Você Logo Será uma Mulher
1 O lobo, o pato e a lebre
Ela correu com os pés nus pela vegetação rasteira entre os pinheiros, desviando as pedras mais robustas pelo caminho. O rio ao seu lado corria em sentido contrário, fazendo as folhas trazidas pelo contínuo fluvial passarem pela sua visão tão rápido quanto projéteis. Enfim chegou à arvore mais vistosa, de um imponente verde escuro, e se escondeu atrás dela, julgando que seu tronco fosse grosso o bastante para esconder seu corpo. Arfou quase num grito. O esforço fora imenso. Seus pulmões pareciam espetar seu corpo. Esgotada e suada, ela caiu sentada contra o tronco verde.
— Kwisowi! Kwisowi! — gritava uma voz ofegante, vinda de trás dela. — Tudo bem. — A exaustão forçou a voz a fazer uma pausa entre as frases. — Você venceu. Por favor. Não me deixe pra trás.
Ela poderia ter levantado e ido ao encontro do amigo. Poderia ter gritado para que ele a localizasse e pudesse vir ao seu encontro. Mas preferiu descansar mais um pouco. Num misto de alívio da exaustão e pequena provocação ao amigo, ela não falou nada.
— Vamos, por favor, não seja assim! — A voz de Tosipaiuka ainda ofegava, mas ele já estava conseguindo soltar frases inteiras num fôlego. — E se aparecer algum animal, quem vai te defender?
Ela finalmente se levantou num salto, saindo de trás da árvore e vendo o garoto entre as árvores, uns quinze metros de distância na planície, indo no sentido do rio.
— Eu sou a mais rápida! — Comemorou Kwisowi, saltitante. — Você não poderia me defender de um animal, Tosipaiuka, eu que teria que te defender dele!
Ele sorriu. Se sentia diminuído por ter sido derrotado pela menina na corrida, sim, mas ver aquela alegria triunfante no rosto da amiga compensava, e muito, esse pequeno aborrecimento. Ele tentou correr, mas conseguiu apenas um trote desajeitado, o máximo que seus pulmões conseguiam, em direção à amiga. Antes que a alcançasse para abraçá-la, porém, Kwisowi deslocou-se rapidamente para o rio, jogando para o alto seu robe.
Kwisowi tinha um metro e meio de altura, o nariz largo e cabelos negros muito compridos, chegando ao quadril, que ela exibia orgulhosamente jogando-os ao ar, incluindo naquele momento de se banhar. Esguia e com a pele amarronzada atestando sua frequente exposição ao sol.
— O que está fazendo? A corrente é muito forte aqui! — Alertou Tosipaiuka.
— Não vou mergulhar. — Respondeu ela, sem virar-lhe o rosto. — Vou só me limpar do suor. Você também deveria fazer o mesmo.
Ela imergiu os braços e pernas na correnteza forte e barulhenta, jogando para cima a água, deixando-a cair sobre o corpo.
O garoto aproximou-se, sentou-se à margem e deixou suas pernas imersas no rio, sentindo-as quase sendo empurradas a jusante. Tosipaiuka era esguio, tinha o nariz pontudo e estava sempre com o cabelo preso, as tranças formando aneis sobre suas orelhas.
— Você realmente faz jus ao nome, Kwisowi. — Ela franziu a testa e lhe olhou ligeiramente incomodada. Sabia que era um elogio, mas não atendeu ao propósito.
— O que quer dizer?
— Kwisowi, a lebre listrada. — Observou Tosipaiuka, o pato marrom. — Você realmente corre ligeira como uma lebre, se escondendo entre as árvores. E eu que fui chamado de pato e sou péssimo nadador? — Brincou ele.
— Não sei por que meus pais me deram um nome desses. — Reclamou ela. — Eu poderia me chamar Qömvinahuu, o urso preto, ou Qömvikwemu, lobo preto. Não sei por que eu sou uma lebre!
— Esses são nomes masculinos, Kwisowi. — Explicou o amigo.
— E o que que tem? Por que mulheres não podem se chamar assim? — Ele riu, como se aquela fosse genuinamente uma pergunta feita por uma criança.
— Bem, você pode mudar de nome quando crescer! Você sabe, um dia você poderá ser a líder da nossa tribo como a Muuyawungu. Ela também tinha um nome parecido com o seu quando era criança.
— Eu sei, mas pra isso eu teria que ser mãe. Eu não quero ser mãe. Queria ser uma grande caçadora, e vestir peles de lobo na cabeça como os nossos caçadores!
— Mas só os homens fazem isso, Kwisowi. E você vai ser uma mulher logo!
Uma realidade aterradora, inevitável, atestada pelo amigo. Kwisowi via que seus seios estavam crescendo. Sua mãe já lhe avisara que, em breve, ela começaria a sangrar. Todas as mulheres sangram. Mas ela não queria sangrar. Aquilo lhe assustava. Mas sabia que aconteceria em breve, querendo ou não. Ela era uma menina. E seria uma mulher em breve.
Um barulho vindo da planície interrompeu seus pensamentos, contudo. Passos. Ela se virou rapidamente para localizar a fonte dos passos, mas a planície estava deserta. Árvores verdes e nada mais.
— O que foi? — Perguntou Tosipaiuka.
— Não ouviu? Tem alguém nos seguindo. — Ele se levantou para ver melhor a paisagem.
— Será um lobo? — Especulou o garoto.
— Sim! — Gritou uma voz retumbante. Os dois se assustaram, Kwisowi levando a mão ao peito.
O dono da voz se revelou entre as árvores, um garoto alto com o robe bem desgastado.
— Um lobo vermelho! — Acrescentou um rugido lúdico para terminar a apresentação. A menina, que há um segundo estava assustada, se pôs a rir.
— Palakwemu, seu maluco! — Cumprimentou ela, alegre ao ver o garoto que, em sua consideração, era o mais valente entre as crianças da tribo. — Você nos seguiu até aqui?
— Não, eu estava voltando de Ongtupqwa e vi vocês aqui. — Explicou ele.
— Você foi sozinho até lá? — Surpreendeu-se Tosipaiuka.
— Não é tão longe. — Palakwemu coçava o nariz, gabando-se. — É só uma hora e meia de caminhada. Aliás, querem ir comigo até lá? Encontrei uma coisa muito legal que quero te mostrar, Kwisowi.
— É mesmo? E o que é?
— Não vou estragar a surpresa! Se quiserem descobrir, venham comigo! — Ele não esperou resposta e partiu.
A única criança da tribo que corria mais rápido que Kwisowi. Ela ficava sempre estimulada ao ver as costas de Palakwemu à sua frente, convidando-a a segui-lo na corrida. Talvez um dia pudesse perseguir um lobo de verdade. Sem esperar um segundo, a menina se pôs a correr, agarrando seu robe deixando na grama num movimento rápido.
— Mas você acabou de correr até aqui, ainda vai correr mais? — Reclamou um fatigado Tosipaiuka, acompanhando os dois de longe.
— O Palavayu recuperou minhas energias! — Explicou Kwisowi. — E eu vou gastar as energias dadas pelo rio indo até o canyon!
— Esse é o espírito, menina! — Elogiou Palakwemu, rindo.
Em poucos minutos, os dois jovens que dispararam na corrida, esgotados, trotavam com o corpo inclinado. Nem as energias dadas pelo rio eram suficientes para manter a corrida por tanto tempo. Eles tinham deixado Tosipaiuka para trás numa distância significativa, mas em sua corrida mais lenta, porém constante, ele conseguiu alcançá-los.
— Se vocês fossem veados, eu teria conseguido lhes caçar! — Brincou o garoto, ao alcançá-los.
— Você alcançou uma lebre, pato! — Provocou Palakwemu. Kwisowi soltou um riso ríspido, incomodada com a brincadeira.
Já era quase noite quando eles chegaram a Ongtupqwa. Os ventos do canyon sopravam melodias ao entardecer. As areias do corredor rochoso dançavam ao vento, ofuscando a visão. Como um caçador experimente que aspirava ser, Palakwemu deitou-se no chão.
— Agora. — Instruiu ele. — Abaixem-se, não façam barulho e me sigam bem devagar.
Ele foi rastejando cuidadosamente, pondo um cotovelo a frente do outro, passando pelos arbustos dourados e pelos cactos sem se intimidar. Aquela cena, de um futuro caçador esgueirando-se por baixo das plantas entre os dois penhascos rochosos do imponente canyon que os engolia, era uma cena bem romântica, pensou Kwisowi.
Depois de vários minutos esgueirando-se, os três jovens chegaram ao que parecia uma parede de arbustos dourados, dividindo a grama e a rocha. Palakwemu levantou-se sensivelmente com as mãos no chão, sem ficar em pé, apenas para poder ver mais longe.
— Aqui. — Sussurrou ele. — Está o que que eu queria mostrar. Olhem entre os arbustos com cuidado.
Os dois obedeceram. Mas, quando Kwisowi pôs seu rosto entre os arbustos, não pôde deixar de soltar um suspiro com o que viu à sua frente.
Um jardim imensamente florido, com flores de uma frande variedade de cores formando uma densa malha floral. No círculo de grama que se formava como um lago no centro do jardim, mais de dez veados pastavam e brincavam uns com os outros.
— É lin. . . — Kwisowi interrompeu a frase na tentativa de manter o silêncio.
— Lindo, não é? Eu nunca tinha visto tantos veados assim juntos. — Disse Palakwemu.
— Nem eu. — Disse Tosipaiuka, numa tentativa de participar da conversa, mas se sentiu ignorado pelos outros dois.
Não houve mais palavras pelo resto da tarde. Eles ficaram apenas ali, deitados na grama, observando a beleza da paisagem em movimento, até o céu ficar vermelho e os três jovens saberem que era hora de voltar pra casa. Sem mais corridas. Apenas uma longa caminhada ao entardecer, de Ongtupqwa até a aldeia.
— Obrigado por ter vindo, Kwisowi. — disse Palakwemu, pondo-se ao lado da garota no caminho de volta. Ele normalmente andava na frente, liderando o bando como o caçador que aspirava ser. Mas, naquele momento, permitiu-se andar ao lado da garota.
— Por que me agradece? — Estranhou ela. — Foi só uma coisa que nós fizemos juntos.
— Eu sei. Mas te agradeço porque sua presença muito melhora essa experiência. — Ela sorriu e baixou o rosto. Ele tentou tocar-lhe a mão, mas ela sensivelmente a afastou.
Tosipaiuka soltou um bufo abafado, desviando o olhar. Pôs entre as árvores para procurar um objeto que lhe ocupasse as mãos. Encontrou um ramo amarelo e passou a arrancar cada galho, apertando-os com toda a sua força.
— Porque de todas as belezas que vi hoje, você é a maior de todas, sabia, Kwisowi? — Continuou Palakwemu, desinibido, fazendo a garota corar.
— Não diga isso. A natureza é muito mais bonita que eu. — Disse uma risonha Kwisowi.
— Mas você é parte da natureza, menina. Nós todos somos. E você vai ser uma mulher em breve, menina.
No caminho de volta, entre o canyon e o rio, eles repararam num grande carneiro-selvagem, com seus chifres retorcidos, encarando os três jovens. Kwisowi e Tosipaiuka hesitaram, diminuindo seu passo.
— Não precisam ter medo. É só um carneiro. — Alertou Palakwemu, virando-se para os amigos que se distanciavam.
— Se ele nos atacar, esses chifres serão um problema. — Observou Tosipaiuka. Não teve resposta. Kwisowi andava lentamente, receosa, fitando o animal.
Palakwemu o ultrapassou primeiro, e quando os dois últimos jovens o ultrapassaram, o carneiro começou a dar passos para trás, se preparando para tomar velocidade na corrida.
— Ele vai atacar! Se protejam! — Avisou Kwisowi.
O carneiro de fato começou sua corrida. A garota já havia se posto atrás de uma árvore. Mas o carneiro parou após alguns passos, olhando desconfiado para a planície, não no mesmo sentido de onde eles tinham vindo, mas no diagonal. O olhar prolongou-se por alguns segundos e então ele partiu disparado pela direção oposta de onde olhava.
— Mas o quê. . . — Começou a indagar Kwisowi.
— Agora sim tenham medo! — Alertou Palakwemu.
Um urso-marrom surgiu dentre os arbustos, ronronando muito alto.
— Não se movam! Vocês não têm chance contra ele na corrida. Fiquem parados! — Alertou o garoto.
O urso passou menos de um metro de distância de Kwisowi. Tosipaiuka estava atrás dela, dois ou três metros, e empalideceu ao ver o urso tão perto e fazendo tanto barulho. Mas, ele passou reto pelos humanos. Sequer parou para cheirá-los. Seguiu na mesma direção pela qual tinha vindo e, quando tomou alguma distância deles, acelerou seu passo.
Tosipaiuka soltou um suspiro aliviado, levando a mão ao peito.
— Ele foi atrás do carneiro. — Explicou Palakwemu. E, brincando, acrescentou: — Ele tem muito mais carne que a gente.
— É, mas o urso está sendo meio burro. — Provocou Tosipaiuka. — O carneiro corre muito mais que a gente. Ele tinha uma refeição muito mais fácil à disposição.
— Talvez carne de humano não seja tão saborosa quanto a de carneiro. — Brincou Kwisowi. Os três riram e seguiram seu caminho.
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