Você é um ser repleto de luz
1 Pena vermelha
Notas iniciais
Era mais um dia de buscas incansáveis ao Ohja no Shikakku (Símbolo dos Reis), e o líder Yamato, juntamente com seus amigos Sela, Tusk Leo e Amu, continuavam sua longa jornada à procura deste. Mesmo depois de mais uma calorosa discussão com os outros três, Yamato continuava mantendo o pensamento positivo em encontrar o objeto, embora os Zyumans já houvessem perdido as esperanças de algum dia voltarem para suas casas.
Temendo que aquele atrito tomasse proporções irreversíveis, a meiga Amu logo tratou de levar Yamato para longe, assim se separando do grupo, seguindo a missão por si mesmo. Puxando Kazakiri pelo antebraço, a jovem se senta com ele em um banco de madeira que dava para um cais, e frustrado, o rapaz expira derrotado.
— Droga!! — joga uma lata de ice cofee em uma lixeira próxima — Por que eles não entendem?
— Yamato-kun, fique calmo. Eles entendem… — passa a mão esquerda pelo ombro de seu companheiro de equipe em uma tentativa de acalmá-lo — Acontece que Sela-chan e os outros… — esfrega os dedos no queixo pensativa — Como posso explicar…? Eles estão cansados de passar meses e meses procurando por algo que nós nem sabemos se existe mais, e para ser sincera… eu também acho que nós só estamos perdendo tempo dia após dia procurando uma agulha num palheiro.
— Não pense assim. — direciona seu olhar para ela, fitando o chão em seguida — Sei que meu otimismo parece estúpido para vocês, mas é que às vezes eu me sinto um tanto deslocado. — diz naturalmente, deixando sua interlocutora intrigada.
— Deslocado? Perdão, mas eu não entendi. Por que Yamato-kun se sentiria deslocado? — pisca seguidas vezes, tentando encontrar resposta em algum trejeito de seu companheiro de equipe.
— Você sabe… eu sou o único humano do grupo, e estou no meu próprio mundo, ao contrário de vocês. — mira novamente a jovem, percebendo que esta também se encontrava triste — Amu, você não quer voltar para Zyuland?
A indagação repentina faz a bonita moça assumir uma expressão desconsertada, mas Kazakiri sorri, passando assim confiança para ela.
— Vamos por partes? — sorri divertida — Pra começar, saiba que eu e meus amigos te admiramos muito. Você é um humano, é natural que tenha medo de nós, mas foi bem ao contrário. Você nos recebeu na sua casa e cuidou da gente. Agora moramos juntos, e você faz de tudo para nos ajudar para que um dia voltemos ao nosso mundo. Confiamos uns nos outros para lutar, e foi você, Yamato-kun, o responsável pela nossa conexão, essa conexão tão forte que agora podemos chamar de amizade.
— Amu… — titubeia enternecido pelas palavras dela. Não sabia que era assim tão querido por seus amigos, mas queria pelo menos tentar entendê-los melhor, para que o convívio entre eles pudesse ser ainda mais harmonioso.
— Podemos voltar às buscas agora? — se levanta, mas ele a puxa pelo braço, e ela volta a se sentar.
— Espere. Ainda não me respondeu sobre o que perguntei. — a mira diretamente nos olhos, praticamente intimando uma resposta de sua amiga.
— Sobre a Zyuland… — só de lembrar, os olhos castanhos da bela Zyuman marejam de tristeza, e por um momento, Kazakiri se arrepende de tê-la questionado tão incisivamente — É muito difícil para mim falar sobre esse assunto, e nem mesmo Sela-chan e os outros sabem disso, então…
— Seja lá qual for o motivo, aparentemente é bastante grave, e eu te peço perdão por ter cobrado alguma resposta sobre suas ações, pois não tenho nenhum motivo para fazê-lo. Você tem todo o direito de manter seus próprios segredos, apenas quero que saiba… — pega as mãos dela entre as suas, a mirando profundamente nos olhos, o que faz o corpo da bela garota esquentar instantaneamente ante àquele gesto inesperado vindo do lindo jovem à sua frente — Que você não está sozinha, e que pode contar comigo para o que for.
Bastante fragilizada, Amu desvia o olhar, mirando o chão, pois para ela era extremamente difícil falar sobre um assunto de cunho tão pessoal e íntimo, que ninguém, somente ela mesma, sabia. Kazakiri se limita a ficar ali, parado, apenas aguardando sua amiga, se ela iria se abrir consigo, ou apenas deixar para lá qualquer tipo de lembrança dolorosa, até ser surpreendido por uma chocante revelação.
— Eu… não tenho ninguém na Zyuland… — revela sem alterar o semblante, ao que Yamato arregala os olhos — Éramos apenas eu e a minha mãe. Esta era a nossa família. Mas… anos atrás, eu fui perseguida por um Zyuman búfalo… e… — solta suas mãos cerrando seus punhos, sentindo uma profunda raiva dentro de si somente com a mais remota lembrança, deixando seu interlocutor mais e mais surpreso — Ele queria me fazer mal! Queria abusar de mim! E então… — ofega, pois a cada palavra dita, seu nervosismo aumentava — Para me salvar… a minha mãe… ela foi morta, Yamato-kun! Morta!! — se abraça a ele, tamanho o seu desespero, e chocado com o que lhe fora dito, o moreno nada mais faz do que estreitá-la em seus braços, acarinhando as madeixas curtas de tom castanho, sentindo em seus longos dedos a maciez dos fios lisos, enquanto ela aninhava ainda mais seu rosto no peitoral de Yamato, que sentia o corpo dela tremer, demonstrando assim a dor que ela sentia ao se lembrar desse acontecimento tão terrível em sua vida.
— Amu… eu não imaginava que… — tentava consolá-la de alguma forma, mas acaba sendo rapidamente interrompido.
Eu não tenho nada… não tenho ninguém. Entende? Ao contrário dos outros, que têm suas famílias na Zyuland, eu...
— Shiiiii… não diga nada. Apenas pense em se acalmar. — agora era ele quem a interrompia, intensificando as carícias nos cabelos dela, que passa a chorar sem sentir, mas ao mesmo tempo, estar ali, abraçada ao seu amigo, fez com que ela sentisse algo distinto, mais distinto do que poderia imaginar.
Fechou os olhos apreciando aquele momento, e cada instante em que sentia o calor do corpo dele junto ao seu fazia uma imensa paz tomar conta de sua alma, e um contentamento invadir seu coração. Queria que o tempo parasse ali. Que aquele contato pudesse se estender por toda a eternidade, se possível fosse…
Naquele instante, o coração de Yamato passou a bater forte sem que pudesse evitar. O calor do corpo dela que se fundia ao seu causou-lhe uma sensação indescritível de paz, sentimento este que sempre lhe acometia ao estar em companhia da jovem Zyuman, que com sua doçura e personalidade meiga e compreensiva, o encantava, e estar assim, tão perto, o fez notar como ela tornou-se tão importante para si em tão pouco tempo. Instantes depois, se afastam, e ele a questiona preocupado:
— Está melhor? — diz em seu habitual tom ameno, passando ambos os polegares por baixo dos olhos de Amu, que os fecha e sorri docemente, tão reconfortante eram os toques vindos do belíssimo rapaz, que fizeram seu corpo arrepiar de imediato. Ele retira do bolso interno de sua jaqueta uma pena vermelha, colocando esta na mão direita de sua querida amiga, que mais uma vez esboça um sincero sorriso.
— Uma pena das suas asas… Yamato-kun… muito obrigada! — traz o objeto até o seu peito, guardando com carinho em seu bolso — Com você ao meu lado, qualquer dor se transforma em contentamento.
Ao dizer isso, seu rosto cora na mesma hora, e o mesmo acontece com Kazakiri, que fica pasmado com aquelas palavras, que Amu jamais cogitaria dizer, mas que saíram tão naturalmente, que nem se tivesse ensaiado para isso durante toda a sua vida, teria conseguido dizer, de fato.
— Acho que agora podemos retornar a nossa busca, certo? — pisca ao sorrir amplamente, e ela por longos instantes se perde naquele sorriso tão lindo, perfeito, e acima de tudo, repleto de sinceridade, que era o tão encantador sorriso de Yamato — Vamos? — estende sua mão a ela, que se levanta, e os dois seguem para o alto de um prédio comercial próximo, e posicionado na mureta deste, ele invoca o seu poder de visão de águia, vasculhando uma imensa área de toda a cidade, procurando minuciosamente em cada canto, até que por fim ele avista algo parecido com um cubo, que lembrava a forma do Ouja no Shikkaku, perdido no topo de uma montanha não muito longe de onde estavam.
— Yamato-kun viu alguma coisa?
— Sim!! Está no alto de uma montanha! Vamos! — enlaça sua mão a dela, e juntos seguem para o local visto pelo líder dos Zyuohgers.
Chegando ao local avistado por Kazakiri, ambos caminham por um terreno íngrime. Ele seguia na frente, até que levou um susto ao ouvir um estridente grito:
— Aaaaahhhhh!!! Yamato-kun!!!!!!
A jovem pisa em falso e tropeça por causa do salto de suas botas por conta do terreno pedregoso, e sua morte seria certa, pois caiu do alto da montanha.
— Amu!!! — o rapaz corre em seu auxílio, se transformando em seguida — Honnou Kakusei! Yasei Kaihou!!!
Um imponente par de asas vermelhas surge nas costas do Zyuoh Eagle, e com o seu vôo veloz e habilidoso, salva Amu, carregando-a em seus braços, e assim que é por ele acolhida, a bela mulher sente como se seu corpo pousasse sobre nuvens, que ele pesasse tanto quanto aquelas belíssimas penas vermelhas que Yamato fazia esvoaçar assim que levantava vôo.
Agindo totalmente por instinto, retira o capacete dele, que se surpreende com a atitude ousada desta, e após passarem alguns segundos no ar, Yamato pousa de volta ao topo da montanha o mais suavemente possível, ainda com sua amiga nos braços, que não desvia o olhar dele um segundo sequer.
Os dois se sentam no solo pedregoso, onde o moreno, como o cavalheiro que era, apoia as costas de Amu sobre sua perna direita, mas ela ainda se mantinha segura no ombro viril do rapaz, que parece não se incomodar com a proximidade.
— Yamato-kun… você… está tremendo. — murmura quase rente ao ouvido dele, ao se abraçarem quase por instinto, e Kazakiri sente um agradável arrepio lhe tomar de assalto.
— Eu tive medo… por um instante achei que iria te perder, e se isso acontecesse…
A fala trêmula do jovem zoologista demonstrava a dimensão de seu nervosismo, algo que aquece o coração da Zyuman Tigre de modo tão intenso, como nenhuma outra pessoa já fez em toda a sua vida. Devagar, ela desfaz o contato, acariciando de leve o rosto de seu amigo, e lhe fala genti:
— Está tudo bem agora… graças a você, que salvou a minha vida.
Beija sutilmente o canto dos lábios de Yamato, e ambos sentem uma euforia sem igual, um arrebatamento simultâneo que faz seus corpos ferverem em incrível sintonia. Possuído por um misto de encantamento e necessidade, o belo rapaz posiciona sua mão na nuca de sua colega de equipe, unindo seus lábios em um beijo repentino, ao que a jovem imediatamente fecha os olhos, como se seu corpo se tornasse tão leve quanto a pena vermelha dada por ele, tamanha a doçura daquele momento, que apesar de inesperado, era mágico… sublime.
Suas línguas bailavam morosamente, saboreando o gosto inigualável de cada uma, e ambos sentem a magnífica emoção de estarem juntos, de compartilhar de um instante tão amoroso. Sentindo o ar lhes faltar, rompem o terno contato, e o jovem, um tanto envergonhado, desvia o olhar, pensando ter passado dos limites.
— Me perdoe! Eu… não devia ter me excedido desse jeito. É melhor voltarmos à missão, e…
— Não se desculpe. — mantém sua delicada mão sobre a lateral do rosto do moreno, que surpreendido, arregala os olhos — Você é um ser cheio de luz. Uma pessoa maravilhosa que Deus colocou no nosso caminho. Obrigada por isso… por esse beijo… e por ser um anjo para nós. Um anjo de penas vermelhas.
Se abraça a ele, que retribui o gesto, sem saber o que responder. Naquele momento, descobriram que um sentimento muito mais especial os unia, e este nada mais era do que amor... um amor sincero e muito forte, que nasceu entre esses dois seres de luz, e que muito em breve seria por eles vivenciado em toda a extensão da palavra, e jamais seria esquecido, ainda que vivessem em mundos diferentes…
— FIM -
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