Voleur Sinderella
14 Capítulo 14 - Breaking The Habit
Notas iniciais

Auckland, Nova Zelândia. 31 de outubro.
Ray bocejou. Ao seu redor, os policiais estavam indo embora, já tinha acabado o horário de trabalho da maior parte deles e a delegacia estava uma zona, repleta de papeladas e cheiro de rosquinha com café frio. Lentamente, levantou-se e foi até a sala de Campbell numa salinha logo a frente da sua mesinha de assistente.
“Que patético... Eu devia estar na casa da Srta. Claire nesse momento. Não tem nada mais interessante a se fazer.” Pensou ele, arrumando a gola da camisa que apertava seu pescoço. Pensava onde estaria Campbell e porque ele tinha deixado tudo em cima da mesa bagunçado daquela maneira.
Havia várias cópias de requerimentos burocráticos e algumas matérias de jornais manchadas com café, enquanto outras se acumulavam empilhadas num cesto de lixo.
Ray lentamente sentou-se na cadeira do chefe e balançou para o lado do computador.
“Todo mundo está indo embora, não vão notar se eu mexer aqui um pouquinho.”
Abriu o computador e começou a olhar as últimas mensagens que o chefe recebera dos superiores. Nada interessante. Olhou as pastas relacionadas ao caso de um assassinato. Chato. Pensou em mexer nos registros mais novos. Não adiantaria de nada, estava entediado.
– Entediado? – alguém falou na porta da sala. Ray pulou na cadeira e deu de cara com Campbell a sua frente, dando um gole no copo de café – Vamos, saia. Preciso ter uma conversa com o Sr. Wolfgang.
– Vai pegar o depoimento dele outra vez? – Ray disse, levantando-se da cadeira e andando para fora.
– Burocracia é uma desgraça... – Damon Campbell resmungou e abriu espaço para que o outro passasse.
Ray encarou rapidamente Wolfgang à medida que quase se esbarravam na saída da salinha.
“O noivo da Srta. Claire... Ele é muito mal encarado.”
– Boa noite. – disse lentamente Paul Wolfgang com um sorriso calmo.
– Boa...
– Ei, Ray. – Campbell chamou rapidamente – Pegue esta pasta aqui e vá até a sala 03, o inútil do Gaspar foi embora e preciso de alguém para falar com aquela garota.
Ray não teve a chance de falar, recebeu uma pasta e uma porta batida no seu nariz.
Andou até o outro lado do corredor. A delegacia já estava um deserto! O oficial Tuckson dormia com um pedaço de bolo apoiado na sua barriga, Chandler Markoff assistia a uma televisão e os outros homens estavam em suas salas ou fazendo rondas rotineiras. Era segunda feira.
Quando Ray abriu a porta da sala 03, começou a falar, lendo as primeiras linhas da pasta:
– Marinna Ferraw. Dirigindo bêbada e sem habilitação. – ele disse, mirando rapidamente a moça de cabelos ruivos sentada de costas à sua frente.
Assim que se virou, seus olhos brilhantes e abertos pela metade se destacaram por detrás dos óculos roxos. Estava algemada e ria com seu lindo sorriso que desconcertou Ray. Ela vestia roupas exageradas, um sobretudo amarelo e um vestido colado roxo.
– Sooou eu. – a moça disse, colocando os pés com as gigantes botas de couro preto na mesa – Marinna Ferraaaw. Onde extá o outro polixial bonitão?
Ele foi até mais perto dela e sentou-se em cima da mesa.
– Está pegando um depoimento na outra sala. Ahnm... A senhorita não tem números emergenciais para ligar? Sabe que não podemos tirá-la daqui agora e que vai ter de pagar uma multa, certo?
Ela assentiu, balançando a cabeça.
– Nãão tenho número para liiixgar. – falou, chegando perto de Ray. – Vaai tex qui mi preender, señor polixial.
– Haha, não é problema. Amanhã a senhorita já estará melhor. – ele disse, ainda olhando a pasta. – Posso ver o documento de identidade?
Ela começou a remexer na bolsa rosa freneticamente, enquanto Ray olhava para ela. Tinha um decote profundo que não evitou olhar. Rapidamente, ele sacudiu a cabeça.
“Controle-se, Ray...” pensou, pigarreando e voltando a olhar a pasta.
– Aquiii! – ela berrou, levantando uma carteirinha.
Ray segurou e devolveu a ela.
– Esta é uma carteirinha de sócia do clube das “gatinhas do cinema”.
– Ain, dexculpa. – ela disse, rindo.
De repente, dois bips soaram de dentro da bolsa dela. Os dois olharam para ela mais fixamente, principalmente Ray. Outro bip soou e parou cinco segundos após.
– Você não deveria estar com o celular na bolsa. O Gaspar não pegou? – ele disse lentamente, estendendo o braço para pegar a bolsa.
A moça, num rápido impulso, se levantou, deixando cair a bolsinha. Ray levantou as sobrancelhas achando estranho e, antes que pudesse fazer qualquer coisa, foi pego de surpresa.
Ela passou as mãos algemadas por trás do pescoço dele e ficou se insinuando ainda mais bêbada.
– O que axxxcha de ficarmox aqui maix tieeempo, baby? – ela riu, piscando seus olhos azuis para ele e praticamente esfregando o hálito de álcool no nariz do estagiário.
– Senhorita, não acho que seja... Não faça... – ele balbuciava, sentindo que a moça se aproximava mais e mais. – A senhorita deveria...
– Vamuuux, só um beijiiinho, baby.
Ele começou a andar para trás e afastá-la com os braços, enquanto sentia o rosto completamente vermelho e o nervosismo, principalmente se fosse pego por Campbell, isso seria terrível! Não adiantou muito fugir, já que bateu contra a mesa e a moça não parava de esfregar o rosto no dele.
Quando estava para beijá-lo, Ray sentiu apenas uma picadinha no seu pescoço e berrou.
– Ai! O que você...?
A tontura tomou de conta do corpo dele. Caiu por cima da moça em três tempos.
Rapidamente, ela retirou a chavezinha pendurada no cinto do rapaz e soltou-se das próprias algemas.
– Homens, sempre caem por um rostinho bonito...
Ela passou por cima do corpo caído dele e abriu a porta devagar, observando ao redor o que acontecia. O corredor estava vazio. Então, andou normalmente, diferente da bêbada de segundos atrás, até o final do corredor, entrando numa sala e em seguida em outra, como se já soubesse o caminho certo.
O cômodo era uma enorme biblioteca de arquivos e grandes prateleiras cheias de gavetas de metal. No fundo, havia três computadores velhos e mesas antigas.
A moça deu alguns passos e foi até a janela atrás das mesas, jogando a cabeça para fora.
– PSIU! A barra ta limpa... – ela murmurou.
Uma bolsa voou para dentro da sala, causando um enorme barulho, enquanto duas mãos se apoiaram no parapeito e Charles pulou logo em seguida, vestido com uma camisa de lã preta com a gola levantada, parecendo um ladrão amador.
– E então, como está lá fora, Dannika? – ele perguntou, assim que pôs os pés para dentro da salinha.
Dannika retirou lentamente a boina colorida e a peruca ruiva e deu espaço aos seus cabelos negros, presos num coque baixo por causa dos fios falsos.
– Tudo tranquilo. O detetive Campbell está preso na própria sala com um cara, está pegando o depoimento ou coisa do tipo... Fora ele, só tem dois homens na entrada.
Charles andou na direção da mesa central, o computador estava ligado. Ele rapidamente digitou alguma coisa e a tela se abriu como se estivesse fazendo um download.
– Parece que estão passando os arquivos. – Dannika disse por cima do ombro do rapaz.
– Eu vou desligar a energia.. – ele disse, mas a moça não pareceu entender – Alguém terá que vir aqui para reiniciar o sistema se isso for realmente importante, nessa hora será mais fácil entrar no banco de dados. Mais fácil do que hackear o sistema, pelo menos.
– Como você entrava nos sistemas de segurança se não consegue hackear o sistema daqui? – Dannika perguntou, mas ele não respondeu, até que finalmente a morena se deu conta. A resposta era Rato. Charles arquitetava os planos e Rato cumpria.
“Ele deve fazer falta...” pensou a moça, dando de costas e levantando do chão a bolsa que ele trouxera.
– Pegue pra mim um aparelho fino dentro da maletinha prateada. Ele tem alguns números vermelhos escritos em cima. – Charlie falou, ainda sem olhar para ela.
Dannika assentiu com um balançar de cabeça, atacando a bolsa e retirando uma pequena maletinha de alumínio. Dentro dela, havia um aparelhinho que mais parecia um diquete de tão pequeno, tendo alguns números escritos na superfície e o nome H.E.R.B.I.E. impresso em relevo. Antes que desse o primeiro passo, Charles chamou sua atenção e apontou a peruca na mão dela e, rapidamente ela a colocou.
– Para que isso serve? Herbie? – ela perguntou, entregando o aparelhinho – É um disquete?
Charlie riu e, finalmente, olhou para a moça, falando:
– Isso é a salvação dos ladrões. Assim que reiniciarem o sistema, todas as informações desse computador e da rede ligada a ele vão ser passadas para a memória desse aparelhinho. É melhor que você volte para a sala que estava ou então saia logo de uma vez. Quando tudo já tiver passado para o Herbie eu saio rapidamente e te encontro em oito quadras, no Starbucks na Reimers Avenue, ok?
E, no segundo que Dannika colocou os pés para fora da salinha, apenas o barulho dos ventiladores era possível de se ouvir, tudo ficara completamente escuro como breu.
“Ele só pode estar brincando com a minha cara. Príncipe terrível!” ela pensou, rindo sozinha e andando para a entrada da delegacia, voltando lentamente ao estado de falsa bêbada-Marinna-Ferraw. Ainda havia um policial na frente que começou a andar na direção dela com sua lanterna, balbuciando com a boca cheia de pedaços de rosquinha:
– Quem é você?
– Señhoooor polixial, a lux apagou e o poliiiiixial bonitão bateu a... a... Como si diiiz? Cabeça! Ele bate a cabexxxça e caiu. – ela falava, cambaleando.
– Espere aqui, eu vou ligar as luzes outra vez... – ele falou, tirando as migalhas ao redor da boca com a manga da camisa de policial.
No segundo que ele deu de costas e começou a andar pelo corredor do fundo que ela estava anteriormente, Dannika saiu praticamente correndo da delegacia, deixando em baixo de alguns papéis do balcão as chaves que roubara de Ray.
Enquanto isso, o policial andava lentamente pelo corredor escuro.
De repente, uma das portas se abriu de uma vez e a luz da lanterna praticamente pulou para o rosto de Wolfgang.
– O que diabos aconteceu? – ele balbuciou com sua voz rouca.
Atrás dele, Campbell surgiu e pegou a lanterna do policial, falando:
– Tuckson, o que está acontecendo aqui?! Corra para ligar as luzes e reze para o download ter acabado.
O rosto de Damon era rígido e torceu a espinha na testa do policial gordo que saiu praticamente pulando para a sala ao fundo do corredor, entrando com um estardalhaço e tateando a parede numa busca cega pela caixa de fusíveis. Em poucos segundos ele a encontrou e ligou todas as luzes outra vez. Para sua infelicidade, o computador estava desligado e quando reiniciado pediu novamente a atualização do sistema.
Mal percebeu o policial Tuckson que, logo atrás da CPU havia um pequeno instrumento chamado Herbie.
– Céus, Damon vai me matar.
Ele começou a teclar algumas senhas para desbloquear o sistema operacional ultrapassado, passando quase 10 minutos para conseguir desbloquear todas as medidas de segurança, quando, de repente, escutou um barulhinho quase imperceptível de papéis caindo. Olhou para os lados e nada viu. Entretanto, no instante que olhou para o computador outra vez, foi acertado com uma pancada forte na parte de trás da cabeça, desmaiando no chão logo em seguida.
“Acho que o download está terminado...” Charles pensou, tomando a cadeira no lugar do policial caído no chão. “Dois minutos. Está demorando...”.
Então, o loiro escutou um estardalhaço vindo de dentro da delegacia. Algo estava acontecendo, parecia que tinham sido mobilizados por alguém.
No instante em que o download feito por Herbie se completou, Charles retirou o aparelho e pulou por cima da janela pela qual tinha entrado, dando a volta na delegacia por um tipo de mini quintal que havia por trás.
Entretanto, na frente da delegacia havia várias viaturas paradas e alguns policiais parados, como se estivessem esperando por algo/alguém para sair do local. Não havia sido disparado nenhum alarme, logo ele simplesmente voltou para a salinha que estava antes.
“Tenho que sair daqui...” ele pensava, percebendo que estava sem alternativas.
Então, numa epifania repentina, ele colocou a máscara de lá preta por cima da cabeça, recostando-se à parede do corredor, saindo da salinha em silêncio. Seus passos eram largos e imperceptíveis por alguns dos policiais que conversavam do outro lado do lugar. Foi assim que ele entrou na pequena salinha que Dannika tinha sido “presa” e deparou-se sem surpresa com Ray Bierman, babando no chão como um idiota drogado.
– Sinto muito amigo, o dever nos chama...
Charles retirou a camisa e as calças de Ray velozmente, vestindo-se como um policial por cima das roupas pretas e colocando disfarçadamente o quepe de maneira que cobrisse um pouco seu rosto, lembrando-se de colocar a máscara por cima da cabeça e escondida por baixo do quepe.
Como se fosse um policial verdadeiro, Charlie saiu pelo meio da delegacia, sem qualquer olhar suspeito ou surpresa dos outros oficiais.
Tudo saia perfeito... Então, seu celular tocou, chamando a atenção dos que estavam ali. Desligou rapidamente o toque e continuou a andar, tomando cuidado para deixar a cabeça baixa e sendo o mais discreto possível...
– EI! O QUE ACONTECEU COM O RAY?! – alguém gritou no fundo do corredor. Todos olharam, menos Charles, que continuou a dar passos largos e lentos.
Campbell surgiu ao lado do homem que gritava e brandiu a voz para outro policial:
– Chandler, onde está o Tuckson?! E eu quero Hayman e Fox no meu gabinete em... Espera um pouco...
O olhar de Campbell voou por cima de vários ombros e cabeças gordas, parando exatamente sobre a cabeleira loira de Charles, que pegava um sobretudo qualquer no cabide e seguia para a saída da delegacia.
– Chefe? O que aconteceu? – alguém perguntou.
Campbell não respondeu, apenas continuou com os olhos fixados em Charles, que não se virava de maneira alguma.
– EI! VOCÊ AÍ DA PORTA! QUEM É VOCÊ?! – Campbell rugiu, correndo na direção da saída. Charlie percebeu e começou a correr do lado de fora também. – PAREM AQUELE IMBECIL! ALGUÉM SEGURA ELE!
O detetive não teve tempo de pegar nenhum agasalho e continuou correndo atrás de Charlie, que se misturou no meio da multidão de policiais parados na frente da delegacia.
Com os olhos passando por cima de todos os chapéus e cabeças, Damon conseguiu ver apenas um se destoando pela altura, retirando o quepe e puxando alguma coisa preta na cabeça para baixo. Era a máscara de lã de Charles. Com violência, Campbell correu na sua direção.
A perseguição se iniciou com Charles dando rápidos lances de olhos para Campbell que corria logo atrás dele pela calçada da avenida, esbarrando nas pessoas e, algumas vezes, deixando com que algumas caíssem.
– PARE AGORA! ESTOU MANDANDO!
Não adiantava, ele não iria parar.
Charles praticamente voou correndo a avenida de uma calçada à outra, deixando que Campbell se atrapalhasse com os carros que paravam e rodopiavam na pista para não baterem em nenhum dos dois suicidas.
Entretanto, quando Campbell finalmente achou que iria chegar mais perto do rapaz, ele intrometeu-se no meio de uma multidão de turistas que passavam em frente à Catedral de São Patrick. Havia tanta gente que o próprio Campbell se perdeu, comprimido em meio aos corpos que passavam.
Nem sinal do rapaz que perseguia.
Nem sinal de Charles, que àquela altura já tinha corrido quase dois quarteirões, retirando o sobretudo e as roupas de policial, despejando no meio da rua, enquanto corria.
Quando deu por si, estava mais longe do que imaginava que ficaria. Encontrava-se na frente de uma franquia do McDonnald’s, vestindo somente as roupas pretas e levando a bolsa enrolada no pescoço. Tinha perdido a conta de quantos quarteirões correu até chegar ali e ainda tentava recobrar o fôlego.
O celular começou a tocar outra vez. Mas, ao invés de desligar, ele o atendeu com uma vontade enorme de jogá-lo no meio da rua para os carros atropelarem-no.
– Cãozinho?! ONDE VOCÊ ESTÁ?! Sabe que horas são?! Eu AINDA ESTOU NA TÂNIA! VENHA JÁ AQUI! INÚTIL! IMPRESTÁVEL!
Ele riu-se, respondendo:
– Certo... Já... Estou indo, Maxine... Espere apenas... Um pouco...
Seu fôlego era tão pouco que ele mal se mantinha em pé.
Mal bastou desligar a ligação para que recebesse outra. Desta vez, era Rose quem ligava.
– CHARLES?! CHARLES?! ME DIZ QUE A RHONDA NÃO USOU MEU CASACO VERMELHO! DIZ QUE ELE NÃO ESTÁ PARA LAVAR! ONDE ELE ESTÁ?! SOCORRO?!
– Para de chorar, Rose. Ele está debaixo da sua cama, você deixou ontem à noite. – ele disse, revirando os olhos.
– Ah... Tem razão. Obrigada, cãozinho!
Bastou desligar o celular, que ele sentou-se no meio fio com um longo suspiro cansado. Estava realmente cansado, suado e ali fazia frio. Era inverno e estava ficando assustadoramente gelado o lugar.
Entretanto, a maior surpresa da noite não foi a perseguição, mas sim três palavras que o pegaram de surpresa, vindo detrás dele e acompanhando uma gélida brisa repentina.
– Charles, é você?!
Ele olhou para trás e deu por si encontrando com a moça parada bem à sua frente com seu casaco pesado e cabelos ondulados caindo sobre os ombros, enquanto piscava seus cílios lentamente e abrilhantava os olhos verdes contra a luz de um poste que iluminava os dois.
– Claire Perrault?
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