Notas iniciais
Desejo boas-vindas aos quem estão vindo pela minha outra fic, será um imenso prazer revê-los aqui! Estou adorando escrever esta história, e espero que vocês também estejam gostando de lê-la. Enjoy!

A crua verdade me arrebata feito um piano de cauda que cai sobre mim. Conecto os fatos e tudo começa a fazer sentido. Não sei o que dizer a ele, apenas consigo pensar em como gostaria de me enterrar debaixo da terra. Nossa, como pude ser tão inconveniente!

_ Agora, oficialmente proclamo a abertura do décimo oitavo Retiro dos Jovens Cristãos! – Anuncia Rebeca, e o refeitório novamente rompe em aplausos frenéticos que ecoam por todos os lados.

Neste meio tempo, aproveito para escapar da situação constrangedora. Eu sei que é bastante indelicado da minha parte deixar um cego para trás sem avisá-lo, mas realmente não faço ideia de como sair dessa enrascada. Provavelmente nunca mais nos falaremos de novo, certo?

Levanto da cadeira e deixo o salão o mais depressa possível, agarrada ao meu livro igual a um escudo. Subo para o dormitório feminino e desabo em cima da cama, cobrindo o rosto com o travesseiro. Mas que vontade de morrer!

As minhas respostas ásperas não param de repercutir no cérebro, e lembrar de cada palavra rude que pronunciei faz com que meu coração se aperte até ficar do tamanho de uma bolinha de papel amassada. Provavelmente é esse tipo de comportamento que me faz perder as poucas chances de amizade que aparecem para mim. Contudo, infelizmente não consigo evitar. É como se eu tivesse nascido sem o driver da sociabilidade: não sei reagir em circunstâncias que são aparentemente fáceis de serem contornadas. A atitude mais intuitiva para aquela ocasião certamente seria pedir desculpas, como qualquer ser humano normal faria.

Mas estou começando a desconfiar de que talvez eu não seja um ser humano normal.

Ainda soterrada pelo travesseiro, meus sentidos lentamente se rendem ao sono, apaziguando a sensação de culpa igual a um passe de mágica.

Quando acordo, o sol já está se retirando do quadrado da janela à minha frente. Esfrego os olhos e confiro o horário: eu havia dormido quase três horas. Fico de pé num pulo e me ponho a trocar de roupa, junto as outras meninas que reviram suas malas e formam uma pilha de vestimentas sobre suas camas. Daqui a pouco começará a primeira missa da noite. Antigamente as missas da noite eram feitas após o jantar, mas depois de um levantamento estatístico o qual confirmou que 86% das pessoas presentes na igreja dormiam descaradamente, a mesma foi transferida para o fim da tarde.

Coloco um vestido de seda clara com rendas nas bordas e prendo meu cabelo num coque, lavando o rosto com água gelada para desinchar um pouco. Desço as escadarias e me dirijo até o salão de jogos que fica no caminho para a igreja, onde tem um bebedouro na entrada. Apanho um copo de água gelada e bebo sedentamente, sentindo o frescor atravessar meu esôfago e bater na parede do estômago. Paro para analisar uma das poucas vantagens do Retiro JC: as belas vistas do pôr do sol. O céu aberto se estratifica num gradiente de cores densas, com o amarelo predominando uma das pontas e o azul escuro na outra. Lentamente a noite se aconchega trazendo suas estrelas, cujas pequeninas luzes se tornam mais visíveis à medida que o sol ofuscante se vai.

De repente, sinto algo molhado tocar meu braço, e me viro para descobrir o que é. Sinto-me surpreendida ao ver um enxame de bolhas de sabão flutuarem no ar, e ao procurar sua origem, meus ombros desabam. Na mureta que cerca o alpendre do salão de jogos, está sentado despreocupadamente o cara de óculos escuros. Ele veste uma camisa social amarela dobrada até os cotovelos, e suas mãos carregam um potinho verde no qual põe a varinha e a leva para a boca, assoprando um exército de bolhinhas eufóricas que voam na minha direção. Estico os braços e tento pegá-las, fazendo com que estourem sobre a pele.

_ Quer assoprar também? – Oferece o garoto, provocando-me espanto.

Afinal, ele não é cego? Como consegue notar minha presença?

_ Hmm... o.k. – Respondo, já sentindo minhas têmporas suarem frio.

Sento ao seu lado na mureta e ele me passa o potinho verde, e assim começo a soprar timidamente as bolhas.

_ Ai, você tá me molhando – Ele reclama com uma risada, afastando as bolhas para longe de si.

_ Desculpa – Digo, assoprando para o outro lado.

Nos mantemos em silêncio por longos momentos, enquanto produzo as bolhas de sabão que se espalham pelo gramado extenso e acobreado pelo final do dia. É inegável que estou me corroendo dos pés à cabeça, querendo dizer as verdadeiras desculpas que estão presas na ponta da língua. Talvez eu precise escolher o momento certo para dizê-las. Só não posso esperar demais e desistir da ideia, como geralmente acontece.

_ Você poderia me descrever como as bolhas de sabão flutuam, por favor? – Ele indaga, com a mesma naturalidade de alguém que pede para checar as horas.

Ergo o rosto para fita-lo, admirada com aquele pedido. Como assim, descrever as bolhas de sabão? Alguém na história da humanidade já havia descrito tal coisa? Provavelmente não. Todo mundo sabe como uma bolha de sabão flutua, não precisa explicar como é.

_ Bem, posso tentar... hmm... elas são grandes e pegajosas...

_ Ah, disso eu já sei. – Ele graceja. – Me diga o que meus olhos não podem captar, o que apenas minha imaginação consegue.

Volto a olhar para a as últimas bolhas que sobreviveram, à deriva da brisa que ameaça suas finas películas coloridas. Embora eu leia bastante, nunca fui muito boa em expressar ideias.

_ Elas são parecidas com aquelas bolinhas pula-pula, sabe? Que a gente compra em máquina de moeda. Bolinhas pula-pula transparentes e que não pulam...

Ele arma um semblante de embaraço, ponderando sobre minha descrição fajuta.

_ Parecem bolinhas pula-pula meio sem graça. – O garoto conclui, desapontado.

_ Foi mal, sou péssima nisso.

_ Ah, imagina. Não é todo mundo que tem um amigo cego para treinar esse tipo de coisa, né? – Contorna o rapaz, dando de ombros. – Caso sirva de consolo, a Rebeca também é ruim nessa parada. Mais cedo eu pedi para que ela me descrevesse o azul da piscina, e ela me falou que era igual a uma grande tigela de gelatina sabor tutti-frutti. – Ele balança a cabeça negativamente. – Bem decepcionante.

_ Mas convenhamos que você só faz pergunta difícil!

_ É claro. Como disse, eu quero captar o que meus olhos não veem mais. – O garoto solta um suspiro pesaroso, fazendo uma careta de descontentamento. – A propósito, me chamo Nicholas. E me desculpe por confundi-la com a Rebeca lá no refeitório.

Meus olhos se sobressaltam, e permaneço paralisada por algumas frações de segundo.

_ Co-como você descobriu quem sou eu? – Interrogo, perplexa. Afinal, ele é ou não é cego?

Nicholas emite uma risada sarcástica de alguém que está acostumado a responder tal pergunta.

_ Não completamente. Ainda. Eu tenho neuropatia ótica hereditária de Leber, para os mais chegados, somente LHON. É uma doença triste e horrível que deixa meu DNA mitocondrial mutante, mas não do jeito legal como nos X-Men. Então basicamente vou perder minha visão aos poucos até me tornar totalmente ou quase cego, nem isso os médicos podem me afirmar.

_ E não existe tratamento?

_ Ainda não. Apenas me recomendaram uma dieta antioxidante, e aí posso dizer que minha vida se transformou num inferno mais do que a própria cegueira. Eu não aguento mais comer arroz com açafrão e suco de uva integral. – Ele reclama, em tom de choro.

_ E quando os sintomas começaram a se manifestar?

_ Uns dois meses atrás.

Deixo minha boca cair de tanto espanto.

_ Quer dizer que há dois meses você era um cara normal?

_ Ei, assim você me ofende – Ele brinca, rindo. – Sim, eu era um cara normal. Dormi enxergando em HD e acordei num filme 3D sem os óculos especiais. Tudo borrado. Minha mãe disse que era a consequência de tantas horas em frente ao computador, e resolvi acreditar. Mas foi piorando dia após dia, e agora só enxergo borrões. Você é um borrão metade claro e metade escuro, com um borrãozinho no que aparentemente deve ser seu queixo. Foi assim que a reconheci.

Automaticamente ponho a mão sobre a pinta de nascença que tenho no queixo, uma mancha marrom e disforme a qual odeio tanto. Ela provavelmente foi um dos fatores que contribuíram para minha tamanha timidez, já que fui muito caçoada na infância por causa dela. Meu sonho como presente de 15 anos era a remoção cirúrgica da bendita pinta, porém meus pais recusaram e me deram um bracelete de brilhantes tão grande que escorregou do meu braço magrelo e caiu num bueiro.

_ Ah, agora entendi.

_ Sabe, você também me deve umas boas desculpas. Não é nada bonito deixar um cego falando sozinho. Por um instante até cogitei que você fosse um fantasma, e aí pensei “ótimo Nick, além de cego você se tornou um médium”. O que seria bem maneiro, porque aí eu não enxergaria o mundo dos vivos mas poderia ver o mundo dos mortos.

Não consigo evitar uma risada, e ele me acompanha.

_ Certo, pelo visto começamos com o pé esquerdo. Peço desculpas pela atitude mal-educada que tive...

_ Mal-educada. Egoísta. Maléfica. Diabólica. – Nicholas me interrompe, divertido.

_ É. Se houver algo que eu possa fazer para consertar minha primeira impressão, estou às suas ordens.

_ Na verdade, tem sim. Você poderia ser minha narradora de imagens.

Franzo o cenho para a curiosa proposta.

_ O que seria uma narradora de imagens?

_ Você se tornará meus olhos.