Voleur Sinderella
8 Capítulo 8 - Kisses Don't Lie
Notas iniciais
Auckland, Nova Zelândia. 15 de Outubro.
– Fique à vontade para levar, meu jovem. Creio que os oficiais estão muito ocupados desde alguns dias atrás. – disse o homem na banca sorrindo como um bobo.
O jovem Ray Bierman sorriu, mas não o agradeceu com palavras, sua boca estava com uma rosquinha e andava enquanto mastigava. Desde a noite passada ele e Damon Campbell não dormiam e já estava anoitecendo novamente. O rapaz apressou-se em adentrar nos portões do Hotel Claire Les Nuages. Devoir Perrault sempre gritava em seus ouvidos e reclamava sobre o desaparecimento do diamante de sua família como se fosse realmente o fim do mundo.
Na verdade, chegava bem perto.
“Durante a noite do dia quatorze de outubro, o diamante gigante do milionário Devoir Perrault foi retirado de seu cofre na festa que dava em comemoração ao noivado de sua filha mais nova, Claire Perrault. A polícia não encontrou vestígios de nada na cena do crime e continua suas buscas até o final da semana.”
“O roubo do século! Após uma festa de dar o que se falar, o maior diamante de toda a Oceania é roubado antes da meia noite do dia quatorze. Seria o Ladrão Sinderella responsável por tamanha façanha?”
“’Não há motivo para preocupação’ diz Tyler McNoir, o Comissário de segurança, logo após avaliar o local do crime ‘Desta vez Sinderella não vai se safar, o Sr. Perrault contratou uns dos mais famosos peritos do mundo. Estamos dando o nosso máximo para encontrar esse ladrão.’”
Assim dizia a maioria das notícias.
Quando Ray chegou à porta do apartamento ficou batendo a espera que alguém o atendesse. Claire Perrault abriu a porta com seu rosto meio inchado e inexpressivo em meio as suas roupas esfarrapadas e olhar sonolento.
– Boa tarde, mestra Claire. – ele disse sorrindo e entrando no lugar.
– Boa tarde, Ray. Espero que os oficiais não estejam fazendo você trabalhar muito.
De certo, Ray Bierman era apenas um ajudante... Um estagiário, na verdade, que sempre seguia os passos de Campbell para onde quer que fosse, incluindo o apartamento de Claire Perrault, local do crime da noite anterior.
Quando Ray entrou no apartamento viu apenas as pessoas passarem e os peritos procurarem por todos os lugares digitais. O que era inútil desde a manhã daquele dia, nenhuma pista nem nas paredes, nem nos móveis. Não havia nada fora do lugar senão um cofre revestido por quase dez centímetros de metal puro completamente vazio.
– Ray, venha já aqui! – berrou alguém.
Ray virou-se de uma vez e deu de cara com Campbell chamando-o para entrar na biblioteca. Ele chegou e viu alguns especialistas contratados por Devoir em seu estado de desespero, de todos os tipos e nacionalidades possíveis. Se fosse notar bem, Campbell era o menos importante ali, mas olhava tudo atentamente.
Atrás de Ray vinha Claire com o olhar baixo como se não tivesse dormido de maneira alguma nos últimos dois dias.
– E então, oficial Campbell? – disse ela passando as mãos nos olhos – Nenhuma novidade não é?
– Infelizmente, as horas parecem voar e nenhum dos peritos contratados por seu pai conseguiu nada... – ele respondeu como se fosse uma fala ensaiada. Ray entregou-lhe o copo de café e ficou tentando identificar para onde ele olhava naquela vasta biblioteca. – Não precisava, Ray. Só peço que acompanhe a Srta. Perrault para algum lugar em que ela possa passar a noite. Seu irmão, senhorita, disse que ficará esta noite no apartamento.
– É, ele já me disse. – disse a moça – Vou para a casa de uma amiga.
Claire não dormia desde que acordara de seu desmaio na grande noite e ficou apenas rodando o anel em seu dedo como se pensasse em algo distante. Sua mente estava, realmente, distante. E Campbell percebeu isso quando a olhou novamente, vendo até certa tristeza em seu cenho baixo e quieto.
– Belo anel... – Damon Campbell disse com um sorriso de lado.
Não foram à toa suas palavras. Distante do que pensava, não eram reconfortantes. Foram, na realidade, atiçadoras... Claire tomou um susto imenso quando ele se referiu ao anel e o escondeu no mesmo instante. Não estava falando do anel de noivado de Wolfgang, mas daquele que carregava na outra mão, feito de ferro talhado como uma arte em madeira, entre flores e formas de diamantes pontudos.
– Ah, obrigada. – o olhar de Claire baixou ainda mais.
Não que aquela fosse a reação que queria, mas depois de tanto desespero na noite anterior ela mesma não podia se dar ao luxo de entregar a prova decisiva para os inspetores contratados.
O anel, na verdade, não era seu, mas era aquele que o Ladrão Sinderella carregava em sua mão quando ela estava caindo aos pés da porta e tentou segurá-lo. O anel foi deixado em suas mãos e não disse nenhuma palavra a ninguém desde aquele momento em diante.
– Você está bem, Senhorita Claire? – perguntou Ray, sentando-se ao seu lado. – Parece estar voando, com a mente bem distante.
– Talvez eu realmente esteja... – respondeu-lhe com um sorriso em seus lábios e se retirando no mesmo instante do cômodo.
Para falar a verdade, o único pensamento que rodava a cabeça de Claire era o beijo que recebera do suposto ladrão. Não parava de pensar “Como sou tola! Deixei-me enganar por um ladrão!”. E o pior foi a sensação de estômago embrulhado e a vontade de vomitar suas vísceras apenas em lembrar-se do beijo e do olhar do Ladrão Sinderella.
Ray fez menção de segui-la, mas Damon acenou para que continuasse ali. Conforme o ajudante olhava, via que os especialistas saiam, lentamente, cada um em seu passo, deixando-o só com o oficial.
– E então, Damon? – perguntou o rapaz, postando-se ao seu lado – Alguma pista sobre o nosso ladrão?
– Algumas, na verdade. – riu-se Campbell, passando as mãos sobre o cabelo preto e incrivelmente bagunçado – Só não gosto de ficar compartilhando com esses médicos metidos a detetives, são todos muito cheios de si.
– Alguns disseram que tinham encontrado digitais...
– Estão enrolando quem os contratou. – gargalhou Campbell, sentando-se na escrivaninha da biblioteca.
– Quer dizer que você encontrou pistas?!
Os olhos de Ray brilharam no mesmo instante como se fosse uma criança querendo algum doce.
– Não. – disse ainda sorrindo – E essa é nossa maior pista!
Então que ele retirou então de seu bolso, dentro de uma sacolinha de plástico, luvas de plástico amassadas. Ray arregalou os olhos ao ver, aquilo provava que não havia digitais.
– Onde as encontrou?! Podemos mandar para o laboratório e pesquisar se não há...
– Não há digitais, marcas ou qualquer coisa que se pudessem testar DNA. – concluiu enquanto brincava com a sacolinha em seus dedos – E eis que surge nossa pista. Nosso ladrão não tem digitais ou usar duas luvas, uma por cima da outra. E me pergunto por que deixou as luvas no lixo do corredor do andar de baixo. Se as deixou ali deve ter escalado o prédio e entrado por alguma janela pelo lado de fora. Ele seria um suicida, não acha?
– Tem certeza disso? – riu-se Ray como se estivesse escutando uma teoria absurda.
– Na verdade, até imagino que Sinderella tenha saído da mesma maneira que entrou, pelo lado de fora. Além de seu comparsa ter apagado todos os registros das câmeras entre 22h e 23h50m. Temos apenas um relance vindo de uma câmera no 80º andar com Claire Perrault, Cloud Perrault, o Sr. Wolfgang e dois convidados entrando no apartamento, preocupadíssimos com a Senhorita Perrault entre desmaios.
– Ah, ela disse ter desmaiado quando viu o ladrão e-
– Claire Perrault nos esconde algo. Algo realmente importante.
.
Auckland, Nova Zelândia. 16 de Outubro.
– Atchiim!
O berro ecoou em toda a casa.
– Eu eihm, cãozinho, quer acordar a mamãe espirrando assim?! – bufou Rhonda revirando os olhos.
– Coitadinho, Rhonda. – disse Rose rapidamente com o olhar baixo e tímido – Não é culpa dele se está doente assim.
– Obrigado, Rose, mas não brecisa se breocupar tanto combigo.– Charles falou antes de um longo fungado. Rhonda chegou a ameaçar vomitar e saiu do quarto o mais rápido possível, enquanto Rose baixava ainda mais a cabeça.
Rato estava com eles dentro do quarto de Charles, que não era um lugar grande que coubessem os quatro jovens com conforto, mas com Charlie sobre a cama e Rato pendurado no parapeito da janela eles podiam se acomodar. Rose rapidamente foi forçada a sair enquanto a tosse e os fungados de Charles cresciam.
– Eu volto logo. – disse ela, rapidamente fechando a porta num baque e descendo as escadas do sótão como se trotasse.
Charles fechou o cenho no mesmo instante e se levantou indo até a porta com um longo fungado no nariz o seguindo.
– Já podemos voltar a falar sobre ontem. – disse Charlie, voltando-se para Rato enquanto pigarreava o catarro em sua garganta.
– Quer me dizer outra vez o que diabos aconteceu entre você e a Claire?! – Rato quase berrou. – Eu e o tio Wallace ficamos desesperados sem saber notícias suas e hoje você me diz que estava de amassos com ela?
– Calma aí! Eu já expliquei várias vezes que o que aconteceu entre eu e a Claire não foi nada demais, nem consegui colocar o sonífero direito nela, tanto que apareceu me perseguindo logo depois. Se vocês não tivesse errado tudo quando eu estava no elevador tudo teria acabado bem.
– A culpa não é nossa, eu já disse e repeti! – bufou virando o rosto para a parede.
Charles suspirou meio frustrado. Suas mãos estavam com ataduras de todos os jeitos e apenas Rato sabia o porquê. A madrasta e a irmãs engoliram a mentira de que tinha se queimado quando fazia o jantar para Eudes, enquanto ele próprio não se lembrava de metade do que acontecera na noite passada.
– Ainda sim, te devo um obrigado por ter me salvado naquela hora que eu caía. – disse com um sorriso de lado, chamando a atenção do amigo Rato.
– Eu não podia te deixar perder as mãos, não é? – riu Rato um pouco, sentando-se ao seu lado. – Mas então, o que aconteceu naquela noite entre vocês? Você não é de agarrar as garotas do nada, nem mesmo as que se jogam sobre você...
– Você é mesmo muito ciumento... – gargalhou Charlie com a mão no ombro do outro – Digamos o seguinte, ela é uma garota meio difícil. Tem um temperamento e tanto, sabe algumas palavras difíceis haha, mas... – hesitou por um instante, vendo a cara interessada que Rato fazia – Tem olhos muito bonitos.
– E o que vai fazer daqui em diante? Lembra que ficou me enchendo porque eu era amigo dela, você a beijou. Garotas como ela não se esquecem dessas coisas.
Charles sorriu por fim.
– Não há com o que se preocupar, ela não viu meu rosto nunca na vida. Se dermos sorte encontraremos o verdadeiro ladrão o mais rápido possível e eu poderei ir embora dessa cidade.
Então os passos fundos e pesados de Rose se fizeram ouvir. E os dois amigos voltaram às posições que estavam antes que ela saísse.
– Charles, chegou uma visita para você. – ela disse com a porta entreaberta, fazendo o sangue dos dois praticamente desaparecer – Pode entrar, er...
– Ian. – disse uma voz meio grave e intensa enquanto um rapaz aparecia na frente de Rose.
Ele era alto e bem apresentado quanto às roupas e a aparência e passava os olhos verdes pelo cômodo como se estivesse entrando num chiqueiro, mirando todo detalhe ali. Charles no mesmo instante que o viu deixou que o queixo caísse, pulando da própria cama e ficando frente a frente com o outro.
Ambos eram um pouco parecidos, o rapaz era um ou dois centímetros menor que Charlie e tinha cabelos castanhos embaraçados naturalmente, com queixo quadrado e um sorriso nos lábios enorme.
– Eu não acredito. – o loiro disse boquiaberto. – Ian Nicolau Leroy?! É você?!
– O único. – sorriu Ian abrindo os braços e abraçando Charles no mesmo instante.
Notas finais
A música "Kisses Don't Lie" é da Rihanna :D
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