao exercício rotineiro. Olhou para o mais velho dos órfãos e sorriu.
– Hadrian, sabe que isso é totalmente impossível, não sabe?
– O quê? Só porque ela é sete anos mais velha que eu?! Você pode ter dezenove, mas nem chega perto de ter um convite aceito! – retrucou com clara chateação, fazendo o soldado rir.
(...)
– Consegue localizá-los, Neri?
A espiã olhou brevemente para o companheiro de mechas castanhas e olhos que pareciam pequenas rochas de lápis-lazúli. Sentada ao seu lado no telhado de uma das casas de Diellor, balançou a cabeça negativamente. Estavam próximos ao orfanato Kilston e agora observavam Sebastian sair para seu período noturno no castelo.
– De que reino acha que são? – Aris perguntou.
– Não sei, mas já que conseguem “bloquear” sua presença assim...
Mesmo naquela escuridão, Neri enxergou o sorriso debochado do garoto.
– Ainda não são melhores que nós.
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