Notas iniciais
Repostando.

O vestido que cobria até um palmo acima do joelho era caro. De um tom de azul que lembrava muito seus olhos. Os sapatos pretos, de salto ridiculamente altos, tinham algumas pedrinhas de brilhantes e safiras, também eram ridiculamente caros e ela os carregava na mão enquanto caminhava pela praia. Nos lábios, ela tinha vestígios de batom vermelho. Mais um sorriso borrado, e uma lágrima levando sonhos e apagando os sentimentos daquele coração, que tanto gritava por socorro, no fim, se tornando frio, como as ondas que se quebravam em frente aos seus olhos, sob as estrelas, que eram testemunhas de mais uma história de amor que se encerrava sem o “felizes para sempre”.

De repente as estrelas se esconderam e as nuvens despejaram toda a água acumulada sobre aquela garota de feições delicadas se misturando à suas lágrimas e livrando-a de qualquer rastro de maquiagem. Agora, o céu era iluminado por relâmpagos de segundo em segundo. Devia ser cedo da noite ainda, mas ela estava sozinha, como jamais pensou que estaria. Droga. Ela não deveria estar sozinha!

Tinha uns vinte minutos que ela vagava pela praia, deixando que todas aquelas lágrimas fossem embora de uma vez, ela sentia vontade de arrancar aquele maldito coração para nunca mais ter que sentir tamanha dor que sentia naquele momento.

Lara olhava para os próprios pés, enquanto sua mente vagava para alguns anos no passado.

Era um desfile cívico, os professores tentavam arrumar os alunos em fileiras. Lara tinha os cabelos dourados presos em duas belas marias-chiquinhas. A pequena sorria para a mãe mostrando sua “janelinha”, enquanto ela a fotografava.

Ah, essas crianças. Um garotinho de grandes olhos verdes e cabelos escuros, também da mesma idade de Lara, estava brincando de correr de costas e não enxergara a menina, esbarrando com tudo nela, os dois foram ao chão.

— Saia de cima de mim, garoto! Você estragou minha foto. — Ela reclamou, empurrando o menino com suas mãozinhas.

— E você estragou minhas mãos, e minhas pernas, e meus braços! — Ele rebateu.

Os dois se encaram furiosos e um segundo depois caíram no choro.

A garota encarava uma antiga fotografia, nela, havia uma garotinha de marias-chiquinhas no chão, com um olhar furioso, empurrando um menino. A chuva molhava a foto, como que insinuando que ela devia ser esquecida. Apagada.

Seus pensamentos voavam longe, ainda no passado.

Os cabelos dourados de Lara estavam presos num rabo de cavalo que chegava até a cintura fina, conforme ela corria, ele balançava cheio de vida. Ela já tinha treze anos, porém, mesmo na pré-adolescência ela ainda gostava de brincar de esconde-esconde com seus colegas.

Ela entrava às escondidas na biblioteca. Aquele era o esconderijo perfeito, ninguém a encontraria lá, ela passava correndo por entre as estantes de livros, para chegar depressa à última. Não percebeu o garoto que já ocupava seu esconderijo, deitado no chão de costas, tropeçando e caindo em cima dele.

Eles se encararam por um momento, ou uma eternidade, ninguém saberia dizer.

— Você estragou meu esconderijo. — Ela disse espalmando seu peito, ainda com os olhos azuis presos nos verdes dele.

— E você estragou minha paz — ele sussurrou antes de tocar com os lábios levemente nos dela.

Que merda! Ele! Fora ele quem estragara a porra da paz dela! E não o contrário! Mas se pudesse voltar no tempo, ainda assim, ela correria pela biblioteca naquele dia.

Madrugada de primavera. Todos os convidados estavam bêbados demais para notarem a ausência da aniversariante. E os pais da garota já tinham abandonado a festa havia algumas horas, para que ela se divertisse com os amigos.

Ela tinha parte dos cabelos dourados presos e cacheados, uma coroa de brilhantes no topo da cabeça. Afinal, não é todo dia que uma garota faz quinze anos. O vestido azul gelo cobria até os sapatos no mesmo tom. E o garoto a puxava pela mão escada acima, deixando todas aquelas pessoas bêbadas para trás.

Ele abriu a porta de um dos inúmeros quartos da casa de Lara, muito lentamente, e depois puxou a garota para dentro, trancou a porta e acendeu a luz baixa.

A cama, os móveis, o chão, tudo estada coberto por pétalas de rosas vermelhas.

E quando eles se olharam, o brilho em seus olhos causaria inveja a todas as estrelas do céu.

— Você estragou minha chance de me apaixonar por outra pessoa.

— E você estragou a minha.

Logo eles se perdiam em beijos, sob o lençol, mãos que descobriam e memorizavam, e acariciavam; bocas que mordiam, beijavam, chupavam, e marcavam. Um pertencia ao outro. E acredite as estrelas também invejariam isso.

A chuva continuava caindo forte pela noite. O mar furioso. E Lara, sentada na areia molhada, fitando o mar, sem nem ao menos perceber, perdida num mundo de olhos verdes e beijos pela madrugada, e lágrimas ao amanhecer.

— Você sabia o que eu queria! Você não vai estragar meu sonho! — Lara gritava furiosa, com lágrimas presas nos olhos, logo pela manhã, depois de acordar, e ver seu nome na lista dos aprovados da universidade que sempre sonhara.

— Certo, não vou estragar! Mas saiba que você estragou o meu!

Então ele bateu a porta tão forte que ela sentiu lá no fundo os dois corações se partindo pela primeira vez. E os dois choraram, depois de estragar o próprio amor.

Ela fechou os olhos com força, desejando que a chuva pudesse levar tudo aquilo embora. Lara voltara, não devia, mas voltara. Não tinha a droga do direito de exigir qualquer coisa dele. O trocara por um sonho! Não podia mudar o passado, não podia nunca ter entrado correndo naquela biblioteca. Ingenuidade sua pensar que ele a esperaria; ninguém nunca prometera nada.

Mas ela precisava vê-lo uma última vez. Então vestira aquele vestido azul que lembrava seus olhos e era ridiculamente caro e entrara meio que escondida na igreja.

Antes de fazer os votos, seus olhos se encontraram, naquela eternidade costumeira, e logo após Lara saíra correndo porta a fora, e agora lá estava, na praia. Terrivelmente sozinha. E as estrelas nunca a invejariam.

Não percebeu o homem correndo na sua direção, assim como ele não percebera a garota no chão. Apenas quando ele caiu em cima dela, ficando a centímetros de seu rosto, Lara abriu os olhos e encontrou os verdes dele, como quem diz “Você estragou a minha paz.”.

— Você estragou meu casamento. — Ele sorriu.

— E você estragou a minha tristeza.

Então eles se beijaram como daquela primeira vez na biblioteca, apenas para se olharem. Olhares que soavam como “eu te amo” e “viveram felizes para sempre” fazendo as estrelas invejarem aquele brilho.

FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!