Voleur Sinderella
2 Capítulo 2 - Princess
Notas iniciais
Auckland, Nova Zelândia. 16 de setembro.
Em um canto da cidade, uma das empregadas entrava no quarto lentamente, abrindo as cortinas de tecido caro, fazendo com que os raios de sol da matina adentrassem ao quarto do hotel. A jovem de cabelos castanhos longuíssimos abriu lentamente os olhos, esverdeados e tão tranquilos que até mesmo o céu perdia a atenção.
– Bom dia, Srta. – exclamou a criada sorrindo enquanto continuava a arrumar detalhes quase imperceptíveis no quarto. – Seu irmão chegara de viagem e a espera no saguão.
Ela, porém, nada respondeu. Coçou os olhos com delicadeza e abriu um leve sorriso, mostrando seus pequeninos dentes brancos, com toda a calma. Era Claire Perrault, filha do dono de uma das maiores cadeias de hotéis da Nova Zelândia e da Austrália. Ainda que sua fortuna imensurável a deixasse ainda mais bela do que já era na frente de olhos ambiciosos, Claire fazia o tipo que tratava com mais desdém sua herança. Esperta, esforçada e dedicada o suficiente para ser a maior aposta dos sócios para a sucessão da empresa.
Caminhou lentamente, tomando banho e se arrumando com simplicidade e sono refletido em seus olhos, seguindo para o saguão do hotel, onde Cloud Perrault a esperava, abrindo um longo sorriso.
– Claire! Estava dormindo até uma hora dessas?! – riu-se Cloud, indo ao seu encontro.
– A que devo sua visita? – ela deixou transparecer um sorriso de lado.
Cloud tinha cabelos ondulados e os puxava para trás com a mão toda vez que estava querendo falar algo importante e não sabia como ser direto. Claire sabia exatamente como o irmão agia e não poupava sorrisos ou esforços para fazê-lo falar.
– Não podia ser pelo menos mais delicada? Estou te esperando aqui há meia hora!
Ela arrancou-lhe a revista da mão, revirando uns olhos com um riso sarcástico:
– Querido Cloud, quando será que você vai parar de ser fascinado por revistas de cachorros?! Você tem 26 anos e deveria estar namorando ou lendo revistas mais sérias ou de sacanagem, é capaz de o papai achar que você não exerce sua masculinidade...
– Ah, cale a boca, Claire! E pare de se intrometer que não é da sua conta. – ela segurou o próprio riso. – Mas o que realmente interessa é que eu gostaria que fosse almoçar comigo essa semana toda, pode ser ou “Vossa Alteza” está muito ocupada para passar um tempo com o irmãozinho?
– Meu bem, não há nada que me faça mais feliz do que ficar um tempo com você... – disse com ironia.
– E com o meu amigo também, lembra-se de Paul Wolfgang? – por um segundo ela arqueou as sobrancelhas em silencio de reprovação – Ah, vamos! Ele não é tão má pessoa como você acha. Se tentasse conversar com ele ia achá-lo muito divertido!
Ela cuspiu:
– Ele ou os milhões na sua conta bancária? Eu não sou tão superficial como vocês pensam. – três segundos passaram com um olhando para a cara do outro, cada um com um sorriso mais sarcástico que o do outro.
Cloud pegou das mãos dela a revista e bateu levemente em sua cabeça, passando a mão em seu queixo grosso e barbado.
– Você é visionária o suficiente para que eu não fique colocando minhocas em sua cabeça... – choramingou.
Ela abriu um sorriso, piscando os olhinhos.
– Agora fale a verdade, você não voltou de viagem por nada, não foi? Papai te dispensou dos jantares empresariais por nada?
– Tivemos alguns problemas. – ele pigarreou – Não é minha culpa se os japoneses falam tão enrolados e tão...
– Japonês? – gargalhou Claire.
Cloud fechou a expressão, enquanto ela apenas mexeu em seu cabelo, sorrindo.
– Ao contrário do que você pensa, japonês é uma língua muito complicada. – então ele parou por um segundo, encarando o rosto da irmã – Outra língua complicada é alemão, não é?
Claire amarelou o riso, não queria transparecer nada do que pensava.
– Na verdade, não. Alemão é mais simples do que parece. Basta usar a entonação correta.
Ele retirou três cartas do bolso interno do terno e, quando as colocou no campo de visão da irmã, ela avançou como um leão. A moça tomou as cartas para si e começou a rasgar a embalagem da primeira, abrindo.
**“Att: Universidade de Cambridge
Cambridge, 13 de setembro de 2011
Assunto: Candidatura a Vaga de aluno
Prezada Senhorita Claire Ariosto Perrault,
Dirijo-me a V.ª Srtª com o intuito de anunciar nossa felicidade para que preencha a vaga de Aluna de Direito existente na instituição da Universidade de Cambridge.
[...]”
– EU FUI ACEITA EM CAMBRIDGE! – pulou Claire, gritando como nunca tivera gritado antes.
– E em Munique, Alemanha, e no MIT, EUA, também. – sorriu Cloud.
Ela pulou nos braços de Cloud tão rapidamente e ele começou a girá-la no ar. Os funcionários passavam e riam, estavam todos felizes pela Srta. Perrault, que sempre tratou todos muito bem.
– Eu não acredito! Simplesmente não dá pra acreditar! Haha! Imagine só, eu vou sair daqui! Sair desse lugar!
Ele, ao contrário do esperado, a soltou no chão com delicadeza, coçando a cabeça e franzindo a testa.
– Claire, querida, como você vai falar com o papai sobre isso?
E tudo que era claro se tornou um pesadelo.
.
– Ei ei ei, você escutou alguma coisa que eu disse nos últimos dez minutos? – berrou uma voz estridente, acordando Claire.
A moça piscou duas vezes e deu de cara com sua amiga loura mastigando a caneta preta como quem mastiga chiclete.
– Allen, sabe como é quando se tem um sonho e não se pode, sequer, pensar que tem a liberdade para... Sonhar?
Ela tirou a caneta da boca com um olhar incrédulo.
– Você passou em três das maiores universidades mundiais, é rica que faz a qualquer um inveja, capitã de pelo menos quatro times: basebol, química, matemática e grêmio estudantil. Você também é uma das garotas mais belas dessa escola! Acha mesmo que seu pai vai colocar algum "porém" em você ser a estrela mais brilhante no mundo todo?
Acabou por abrir um sorriso singelo. Allen fazia o tipo osso duro, mas sabia sempre o que falar para melhorar a autoestima de qualquer um.
– Acho que você é a única amiga de verdade que eu já tive...
– Que é isso, eu só sou sua amiga por interesses pessoais! – gargalhou Allen, fazendo cachinhos nos cabelos com os dedos. – Não esqueça, quando você for a primeira mulher a vencer cinco prêmios Nobel no mesmo ano, eu serei sua assessora importante.
Ela riu.
– Sim senhora, querida falsa amiga!
Allen pegou o braço de Claire e as duas se abraçaram antes que o sinal tocasse, explodindo os tímpanos de todos.
– Me faz um favor? – Allen escutou Claire falando – Vem comigo no jantar lá no hotel amanhã à noite? Meu pai pediu para meu irmão me chamar, acabou que ele vai levar o amigo e eu queria não ficar sozinha no meio daqueles idiotas.
– Depende do agrado. – balbuciou a loira.
Claire colocou um sorriso de lado.
– Meu primo Ian também vai estar lá.
– AGORA a coisa muda de figura! – berrou Allen pulando. – Garota, aquele seu primo é um pedaço de mau caminho! Se eu ganhasse alguma moeda por toda vez que eu olhasse para aquele bumbunzinho sarado...
– Certo, já chega! Está me assustando...
As duas começaram a andar pelo corredor, seguidas de olhares e mais olhares. Ambas faziam parte do grupo que realmente importava naquele lugar. Na verdade, apenas a Perrault importava para a maioria dos professores. Dinheiro muda a visão de muita gente, principalmente pessoas de pouca visão.
Além das duas rainhas, havia líderes de torcida entre as belezas da escola. Essas costumavam andar em bandos junto aos jogadores (principalmente Bruce, Lewis e Chase), adoravam rir das pessoas e tudo que faziam, parecia que tinham sido tirados de um filme adolescente americano.
Claire, entretanto, fazia parte do grupo “bom” dessa estória.
– Lendo o jornal, idiota? – berrava Bruce do outro lado do pátio da escola, arremessando o ombro de Rato contra uma árvore e puxando o jornal de suas mãos.
Ela odiava pessoas como Bruce e seus amigos, por isso tirou de sua mochila o bastão de basebol (o mesmo que tinha usado para ameaça-lo) e apressou o passo na sua direção.
– Ei, Claire! – gritou Allen parando enquanto a amiga saía do seu lado – O que está fazendo? Yuhul?!
– Colocando um imbecil na linha... – disse ela, virando apenas a cabeça, depois se voltando para Bruce e Rato – Ei, seu saco de estrume de vaca!
Quando o garoto se virou para Claire, ela acertou com toda a força que tinha os órgãos genitais dele.
Bruce caiu agonizando.
– CLAIRE! Sua louca! Perdeu completamente o juízo?!
– Eu já tinha mandando não atormentar mais o meu amigo, não mandei?! – ela cuspiu.
Allen correu logo em seguida, rindo:
– Bruce Weekh, acho melhor você ir à enfermaria procurar suas bolas, depois disso é capaz de terem se partido.
O garoto começou a rastejar e as duas gargalharam da besteira, enquanto Rato ficava perplexo com tudo.
– Fala sério, você acabou de esmagar as bolas de Bruce Weekh?! – berrou ele para Claire. – E c-c-como assim?!
– Ah, eu só não gosto que façam mal aos meus amigos, sabe? – sorriu Claire, deixando Rato completamente assombrado.
– Amigos né? – ele sorriu
Bruce se levantou cambaleando e, segurando o que ainda tinha restado, saiu tropeçando em meio aos risos do pátio. A moça Perrault pegou o jornal caido no chão, abrindo quase sem querer na primeira página e passando o olhar.
– O-obrigado, Claire. – disse Rato pegando no jornal.
Ela, entretanto, não soltou.
– “Mais um ataque do célebre grupo Sinderella”. Rato, você gosta dessas besteiras?
– Mais ou menos. – disse olhando para os lados – Acho interessante como alguém pode roubar sete joalherias, quatro casarões importantes e não sei mais o que, sem ser pego. Deve ser um grupo muito ruim para ficar roubando tudo de todos.
Continuou olhando para a manchete, mesmo que Rato ficasse falando sem parar. E quando parou, ela se virou, dizendo:
– Acho que quem faz tudo isso deve ser muito inteligente, sabe? – uma pontada com o comentário dela o acertou – Eu costumo ler bastante os artigos sobre Sinderella, Os Pecadores na Meia Noite.
Allen suspirou, dando-lhe um tapinha na cabeça.
– Claire e seus vícios por investigação, – ela mirou Rato surpreso – costuma virar noites lendo artigos sobre isso. Uma coisa que eu nunca entendi foi o nome "Sinderella" desse grupo.
Claire coçou um pouco a cabeça, respondendo:
– Muitos blogueiros no mundo comentavam sobre o fato de todos os roubos acontecerem antes ou pouco depois da meia-noite e generalizaram a ideia com o apelido de Cinderela...
Allen se virou bruscamente para Rato como se fosse lhe contar um segredo:
– Para ter uma ideia, ela fez um artigo incrível sobre os roubos de Sinderella, lendo apenas manchetes de jornais e relatórios de um policial federal gatinho.
– Meu bem, antes lendo algo de verdadeiro interesse ao invés de fingir estudar durante as madrugadas apenas para escutar música. – gargalhou Claire, deixando Allen enrubescida.
– Ora, faz um bom tempo que eu não faço isso!
– Porque perdeu o vinil favorito, estou certa?
Acabou a discussão pisando forte no chão, arrancando mais gargalhadas da amiga. Allen poderia parecer uma garotinha mimada que escutava os TOP 10 da semana, mas nunca tinha largado os discos que ganhara da avó e os mantinha intactos no seu quarto. Até Rato ousou rir um pouco.
– Bem, se me permite intrometer... – disse o rapaz acanhado – Minha família tem uma loja de CDs no shopping térreo próximo à Sky Tower, temos até discos de vinil, caso esteja interessada. Trabalhamos especialmente com remasterização de antiguidades...
De repente, uma buzina soou no lado do estacionamento do colégio. O carro era um Sonata prateado, o mesmo que Charles dirigira durante a manhã daqueles dias para deixar Rhonda e Rose. E quando o som troou, os três olharam para o automóvel.
– Acho que é minha carona. – murmurou Rato, enfiando a mão na mochila. – Esse aqui é o cartão da lojinha, se quiser, pode passar lá!
As duas moças sorriram, mandando tchauzinho e vendo Rato correr para o carro com seus montes de mochilas. Do carro, o vidro do motorista baixou, e o rosto de Charles iluminou a visão das duas.
Claire por um segundo o encarou, ao mesmo tempo em que ele a viu. Os dois trocaram o olhar. Charles fazia o tipo com olhos profundos, azuis claros e com certeza sua beleza encantou a moça, enquanto ela a admirou por dois instantes.
Infelizmente, a expressão de desdém de ambos se fechou. Cada um virou para um lado e logo que o carro foi embora Allen arregalou os olhos.
– Você viu que GA-TO! – berrou, pulando – E eu achando aquele seu amiguinho um nerdzinho sem eira nem beira... A tal carona, viu? Vou te contar! E dirigindo um SO-NA-TA! O garoto tem futuro viu?
– Abaixa esse fogo, Allen! – riu-se a outra.
.
Claire pousou o garfo sobre o prato entalhado com rosas com certa delicadeza, desligando seu olhar para a janela, totalmente concentrada. A mesa de jantar estava embelezada pelo clássico de quadros rústicos nas paredes e das porcelanas enfeitadas. Era noite e a suíte mais bela do Hotel Claire Les Nuages era o lugar mais próximo das estrelas em toda a cidade, depois de Sky Tower. A moça apenas se perdia entre o brilho de Auckland e das próprias estrelas.
– Claire, está pensando na morte de alguém? – gargalhou Cloud cutucando lhe o ombro.
– Ela só está distraída com o nada do horizonte. Deixe-a em paz, Cloud. – brigou Allen, abrindo os grandes olhos azuis em reprovação.
Claire, pelo contrário, transpareceu um sorriso:
– Relaxe, Allen. Cloud é infantil demais para se ajeitar com qualquer sermão-
O velho no canto da mesa tossiu, interrompendo-a.
– Assim como Cloud tem que crescer, você, Claire, tem que ser mais educada com seu irmão.
Ela revirou os olhos ao mesmo tempo em que Allen riu-se, olhando para o velho com simplicidade. Era quase costume que o pai de Claire implicasse com seus modos na frente de seu irmão. Ainda que ela fosse mais propensa a herdar tudo por sua boa índole e inteligência, o favoritismo pelo primogênito era incontestável.
– Ora, Sr. Perrault, Claire está treinando para ser dura com os outros. Ela é minha aposta para maior líder feminista nesse planeta!
– E você, querida Torrance, está louca para tirar proveito disso, não? – disse ele com um tom sarcástico.
– Ah, papai, desde sempre essas duas planejaram me tomar o posto de futuro dono da empresa. — Cloud riu — A Claire fica com essas coisas e a Allen só alimenta com mais minhocas!
Ele bufou:
– Só por cima do meu cadáver um irresponsável como você vai controlar os meus hotéis, Cloud!
As duas moças começaram a gargalhar se entreolhando. O mordomo de longa barba branca entrou lentamente na sala, fazendo leve reverência ao patrão que também ria, dizendo com seriedade:
– O jovem Wolfgang está subindo, Sr. Perrault.
– Obrigado, Wallace. – disse o velho – Peça para as moças trazerem as entradas do jantar.
– Acabou que seu primo não chegou... – sussurrou Allen.
Claire olhou para Allen deixando a expressão de desagrado, enquanto a loira ria. Desde que se entendia por gente ela não gostava do amigo do irmão. Não demorou mais que dois minutos para que um rapaz alto, parecendo pouco mais velho que Cloud, tendo seus cabelos arrepiados e vestindo um terno preto Armani, aparecesse na porta que dava entrada à enorme sala de jantar.
Paul Wolfgang era sereno e tinha um sorriso incrivelmente sedutor, mas Claire tinha agonia dele, algo em seu olhar a incomodava, ainda que fosse extremamente educado e querido por todos.
– Boa noite a todos. – falou Wolfgang, abrindo um sorriso branco e caminhando na direção de todos na mesa com pequenas reverencias de cabeça. – Sr. Perrault, Cloud, Claire e...
– Allen Torrance, muito prazer – falou Allen se arrebitando toda.
Então Cloud se levantou quase correndo na direção do outro.
– Paul, irmão! – berrou, abraçando-o.
– Oi Cloud...
– Cloud, deixe que o coitado se sente! – bufou Devoir Perrault – Deve estar muito cansado, meu filho.
Wolfgang abaixou levemente a cabeça, mantendo sempre o sorriso encantador, e postou-se na cadeira ao lado de Claire. E assim, todos se sentaram ao mesmo tempo em que algumas criadas se espalhavam pelo salão, servindo-os.
– E então, Paul, por que se atrasou? – murmurava Cloud, engolindo um pedaço grande de tomate.
– Eu estava terminando de fechar um contrato de construção em Malibu, nos Estados Unidos. – suspirou Wolfgang – Uns engenheiros da empresa foram meio cabeças duras, pedindo mais do que deveríamos dar. No fim das contas, conseguimos convencê-los a fazer o trabalho por menos do que íamos oferecer, haha.
O velho Perrault pigarreou.
– Está escutando, Cloud?! É assim que se deve trabalhar. Veja se consegue aprender alguma coisa com o Paul.
– Quem me dera papai me escutasse como escuta ele – sussurrou Claire para Allen.
Ao fechar a boca olhou para a mesa e percebeu que Wolfgang a encarava em seu olhar quase sinistro.
– E como anda a escola, Claire? – ele disse ao seu lado.
O irmão deixou os talheres caírem no prato, violentamente, quase agoniado com a comida ainda em sua boca.
– É, minha irmã, conte-nos sobre as duas medalhas internacionais e sobre a sua redação! – Claire quase cuspia o que comia, escutando a empolgação de Cloud – Ela foi medalha de ouro na olimpíada internacional de física e na de matemática, e fez um artigo incrível sobre o grupo de roubos, Sinderella, para uns estudantes da Universidade de Munique!
O pai dos dois pigarreou quase forçando, o que assustou a todos. Devoir bateu a mão na mesa imediatamente. Desde sempre o pai fora contra qualquer coisa relacionada à ida da filha para fora do país. Ele nunca foi tão próximo da filha quanto era de Cloud, e exatamente por isso lhe cortava as asas de todas as maneiras possíveis.
– Não acredito que andou se comunicando com eles! – berrou – Eu já não havia lhe dito que vai estudar aqui e ponto final?!
– Meu pai! – falou Claire, subindo muito pouco o tom de voz – O senhor mesmo falou que eu deveria aumentar minhas influências!
– Influências, Claire Ariosto Perrault! Você sempre foi a mais desobediente e sempre foi contra tudo que eu tentei lhe ensinar. Pare de tentar ditar suas próprias regras! – dessa vez, o pai da moça fez menção de se levantar, mas antes que ele o fizesse ela bateu com ainda mais força na mesa.
– Papai! – Claire gritava – Sabe quanto prêmios eu recebi nos últimos três anos? Fui prata e ouro internacionalmente em olimpíadas, ganhei mais de dez honras ao mérito e recebi hoje mesmo três cartas. Adivinhe, fui aceita em três das melhores universidades no ranking mundial. Já está na hora de me deixar traçar meu próprio caminho se não quer ver Cloud dirigindo a empresa.
E quando ela parou de gritar, começou a ofegar. Os convidados e os criados todos a olhavam perplexos pelo impulso explosivo que tivera. E quando ela percebeu o que estava acontecendo novamente, o amigo de seu irmão estava em pé ao seu lado, passando, levemente, a mão sobre a sua.
– Sr. Perrault, creio que Claire seja madura o suficiente para escolher aonde estará estudando quando terminar o colegial... Eu a admiro bastante e creio que seja capaz de depositar não só a minha confiança nela, mas a dos assessores da minha empresa. Não concorda, Cloud?
De repente, a moça enfureceu-se com o discurso de Wolfgang e com a expressão de compreensão que seu pai fazia enquanto o escutava. Para ela, aquilo foi a gota d’água do inadmissível.
– Com licença, mas tenho a impressão de que não clamei por ajuda de ninguém. – então Wolfgang virou-se para a expressão incrédula dela – Escutou alguém pedindo por ajuda? Não sei se percebeu, mas essa é uma discussão familiar e... Olha só! Você está sobrando no momento.
E assim, saiu quase correndo para seu próprio quarto. Allen viu a amiga saindo de cena e a única coisa que foi capaz de fazer foi segui-la.
– Ok, interrompemos a programação por erros técnicos... — Allen murmurou para si mesma.
Claire nunca foi de se sensibilizar facilmente, gostava muito do sabor do sarcasmo, mas nunca falava coisas sem sentido (como acabara de falar).
Os três homens ficaram parados na mesa de jantar com o clima já desgastado.
– Aquela garota cabeça de vento... – suspirou Cloud – Desculpa aí, Paul.
Wolfgang sentou-se, dando um riso rápido de lado na boca.
– Ainda vou encontrar uma maneira de fazê-la aquietar os hormônios. – disse Devoir, revirando os olhos. – Você não merecia escutar coisas assim. Ela está sendo muito impulsiva nos últimos tempos.
– Para falar a verdade, eu e Cloud andamos conversando sobre algo com relação a isso...
As palavras soando nos ouvidos de Devoir poderiam ter ferido os sentimentos de qualquer pai, mas não os dele. O Sr. Perrault poderia ser considerado como insensível e até maldoso por ter ficado maravilhado com o que Paul Wolfgang dissera naquela noite. E a solução foi a pior possível para a pobre moça.
.
– Acabei de receber uma ligação de Marianne! — sibilou Charles, apoiado no balcão da loja, enquanto via Rato fechar as cortinas nas janelas.
– E então? Qual o trabalho da vez?
Charlie gargalhou, cruzando os braços abaixo do peito.
– Ao que parece, sua amiguinha, Claire Perrault está relacionada a ele... — Rato encarou os olhos de Charles, assombrado.- É, Rato, a princesinha de Auckland tem alguma coisa que interessa às escórias da sociedade. Vem que eu te conto os detalhes no caminho de casa...
Notas finais
TÍTULO - Princess (Elton John)
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