Capítulo 12

Para Melandra

Passaram quase cinco dias daquele jeito. Neri não perguntava ao mensageiro sobre ele, e ele não a questionava sobre quem ela era e porquê estava ali. Conversavam naturalmente, citando histórias engraçadas e assuntos inocentes, como as etapas para fazer uma torta de morango. Aquilo bastava para passar o tempo enquanto os guardas não voltavam e a espiã agradecia — explicar parte do que acontecera para fazê-la estar ali, mesmo que resumidamente, não constava na sua lista de coisas preferidas -, embora ainda sentisse cada vez mais curiosidade sobre o mensageiro. Todavia, mesmo durante as conversas, a mágoa por sentir como se nunca pudesse ser melhor do que era, duvidando de si mesma, ainda aparecia.

— Então hoje é o último dia de festival? — o rapaz, apoiado na porta com os cotovelos, olhava-a sentada.

— Sim — desviou o olhar por um tempo.

— Neri…

Encarou-o. Seus olhos a fitavam com desconfiança, mas certa preocupação.

— Pode vir aqui?

Ir até a porta? Surpreendeu-se com o pedido, imaginando brevemente se o mensageiro tinha recobrado sua memória e criado uma armadilha. Levantou-se e deu poucos passos até ela, tocando o metal frio com as palmas da mão. O garoto estava a poucos centímetros, barrado somente pela porta. Viu-o levar o braço até a abertura retangular, passando os dedos e alcançando o espaço entre seus olhos, tocando-o três vezes antes de sorrir fracamente.

— Eu lembro de algumas coisas… Da minha infância. Isso é uma delas. Uma mulher, provavelmente quem cuidava de mim, fez isso quando cheguei triste no quarto…

Neri arqueou as sobrancelhas. Ele tinha memórias? Até onde elas poderiam ir?

— Isso te ajudava? — estudou-o tentando não transparecer sua curiosidade cada vez maior.

— Acho que sim. Queria poder lembrar — deu de ombros, deixando-os cair tristemente em seguida.

— Então pode me ajudar. Obrigada — deu um sorriso fechado.

— Você vai conseguir, não importa em quanto tempo. Se você está aqui… Então você é forte. Acho que sou um tipo incomum de prisioneiro, por estar isolado e com vários guardas… E você substituiu os cinco.

— Forte… Não parece a melhor palavra pra mim — repassou mais uma vez as cenas onde falhava em cada tentativa de teleporte e de cada movimento usado contra aquele jovem em sua frente.

O mensageiro trocou o peso do corpo para a outra perna, ajeitando-se.

— Não sei dizer como… Mas desde que desceu até aqui na primeira vez, senti uma coisa diferente. Em algumas lembranças também consigo sentir as pessoas…

— Coisas? — tentou incitar as memórias do rapaz.

— É como olhar para alguém e saber se ela é uma boa pessoa ou não, se ela é forte ou não. Como uma atmosfera ao redor dela. Mas forte… Há vários significados. Você tem um. Não tem?

— Tenho? — disse sem fé, mas parou para raciocinar. Ele estaria falando sobre sua habilidade antiga de notar presenças e auras, assim como ela também fora treinada para, ou era algo diferente?

— É melhor se você responder — e encarou a parede ao lado.

Neri entrou em um estado de introspecção, analisando os possíveis significados para o que ele estaria citando. Suspirou e, voltando os olhos para o jovem, percebeu que era observada com um sorriso amigável. Não conseguiu deixar de sorrir ao ver aquela face descontraída. Suspirou outra vez; ele ainda era um inimigo. Que situação irritante.

A risada masculina preencheu seus ouvidos. Era baixa e leve, servindo como um bom ruído no meio daquele silêncio. Olhou-o com confusão.

— Não consigo te ajudar… Então lembrei que dizem que a risada é contagiosa — deu de ombros e sorriu novamente ao receber um olhar pouco crente de Neri. — Estou tentando.

— Parece que sim — sorriu.

Pouquíssimos segundos antes de Kyprios aparecer ali, Neri sentiu uma mudança no ar. O espião surgiu no meio do corredor e rapidamente a alcançou.

— O rei Joseff nos chama — disse urgente.

Neri assentiu, sem ter tempo de pensar no que havia acontecido antes de ser teleportada. A dupla apareceu num corredor do castelo de Diellor que conhecia bem. Estavam de frente para a sala real. Kyprios a guiou para dentro, onde uma pequena tropa de guardas estava em volta do trono do rei, sentado e de expressão séria. Uma figura estranha, no entanto, também fazia parte do ambiente. Neri viu uma mulher de cabelos loiros, quase como um canário, presos no topo da cabeça. Estava em pé e de costas, sustentando uma posição ereta e firme.

— Ah, vocês chegaram — o rei falou, mandando-os se aproximarem. — Como se sente, Neri?

— Estou me recuperando bem, senhor — cumprimentou-o com uma reverência.

— Ótimo, ótimo — e se levantou, olhando para todos os presentes. — Soubemos que um reino de nosso tratado de paz e comércio começou a ser atacado por inimigos desconhecidos. Esta — apontou respeitosamente para a mulher desconhecida. — É Aalix, de Melandra. É uma mensageira confiável de nosso rei amigo e veio nos informar da situação de seu reino. Sei que alguns não sabem, então falarei o que precisam por enquanto: Melandra é um lugar pacífico que produz alguns produtos para comércio.

“Não são um povo treinado em sua maioria, então precisamos protegê-los. Mas… Nosso reino também está em uma situação delicada, ainda mais agora… Precisamos mandar o menor número possível. Então escolherei um dos mais confiáveis no reino, Aalix, pois Melandra também é importante.”

Joseff deu a ordem para que a mulher esperasse por um grupo seleto para que voltasse, junto a ela, até Melandra, sendo escoltada para fora pelos guardas da sala. No fim, sobraram apenas os dois espiões do ar.

— Acredito que vocês já tenham entendido… Quero que vocês viajem até o reino de Aalix amanhã e façam o que puderem para ajudá-los. Sei que é pedir demais, porém confio muito em ambos e em suas capacidades. Peço desculpas por não poder deixar Auren acompanhá-los.

— Sim, senhor — Kyprios assentiu.

Neri observava a tudo com uma aparente calma, mas internamente tentava prever se aquilo daria certo. Ainda não estava em sua melhor condição para batalhar e participar de uma missão com Kyprios — dessa vez ciente disso — não a animava. O rei a olhava com expectativa, aguardando pela resposta. Não quero mais responder por vocês…

— Tive uma ideia, senhor, que poderá ajudar o reino se tivermos sucesso.

— Diga-me o que, querida — disse atenciosamente, gesticulando para que continuasse.

— Quero levar o mensageiro conosco.

O rosto do rei desmoronou. Era uma ideia absurda, e Neri sabia disso, mas era um possível modo de fazer o prisioneiro recuperar suas memórias, assim como Kyprios citara antes, e ganhar informações cruciais para a vantagem de Vollfeit naquela batalha. E talvez, no fundo, quisesse também ver o mensageiro fora das celas.

Sem expressar qualquer sentimento, no entanto, deu sua explicação ao rei.

— Pelo que observei durante esses dias, creio que é realmente possível recuperar a mente dele.

— Entendo… — Joseff estava com a cara torcida como se mil pensamentos o cutucassem de uma vez. — E se ele se lembrar de tudo enquanto estão fora? Ou o fardo que ele seria nessa missão.

— Kyprios é muito habilidoso e confio minha vida e a do prisioneiro a ele — respondeu sem hesitar. Não que fosse verdade, mas precisava soar como um bom argumento. Afinal, o espião era como um lacaio dos reis.

O rei assentiu após um tempo.

— Se vocês estiverem aptos a seguir a missão assim, então avisarei os guardas para que deixem levar o prisioneiro. Se qualquer mudança acontecer com ele, um de vocês precisará trazê-lo. Vocês terão um importante trunfo nosso.

— Sim, senhor — Neri dobrou o corpo em respeito e se retirou, segurando um sorriso. Estava satisfeita.

— Foi uma boa ideia — Kyprios disse já no corredor. — Mas acha que pode dar certo de verdade? Não sabemos como Melandra está.

— É por isso que você foi chamado, certo? — falou naturalmente.

— Vou preparar as coisas para partimos… — avisou depois de chegarem ao andar inferior, pareceu não querer responder. — Nos encontramos ao amanhecer.

Viu o espião sair de seu lado e desaparecer entre os corredores. Então encostou na parede, colocando parte de seu tronco para fora de uma das janelas e ficando um tanto decepcionada ao não sentir uma brisa refrescante. Apesar disso, queria correr até o mensageiro e contar sobre parte daquela reunião. Queria ver os olhos claros brilharem em meio àquelas sobrancelhas arqueadas. Mas sua barriga roncou e também precisava avisar Aldith e Belchior, indicando-lhe mais de um ponto a ser resolvido antes de voltar ao calabouço. Colocou-se a andar novamente, descendo até a cozinha. De lá saíam vozes debatendo entre si.

— Ora, você fez errado e vai colocar a culpa em quem? — soava como Alexander.

Ao aparecer na entrada do salão, viu Aldith chamar a atenção do jovem homem enquanto segurava um grande pote de barro, ameaçando-o com o mesmo. Os outros cozinheiros e ajudantes se divertiam, mostrando sorrisos relaxados e risadas altas.

— Aldith, finalmente te encontrei - a voz de Oberon, o cantor favorito da mulher, saiu da boca de Neri ao se aproximar escondida.

A cozinheira deu um salto e rapidamente se virou, mostrando decepção e, em seguida raiva, ao encontrar a espiã.

— Desculpe, não resisti — Neri sorriu.

— Não estou resistindo em te colocar no forno, garota! — pegou o pote, mostrando-o ameaçadoramente como antes.

Neri riu, aproveitando o momento enquanto podia.

— Irei pra uma missão amanhã. Espero que guarde bolinhos pra quando eu voltar.

— Vai em missão de reconhecimento agora? — dobrou a sobrancelha. — Te fazem treinar pra te tirarem do reino enquanto somos um alvo?

— Não é de reconhecimento dessa vez.

Aldith voltou sua atenção aos pães que modelava na pia.

— Bem… Volte sem causar problemas. Onde já se viu colocar uma criança em missão…

— Onde já se viu colocar uma senhora para amassar pães… Coitado dos pães.

— Você! — Aldith exclamou, parando seu trabalho para encarar a garota, mas Neri já havia corrido para longe.

Com um sorriso brincando em seus lábios, a espiã passou os jardins até os campos ao fundo. Sentia a presença de Belchior oscilar fracamente na área de treinamento e queria que ele fosse a segunda pessoa a ouvir sobre sua viagem. Desceu o morro que limitava os jardins e se deparou com o campo um tanto vazio. O rapaz treinava arco e flecha junto a Jona e Alluena.

— Neri, você sumiu! — Jona a cumprimentou assim que a viu andar até eles. — O que fez nesse festival? Pensei que ia assistir o torneio em nossa companhia.

— Eu gostaria muito de ter visto, mas não queria parar de treinar — respondeu amigavelmente. — O torneio está sendo interessante?

— Ah, são lutas cada vez melhores! — disse com empolgação. — Sempre surpreendendo.

— Imagino que sim — sua voz apresentou um ligeiro sarcasmo e Belchior lhe lançou um olhar vago. — Mas por que não estão lá? O último dia deve ter os melhores lutadores, certo?

— Ah, preferimos ficar aqui… — Jona balançou a cabeça negativamente. — Depois que teve a fuga dos prisioneiros, as pessoas começaram a ficar em casa. O festival não está mais tão cheio, até alguns visitantes e vendedores vizinhos voltaram pros reinos deles.

— É uma pena, não é? — falou, transparecendo apenas um pouco da imensa chateação que sentia. Saber que sua data preferida também fora bagunçada pelos inimigos a feria e a deixava abismada. — Ah, Belch, Aldith disse que fará pães de leite amanhã. Guarde alguns até eu voltar.

— Certo.

Dando o recado que queria através de uma frase que só ele enxergaria além, despediu-se pensando, antes de voltar para a ala dos quartos, em como o amigo a tinha ajudado nos últimos dias. Não queria afastar Belchior dos outros para lhe contar sobre sua missão — afinal, não era uma questão realmente importante. A frase dos pães de leite era como um código que inventaram tempos atrás, usada sempre que estava prestes a sair em missão. Agora só faltava o mensageiro, pensou. Todavia teria que ir até Ihene se quisesse vê-lo antes da viagem, tendo que voltar para Diellor e descansar o máximo possível em seguida. Suspirou, não estava em condições realmente boas para facilitar a caminhada. Acho que terei que deixar pra te avisar amanhã.Abandonando a ideia de ir até o reino vizinho, girou o corpo para o castelo do Sol.

Poucos minutos depois entrava em sua casa, deitando-se na cama e se forçando a dormir. No entanto tudo que conseguia era criar diversas cenas mentais para a missão do dia seguinte e a reação do mensageiro ao descobrir sua nova rotina.

Era desconfortável não conseguir se desprender de seus próprios pensamentos.

Quando finalmente sentiu seu cérebro se desativando e relaxando, o sol começava a aparecer no horizonte. Neri suspirou e, enrolando um pouco como se aquilo pudesse impedi-la, colocou-se de pé. Encheu sua banheira e aproveitou a água fria para lhe despertar melhor — afinal, não sabia quando teria um banho apropriado outra vez.

Ao sair de casa se sentia um pouco mais vívida. Levava consigo uma bolsa média com uma muda de roupas limpas e uma adaga protegida por uma bainha acobreada. Caminhou a passos curtos e rápidos até Ihene, alcançando o castelo e passando pelos jardins até o estábulo, construído numa área oposta ao campo de treinamento. Entrou e passeou pelo corredor repleto de portinholas, onde alguns cavalos despertos colocavam suas cabeças para fora, tentando cheirá-la. Neri se divertiu, passando a mão nos pelos sedosos dos mais receptivos. O cheiro de palha e madeira criava uma sensação de paz na espiã, relembrando-a das aulas de equitação que tinha na infância. Depois continuou até a última separação, onde um cavalo de pelos marrons, com duas manchas simétricas na orelha, observava-a atento.

— Olá, Destrier — sorriu para o animal, acariciando seu focinho. — Não consegui te dar um bom descanso dessa vez, não é? Desculpa. Precisarei da sua ajuda nessa missão, não estou em meu melhor estado — disse com um tanto de culpa.

Afastou-se por um tempo para recolher os equipamentos de montaria, voltando com sela, rédea, embocaduras e proteções para as patas de Destrier. Com agilidade colocou tudo em ordem, amarrando sua mochila na lateral da sela.

— Então vamos embora — e o montou, murmurando ao sentir o corte em sua barriga arder.

Cavalgou até uma casa estreita na vila de Ihene, onde encontrou Adastrea batendo com força, através de um martelo, numa lâmina torta de espada. Desmontou Destrier e, segurando sua rédea, aproximou-se.

— Tem algo pra mim? Ficarei um tempo fora.

A mulher levantou os olhos, analisando-a completamente antes de largar seu trabalho e entrar dentro de casa. Após pouco tempo saiu com um embrulho verde escuro.

— Duzentas e setenta moedas — falou secamente, estendendo o tecido amassado colocado em volta de algo pequeno e comprido.

Neri tirou algumas moedas douradas de uma bolsinha em seu pulso e as deu para a ferreira, que sorriu maldosamente e arqueou a sobrancelha.

— Se voltar com algo quebrado, não espere viver o resto da sua vida miserável feliz.

— Agradeço pelas palavras de apoio. Até mais — deu um sorriso sincero e voltou para Destrier.

Queria falar novamente com Aldith — talvez pegar alguns bolos para a viagem — e Belchior, mas já estava em Ihene e não tinha mais tempo de sobra. Colocou-se a caminho dos limites da vila, ao sul, e chegou numa trilha larga para fora do reino em alguns minutos. Kyprios estava lá ao lado de um cavalo branco parecido com seu cabelo. Era quase engraçado. De trás deles o mensageiro apareceu, andando dois passos para o lado. Seu olhar se encontrou com o de Neri e brilhou por um instante.

— O rei nos deu moedas suficientes para dois meses — Kyprios começou, já montando em seu cavalo. — Temos mantimentos para os dois dias de viagem até Melandra. E Aalix está atrasada.

— Vejo que sim — Neri queria desmontar — preferia aguardar as futuras horas de atraso com suas próprias pernas -, mas a ação de ir e voltar nas costas de Destrier lhe infligiria mais dor.

O espião avançou alguns passos de volta para a vila. O mensageiro, vendo a distância, chegou até Neri. Parecia um tanto confuso — e tinha vários motivos para isso -, mas sobretudo parecia alegre.

— Não lembro se sei cavalgar de verdade. Espero que seja uma de minhas habilidades desconhecidas — disse descontraído ao lado de seu cavalo cinza.

— Tudo bem, você pode correr pra nos acompanhar durante dois dias — falou com inocência.

— Espero que isso seja outra das minhas habilidades desconhecidas.

Aalix chegou pouco depois, trazendo sacos cheios em toda a volta de seu cavalo marrom, de pelos tão brilhantes quanto suas patas bem polidas. Dessa vez, de frente para eles, conseguiu enxergá-la claramente. Seu rosto era fino e comprido como suas sobrancelhas amarelas, quase a ponto de se camuflar na pele. Seus lábios eram uma reta murcha e seus olhos continham um brilho mesquinho, rodeados por uma tiara grossa prateada.

— Podemos ir agora — disse, sua voz soando como uma rainha poderosa.

Kyprios assentiu indiferente e, após o mensageiro montar em seus animail, guiou-os para fora das terras de Vollfeit. A espiã deu mais uma olhada no reino que deixavam para trás, sentindo todo o peso em seu peito — que tentara ignorar até aquele momento — voltar numa pontada. Pensou no caos que deixava lá ao invés de resolver, como se estivesse fugindo igual a um pássaro machucado — mesmo que não sentisse mais tanta obrigação em ajudar os reis, o povo não era culpado e precisava de proteção. Voltou os olhos para o caminho a frente e se obrigou a permanecer assim até que as copas das árvores tampassem toda a visão de Vollfeit, jogando para o lado a imagem dos prisioneiros correndo por lá em meio a traidores e inocentes no festival.

Seguiram a trilha por mais de uma hora cavalgando, sentindo o vento bater-lhes na face confortavelmente em meio a temperatura alta que o verão propiciava. Em um ponto as árvores começaram a diminuir, amplificando a visão para um cenário ainda mais enxuto: de cima do planalto onde se encontravam, puderam ver quase toda a floresta de Ofedel se estendendo para o horizonte. Precisariam atravessá-la até a nascente de um rio pequeno da região, rendendo quase um dia de viagem. Depois passariam por algumas montanhas, seguindo-as até Melandra.

Poucos minutos depois diminuíram o ritmo, descendo até a planície da floresta. Kyprios já não guiava mais, seguindo Aalix. O mensageiro estava emparelhado a Neri, tentando se esforçar em esconder animação em seu rosto.

— Você é do tipo que gosta de acampar? — a espiã o questionou, divertindo-se em observar a felicidade inocente do rapaz.

— Eu… É bonito aqui — desviou os olhos e sorriu. — E ainda não tombei do cavalo.

— Parece que você terá uma boa viagem.

— Mesmo que eu precisasse correr durante dois dias, eu teria — disse satisfeito.

— Tenho certeza que teria — retornou o sorriso.

— Aquela moça… — olhou para Aalix, que apresentava a mesma pose rígida de antes. — É uma princesa?

— É uma mensageira… — sorriu mentalmente ao pensar na engraçada — ou quase — coincidência. — De outro reino. É pequeno lá, então ela veio nos pedir ajuda. Eles não têm exército suficiente pra se protegerem.

— Estão sendo atacados? — perguntou surpreso.

— Sim… Talvez um grupo grande de saqueadores querendo a prata deles.

— Então é um reino bem desenvolvido. Ela realmente deve ter boas terras lá — disse, olhando para a blusa costurada com linhas de ouro e a calça justa, com botões brilhantes em cada perna.

— Parece, não é? — deu um sorriso aberto. Era bom, após tantas missões, ter finalmente uma companhia — mesmo que esta não fosse a mais indicada.

Quando chegaram à floresta, avançaram mais dois quilômetros antes de pararem perto de um riacho que saía da corrente principal, a Belldona. Deixaram os cavalos se refrescarem antes de voltarem a trotar. O cenário se tornou repetitivo, com quilômetros de árvores, canções de pássaros e insetos e o ruído quase constante de folhas sendo pisoteadas. A temperatura aumentou até o fim da tarde, dando-os uma viagem desconfortável, com mosquitos teimosos, até que a noite aparecesse e os aliviasse.

A lua começou a se colocar no alto do céu e Neri agradeceu internamente. Os quatro cavalos se mostravam cansados, fazendo-os parar quase no limite de Ofedel, num bosque pequeno e mais elevado. Kyprios e Aalix amarraram seus cavalos — a mulher amarrara apenas o seu — enquanto Neri levou o mensageiro para buscar galhos. Desceram a inclinação leve até uma área de grama baixa, onde encontraram galhos secos e outros pequenos demais para serem úteis.

— Esse parece bom, certo? — o jovem levantou um galho fino, porém extenso e de aparência brilhante.

— Sim — disse satisfeita, vendo que o garoto seguira bem suas dicas.

Você sabe fazer isso, só não se lembra, pensou, voltando sua atenção para a grama em seus pés. Coletaram o que Neri disse ser lenha o suficiente e voltaram. Kyprios já tinha estendido seu manto no solo para passar a noite e organizado um círculo de pequenas pedras ali perto, para a fogueira. A lua finalmente chegou em seu ápice, criando uma iluminação melhor se somada às chamas recentes que se criaram dos galhos ajeitados. Aalix se deitou mais distante do círculo que os espiões criaram em volta da fogueira e continuou calada. Kyprios a imitou, mas desejou boa-noite antes que se virasse e adormecesse. Neri espiou com o canto dos olhos o jovem restante, que estava sentado em cima de seu manto, brincando com as folhas ali perto. Estava agitado demais para pegar no sono.

— Quer que eu te mostre uma coisa? — perguntou baixinho e, ao receber um aceno de cabeça, levantou-se de sua coberta e andou para as árvores da esquerda.

Neri o liderou até um aclive mais profundo, subindo-o com certo esforço — a cada passo, sentia que o corte na barriga poderia se abrir. Colocou instintivamente a mão no machucado e continuou andando, respirando de forma profunda; toda a viagem lhe rendera um desconforto constante, que parecia sugar sua energia a cada quilômetro. No fim da escalada estavam numa área sem árvores, como num penhasco baixo. Era um lugar escondido pelas folhagens e dava uma visão única do céu, como se propiciasse a seus visitantes todos os conhecimentos sobre ele. A lua brilhava forte em meio ao fundo escuro, salpicado por diversas estrelas brancas, que às vezes pareciam piscar para eles simpaticamente. O garoto parou ao seu lado, olhando para cima como se estivesse hipnotizado. O brilho das estrelas em conjunto parecia refletir em seus olhos.

— Não sei se já vi algo parecido antes… — começou, sem desviar o olhar. — Mas é fantástico. Realmente fantástico — sorriu.

Concordou com a cabeça, dando mais uma olhada no mensageiro e tentando encontrar seu antigo feitio, o adversário original dentro daquele rapaz inocente. Ficou lá, com a lua iluminando suas faces descontraídas, pensando no que perguntaria primeiro a ele quando, e se, recuperasse suas lembranças.