Você sabe quem eu sou?
13 capítulo 11. Irresistível
Capítulo 11. Irresistível
Se algo tem que dá errado, ah, neném, vai dar!
O desastre cavalga o insano puro sangue do destino e ninguém escapa do seu laço.
Não foi um bom dia para mim. Havia algo de mau agouro no ar nas primeiras horas do dia. Um calafrio que percorria meu corpo de tempos em tempos. Uma sensação estranha de meu lugar era sob os lençóis. Uma vontade quase indomável de simplesmente não encarar o que o destino me reservava.
Talvez estivesse ficando doente. Talvez sentisse que a vida fosse me derrubar naquele dia. Então, talvez por isso, por esse sexto sentido, as coisas não começaram bem.
Primeiro perdi meu horário. Quando finalmente despertei, passei por uma pequena série de incidentes que tornaram o meu atraso ainda maior. Isso sem nem mesmo sair de meu quarto.
— Unnie, vamos brincar. Esquece a escola hoje e fica comigo.
— Você sabe que eu não posso. — foi minha resposta um tanto fria ao entrar no banheiro.
Ah, não falei sobre a minha nova companheira de quarto. Pois bem, o espírito de uma garotinha de nove anos me escolheu para ser sua Unnie. Seguia-me por todos os lados há quatro dias. Havíamos combinado que, quando estivéssemos sozinhas em meu quarto, eu brincaria com ela, mas fora dele, ela não poderia falar comigo.
Obviamente, um acordo de tal magnitude era complicado para uma garotinha de nove anos obedecer. Principalmente um que se sentia solitária e adorava falar. Seus ataques de frustração normalmente eram difíceis de ser ignorados.
Quando desci as escadas, trazia aquela vã esperança de encontrar com o dono da casa perambulando por ali. A minha amiguinha por algum motivo, tinha medo dele e esperava eu sair da casa para ficar em meu encalço.
É claro que todas as minhas esperanças foram frustradas. “Meu namorado” havia desaparecido como fumaça no ar.
Na cozinha, queimei a língua com café. Estava saboroso, mas quente e em minha preocupação com “você sabem quem”, simplesmente me distraiu. Indignada com minha própria estupidez, peguei o carro segui para universidade... mas ele resolveu parar no meio caminho. É isso, mais de duzentos anos de tecnologia automotiva e o maldito carro resolve parar. Quando criariam um automóvel que se consertasse sozinho?
Todos esses desastres aconteceram enquanto eu ouvia a incessante tagarelice de uma menininha fantasma.
Metade da manhã havia se passado quando cheguei a aula. O professor do horário me olhou feio, mas nada disse. Silenciosamente eu fiz uma prece de agradecimento e pedi que o resto do dia passasse sem mais incidentes.
Minha amiguinha havia desaparecido assim que pisamos no campus. Talvez houvesse encontrado melhor companhia.
Depois de tanto contratempos, eu finalmente relaxei. E aí de fato começaram meus problemas. Relaxar me fazia pensar e meu pensamento mais recorrente era o senhor Kim Shin. O senhor Kim Shin e sua amiguinha de copo.
Eu estava furiosa e enciumada. Queria saber cada pequena coisa sobre a fulana que esteve com bebendo até altas horas com o MEU NAMORADO!
Senti meu coração acelerado. Uma crescente e incontida revolta. Era sempre assim, bastava uma pequena lembrança do ocorrido para tirar a minha paz.
Tão furiosa estava que havia um grande bolo em minha garganta. Tão grande que eu sentia dificuldade em engoli qualquer coisa, fosse comida ou as explicações de um certo ahjussi. Meu maxilar parecia carregar o peso de todos os meus dilemas. Eu estava com raiva e nada parecia ser capaz de aplaca-la.
Ou talvez ninguém tivesse o interesse de me acalmar. Meu pai estava silencioso concentrado em seu trabalho e seus livros, meu “namorado” me ignorado e a três dias do fim do prazo do ultimato que dei para que resolvesse nossa situação, ele simplesmente não parecia interessado em fazer qualquer coisa.
Minha mãe... estava vivendo o dilema de lutar contra um homem muito rico e poderoso. Seu processo para me alienar estava indefinidamente preso na burocracia do sistema judiciário. Diante desse entrave, ela estava tentando fazer minha cabeça para que eu voltasse para casa e como argumento, dizia que homem queria apenas se aproveitar de minha juventude.
Era preciso dizer que por mais que fingisse indiferença em nossos encontros, sozinha (ou quase isso) em meu quarto a noite as dúvidas me corroíam.
Era hora de encarar os fatos. Talvez eu fosse apenas uma jovem tentação. Algo excitante, mas descartável.
Aliás, onde eu estava com a cabeça ao pensar que um homem tão rico fosse se interessar por mim? NaNa estava coberta de razão.
Droga. O mero pensamento de que logo nossos frágeis laços seriam rompidos me deixou sem fôlego. Era como levar um soco no estômago. Aliás, aquela paixão estava me deixando doente.
Quem disse que não há nada melhor que se apaixonar certamente não nunca passou pelas incertezas de amar um escroto.
Isso mesmo, um E.S.C.R.O.T.O!
Kim Shin não me dispensava, nem assumia de uma vez nossa relação. Parecia ter um prazer sádico em me torturar lentamente com incertezas. Em brincar com meu sofrido coraçãozinho.
— Eu fico me perguntando o que pode preocupar tanto um mulher tão bonita.
O comentário me tirou de meus devaneios. Foi como acordar abruptamente de um sonho. Estava na biblioteca da Universidade. Claro, não era necessário que eu fosse ali para estudar, mas talvez por conta do meu pai e seu interesse pelo passado, eu me sentia confortável naquele lugar e mais que isso, era muito silencioso.
Estávamos numa biblioteca e as pessoas não iam ali para bater papo. Olhei irritada para o homem que ousou falar comigo e congelei.
Meu Deus, de onde veio aquilo?
— Você está com a testa enrugada. Parece que todos os problemas do mundo estão em suas costas.
Eu poderia ter me irritado com a abordagem, mas o desconhecido sorriu e eu esqueci até mesmo do meu nome. O que fazia. Onde estava.
Se o havia achado bonito antes, o sorriso dele teve um impacto físico sobre mim. Foi uma reação forte e de certo modo incomoda. Era diferente do que eu sentia quando estava perto do Ahjussi. Era intensa... e de alguma forma assustadora.
— Namorado?
A palavra brincou entre nós. Insinuante, sedutora, apelativa. Eu automaticamente retribuir o sorriso e tolamente perguntei.
— Como?!
O sorriso dele se ampliou em seus lábios. Eu gelei. Não sei explicar a sensação, só que era estranha. Eu me sentia impelida a saber mais sobre ele... ao mesmo tempo que queria correr e me esconder. De todo modo, era excitante. Perturbadoramente excitante.
— São problemas com o namorado que tiram a sua paz de espírito?
A pergunta deveria ter me incomodado. Fazia parte do repertório de qualquer conquistador barato, ainda assim me vi respondendo prontamente.
— Ele ainda não é meu namorado.
Outra vez ele sorriu e algo aconteceu dentro de mim. Eu era incapaz de desviar o olhar dele.
— Garota esperta! Nenhum homem que cause tamanha inquietação numa moça tão linda merece que ela perda seu tempo com ele. Você é jovem e bonita demais para se prender a um babaca qualquer.
Sorri outra vez. Pela primeira vez em dias, eu encontrei um motivo para sorrir, mesmo que não entendesse esse motivo. Era bom estar com aquele sujeito. Ele tinha razão. Porque eu estava perdendo meu tempo com... Deus, com o que mesmo eu andei perdendo meu tempo?
— Dylan. — Ele estendeu a mão e eu automaticamente retribuir o cumprimento.
— Yeon Woo.
Seus olhos. Algo surgiu em seus olhos, mas foi tão rápido que não poderia determinar se de fato aconteceu.
— Chuva suave. É apropriado. Um belo nome. Tão gracioso quanto a sua dona.
Sorri timidamente dessa vez. Aquele belo homem conseguia me encantar com muita facilidade. Ele estava flertando comigo e, involuntariamente, eu correspondia a esse flerte.
Dylan era lindo. Era alto, másculo, mas esbelto. Seu corpo era solido, com músculos discreto, mas aparentes, seus ombros eram largos. Seus traços, perfeitos. Uma mistura equilibrada entre os genes orientais e ocidentais. Cabelos eram escuros, mas levemente ondulados. Seus olhos, levemente puxados, num castanho dourado. Sua boca... prometiam beijos. Tantos quanto eu quisesse.
Não sei ao certo de onde veio aquele pensamento, só que eu me vi perguntando como seria provar de outros lábios que não fossem os do ahjussi.
— Você continua pensando no seu ahjussi.
O comentário me surpreendeu.
— Como você sabe?
— Seus olhos. Eles mudam quando você pensa nele. Estou surpreso. Normalmente sou capaz de distrair as mulheres em minha companhia.
— Me desculpe. — Não sei porque me desculpei. Só que senti que precisava.
Ele sorriu mais uma vez. Sério, era um homem muito bonito, mas quando sorria, parecia iluminar o mundo a sua volta.
— Não por isso. Acredito que logo encontrarei uma forma de reter sua atenção. Quer tomar um café comigo?
Na verdade eu não queria. Sabia que não deveria sair com um estranho, mas olhei para ele e me decidi.
— Claro.
De novo o sorriso e Dylan estendeu a mão. Eu esqueci de todo o resto.
— Um expresso com canela.
Fiz uma careta involuntária. Nunca havia colocado canela em meu café e tentava imaginar como ficaria. Não pensei que gostaria. Começava meus dias com um expresso bem forte, quase sem açúcar, mas era para despertar. Ao logo do dia optava por capuchino ou algum café gelado e doce. Coberto com creme.
Bem, eu estava na cafeteria em frente à entrada campus. Sim, eu havia saindo da universidade com um estranho. Eu sabia que era errado, mas nada parecia me impedir de seguir impulsos loucos naquela tarde.
— E para a Agassi também café com canela? — A balconista me perguntou.
— Sim. — Ele respondeu em meu lugar. — Acho que você deveria experimentar.
Eu queria dizer que não e fazer meu pedido habitual.
— Claro. Um expresso com canela.
Apenas concordei, sentindo um desagradável sentido de repulsa e confusão. Porque eu estava tentando agradar aquele desconhecido?
Enquanto esperávamos os nossos pedidos, ficamos em silêncio, sem romper o contato visual. Era encantador olhar para ele... e também irresistível.
Os cafés chegaram sem que eu conseguisse sair daquela atmosfera de fascinação na qual eu estava imersa.
— Prove.
Ele ordenou. Peguei a xícara e provei. Fiz uma careta. Nunca seria minha escolha voluntária. Afastei a xícara dos meus lábios e coloquei sobre a mesa. Nada me faria prosseguir com aquela tortura.
— Tome até o final. Vai ficar melhor.
Eu queria recursar, mas não conseguia. Era como se minha boca se negasse a proferir qualquer recusa ao meu acompanhante. Minhas mãos também pareceram ter vontade própria e seguraram a xícara. Olhei para Dylan assustada e ele sorriu. Talvez o medo tenha tomado conta de mim, já não achava seu sorriso tão encantador.
Então uma mão segurou o meu braço. E eu sentir uma sensação boa tomar o meu corpo. Era como se um intenso poder me percorresse. Não precisei olhar para saber quem era. Ainda estava presa no contato visual do homem sentado à minha frente.
“A escolha é sua.” Algo pareceu me dizer. E eu percebi que era verdade.
— Obrigada, mas eu não quero o café. — Finalmente encontrei voz para dizer e percebi que não havia nada de errado comigo, eu era dona de minha vontade. E escolheria conforme o meu desejo.
— Tem certeza?
— Absoluta. Odiei esse seu café com canela.
Empurrei a xícara para frente e então descansei as mãos sobre minha coxas. No mesmo instante o Ahjussi tomou uma delas e entrelaçou seus dedos nos meus. Uma vez mais sentir-me envolvia por um poder mágico. Fui capaz de até mesmo desviar o olhar e analisar o perfil do Kim Shin. Ele não retribuiu. Olhava diretamente para o Dylan, sem piscar. Estava furioso e nem mesmo tentava esconder isso.
— O cara que não é seu namorado veio ao seu encontro. Acho que agora você está feliz. — A voz do outro homem tinha um quê de provocação.
— Eu sou o namorado dela. — Era um aviso severo, num tom baixo, rouco e feroz. Um que faria qualquer mortal se encolher.
— Não foi isso que a moça disse. — O outro retrucou com ironia.
Dylan não era um mero mortal.
— Ela é minha.
— Talvez...
— Não tente me irritar.
— Irritar é meu esporte favorito. Além disso, ela só será sua se me disser que é.
Estava perdendo algo. Havia algum tipo de rixa entre aqueles dois. E eu estava bem no meio dessa contenda.
— Vocês se conhecem. — Decretei, percebendo que era um osso disputado por dois cães famintos.
— Nos encontramos outro dia.
O comentário de Dylan me fez encará-lo a espera de maiores explicações, mas elas não vieram.
Ele já não parecia tão belo como pensei a princípio. E agora havia algo que me desagradava severamente. Ele era malvado. Como não percebi antes?
— Quero ir para casa. — Decidi me levantando.
Nenhum dos homens pareceram surpresos.
O retorno para a mansão do Kim Shin foi feito em silêncio. Eu queria entender o que havia acontecido, sem encontrar sentido algum no motivo pelo qual, eu, a criatura mais sensata do mundo, saí do campus com um desconhecido de sorriso encantador.
Eu também segurava o local onde o ahjussi tocou para “quebrar o encanto”. Ainda formigava. Eu queria fazer perguntas, mas tinha medo de estar naquele lugar fez eu ficar anos num manicômio.
Também havia outra coisa me incomodando. Por que o Kim Shin não gritava comigo? Seu silêncio incomodava mais que qualquer coisa. Eu precisava das repreensões. Precisava ser tratada como uma garota que fez algo inconsequente.
Quando paramos o carro em frente a mansão, nenhum de nós saímos. O homem ao meu lado estava tenso. Ele soltou um suspiro alto antes de falar.
— Você tem razão. Precisamos resolver nossas questões sem perda de tempo.
— Nossas questões?
— Sim. Eu tenho colocado sua idade como desculpa para não aprofundar nossa relação, mas você tem razão. É uma mulher adulta, capaz de fazer suas próprias escolhas.
— O que você quer dizer com isso?
— Vamos nos casar, se é isso que você quer.
Foi um balde de água fria. Eu passei do que seria um grande momento de felicidade para o mais profundo desalento em segundos.
“... se é isso quer você quer?!”
Eu nunca sentir tanta vontade de bater em alguém. Queria extravasar todos aqueles dias de frustração naquele momento.
Então era isso. Kim Shin casaria comigo... por que não havia outra forma de me controlar. Porque outro havia surgido e ele se sentia ameaçado.
Era isso. Sempre havia alguém me manipulando. Fosse minha mãe, meu pai, meu suposto namorado, ou o belo desconhecido que possuía um estranho efeito sobre mim.
De súbito lembrei-me da sensação de tomar aquele café contra minha vontade. Percebi que aquele dia foi um divisor de águas em minha vida. Não era o primeiro café que me faziam tomar. Toda a minha vida foi uma sucessão de cafés amargos com canela.
Era irônico fazer aquela relação, mas a “especiaria” nunca disfarçou o quão amarga era a bebida.
— O que você quer, Kim Shin?
— Como?!
— Você entendeu minha pergunta. Quer casar comigo?
Ele hesitou. Eu não, desci do carro e segui tranquilamente para a entrada da mansão. Eu sabia o que precisava fazer. Mal cheguei a porta e fui puxada pelo braço.
— Você não escutou minha resposta.
Eu vi a preocupação em seu olhar. Ele percebeu o erro que foi demonstrar sua insegurança em minha frente. Para o seu azar, era tarde demais.
— Eu não preciso mais dela.
— O que você quer dizer?
Dessa vez, o suspiro entre nós foi meu. Eu estava cansada. Muito cansada de todo aquele drama.
— Eu vivo tentando mostrar para você e para todos que sou adulta. Estou errada em fazer isso.
Uma ruga surgiu no belo rosto do ahjussi. Ela não enfraqueceu minha resolução, embora por dentro, eu sentisse meu coração gelado. Não sabia as consequências da minha atitude, mas errar feio e pagar por isso era melhor que viver no campo das incertezas.
— Eu estou deixando a sua casa, Kim Shin. A partir de agora, a responsável por minha vida sou seu. A escolha é minha. Sempre foi.
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