Você é o Próximo
1 Você Não Pode Parar a Batida
Notas iniciais
As cortinas do auditório se abriram lentamente e no centro do palco se localizava uma mulher, que mostrava uma posição ereta, mesmo com os aplausos iniciais que se sucederam ao vê-la.
O Palco era simples. Quem fora para assisti-la, mesmo sem saber do que se tratava, notaria que ali não haveria performance musical, até porque a postura rígida e seu semblante irritado, indicavam que o assunto seria sério.
A mulher continuava parada e observava cada rosto curioso que a encarava. O silêncio dominava o local. Aquilo a deixava confortável, gostava de quando as palestras se mantinham assim. De repente, um telão que estava sendo sustentado no ar desceu, e já aceso, revelou um rosto conhecido. Uma foto de uma garota era exibida e aquele rosto já estava conhecido por todo o mundo através dos jornais. A história dela foi recontada de tantas maneiras que já estava cansativo de ouvir.
Tina Cohen Chang estava vestida em uma camisola, calçava um chinelo simples da cor preta, seu rosto estava mais branco que o natural e não possuía nenhuma maquiagem. No entanto, sua expressão continuava a mesma, notoriamente aquela que deveria causar pesadelos constantes em Kurt e Blaine.
— Meu nome é Raven Privost. Isso é tudo que precisam saber aqui, mas se quiserem saber algo a mais, fiquem à vontade para pesquisar na internet. Eu apareço muito por lá.
Ela ergueu seu queixo com satisfação própria, retornou os olhares para a plateia, que agora parecia assustada. A questão é que Raven não sabia de quem eles sentiam medo; se era dela ou da imagem de Tina que os encarava através da foto.
— Creio que vocês conhecem esta figura — Raven apontou com o dedo indicador para a imagem — Tina foi julgada há seis meses atrás por tentativa de homicídio e sequestro. Como sabem, o jovem Noah Puckerman continua desaparecido.
Os alunos suspiraram pesadamente, mas continuaram ouvindo atentos. Raven deu dois passos à frente, arrumou o microfone colado atrás da orelha e sorriu.
— A senhora Chang foi diagnosticada com esquizofrenia, e, portanto, foi mandada para um hospital psiquiátrico. Lá ela já está recebendo tratamento devido, e já apresenta melhoria no comportamento.
De repente alguém levantou a mão na plateia e fez a veia do pescoço de Raven saltar. Ela odiava ser interrompida em meio a uma palestra.
“Crianças idiotas”. Pensou
— Eu não abri espaços para perguntas ainda — Ela disse com uma voz contida — No final, haverá chance de manifestação para todos
Ela mostrou um meio sorriso, que logo se desfez imediatamente ao ver que a pessoa continuava com a mão levantada.
“Tina não merecia isso, ela fez o certo! ”. Alguém gritou ao fundo do auditório, e o sorriso nos lábios dela tornou a aparecer. De fato, ela gostava de pessoas corajosas.
Mais mãos começaram a se erguer e o auditório estava ficando barulhento com a agitação pós manifestante.
“Tina é uma aberração! ”. Gritou uma menina na primeira fila.
— Acho que vocês têm muitas opiniões aqui, mas infelizmente eu não tenho tempo para isso.
Ela retirou o microfone, irritada e saiu. O mesmo caiu rapidamente no chão e causou um barulho que amplificou o auditório todo e o fez silenciar. Enquanto ela saia, a maioria observava com cautela.
No fundo do palco, uma jovem usando um microvestido a encontrou. Ela carregava uma prancheta, que mantinha a altura dos ombros.
— Dia difícil? — ela perguntou e recebeu um sorriso
— Está brincando Santana? Creio que William Mckinley será de grande ajuda no futuro.
Ela se posicionou ao lado de Raven e acompanhou seus passos.
— Eu achei aqueles garotos um pouco agressivos.
Santana não havia entendido o motivo da excitação de sua nova chefe, por isso manifestou-se.
— É por isso que você é só uma assistente, não? — Raven responde hostil — Muitas opiniões diversas irão deixar o documentário mais interessante. Vou explodir em audiência! Além do mais, aquela garota tentou matar você e seus amigos, não acha que eles levariam flores para ela.
“Talvez se fosse seu enterro”. Pensou Santana irritada
— Agora vamos, daqui a algumas horas teremos uma nova palestra em Nova Iorque — Ela parou em frente a porta do carro, esperando Santana abri-la. A mesma, o fez rapidamente e as duas embarcaram, e logo o carro disparou em velocidade.
Ainda na escola, os alunos saiam do auditório eufóricos. A palestra havia animado boa parte deles, mas também perturbou a outra metade.
Ryder se direcionava ao seu armário, porém não estava sozinho. Ele segurava a mão de alguém, que por acaso não era de Unique. Os dois resolveram manter a amizade após o ocorrido, mas o sentimento ainda existia de ambas as partes.
A mão que ele segurava era pequena e delicada. Da dona já não se podia dizer o mesmo. Kitty olhava irritada para os colegas enquanto passava. Ao chegar no armário de Ryder, ela olhou para ele sorriu.
— Pega seu livro e vamos para o campo de futebol, eu tenho treino das líderes de torcida e quero que assista.
— Como sabe que não tenho aula? — Ele perguntou curioso
— Unique, sua perseguidora, me contou. — Ela disse, encarando-o sério.
— O que? — Ele perguntou assustado
— Estou brincando — Ela riu e ele suspirou aliviado — Ou não! você já viu como ela nos encara o tempo todo? É desconfortável.
— Deixa ela Kitty, de repente ela ainda não superou o que sentia.
— E você já? — Ela perguntou irritada.
— Vamos para o campo, O.k?
Ele desviou o olhar por alguns segundos e a puxou pelas mãos. Unique os observava sair e sentiu seu coração se comprimir ao vê-los de mãos dadas. Ela sabia que perdeu a chance de ficar com Ryder, mas quando havia voltado para Ohio e foi falar com ele, não houve muita conversa. O garoto sentiu-se desconfortável e pediu um tempo para pensar em tudo. Bom, haviam se passado seis meses ele já estava com outra pessoa, pelo jeito já havia tomado uma decisão, e nenhuma incluía Unique perto.
Depois de todo o incomodo que sentiu, ela decidiu ir para sua aula, porém foi abordada por uma garota. A mesma era magra, usava uma saia quadriculada roxa, meias ¾ decoradas com bolinhas brancas em volta, calçava uma sapatilha que parecia gasta e tinha cor preta. Na parte de cima, lhe chamava atenção o blazer da mesma cor da saia que usava. No entanto, a parte mais bonita nela era seu cabelo afro. Unique sentiu uma ligeira inveja, e com isso teria passado reto, mas o sorriso da menina era tão simpático, que a fez parar.
— Posso te ajudar? — Ela perguntou um pouco indecisa
— Na verdade, sim. Meu nome é Jane Hayward, e sou nova por aqui. Preciso de ajuda para encontrar a sala 500A.
Ela parecia perdida, mas não só nos corredores. Gentilmente, Unique pegou um caderno da bolsa apenas para confirmar uma dúvida que pairava em seu pensamento. Após folheá-lo, ela sorriu de volta para Jane e disse:
— É minha sala também! Acho que podemos ir juntas, o que acha?
Jane agradeceu aliviada e se pôs a caminhar. Entretanto, as duas se obrigaram a parar os passos, quando viram um garoto ser arremessado em suas direções.
— Ei! — Ela gritou tão alto que atraiu todas as atenções para os três. — Não pode machucar alunos nos corredores!
As duas ajudaram o garoto a se levantar. O mesmo tinha o corpo avantajado, mas sua estatura era mediana. Usava óculos e mantinha um topete bem arrumado na cabeça.
— Eu o chamei, mas esses fones estúpidos em suas orelhas impediram de me ouvir — Disse o garoto que o arremessou.
— E o que você queria a ponto de jogá-lo no chão? — Jane se manifestou inconformada.
— Era para avisar que hoje é meu dia de evitar gente feia — Ele riu debochadamente e bateu a palma da mão na do amigo ao lado, em forma de comprimento. — E isso serve para vocês também.
Jane sentiu uma raiva incontrolável tomar seu corpo, mas foi impedida de fazer algo por Unique, que tomou uma posição.
— E se nós não quisermos, vai nos bater também? — Ela o desafiou e sentiu-se vitoriosa.
Os restantes dos alunos formaram um círculo em volta dos cinco. Eles começaram a ficar animados com a briga que se formava, e esperavam que não fosse só uma discussão. Geralmente adolescentes precisam de adrenalina escolar, mas talvez eles estivessem exagerando um pouco.
— Você deveria ser internada com sua amiga assassina, não consegue nem se vestir de acordo com seu gênero!
Jane olhou incrédula para Unique. Não achou que ele chegaria tão longe a ponto de ser transfóbico. No entanto, ela não parecia surpresa, mas tinha um olhar de dor por ter sido atacada daquela forma.
— Pelo menos ela não usa a mesma jaqueta o ano inteiro. — Ela arriscou. Sabia que tinha falhado no argumento, aquilo ali não era uma competição de vestuário. Entretanto, ela não estava acostumada a discutir com pessoas, e não deixaria aquela garota ser insultada.
No entanto o “insulto” parece ter surtido efeito, pois o garoto ficou tão irritado que correu em direção a elas com os punhos fechados. Jane apenas fechou os olhos e esperou a dor tomar conta de seu corpo, mas nada aconteceu.
Shelby Corcoran estava parada na frente dos três e fez o garoto recuar depressa, junto dos alunos que iam se dispersando rapidamente.
— Vocês estão bem? — Ela se virou e perguntou preocupada.
— Sim professora — Unique respondeu, enquanto o garoto robusto ia se desprendendo de seu apoio.
— E como é seu nome? — Shelby olhou para ele, compassiva.
O mesmo ajeitou os óculos, olhou tímido e respondeu:
— Roderick Meeks — sua voz saiu fraca
A professor se aproximou cautelosamente e disse:
— Roderick, eu sou Shelby, a nova professora do coral. Eu sinto muito por ter que passar por isso, mas saiba que se precisar de alguém para conversar, eu estarei sempre aqui. O clube é ótimo, se quiser entrar, será bem-vindo. E se souber cantar, melhor ainda.
Unique ficou surpresa ao ouvir Shelby falar que ela assumiu o coral.
— E quanto ao senhor Schue? — Ela perguntou.
A mulher riu, nada surpresa com a pergunta, e então a respondeu:
— Na Carmel High, treinando o Vocal Adrenaline, o nosso inimigo.
Dada a resposta, ela seguiu em frente e deixou Unique paralisada.
♪
No campo de futebol, Kitty estava rodopiando no centro de um círculo feito por líderes de torcida, que cantarolavam sem parar. Ryder estava mais afastado e sorria ao ver aquela cena.
Um garoto másculo, loiro que usava uma jaqueta do time de futebol se aproximou;
— Você poderia não girar tanto? Sua calcinha está distraindo todo meu time — Seu tom era hostil.
Kitty parou imediatamente de rodopiar e revirou os olhos para o garoto.
— Desculpe se sou tão demais para vocês, que faço os menininhos perderem a concentração — Ela respondeu, irônica — E quem você pensa que é para vir falar comigo desta forma?
O garoto ri debochado e responde:
— Meu nome é Spencer Porter, mas não se preocupe, você não faz meu tipo. Ele faz — Spencer direcionou uma piscadela para outro menino, que ligeiramente corou. Ele fazia parte das líderes de torcida. Ele era alto, magro, tinha os cabelos pretos e ondulados. Sua irmã gêmea, que tinha praticamente as mesmas características, só era um pouco mais baixa, estava ao lado dele e comemorou com um gritinho animado.
Kitty se enfureceu. Odiava ser rejeitada, ainda mais se fosse na frente da sua turma. Orgulhosamente, ela ajeitou seu cabelo louro, que aparentava estar um pouco bagunçado, e respondeu:
— Mason? Escolheu bem garanhão! Pena que ele já está comprometido com a sanguessuga da irmã!
Spencer riu, enquanto Madison, a irmã fechou a cara, agarrando o braço de Mason com força.
— Apenas pare de chamar atenção, tudo bem? Temos um jogo importante em breve — Ele disse, olhando fixamente para Mason, e sorrindo ao final. O garoto ficou envergonhado, mas por dentro seu coração batia aceleradamente.
♫
A mesa do café da manhã estava pronta em Nova Iorque. Rachel, Kurt e Blaine estavam sentados comendo em silencio.
Rachel havia passado cedo para acompanhar Kurt até o emprego. E também eram o primeiro dia de volta as aulas na faculdade em NYADA. Ela estava nervosa, apesar de ser o penúltimo ano.
Kurt havia sido expulso de lá no semestre passado por permanecer em Ohio, e a última coisa que ele precisava ouvir naquele momento era sobre a magnífica faculdade de artes dramáticas de Nova Iorque. Ele estava tão insatisfeito com a reação da diretora, que pensou em criar um perfil falso e atacá-la publicamente na internet, mas no final, ele só seria igualado ao agressor que tentou matá-los. No entanto, ele não manifestou essa raiva publicamente, e para não parecer rude, ouvia tudo com muito desgosto.
— Então Blaine, preparado para o primeiro ano em NYU? — Ela perguntou, cortando o silêncio.
— Sim — Blaine respondeu um pouco desanimado — Quer dizer, eu sempre quis medicina, mas NYADA era meu destino antes...
Kurt tossiu, interrompendo a fala de Blaine, e arrumou seu lugar na cadeira desconfortável. Para ele, ainda era difícil falar sobre o ocorrido, mesmo após esse tempo, o garoto ainda tinha pesadelos a respeito daquela noite.
Com a interrupção, Blaine voltou a comer e o silêncio dominou a cozinha novamente.
Rachel notou as expressões tensas de ambos, que se distanciavam muito do dia do casamento. Pareciam cansados e abalados, tanto emocionalmente, como fisicamente. Mas talvez apenas fosse uma impressão. Pelo menos ela queria que fosse.
— Quando Jesse volta? — Kurt perguntou, enquanto cortava um pedaço da omelete.
Ela foi pega de surpresa e engasgou com o suco que tomava. Ao tentar se recompor, ela respondeu com a voz rouca:
— Ele está terminando de gravar aquele seriado em Londres. Ontem me disse que voltava em algumas semanas.
Kurt não prestou muita atenção, apenas assentiu com a cabeça, levantou, pegou a mochila, deu um beijo leve no rosto do marido e saiu. Rachel imitou rapidamente, e deu um beijo no rosto de Blaine, que continuou ali na mesa. Ao ouvir o bater da porta, ele resolveu levantar e sair.
Mais tarde ele chegou na universidade. A primeira aula era no laboratório; eles aprenderiam um pouco mais sobre como realizar uma cirurgia. Talvez fosse um pouco demais para um primeiro dia, mas a instituição tinha fama de assustar os calouros rapidamente.
Após sentar no banco, em frente a uma bancada, ele tratou de pegar um caderno na mochila para começar a anotar os passos mais importantes. Quando virou para frente, notou que alguém havia sentado seu lado, e logo tratou de olhar para o rosto da pessoa, que fez o mesmo.
— Blaine — A pessoa ficou surpresa ao reconhecê-lo
— Karofsky? Você estuda aqui? — Blaine perguntou também surpreso.
♫
A Clínica de reabilitação de Ohio tinha um total de 30 janelas no prédio, e todas possuíam grades reforçadas. Em cada ponto de saída haviam sistemas de segurança que identificavam metais. Quem aparecia para realizar visitas, era obrigado a deixar celulares e qualquer molho de chaves que carregavam consigo.
O quarto 202 era o de Tina e ela surpreendentemente tinha uma visita naquele dia.
— Que bom que veio, eu já estava achando que ninguém me acompanharia no chá da tarde.
Ela carregava dois copos cheios de água e os colocou em cima de uma mesa. Logo ela sentou e ficou olhando entusiasmada para seu visitante.
Seu quarto tinha as paredes escuras, e haviam muitos desenhos perturbadores nas mesmas. Nele havia uma cama, uma mesa, e um vaso sanitário, com uma pia ao lado. Já era aconchego demais para ela.
— Bebe, está ótimo! — Ela tomou um gole, mas o visitante não havia nem tocado no copo.
— Tina onde Puck está? — Sua voz estava calma.
Em um instante, a expressão da garota mudou drasticamente. Ela se inclinou, com um semblante desafiador e perguntou:
— Onde Adam está, Will Schuester?
O professor sentiu um frio na espinha ao perceber a mudança de comportamento da ex aluna.
— Adam foi preso há três meses atrás, foi encontrado no Texas. Agora responda minha pergunta.
Ela mostrou um sorriso doentio que assustou Will imediatamente.
— Adam sequestrou Puck, mas agora pelo que fiquei sabendo, há outras pessoas querendo terminar o que nós começamos. E acho que vai ter que descobrir quem é.
Ela levantou devagar, mas não tirou os olhos de Will nem por um segundo. Em um único movimento, ela chutou a mesa para longe, derrubando os copos e espalhando toda água pelo chão. Como se isso não bastasse, ela começou a gritar histérica mente e os enfermeiros correram para socorre-la. Toda aquela cena fez Will sair do quarto, mas antes de cruzar a porta, ele olhou pelas o rosto de Tina, que se aliviava conforme o conteúdo da seringa, que estavam depositando em seu organismo acabava.
Na manhã seguinte, os alunos se preparavam para mais um dia de aula. As líderes e os jogadores de futebol se dirigiam ao campo, inclusive Madison estava lá, e dava pulinhos animados. De repente, um cheiro forte invadiu seu nariz e ela procurou de onde vinha. Estava perto, mas não conseguia encontrar.
Madison olhou para cima instintivamente e um grito agudo saiu de sua garganta ao ver um homem morto pendurado em um poste.
O homem era Puck, que tinha metade do corpo decomposto. Abaixo dele havia uma mensagem pichada que dizia:
“Voltamos e você não pode para a batida desta vez! ”
Fale com o autor