Regina observa Vasco na varanda do quarto, vestindo apenas aquela maldita boxer, perdido num êxtase ao sentir o vento soprando contra sua pele. Estava com os olhos fechados, como se quisesse aprimorar os outros sentidos. Parecia tão inocente! E de fato era inocente!

Ele parece perceber a presença da esposa e abre os olhos, encarando-a por algum tempo, sem dizer palavra alguma.

– Como você veio até mim?

– Ouvi o seu chamado com todos os detalhes de minha criação e decidi atender ao apelo de uma dama em apuros. Senti que você precisava de mim, porém, quando a conheci pude perceber que eu precisaria de você, Regina.

– E como você conseguiu chegar aqui?

– Não saberia explicar. Tudo o que me lembro é de ter ouvido o seu choro e sua voz clamando pela minha presença. Depois, sua voz calou-se por muito tempo, até que consegui ouvir as batidas de seu coração triste.

– Como conseguiu o que possui?

– O mar está repleto de tesouros esperando por resgate. Apenas fiz o que muitas pessoas têm o desejo de fazer. Não usurpei nada porque meu código moral e ético impede atitudes ilegais.

Regina vai para junto do marido.

– Quando eu a vi sozinha na colina, percebi que era o momento de aproximar-me de você. E foi o que fiz: direcionei minha vida para viver a sua.

– Você é um produto de minha imaginação, Vasco. Por isso poderei ordenar que vá embora?

– Você me criou, Regina. Mas em vez da armadura reluzente e intacta de riscos, deu-me a forma humana e também a alma humana. Você não me criou apenas para ilustrar suas fantasias, mas para amá-la de forma exclusiva, amar seus defeitos e suas virtudes, seus momentos de alto e baixo, amar tudo o que refere a você. E é tudo o que tenho feito: amar você incondicionalmente.

Regina afasta-se e vira-se para a noite, não querendo ver os belos olhos de Vasco.

– Quero que vá embora, Vasco. Você não é real e o nosso amor não é real. Você não existe. – ela diz e permanece de costas para o marido.

Muito tempo depois, quando ela se vira, encontra a varanda vazia. A casa vazia da presença de Vasco, vazia da presença de amor, vazia da presença de felicidade. Senta-se no chão e chora, chora alto como se fosse uma criança abandonada.

Nos dias seguintes, Regina não consegue encontrar razão para continuar sua rotina. Não tinha coragem sequer de ligar o celular, temendo encontrar chamadas com o nome de Vasco. Havia se mudado para outro quarto, a fim de fugir de tudo o que fazia lembrar a existência de alguém que não tinha mais certeza se existia.

Depois de uma violenta luta interna, após dias escondida de tudo e de todos, Regina decide sair e ser recepcionada pela luz do sol. Precisava retomar sua vida, seu trabalho e toda a monotonia de seus dias em uma cor só. Quando liga o celular, seu temor desaparece: nenhuma mensagem ou chamada vinda de Vasco. Ele sequer tinha voltado para buscar suas roupas e pertences.

Ela ri para si mesma diante daquele pensamento. Por que uma personagem saída de um conto e enviada de volta ao conto, iria precisar de modernidade no mundo onde o enredo desenrolava-se? Mas e os barcos e o escritório? Os empregados e toda a parte burocrática da empresa de Vasco?

A saudade e seu amor são maiores do que seu orgulho, e ela segue para as docas. Ali, tudo estava normal e sereno como qualquer dia de trabalho. A movimentação típica, os sons típicos, os trabalhadores e o ritmo alucinante diário. Um sorriso escapa de seus lábios.

Dirigindo-se para o escritório onde Vasco despachava, encontra a porta aberta e ouve vozes masculinas lá dentro. Certamente, algum dos encarregados estava assumindo toda a parte burocrática, agora que Vasco havia retornado para seu conto de fadas. Queria confirmar com seus olhos e conhecer o destino daquele espaço do mundo, sem a presença de Vasco.

Entra no escritório e recebe sobre si, dois pares de olhos atentos e furiosos. Os homens estavam discutindo sobre alguma coisa anotada em papéis. Em segundos, os olhares dos homens ficam serenos.

Desta vez são os olhos de Regina que sofrem alteração. Arregalam-se incrédulos e felizes! Ali, em pé no centro do escritório, vestindo um terno impecável, estava Vasco, ainda mais bonito com os cabelos levemente clareados. Ele se torna sério e é o sinal para que o outro homem saia rapidamente da sala.

– Você me disse que somente eu teria o poder de mandá-lo embora, assim como tive o poder de trazê-lo para mim. Por que não retornou ao seu reino?

– Você me mandou embora de sua casa e de sua vida, meu amor. Não ordenou que eu fosse embora deste corpo ou do seu coração, tampouco ordenou que eu a deixasse de amar. Atendi ao seu pedido e saí de sua vida, passando a não existir mais em seus dias.

– Pretende continuar nesta cidade?

– Eu vivi por muito tempo sem ser visto por você. Posso fazer o mesmo. – ele coloca o papel sobre a mesa, usando da mesma organização de sempre. – Já que somos responsáveis pelos que cativamos, deveríamos ser responsáveis pelos que criamos, não acha?

– O que eu fiz de minha vida?

– Abriu mão de sua felicidade para a satisfação de outros, mais uma vez. Permitiu que Emma levasse Henry embora, para a felicidade dos dois; permitiu que Robin fosse embora, para felicidade do filho dele; agora, permitiu minha partida para a satisfação de sua família. Eles a protegeram nesses dias de minha ausência?

– Vasco...eu...- antes que Regina conseguisse terminar a frase, tudo escurece naquele lugar abafado e ela perde a consciência.