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11 Capítulo 10: o homem de Neri
Notas iniciais
– CAPÍTULO DEZ –
O homem de Neri
Neri estava decepcionada. No instante em que a noticiaram sobre o plano daquela noite, comemorou internamente por ter sido qualificada a trabalhar com o inalcançável Auren. Esperava animada pelo ano seguinte, onde passaria a ter aulas com o mestre do ar. No entanto ali estava ela, pousada em um telhado antigo de uma casa em Diellor, aguardando o homem mais forte de seu elemento. Imaginara o momento como único e propício, podendo afinar sua habilidade antecipadamente na presença do homem. Todavia este se mostrou, logo no início da missão, inesperadamente rude e soberbo. A posição de homem mais talentoso dos ventos de Ihene pareceu selar uma personalidade presunçosa que, segundo Neri, tornaria longo o trabalho que tinham pela frente.
O dono desse caráter saiu de dentro da construção em que Neri estava apoiada, tornando-se visível para a mesma. Escalou, com uma habilidade única, a casa e se colocou ao lado da companheira, revelando seus curtos cabelos escuros ao redor do rosto comprido e fino. Seus olhos eram pequenos e verdes, mas quase não apareciam devido às grossas sobrancelhas, que tomavam praticamente todo o espaço dedicado às pálpebras. O que mais chamava a atenção naquela face vigorosa era, porém, o símbolo bege cravado em tinta no centro da testa: a cabeça de um besouro-rinoceronte.
– Todas as casas, por fim, devidamente corrigidas – disse indiferente.
A garota assentiu e se controlou para não suspirar. Até o fim daquela noite, ainda arranjaria confusão com o homem por não conseguir fiscalizar sua língua. “Inseto monocelho”, retrucou mentalmente.
Olhou para a imensidão do reino do Sol mergulhada na noite e aparentemente normal. Às onze horas da noite, as poucas lojas ainda abertas apagavam suas luzes em sinal de fim de período. Os guardas estavam em suas posições de sempre enquanto alguns moradores passeavam por algumas ruas. Se quisessem capturar o inimigo, deveriam iludi-lo e não deixá-lo saber que já tinham ciência sobre sua presença. Camuflados entre as sombras de casas mais altas, ela e Auren esperavam pelo momento em que o homem da primeira noite saísse em sua missão.
– Se o virmos, fique aqui e avise o resto – o mestre do ar começou a explicar de última hora. – Eu irei imobilizá-lo antes que vocês cheguem.
– Sim, senhor – Neri respondeu educadamente, mas tudo o que sentia era uma vontade contínua de empurrá-lo para a via lá embaixo. Então sorriu e continuou. – O que o senhor usará para isso?
Auren a olhou com ligeiro desdém.
– Um truque que chamo de “Elemento persuasivo”. Não explicarei, pois você não entenderá.
– Seria aquele em que o senhor rodeia a cabeça do alvo com uma cápsula sem oxigênio? – falsamente pensativa, questionou.
– É uma redoma – corrigiu-a de modo ligeiramente mal-humorado, começando a mostrar sensibilidade naquele jeito frio e seco.
– Ah, sim, peço desculpas, se... – parou de pronunciar assim que um calafrio a tomou e seu coração acelerou.
No mesmo momento, Auren se virou para o sul e começou a saltar entre os telhados até que desaparecesse do campo de visão da garota. Neri relaxou, diminuindo a velocidade dos batimentos cardíacos, e criou uma esfera de ar para Kodir, que esperava pelo seu sinal a sete esquinas dali.
Com o recado dado, tentou segurar a ansiedade que a tomou após reconhecer a presença do inimigo, o mesmo que invadira o reino após voltar de Okarios, sua última missão. Naquela noite, o “trio do teletransporte” e aqueles outros quatro combatentes não eram nada além de distração. Aquela gente, quem quer que fosse, tinha aliados em Diellor e, para continuar com essa vantagem, precisavam ser mais que cautelosos.
Neri sentia fracamente o indivíduo movendo-se pela vila, à quilômetros de distância dali. Sua presença era tão peculiar que atiçava na garota, mais do que em outras vezes onde se via no início de uma batalha, seu desejo costumeiro de lutar quando encontrava um oponente hábil. Infelizmente, chegaria quando a luta já tivesse sido finalizada por Auren – o plano de não se aproximar do local era coerente, já que o contrário poderia alarmar o invasor, mas não deixava de ser maçante.
Suspirou mentalmente e, encarando as ruas solitárias à sua esquerda, iniciou a espera de dez minutos que seu companheiro pedira.
(...)
Após Auren desaparecer por dez minutos, Neri sentiu o intruso se deslocar rapidamente para o leste, informando-a de sua tentativa de fuga ao se encontrar com o mestre do ar. Com isso, mostrava também a dificuldade que conseguira criar para o famoso homem, já que este estava confiante de que reprimiria o opositor logo no primeiro momento.
Certificando-se de que sua presença estava oculta, Neri se levantou e correu através dos telhados até o lado oposto de onde estava. O inimigo poderia mudar sua trajetória a qualquer instante, mas, após calcular apressadamente os diversos caminhos que poderia tomar, escolheu por instinto o de média duração, que a fez viajar por cinco minutos.
Chegando a um aclive, parou. Não sentia mais seu intruso. Olhou ao redor e viu diversas árvores rodeando a via larga e comprida ao mesmo tempo em que construções e arcos, formando ligeiros túneis, marcavam os limites do pavimento. Esse conjunto de obstáculos jogava uma sombra fria e amedrontadora sobre os lampiões de luz fraca lá embaixo. Era o ambiente ideal para um espião.
Posicionando-se em um ponto alto e fora da luz lunar, começou a procurar entre as telhas das casas algo que lhe chamasse atenção. Sua busca foi finalizada quando duas figuras negras apareceram, entre saltos, na sua direita. A segunda, logo identificada como o domador de ar, perseguia seu oponente. Debaixo da capa cinza, quase preta, do invasor, nada conseguiu descobrir. Agachada, vislumbrou os movimentos leves e ágeis de ambos os homens, que pareciam disputar uma corrida até o castelo do Sol. Próximos a um dos túneis, o primeiro parou repentinamente e se preparou para desviar de um possível ataque. Como imaginado, Auren soltou uma pequena, mas veloz, lufada. Com habilidade, a figura misteriosa gesticulou com as mãos para cima, desviando o ataque no momento perfeitamente calculado. Neri, agora, interessava-se mais na luta após descobrir a natureza de elemento que compartilhavam.
– Podemos dar uma pausa nisso tudo? – o encapuzado levantou as mãos em rendição. – Finalmente consegui achá-lo.
A espiã, capaz de ouvir tudo o que acontecia na rua, surpreendeu-se. A voz que vinha debaixo daquelas vestes grossas era jovem. Jovem e agradável.
– Rogo para que me dê um tempo, meu caro! – voltou a falar assim que desviou de um segundo ataque. – É realmente importante.
– Acha que tem opção para falar, criatura suja? – Auren proferiu violentamente enquanto soltava seu terceiro golpe de ar.
– Auren, professor de último grau do elemento do ar – ou do nosso, como preferir – respondeu após saltar para fora da mira inimiga. – E incapacitado de usar suas habilidades quando criança por problemas psicológicos, sofreu repreensões da própria família e dos amigos. Prometeu a si mesmo se tornar o melhor de todos e não deixar que nada mudasse isso – falou rapidamente e, vendo que seu oponente parara de atacar, continuou. – Realmente não queria ter que utilizar disso, senhor Tristan, mas infelizmente foi a única opção – olhou para o lado de modo aborrecido. – Já que não quis me conceder a pedida...
– Quem é você, imundo? – questionou-o com olhos raivosos.
– Sou Eslin, senhor – respondeu, ao contrário de Auren, com olhos brilhantes de entusiasmo. – E procuro por aquele com posse da posição de melhor jovem do ar. Não tenho certeza se é realmente alguém da minha idade. Isso foi só uma intuição...
– É a mim que procura – encarou-o. – Sou considerado, por todos, o mais habilidoso nesta natureza.
– Ah, eu sei, acabei de dizer pro senhor sua biografia, mas agradeço a intenção – falou em tom sarcástico. – Procuro alguém em meu nível, se não em um maior, que conseguiu me localizar na primeira vez que aqui estive. O senhor não o fez, não é? – sorriu com falsa inocência.
No telhado, Neri sorriu com diversão. Não deveria, pois aquele pequeno ato diminuiu, mesmo que por instantes, sua guarda. Auren, no entanto, fechou as mãos em ato revoltado e, prestes a lançar toda a sua força naquele garoto, parou ao vê-lo olhar para cima com grande curiosidade.
– Ah...
Enquanto observava intensamente os andares mais elevados das construções, desceu o capuz de sua capa, revelando uma face condizente com a sua voz. O rosto retangular e estreito contava com olhos levemente caídos e irônicos que eram contornados por sobrancelhas um tanto arqueadas. Os cabelos, lisos e cor-de-mel, criavam uma harmonia singular com os lábios delicados e as íris verdes.

– Por que não vem aqui? Gostaria muito de conhecê-lo – disse para as sombras enquanto andava a procura de seu alvo no céu vazio.
Mentalmente, Neri ralhou consigo mesma. Sua vontade de amolar Auren avisou o inimigo de que esse não estava mais sozinho. Era uma péssima espiã – embora, no fundo, achava graça em não seguir as ordens do homem.
Olhou para Eslin, que não parecia passar dos vinte anos, e analisou seu olhar carregado de encanto e excitação. Como ele, sentia vontade de ficar cara a cara com seu inimigo e desafiar suas habilidades. A pose de Auren, todavia, fazia-a repensar sua cogitação.
– Venha logo. Já estragou tudo! – o mestre gritou com evidente aversão.
Como ordenado, Neri desceu pelos telhados silenciosamente. Em segundos, estava parada no meio dos homens. Eslin, vendo apenas o indivíduo com o rosto coberto, sorriu empolgado enquanto balançava a cabeça positivamente.
– Finalmente o conheci – dobrou o corpo em reverência. – Poderia dizer o nome de meu melhor adversário?
A garota não respondeu. Ficou ali, encarando o rapaz afeiçoado.
– Então é tímido? Vamos lá, eu vim até aqui apenas por você! – sorriu de lado.
– E nós estamos aqui para te prender – Auren recitou com convicção. – É melhor voltar a correr se conseguir.
Parecendo não ouvir o homem, Eslin caminhou lentamente até a figura baixa em sua frente. Chegando perto o bastante, esticou um dos braços e a tocou levemente, fechando seus dedos ao redor do que descobriu ser um fino pulso. No mesmo momento, seus olhos se abriram em surpresa e se voltaram para a face encoberta pela sombra da touca, que deixava exposto apenas lábios pequenos e aparentemente macios. O garoto sorriu levemente enquanto Neri encarava seu tórax inexpressivamente. Por mais que a situação fosse estranha e inesperada, a espiã sabia que não seria atacada. Se aquela pessoa parara e enrolara Auren com o objetivo de encontrar o que considerava seu verdadeiro oponente, não o mataria assim que o conhecesse. Eslin possuía as regras de um honrado combatente.
Ao contrário de como Neri reagira, Auren, vendo sua companheira ser tocada, criou um ataque certeiro no rapaz, que soltou a espiã para que não fosse levada com ele — o ato, embora quase imperceptível, fora curioso. Eslin caiu de costas a metros dali, acertando a entrada do túnel. Tossindo, tentou se levantar, mas viu-se interceptado pelo velho da tatuagem, que pulou sobre seu corpo magro e direcionou, com a mão direita, um redemoinho do tamanho da mesma em direção ao seu crânio. A cápsula de ar se expandiu e cercou a área do pescoço de Eslin para cima, dificultando sua respiração a cada instante. Começando a soluçar pela falta de ar, olhou para o lado, onde Neri, que retirara o capuz, assistia a tudo. O que via, para seu infortúnio, era apenas a imagem embaçada de um rosto moldurado por longas mechas, já que as correntes de ar que dançavam ao redor de sua cabeça impediam qualquer visão nítida.
Sua pele começou a perder a cor assim como sua respiração enfraquecia. E então reparou na agitação da espiã. Diligentemente, a garota gritou algo para Auren — aquela cápsula o privava de tudo, mas, mesmo sem audição, entendera a situação. Viu Neri se aproximar e chacoalhar o homem absorto em manter sua habilidade. Este tentava se largar da garota que, agora impaciente, decidiu agir sozinha: agachando-se ao seu lado, tocou a redoma de ar e a pressionou a fim de quebrá-la. Segundo sua expressão, a resistência daquela barreira era maior do que imaginava. Muito maior. Tentou sorrir para a garota, mas os movimentos involuntários o impediram. A pouca força que ainda lhe restava era usada para reforçar a própria cápsula, prejudicando o plano de Neri, que transmitia sua frustração através dos olhos de formato meigo.
Com as pupilas já dilatadas, sua visão começou a escurecer até tirar sua consciência.
– Isso terminou – disse Auren, endireitando-se e coletando, com o ar, o corpo inerte do invasor.
Neri o fitou. Não conseguia acreditar que alguém tão admirado, não só pelos usuários do ar, mas de outros elementos, era capaz de agir pelo orgulho débil que possuía.
– Não, não terminou – desviou o olhar, encarando sem emoção a rua. – Você iniciou tudo... Assim como planejavam.
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