Notas iniciais
Olá leitor! Esse não será exatamente um capítulo, mas sim todo o conto. Espero que goste!

Era tudo muito recente ainda. As lágrimas ainda escorrem pelo meu rosto, e meu coração insiste em se atrofiar por causo do Rafa. Ele me fez acreditar que daria certo, mas agora tudo não passa de uma lembrança distante. Apenas fotografias sem faces.

Enquanto me afogava em memórias inexistentes, meu celular apita longe da minha cama, e eu considero deixa-lo lá. Então apita novamente. Levanto, preguiçosa, e pego-o na mesa. Miguel. O que ele pode querer comigo?

"No sebo em 15 min. Hoje vou te fazer sorrir." Ele sempre foi tão direto...sem pensar muito no assunto, calço meu all star surrado e pego minha jaqueta masculina, já saindo de casa.

No caminho, a racionalidade parece me invadir aos poucos. Eu não devia encontro-lo depois de tudo o que me fez...depois de desistir de mim e do meu amor. Mesmo pensando nisso tudo, minhas pernas não me obedecem e continuam indo até o local combinado. Chego 2 minutos atrasada, e lá está ele. Quando me vê, abre o sorriso que conheço tão bem...já estava fazendo falta.

— Sua aparência está deplorável. Que bom que te tirei de casa.

— É bom te ver também...

Logo iniciamos a procura pelo exemplar de Fausto que eu tanto queria, mas não o encontramos mesmo depois de revirar todo o estabelecimento. Mesmo sem objetivo, continuamos vendo todos os tesouros escondidos em pilhas desorganizadas em corredores estreitos cobertos de pó. Não havia mais ninguém lá...será que ninguém enxerga o universo paralelo que existe pertinho de casa?

A cada minuto que se passa, mais sinto-o perto de mim. O toque que conforta, o cheiro que embriaga...tudo isso parece me atingir de uma vez. Mesmo com uma vontade enorme de me aproximar cada vez mais, fujo para o fundo da loja, pensando em ter espaço para respirar longe dos sentimentos que me atingiam.

Deparei-me com uma estante de madeira antiga cheia de exemplares sobre a Segunda Guerra — um assunto que me fascina. O mundo poderia acabar e eu continuaria ali, passando os dedos nas lombadas já machucadas pelo uso, descobrindo novos títulos, novos autores, novos pequenos universos encadernados.

Estiquei-me para ver melhor um livro na última prateleira, uma bela capa de couro vermelho com ornamentos dourados. Voltei ao chão completamente encantada e, quando virei-me, lá estava ele. A 5 centímetros do meu rosto.

Pega de surpresa, prendi a respiração. Aquela distância não era nada saudável, e eu tinha pleno entendimento disso. Por impulso, dei um passo atrás para fugir daquilo, mas minhas costas apenas encontraram com a prateleira. Não havia para onde fugir. Eu não queria mais fugir.

Apenas sussurros saíam da minha boca:

— Encontrou algo legal?

Sua profunda imensidão verde me encarava, e seu sorriso bobo revelava que tudo aquilo estava previsto. Eu estava exatamente onde você queria que estivesse. De perto, eu via que ele continuava com estrelas nos olhos e a lua crescente no sorriso. Tudo que eu amava em um só lugar.

— Eu só quero encontrar a alegria escondida numa vida imperfeita. E quer saber? A felicidade nos cai bem.

Arrumou uma mecha solta em meu cabelo, tocou minhas bochechas, meu queixo, meus lábios. Não importa quanto tempo passe, nós preenchemos as lacunas um do outro.

Entre sorrisos e suspiros, beijou-me como se estivesse a vida toda esperando por isso. Como um coração como o dele pode amar um como o meu? Como eu pude viver antes?

Me perco nele, naquele beijo, naqueles braços...como pude ser tão tola? Procurei em outros os recursos que sabia serem apenas dele. Já fomos muito, não posso ser pouco e não quero ser nada. Não me importei se seria ou não para sempre, aquele momento era eterno. Não importava...a vida é apenas uma coleção de últimas vezes. E eu o queria mais uma vez antes de morrer.

Depois de minutos que pareceram milésimos, seus lábios afastaram-se dos meus, dando espaço para nos encararmos o mais profundamente possível. Havia tantas coisas que eu queria perguntar... onde estavam as palavras? Era tão simples... sentia sua falta. Te queria.

— Você acredita em destino?

— Nunca acreditei tanto em algo como acredito em nós dois.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!