Voleur Sinderella
21 Capítulo 21 - Even If She Falls
Notas iniciais
Auckland, Nova Zelândia. 10 de novembro.
Claire sentiu o estômago roncar, estava quase na hora do almoço e ainda havia uma última reunião naquela manhã. Participar dos negócios era algo bom para ela, realmente achava deliciosa a sensação de ser escutada por pessoas de tão bom senso quanto ela mesma e poder discutir fatos, ganhar dinheiro e essas coisas relacionadas ao seu próprio futuro.
– Bom dia. – ela acenou para a secretária da recepção principal da central da empresa. – Sabe me dizer em que sala será a reunião das 11h?
– O Sr. Perrault a espera no vigésimo oitavo andar, sala 214.
A moça assentiu com a cabeça e se dirigiu para um dos elevadores. Já estava se habituando a fazer aquele percurso, mas não imaginava que o faria de repente num sábado e justamente antes do almoço.
“Meu pai deve estar muito animado para esse negócio, marcou ontem a noite mesmo a reunião...” ela pensou, soltando um suspiro leve.
Entrou rapidamente na sala designada e procurou por seu pai ou seu irmão naquela sala ampla com apenas uma mesa grande, várias cadeiras empresariais e uma vista bela do Parque Domain de Auckland. Nenhum dos dois estava ali.
– Bom dia, Srta. Claire. – um homem de cabelos grisalhos que estava sentado próximo à cadeira de seu pai a cumprimentou.
– Bom dia, Sr. Denver. – Claire sorriu e deu um leve e fino aceno com a cabeça. – A que horas mesmo a reunião deve começar?
Ele olhou no seu relógio de pulso e pigarreou, falando:
– Seu pai deve estar a caminho com os empresários franceses. Sente-se, não vai demorar.
A cadeira da cabeceira da mesa era destinada a Devoir Perrault, o Sr. Denver – seu braço direito – estava de um lado. Logo, Claire sentou-se do outro lado como maneira de marcar o próprio território.
Alguns homens chegaram em poucos minutos no lugar, sentando-se a medida que entravam. Pouco menos de dez minutos se passaram para que Devoir adentrasse com um sorriso de orelha a orelha e todos os acionistas bajuladores se levantassem para dar as boas vindas. Claire permaneceu sentada, retirando o notebook da bolsa para fazer as próprias anotações da reunião.
– Primeiramente, desculpem-me pela reunião marcada de última hora. – ele iniciou, andando para seu assento acompanhado da própria secretária atrapalhada – Mas, tenham certeza disso, valerá à pena.
– Espero que sim... – Claire murmurou para que apenas ela pudesse escutar, ainda fixando os olhos no computador.
Então a porta de entrada se abriu lentamente e largos passos foram escutados por Claire, que mantinha-se distraída.
– Eu vos apresento a Srta. Marianne Soir Ronnie, futura empreendedora e sócia da Perrault Enterprise, acompanhada de seu próprio sócio, o Sr. Charles Odélio Gareth.
E o nome soou nos ouvidos da moça como vento frio. Não resistiu e jogou o olhar para a porta por causa da dúvida. Seria coincidência demais aquilo, para ela.
Claire tomou um grande susto, sentindo apenas o sangue subir e preencher seu rosto quando viu que era Charles quem entrava de terno e gravata pela porta da sala com tranqüilidade e postura ereta. Marianne o seguia com seu vestido de veludo, luvas brancas e chapéu exagerado. Ele não parecia, por um instante, aquele Charles convencido que comeu bolinhos com ela à beira do píer. Mas era, Claire teve sua confirmação quando ele passou por ela e discretamente a olhou nos olhos, piscando um deles.
“O que ele está fazendo aqui?” ela pensou, enfiando os dedos entre os cabelos e quase jogando a cabeça na mesa.
Olhou novamente para ele e, ao ver o loiro cumprimentava seu próprio pai, quase teve um ataque.
– Serrá um prazer começar os negócios, monsieur Perrault. – Marianne falou com um sotaque francês até ali desconhecido por Charles. Devoir segurou sua mão e deu um delicado beijo na luva branca que usava. – Mon assistente Charles acompanhará esta reunião.
– É um grande prazer poder fazer negócios com uma companhia grande como a sua, Sr. Perrault. – Charlie falou com naturalidade e cordialidade.
– Me chame de Devoir, jovem Charles. – ele falou e o queixo de Claire caiu. Então Devoir Perrault tocou o ombro da moça, fazendo com que levantasse de imediato – Tenho o prazer de apresentar também minha filha, Claire. Vamos, querida, fale com a Srta. Marianne e com Charles.
Ela passou o olhar levemente para Charles, quase pulando para trás ao ver seu sorriso simples.
– É um prazer reencontrá-la, Claire. – Charles disse de propósito.
– O-o prazer é todo meu... – ela disse travando como um robô.
– Então já se conheciam? – Devoir exclamou surpreso.
Marianne deu um grande sorriso e três beijinhos no rosto de Claire.
– Charles falou-me tudo sobre você, ma fleur, Claire. – ela disse em seguida virando-se para Devoir – Charles conheceu la jeune Claire e contou-me sobre o crescimento da sua empresa. Por causa deles estamos aqui hoje!
Sua empolgação conquistou Devoir e deixou Claire ainda mais confusa com a situação.
– Então, vamos começar a reunião?- ele tossiu, oferecendo uma cadeira para Marianne sentar-se.
A única coisa que passava na cabeça de Claire era que o rapaz a perseguira. Não havia outra explicação óbvia. Ou talvez aquela fosse uma grande brincadeira de mau gosto do destino.
Durante toda a reunião – que pareceu comprimir imaginárias horas em apenas quarenta e cinco minutos – Claire tentava se concentrar e focar o olhar no notebook e nas próprias anotações sobre verbas e ganhos rápidos para ambas as partes, mas sempre caía o olhar, mesmo que às vezes sem querer, em Charles. E pior, ele sempre lhe devolvia o olhar com um sorriso estonteante.
Pareceu que a eternidade era pequena demais naquela sala de reuniões, o ponteiro não passava, e Claire tentava ao máximo se distrair das horas. Quando finalmente conseguiu, quebrou os próprios pensamentos com o barulho do levantar das cadeiras. Tinham deixado para discutir o resto dos detalhes do contrato na próxima reunião na presença do advogado da Srta. Marianne.
– Espero ansiosa por nosso próximo encontro, monsieur Perrault. – Marianne falou dando vários beijinhos no rosto de Devoir.
– Insisto que me chame de Devoir, chérie. – ele disse, beijando sua mão novamente.
O sorriso de Marianne se tornou amarelo, mas apenas Charles percebeu, sentindo uma leve vontade de rir.
– Será um grande prazer voltar aqui. – Charles disse ao apertar a mão do homem, em seguida apertando a de mais três acionistas velhos de feições satisfeitas.
E assim, Marianne e Charles se moveram lentamente para fora da sala, intrigando ainda mais Claire.
“O que está acontecendo?!” ela se perguntava em pensamentos.
Rapidamente, recolheu os papéis a sua frente e o computador, guardando-o na bolsa velozmente.
– Bem, então eu vou almoçar. Estou atrasada para me encontrar com a Torrance. – Claire mentiu.
– Vá logo então. – Devoir resmungou com desdém, voltando-se para o Sr. Denver. Mas antes que Claire pudesse sair, escuto-o berrar – Por sinal, procure pelo jovem Charles. Convide-o para sair, faça boa impressão de nós.
– Sim, senhor. – ela assentiu com um movimento de cabeça.
Claire praticamente correu para fora da sala, em seguida vasculhando o corredor com os olhos. Eles já tinham descido. Voou para o elevador e ficou esperando inquieta para poder sair.
Quando se deparou com as costas de Charles já próximas à recepção, Claire não resistiu e berrou:
– Charles!
Ele e Marianne pararam, assim como todos à sua volta, olhando fixamente para a figura de Claire agoniada na frente do elevador.
– Claire, o que aconteceu? – Charles foi ao seu encontro com um risinho.
Ela abriu a boca, mas nada saia. Estava completamente desconcertada.
– Charles? – Marianne chegou pertinho dos dois – Vamos almoçar?
Charles sorriu para Claire e voltou-se para Marianne, dizendo:
– Vou almoçar com Claire, podemos nos encontrar mais tarde, o que acha?
–Parfait! Magnifique! Vemo-nos mais tarde então. Adieu, mon fleur, Claire!
Dizendo assim, ela saiu num piscar de olhos com seu casaco de pele branco, vestido arrumado e salto agulha de vinte centímetros. Deixou Claire e Charles apenas olhando um para o outro.
– Você tinha algo para me falar? – ele perguntou, fitando ao fundo os olhos dela.
– O que d-d-diabos você está fazendo aqui?! – ela gaguejou ainda boquiaberta.
– Negócios. Apenas negócios. – Charles riu abertamente, em seguida oferecendo a própria mão com cordialidade – Não inclui um almoço, mas o que acha de ir comigo? Conheço um restaurante gostoso na Queen St.
Demorou pouco mais que alguns segundos para que Claire se situasse.
– Não vejo motivo para não ir... – ela falou baixo, um tanto relutante.
Quando percebeu, já estava sendo levada para o tal restaurante que ele não mencionara. A situação se congelou e os dois ficaram em silêncio até que se sentassem nas cadeiras rústicas e deliciosamente agradáveis do lugar. Um tipo de restaurante fino com detalhes antigos de madeira e lanternas de papel coloridas no teto.
– E então, o que achou da proposta? – Charles disse para quebrar o clima.
– Proposta? – Claire, entretanto, se perdeu em seus próprios pensamentos. Imaginando que ele poderia estar falando de três coisas diferentes.
– É, a da Srta. Marianne. – ele riu.
– Ahh... Essa proposta. – Claire tossiu – Bem, achei boa...
Por ter passado quase toda a reunião pensando nos mil motivos para Charles estar ali, considerando o último contato dos dois por telefone e o acidente com Dannika, o único adjetivo que pode pensar foi esse: boa.
– Achei que você fosse colocar mil defeitos ou falar algo sobre seu pai.
Ele continuava rindo.
– Eu até poderia falar, mas estou tentando virar pacifista. – ela própria riu. – Você sabe, meu pai é meu pai.
– Na verdade eu não sei. O que é ser o seu pai? – Charles falou, reclinando a cabeça. – Ou seu irmão. Você tem um irmão certo?
Claire franziu as sobrancelhas, ainda esboçando o sorriso.
– Meu pai faz o tipo controlador, entende? E, sim, eu tenho um irmão. Seu nome é Cloud e é um grande esquisito. – então parou e começou a refletir sozinha – Por sinal, ele adoraria esse lugar, tem o jeito dele.
– Esquisito? Está chamando meu gosto pelo restaurante de esquisito?
– Não, não é isso! – ela evitou o gracejo – É que ele gosta de coisas e lugares antigos por incrível que pareça. É o lado mais culto dele, digamos assim.
Os dois riram um pouco, pegando finalmente o cardápio.
– Huum, e o seu pai? Diria que ele tem um lado culto? – Charles perguntou sem tirar os olhos dos pratos.
– Devoir Perrault? – ela revirou os olhos – O máximo que ele consegue fazer é obrigar a própria filha a se casar...
De repente, ela arregalou os olhos. Percebeu que tinha falado de seu casamento de repente e sem hesitação.
– Casamentos arranjados, que coisa pra se falar num primeiro encontro. – ele disse, em seguida tirando o olhar do cardápio e mirando Claire com certo nervosismo. – Não que eu esteja caçoando de você, não estou.
Ela riu.
– Eu entendo perfeitamente.
– Então entende que isso é um encontro? – ele falou com as sobrancelhas levantadas.
– Não seja tão convencido. Isso é um almoço entre negociantes.
– Já é a segunda vez que nos encontramos sozinhos. Isso é um encontro. – Charles afirmou, batendo a mão na mesa – Querendo você ou não, Claire Perrault, estamos escondidos do seu noivo. O que me diz sobre isso?
Claire apenas coçou os olhos, cheia de vontade de soltar uma grande gargalhada.
– Nem nos seus sonhos nós seríamos um casal. Além do quê, estou certa de que o Wolfgang não tem ciúmes!
Foi então que o garçom surgiu ao lado de Charles com um sorriso amarelo por debaixo do bigode gordo e peludo.
– O casal já escolheu o que vai pedir? – ele disse, provocando uma piscadela de Charles para Claire.
– Eu vou querer o pedido 118 sem tomates. E você, querida, o que deseja? – desta vez ela não se segurou e gargalhou abertamente. – O mesmo para ela, por favor.
Claire não evitou a risada e, principalmente, ficar olhando para ele enquanto mexia na própria comida. Era como se o estivesse conhecendo melhor e começando a simpatizar com seu estilo.
– Por que não me disse antes que viria atrás da Perrault Enterprise? – ela perguntou curiosa.
– E havia motivo para isso? – Charles deu entre ombros – Eu apenas falei com Marianne sobre os negócios prósperos da sua família e ela que decidiu ir atrás...
– Então você nega o seu envolvimento no caso?
Ele levantou os olhos ligeiramente para os dela.
– Eu só trouxe mais lucro pra você, não precisa desse interrogatório louco.
– E eu vou fingir que acredito nisso... – Claire disse, baixando o tom de voz.
O loiro sorriu abertamente, mostrando os belos dentes brancos e arrancando um arrepio dela.
Claire não evitou aquela reação sobre seu próprio corpo e nem o pinicado sobre as maçãs do rosto. Percebeu o que estava acontecendo e quase engasgou, tossindo um pouco por apenas imaginar que algo estava para acontecer. Não podia se envolver com aquele rapaz de maneira alguma.
Entretanto, ele estava apenas ali rindo. E continuaria rindo porque ela o fazia rir. E continuaria sim! Mesmo que ela se apaixonasse.
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