Notas iniciais
Hey, galera c: Perdão pela demora, viajei nesse final de semana e não consegui postar. Estou usando esse capítulo para arrecadar mais fichas, então, a partir do próximo, vocês verão os personagens enviados ^-^ É isso. Boa leitura!

Capítulo 2

Chá de pêssego

Em sua frente, através de grades enferrujadas, o rosto de um homem, talvez nos seus trinta anos, apresentava os olhos mais vazios e superficiais que Neri já encarara. A figura masculina estava sentada num banco de madeira posto em um dos calabouços do castelo de Diellor, iluminado por tochas de chamas ferozes dentro e fora do cômodo de pedra. Parecia não se mexer por horas, seu corpo sem vontade de recuperar qualquer energia que apresentara, segundo os reis na reunião daquela tarde, semanas atrás.

Deu mais uma olhada no homem, controlando um sentimento negativo que parecia tentar florescer dentro de seu peito, antes de voltar aos andares principais do castelo. Caminhou até a ala oeste, no quarto andar, e parou numa porta com uma pequena placa de madeira enfeitando-a. Era talhada com a palavra “Alamand”.

Pensava se batia ou não quando a tábua se moveu para trás, revelando parte de um cômodo que Neri sabia ser uma sala aconchegante, de lareira e sofás sempre convidativos.

— Olá – Belchior a cumprimentou com uma voz lenta, parecendo ter acordado há pouco tempo.

— Olá – retornou. – Estava dormindo?

— Não – respondeu enquanto dava espaço para Neri entrar. Depois fechou a porta e se dirigiu até uma poltrona bege no meio da sala, estirando-se preguiçosamente. – Estão nos aconselhando a treinar todos os dias... Só sei cortar arbustos, não farei nada em uma batalha.

— Você pode mostrar as esculturas que faz aos inimigos pra desconcertá-los... Não é qualquer um que aguenta olhar pra coisas feias por muito tempo – disse distraidamente, sorrindo no final.

— Me pergunto como convivo com você há tanto tempo então.

— Talvez você não tenha ganhado dores o suficiente nesses treinos – os olhos de Neri brilharam, e ela sabia que ele tinha entendido sua sugestão perversa.

A aura mágica ao redor da garota aumentou, esperando a resposta de Belchior. Se ele não a conhecesse desde criança e não tivesse ciência de sua força, talvez pudesse ser enganado pelo porte frágil que tinha.

— Por que não me contou... Sobre os sequestros quando cheguei? – Neri abandonou a magia que pairava intencionalmente ao seu lado e fitou as cortinas amarelas do cômodo, que balançavam com a brisa que entrava pelas janelas entreabertas.

— Não parecia certo – a resposta demorou um pouco.

Neri suspirou.

— Cheguei tarde – disse, citando sua última missão, nas terras de Okarios.

— Não se sinta culpada, ninguém preveria alguém sequestrando as crianças daqui.

E ele estava certo, Neri sabia disso. Estava cumprindo com a sua função, que fora treinada desde pequena para ser eficiente, de se misturar na população e observá-la, de defender seu reino com todas as informações e conhecimento que poderia adquirir fora de Vollfeit. Cresceu para, quando e se precisasse, conhecer tudo sobre os inimigos, atacando seus pontos fracos caso atacassem os de Diellor e Ihene. No entanto, agora atacavam suas crianças, que eram as pessoas mais inocentes que Neri poderia apontar ali. O sentimento de raiva anterior ainda a acompanhava, mas infelizmente precisava mantê-lo quieto.

— Além disso, não ia mudar nada você estar aqui – acrescentou, indiferente.

Os cabelos castanhos do garoto rapidamente se levantaram, como se tivessem vida própria. Começaram a dançar energicamente de um lado para o outro até caírem brutalmente no rosto oval, tampando os olhos que se estreitavam em sinal de chateação.

— Seu cabelo está estranho, Belch – Neri o encarava. – Ah, não mudou nada, na verdade – sorriu.

O garoto retornou um olhar profundo antes de rapidamente puxar uma almofada de trás de seu corpo e arremessá-la para frente, sem, no entanto, acertar seu alvo. O objeto feito de penas flutuava com delicadeza no ar, a centímetros do rosto de Neri.

— Uma pena eu não poder incendiar você sem acabar com a casa – Belchior falou.

Neri sorriu outra vez. Sentia-se bem por estar de volta, com sua rotina dividida entre treinar e importunar Belchior e Aldith. Sentia-se bem por poder agir como ela mesma, conversando com as pessoas sem colher informações ocultamente. Adorava o que fazia e continuaria fazendo até que não precisassem mais dela, todavia também sentia falta de casa em certos momentos – talvez por ainda não ser forte o bastante. Talvez fosse por aquilo que, segundo Onola, seus olhos estavam alegres? De qualquer forma era uma pena, pensou, o conforto ter que durar tão pouco.

Segundos depois, a porta se abriu após um barulho seco emanar daquela direção. Um homem alto e relativamente magro, de cabelos parcos e um tanto grisalhos, apareceu, iluminando o rosto com um sorriso ao ver a jovem visitante.

— Neri, boa noite – disse gentilmente enquanto tirava seu casaco fino acobreado. – Passou bem em sua viagem?

— Boa noite, senhor Alamand – devolveu o sorriso. – Sim, obrigada. É um bom lugar lá.

— Ah, que bom – sua voz era sempre calma e amigável. – Mas ficou tanto tempo lá dessa vez, não é? Deve ser difícil para algumas pessoas – e olhou discretamente para o filho.

— Me acostumei depois de algumas missões – deu de ombros, descontraída.

O homem sorriu.

— Bellida prepararia um chá especial para você agora.

— Eu adoraria – falou alegremente, apesar de ocultar uma pontada de tristeza em seu peito. – Voltarei para casa agora, obrigada por tudo – levantou-se.

— Boa noite, Neri, e leve alguns pães com você, ganhei alguns extras hoje e não comemos tanto assim – sorriu enquanto Belchior também se dirigia até a porta.

— Ah, obrigada, mas já comi – acenou e ultrapassou a entrada. – Boa noite e bom descanso pro senhor.

No corredor salpicado pela luz lunar e por poucas tochas acesas nas paredes, Belchior a acompanhou numa caminhada até as escadas. Estava pensativa, lembrando-se da mãe do amigo e dos chás incríveis de pêssego que costumava fazer sempre que ia brincar com o garoto na infância, quando o jovem a despertou com uma frase.

— Descanse antes de tentar novos poderes. Não vá adoecer outra vez – o garoto a olhava de esguelha.

— Eu vi uma parte do que, quem quer que seja atacando o reino, pode fazer – sua expressão ficou séria. – Aquele homem preso pode limpar sua própria memória instantaneamente, só pra não revelar sobre sua missão. Não sei como ele fez isso.

— Isso não quer dizer que são mais fortes que nós. Não se esforce, Neri.

— Tive meses de descanso em Okarios... Sabe o que é ficar sem praticar todos os dias com lutadores bravos e gigantes? Tive que acordar no meio da noite e ir até uma floresta vazia pra me exercitar.

— Quase fiquei com pena – deu um sorriso de lado.

Achando graça, só percebera naquele momento que estavam parados na entrada do castelo, sendo atingidos pela temperatura refrescante daquela noite sem estrelas. Belchior, com a cabeça inclinada, observava inexpressivo o céu.

— Até mais, Belch – despediu-se.

— Irei até a divisa – fitou-a, como se esperando que voltasse a andar.

— Você não parece ter forças pra isso.

— Vamos, assim posso voltar mais cedo pra casa – começou a andar, mas notou a suspeita da garota. – Podem te confundir com uma criança no caminho e te sequestrarem.

O que uma criança pode fazer defendendo outra?, pensou, mas reprimiu as palavras. Não seria certo falar aquilo para ele.

— O que ia falar? – seus olhos, agora com um leve brilho de diversão, miravam-na.

— Nada que já não saibamos, como eu ser uma espiã treinada... – sorriu.

— É mesmo? — respondeu falsamente surpreso.

— Não, prefiro cuidar de plantas — sorriu, mas sua voz transbordava ironia.

— Ei, criança — Belchior se aproximou e puxou o capuz do manto de Neri até o queixo feminino, bagunçando todo seu cabelo.

A espiã riu. Olhou para o amigo enquanto arrumava suas madeixas de volta e pensava no que faria para castigá-lo quando algo entrou em sua barreira de ar, uma de tamanho mediano que deixara sobre parte de Diellor desde que saíra da reunião.

— O que foi? — Belchior notou o silêncio e a expressão séria inesperados da garota.

— Invasores.

As sobrancelhas do rapaz se arquearam levemente. Se Neri conseguira sentir os inimigos perto dali, o castelo também já estava avisado — e, provavelmente, sentiam mais invasores do que ela poderia distinguir.

— Irei até lá — Neri deu meia volta com o corpo rapidamente, andando na direção em que vieram.

Belchior assentiu e correu ao seu lado até parar nos portões do castelo, naquele momento com dúzias de soldados abandonando-o em direção ao oeste, nos limites de Diellor. Neri continuou sua viagem, desviando rapidamente das árvores do bosque, que separava o castelo da vila. As novas presenças no reino não estavam fortes, talvez por se encontrarem no limite de sua bolha-radar, mas conseguia acompanhá-las se movimentando lentamente pelas plantações de trigo da região. Com a ajuda do ar, aumentou sua velocidade e, em menos de dez minutos, chegou aos armazéns que protegiam parte das plantações daquela época.

Metros à frente, uma área longa repleta de trigo alto era banhada pelo brilho da lua, dando um aspecto mágico ao simples campo. Os invasores estavam à esquerda, mais próximos à floresta Beor. A tensão que vinha acumulando se afrouxou, analisando as auras desconhecidas, agora mais claras. Eram pesadas, como se carregassem sentimentos negativos durante toda a vida, mas não demonstravam grande poder, pelo menos não para Neri.

Decepcionada, encarou a entrada da mata por mais um tempo, vendo, com o canto do olho, dois soldados liderando uma tropa para aquela direção. Suas faces estavam cobertas por determinação e bravura, assim como seus corpos rígidos e bem ensaiados. Os novos adversários, pensou, não seriam um forte obstáculo para eles.

Esgueirou-se para trás de árvores próximas até se afastar das plantações e entrar, outra vez, nas áreas residenciais da vila, mais ao sul. Enquanto os soldados e guardas seguiam suas funções, caminharia por outro local apenas por prevenção, já que dominadores de ar mais habilidosos que ela guardavam os reinos com suas bolhas-radares. Então desativou a sua e só foi reconstruí-la a um quilômetro dali, abraçando parte das casas de Diellor. E automaticamente algo a fisgou.

Uma presença fraca, pequena e distante dali entrou em seu alcance. Era diferente das outras intrusas daquela noite e se movimentava velozmente para o leste, talvez para o centro do reino. Sem hesitar começou a correr, usando as sombras criadas pela lua, sua eterna companheira, e alcançou-a pouco depois.

Numa extensa rua de terra batida, casas apresentavam seus cômodos do segundo andar com cortinas iluminadas por velas. O silêncio reinaria ali se não fossem as risadas de diversão das crianças, que provavelmente se recusavam a dormir fazendo traquinices. Neri escalou uma das construções de madeira, que parecia ter seus donos adormecidos, e descansou seu corpo no telhado, entre uma coluna de pedras tortas. Seus olhos se movimentavam freneticamente, procurando seu alvo na escuridão entre as moradias. Suspirou mentalmente, chateando-se por senti-lo perto, mas sem uma localização exata. Como um gato ágil se levantou, curvando-se, e caminhou entre os telhados, estudando todos os cantos do cenário com mais afinco. Parou quando percebeu uma janela aberta pela metade à uma esquina de distância, enfeitando uma casa antiga e de ar simples. Um volume estranho se equilibrava no meio da abertura, onde a luz amarelada de uma vela ou lampião tentava escapar.

Neri decidiu se aproximar, precisava confirmar o que via. Deu quatro passos, saltando uma moradia, até começar a diminuir a distância entre ela e o objetivo gradativamente. Estava a apenas três casas quando algo dentro de si apitou. Seu corpo ficou estático, não ousava deixar seus batimentos cardíacos criarem qualquer ruído. O volume na janela se virou, revelando metade de uma face pálida, estranha sob a luz amarelada e o manto preto. Neri viu o homem com quem trocava palavras sumir para dentro do cômodo enquanto a figura encapuzada começava a correr para longe, como se estivesse sozinha naquela escuridão toda.

Como se estivesse apressada.