Voices In My Head
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sanji.
Sanji!
Sanji...
Sanji. Sanji. Sanji.
SAAAANJIII!!!
Desde que adentrara no território da Yonkou Big Mom, havia ouvido o nome dele por inúmeras vezes, em diferentes vozes e tons – vozes estas que refletiam igualmente os seus sentimentos e desejos internos.
Vinsmoke Judge. Fazia tanto tempo que Sanji fizera a escolha de esquecer do seu passado repleto de escuridão. Havia enterrado tudo muito profundamente em sua memória, imaginando que nunca mais teria que voltar para aquelas lembranças. No entanto, graças à Big Mom e ao seu suposto pai, lá estava o loiro, revivendo todas as dores de uma época mais sombria do que quando pisara em Thriller Bark.
“Em nenhuma circunstância você deve se identificar como minha prole! Você é a única mancha na minha vida, a única coisa com a qual tenho vergonha”.
Biologicamente, Judge era o pai do cozinheiro do bando dos mugiwara. Fora esse fator, desconhecido por todos do mundo, exceto pela própria família Vinsmoke, o pai de Sanji também era tido como um grande homem! Poderoso, inteligente, imponente e, para muitos, amedrontador. Era só ouvir o nome dele, ou da Germa 66, que as pessoas se encolhiam, caso fossem suas inimigas.
Já, para o cozinheiro, os sentimentos que emergiam ao ouvir o nome do seu pai, ao olhar para ele, ao escutar sua voz, ao saber que esse homem existia, iam muito além do medo. Na verdade, sentia que desde que crescera, medo era a última coisa que surgia em seu coração ao pensar na figura do seu pai biológico.
No fim, Sanji atendera aos desejos de Vinsmoke Judge e nunca contou sobre seu parentesco para ninguém. Todavia, não foi pelo pedido de Judge, mas sim por nunca ter sentido que ele realmente era seu pai. E tal sentimento só se intensificou ao conhecer Zeff, o chefe de cozinha do restaurante Baratie.
Quando pensava em Vinsmoke Judge, era quase como se tivesse apertado um botão do terror, fazendo surgir as mais terríveis lembranças, bem como os piores sentimentos existentes na face da terra. E então, um tempero preparado com dor, sofrimento, lágrimas, raiva e rejeição se formava em sua boca...
A verdade, no fim das contas, era que absolutamente nada no universo seria capaz de fazer com que Sanji visse aquele homem como seu pai. Essa repulsa e negação também eram válidas para os seus irmãos: Yonji, Ichiji e Niji, pessoas que em nada se assemelhavam com a sua visão de uma família de verdade – eram, em suma, completos estranhos, que por azar, precisaram conviver juntos.
A “família” Vinsmoke era o completo oposto de tudo em que Sanji acreditava...
O cozinheiro pendeu a cabeça para trás. Deixou essas memórias se esvaírem. Fechou os olhos, buscando por boas recordações, buscando por apoio. Aproveitou esse breve momento para puxar mais um dos seus cigarros. Havia perdido a conta de quantos já havia levado aos lábios. De qualquer maneira, isso não importava agora. Muita coisa tinha acontecido recentemente, e a quantidade de cigarros seria irrelevante, dadas as circunstâncias. Após dar um trago, encontrou um alívio momentâneo.
E começou a flutuar pelo mar junto com o Baratie. Pensou em Zeff, nos seus companheiros de viagem da época. Alívio momentâneo. O cigarro e o pessoal do Baratie traziam essa sensação nele. Era como se Sanji pudesse se sentir compreendido, finalmente. Junto com Zeff e os outros, ele podia ser quem sempre quis, não havia impedimentos ou julgamentos, somente respeito e reciprocidade – com os amigos e com as mulheres.
Por essas e outras que ele precisava se certificar de que tudo ficaria bem com eles. Tudo ficaria bem com o Zeff, seu verdadeiro e único pai. Sorriu ao lembrar dele. Repentinamente, para a sorte do loiro, imagens de todas as ocasiões pelas quais os dois enfrentaram juntos começaram a pipocar em suas memórias. A fome, a empatia, os sonhos, as broncas, as risadas, as lições...
"Eu não consigo pensar num motivo para você ser gentil comigo! Por quê? Por que fez isso?!
Porque você e eu... temos o mesmo sonho.
O All blue..."
Fechou os olhos. Permitiu que uma sensação de paz o alcançasse.
O cozinheiro dos mugiwara sabia que havia sido com Zeff que ele descobrira o que era o amor de um pai.
Vinsmoke Reiju. Tal descoberta não teria sido possível sem a sua irmã. Novamente, em situações completamente distintas, era ela quem tinha acordado Sanji para a vida. Caso contrário, provavelmente estaria morto agora, no próprio casamento.
“O filho que minha mãe protegeu com a própria vida. O único que nasceu com qualquer traço real de emoção. Estou falando de você, Sanji.”
Quando lembrava disso, ria de nervosismo. Nunca passou pela cabeça dele que enfrentaria um momento como aquele, porém, imaginou menos ainda que seria salvo pela mesma pessoa – tanto pelas palavras quanto pelos gestos.
Mais uma vez, graças à Reiju, Sanji recebeu a chance de seguir em frente, ao lado daqueles que ama. Daqueles que desde que os encontrara, não conseguia se imaginar sem.
Além de Reiju, Sanji tinha conhecimento de que existia uma outra mulher que havia lhe ajudado no caminho percorrido até os dias atuais. Uma outra pessoa que o ajudara a sorrir na vida, com uma voz que, infelizmente, ele não conseguia se lembra e que também já não podia mais escutá-la. Ainda assim, sentia, sem sombra de dúvidas, o amor que ela emanava, carregando-o consigo para onde fosse.
Vinsmoke Sora. Essa mulher era a mãe dele. Sentia saudades de cozinhar para ela, bem como de abraçá-la, ou de brincar com o cabelo dela. Tanto a mãe dele quanto a Reiju eram mulheres lindas e incríveis. Mas não só isso. Eram amáveis. Tinham um coração doce e uma força de vontade inimagináveis.
"MMMMMMM! O gosto dessa comida está ótimo. Você ... fará algo para mim novamente?"*
Um olhar pesaroso assumiu o comando no rosto de Sanji. Assim que a aventura dele acabasse, assim que encontrasse o All Blue, a próxima que ele alcançaria seria ela, sua amada e querida mãe. E então, ele contaria tudo. Contaria sobre como foi viajar com a tripulação do Luffy, sobre como foi realizar o sonho dele. Também falaria que a Reiju era uma irmã maravilhosa... e que não tinha como agradecer o suficiente.
Sanji ficara imaginando como seria abraçá-la novamente. Mas não só isso: queria ver a reação dela ao experimentar um dos seus deliciosos pratos, que ele com certeza prepararia com muito amor. Conseguia vê-la sorrindo de canto a canto. Também via a surpresa no rosto dela, por perceber como ele havia crescido, tanto na altura quanto nas habilidades culinárias.
E então... Nami apareceu em sua mente. Infelizmente, lembrou da imagem dela chorando. Por sua culpa. Aquela cena nunca seria esquecida por ele. E até hoje conseguia sentir o peso da mão dela em seu rosto – tanto na força quanto no seu significado.
“Ei, Sanji! Adeus! Sinto muito. Nunca deveríamos ter feito isso!”
No entanto, ele também lembrava de como ela estava feliz por tê-lo encontrado. E, talvez, justamente por isso, tenha doído mais. A decepção que Nami-swan sentira... Ele sempre lembraria... E faria questão de jamais esquecer do rosto que vira naquele dia. Não queria voltar a cometer um erro tão desprezível como aquele.
Obviamente, quando pensava nela, naquele dia e instante, também lembrava do seu capitão. Monkey D. Luffy. O futuro Rei dos Piratas.
Uma sensação de vergonha lhe abateu. O cigarro que antes se encontrava entre seus dedos, agora estava no chão do Sunny Go, sendo pisoteado pelo loiro. Permitiu que lágrimas escorressem pelo seu rosto. Chorava em silêncio mais uma vez, porém sem a chuva lhe acompanhando.
"SAAAAAAAAANJIIIIIIIIII!!!! Que papo é esse de pirata imundo? Eu sei que você não quis dizer isso! Pare de mentir! Acha mesmo que vai se livrar de mim assim? Vai se ferrar! Pode me chutar à vontade. Quem saiu magoado daqui... foi você!"
Direcionou o olhar dele para o céu. Enxugou o choro com uma das mãos. Parou de pisar no cigarro. Ajeitou a postura. Deixou o sol tocar a face dele. Sentiu-se abraçado, aquecido. Não estava sozinho...
Não havia sido o fim...
“Nossa jornada... ainda não acabou! Eu vou ficar esperando aqui! Se você não voltar, eu vou ficar aqui... E vou passar fome até morrer! Você é o meu cozinheiro! Eu só vou comer o que você cozinhar! Meu estômago pode roncar, podem chover lanças em mim, mas vou ficar aqui e te esperar!”
Não havia sido o fim... mesmo que tivesse deixado o seu capitão passar fome...
Mesmo que houvesse batido nele sem parar...
Ainda havia uma jornada para ele. Um caminho. Uma aventura.
E ele não estava sozinho...
De repente, uma voz muito conhecida alcançou os ouvidos dele, interrompendo de imediato as suas divagações, além de ter despertado uma risada instantânea nele.
— SAAAAANJIII!!!! — Gritara um Monkey D. Luffy completamente animado, enquanto se encontrava enrolado ao redor do mastro. — EU TÔ COM FOOMEEE!!!! Tá todo mundo comendo menos eu! — Sanji se virou na direção do companheiro, entregando a ele o seu melhor sorriso. Como resposta, recebeu uma gargalhada sincera, capaz de ser ouvida por todo o mar.
— É para já, capitão! — Sussurrou o cozinheiro, que começou a caminhar em seguida. Iria assumir o seu lugar, o seu posto.
“Trate de voltar, Sanji!”
Andando lentamente, cruzou olhares com todos do bando durante o trajeto.
Usopp. Um ótimo peixe frito prestes a entrar em sua boca.
Nico Robin. Em suas mãos delicadas, um sanduíche.
Roronoa Zoro. Em suas mãos de ogro, um belo onigiri.
Franky. Atacava loucamente o seu sanduíche.
Brook. Um guardanapo em seu pescoço, com um esplêndido prato de arroz e molho à sua frente.**
Nami. Apreciando o aroma e o sabor das laranjas, tão maravilhosos quanto ela.
Chopper. Aproveitando um belo pedaço de chocolate da maneira mais doce possível.
Por fim, ele. Monkey D. Luffy... esperando pela comida preparada pelo seu cozinheiro. Carne... sem dúvidas.
“Sem você, eu... não vou conseguir me tornar o Rei dos Piratas!”
Novamente, seus sentimentos haviam sido trazidos à tona pela sua mente.
Sanji havia sido imprudente, ele sabia e tinha certeza disso. No fim das contas, havia colocado muitas vidas em perigo ao tentar se livrar de seu pai e também da Big Mom. Todavia, olhando agora para cada um dos integrantes do bando, ele não tinha dúvidas sobre ter tomado a decisão certa.
Ficou aliviado por não ter aberto mão dos sonhos dele, mas, principalmente de poder permanecer ao lado de todos eles. De todos os seus nakamas.
Quando ele encontrar o All Blue, é com cada um deles que Sanji vai querer estar. Usopp. Nico Robin. Roronoa Zoro. Franky. Brook. Nami. Chopper. Monkey D. Luffy...
Por agora, era somente pelo chamado deles que Sanji atenderia.
Vinsmoke Sanji estava de volta.
Não...
Sanji, o perna negra do bando dos mugiwara estava de volta.
E ele encontraria o All Blue.
E tornaria o seu capitão o Rei dos Piratas.
Por agora, somente isso importava...
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