Você De Novo?
14 Recalculando Rotas
Notas iniciais
Boa leitura!
Moradia no Purgatório – Dia 17
–Eu preciso matar alguém, conhece alguém apto para o trabalho?
Um bom jeito de se iniciar uma semana, não é? Foi o discurso de Felly naquela tarde, que estava provavelmente puta por alguma razão, e por alguma razão que eu já conhecia, queria dizer com uma simples tarefa: Megan. Não havíamos almoçado há muito tempo e meu pai e Jessica haviam ido passar no mercado rapidamente para abastecer a geladeira, que agora com um membro a mais na família, parecia se esgotar muito mais rápido. Eu ainda sentia o doce sabor do peixe que havíamos comido –ou devorado –no almoço, e já pensava no que poderia jantar, mesmo sem fome. Uma coisa não poderia ser negada nem em um milhão de anos: A mãe de Nicholas era uma cozinheira incrível.
Falando no diabo, estávamos agora, eu e Nicholas em meu quarto, assistindo algum programa que passava em um daqueles canais que existiam apenas para quando não havia nada de bom na televisão. Para falar a verdade, assistir era um verbo meio errado para o que estávamos fazendo. Felicity havia me ligado e eu que estava achando mais interessante a curiosidade de Nicholas em pesquisar besteiras no meu computador, não rejeitei a ligação. Agora eu estava conversando com a loira enquanto a ouvia dizer em como Megan era uma vagabunda e como o seu perfume francês doce demais estava impregnando o ar da sua casa. Eu não me importava de ouvir aquilo, eu até gostava. Pelo menos conseguia pensar em alguma coisa para fazer.
–Calma Felly ela não é... Exatamente... Hm... Não é... –Parei por um momento com a lembrança da garota que encontrei no restaurante, tentando encontrar algum ponto positivo em relação a ela. –Quer se mudar para a minha casa?
–Quem me dera! Seria bom pelo menos se eu tivesse você ou Chris para o meu lado! Pelo menos vocês estariam aqui e... Bem, eu não estaria em minoria!
–Ah... Por que Chris não vai te fazer companhia?
Perguntei enquanto olhava para o lado, vendo Nicholas me abrir uma careta e fazer uma expressão de “mas que merda vocês estão falando?”. Abri um sorriso, fazendo um sinal para ele esperar, enquanto o via revirar os olhos em uma careta forçada. Segurei a risada.
–Ele vai sair com Troy hoje a noite... E ela está em casa desde ontem. Ontem. James com certeza perdeu a cabeça!
–Por que James continua com ela, mesmo sabendo da sua raiva?
Olhei para Nicholas bem a tempo de o ver passar o dedo na garganta e logo dizer sem som com uma careta “babaca”. Revirei os olhos novamente com um sorriso no rosto. Ah meu Deus.
–Ele quer me irritar, só pode! –Um suspiro do outro lado da linha. –Vem dormir aqui hoje? Por favor!
Meus olhos se arregalaram, enquanto eu me sentia surpresa pelo convite. Nicholas me ergueu uma sobrancelha, curioso por minha mudança de reação. Dormir na casa de Felly? Já estávamos tão amigas assim? Abri um sorriso me sentindo feliz com o convite. Aquilo era ótimo.
–Eu... Eu não sei Felly. Tenho que ver com o meu pai.
–Ah! Por favor! Eu preciso de você nesse momento!
–Eu vou ver, ok? Eu quero ir, juro. Só tenho que ver com meu pai como vai ser para ele eu já dormir na casa de uma amiga.
Os olhos de Nicholas pousaram em mim e erguendo as mãos do computador ele começou a fazer sinais de “não” desesperadamente. Dei risada da ação exagerada, balançando a cabeça em negativo e erguendo levemente uma sobrancelha. Meu irmão deu um pulo, observando-me atento.
–Ok... Me liga?
–Pode deixar.
–Mas então... Como foi com seu irmão ontem?
–Ah, foi legal... –Sorri enquanto via Nicholas se aproximar de mim, me dando um abraço. Ergui uma sobrancelha tentando não perder o tom da conversa. –A gente foi para um bar gostoso do lado leste da cidade.
–Ah! Talvez eu sei qual seja! –Falou Felly em um tom entendido, enquanto o garoto me dava um beijo na bochecha, descendo pelo pescoço, subindo e descendo em direção a minha orelha. Tentei empurra-lo. O que ele estava fazendo? Me debati tentando ainda prestar atenção no que a garota falava. –É um meio rock N Roll?
–Não... –Prendi a respiração sentindo as mãos puxando minha cintura. Meu tom estava começando a sair mais alarmado. Fechei os olhos. –É um onde vão algumas... Hm... –Bufei fechando os olhos mais uma vez. –Jovens. Felly, eu te ligo mais tarde, ok? Tenho que resolver uma coisa aqui em casa.
–Ok, amiga. Beijo.
Falou a loira enquanto apressada eu desligava o telefone. Nicholas abriu um sorriso vitorioso, me olhando em um tom engraçado e se afastou de mim, enquanto eu lhe erguia as mãos, confusa, com um tanto de irritação no olhar. Ergui a sobrancelha.
–Qual é o seu problema?
–Descobri que é mais fácil te convencer a desligar o telefone assim. –Sorriu confiante. Revirei os olhos, dando risada. –Olhe isso aqui.
Avisou-me enquanto virava a tela do computador em minha direção, com um documento do que, pelo meu conhecimento me parecia da Wikipédia. Ergui uma sobrancelha, enquanto me aproximava da tela e dava uma lida rápida, mas nem precisei.
–Aqui diz que antigamente os irmãos costumavam ficar juntos para não perder a essência do sangue puro familiar. Era uma coisa normal.
Um sorriso se abriu em meu rosto e algo naquela expressão não muito convincente na face de Nicholas me fez gargalhar. Balancei a cabeça negativamente enquanto continuava com as risadas e via-o fazer o mesmo em mais leveza. Prendi a respiração, sem conseguir retirar o sorriso do rosto pela cena cômica.
–O que é isso? Está tentando se convencer de que somos normais?
–Não... Estamos alguns séculos atrasados. –Sorriu em tom divertido. –Estou tentando sentir que não somos os únicos na merda.
–Se ajudar... –Falei em tom brincalhão. –Na Grécia antiga, irmãos ficarem era algo normal também. Na verdade muitas famílias faziam isso. Era como um casamento normal nos dias de hoje.
–Então estamos da Grécia antiga. –Deu uma risadinha. –Vem aqui, Afrodite.
–Acho que sou mais Ártemis.
–Tanto faz.
Sorriu ele enquanto me puxava lentamente para cima do seu colo e grudava os lábios nos meus em mais um delicioso beijo. Puxei-o para mais perto permitindo o início do beijo enquanto mergulhava na sensação do gosto doce da sua língua. Nicholas pousou as mãos em minha cintura que tratava de apertar. Um sorriso se abriu em meu rosto, assim que os lábios se descolaram e os olhos se grudaram um no outro. Cinzas e Azuis. Eu ainda ficava impressionada em o quão bonito aquele garoto poderia ser e quando na vida eu teria a chance de conhecer uma pessoa como aquela que estava de frente para mim. Talvez nosso combinado não fosse realmente para valer, pois no fundo eu sabia, que mesmo que eu procurasse por anos, nunca acharia um Nicholas como aquele.
(...)
–Ai! Ai! Tá queimando!
–Espera, Felly!
Gritei desesperada enquanto corria em direção a loira com um pano nas mãos, vendo-a com uma poça de chocolate quente caído em sua mão. Felly estava pulando como uma louca enquanto o chocolate queimava seus dedos. Arrancou o pano da minha mão, enquanto eu dava risada da cena, fazendo o mesmo assim que o momento do susto passou.
Felly dava ainda pulinhos de um lado para o outro enquanto tínhamos a nossa desesperada tentativa de fazer um fondue de chocolate para a noite que havíamos separado para nós assistirmos uma maratona insana de filmes de terror clássicos -ou como gostava de chama-los os Thrillers –onde eu assistiria o meu favorito de todos os tempos: O Drácula. Estrelado em versão preto e branco. No fim das contas meu pai havia ficado ok com o fato de eu ir dormir na casa da loira, e eu realmente quis lhe fazer companhia. Ainda não havia tido a chance de conhecer Megan, porque desde que eu havia chegado, nem ela nem James haviam dado as caras para mostrar que estavam vivos... Não que eu estivesse reclamando! Não conhecia Megan, mas mesmo assim, quanto mais tempo longe dela, para mim era lucro.
–Acha que isso vai ficar bom?
–É chocolate derretido com frutas. –Minha amiga deu de ombros. –Qual a dificuldade nisso?
–Me diga você. –Abri um sorriso divertido. –Não sou eu quem tem a mão queimada.
Esse comentário me valeu uma “panada” no rosto, que Felly fez questão de arremessar de onde estava. Dei risada com minha falha de me desviar, enquanto voltava ao meu trabalho de cortar as frutas, que havia sido interrompido pelo acidente da minha amiga com o chocolate em chamas. Felicity e eu não éramos amigas de muito tempo, mas eu já sentia como se tivéssemos crescido juntas.
O tempo estava bom demais para duas pobres almas como as nossas. Enquanto estávamos ambas distraídas, cozinhando enquanto dançávamos loucamente uma das músicas do Pitbull que Felly havia colocado para tocar, não fomos capazes de escutar os passos que se aproximaram, deixando nossa visão –ou mais minha –patética de ambas dançando como patas quando James e Megan já estavam parados no meio da cozinha, limpando a garganta para chamar nossa atenção. Tentei não morrer corada pelo que havia acabado de acontecer. Só comigo mesmo... Eu podia ver um leve sorriso no rosto do loiro enquanto tinha a mão dada com a menina que era realmente a que eu havia encontrado no restaurante.
E ali estava ela. Os cabelos cacheados com brilho que caíam perfeitos até os ombros, roupas curtas de marca impecáveis, que mesmo curtas demais não a deixava vulgar e a maquiagem cara, com o batom que eu já sabia que era da Prada. Não pude deixar de amar a surpresa que vi nos olhos da garota quando reparou que eu estava ali. Uma sobrancelha foi erguida em sua expressão de megera, que fiz o favor de ignorar.
–O que foi, pangaré?
Perguntou Felly enquanto abaixava o som, no tom menos amigável possível para James. O garoto deu de ombros enquanto tateava os bolsos do jeans, tirando de lá as chaves do seu carro.
–Eu vou levar Megan para a casa dela... Volto mais tarde e... –Uma pausa enquanto respirava fundo, sentindo o cheiro doce do chocolate no ar. Sorriu. –Isso seria fondue?
–Para mim e para Sidney.
Acrescentou Felicity já possessiva. Dei risada com o que escutei.
–Então... Isso é obra sua, Texas, só pode. –Sorriu James para mim. –Tem que vir para cá mais vezes. Sabe quando vi essa coisa no fogão?
–Nunca, eu suponho.
Sorri dando uma piscadela para minha amiga, que mais uma vez me atacou com o pano. O loiro assentiu.
–Exatamente.
–Você é a garota que encontrei no restaurante, não é? –Abri um sorriso cínico para Megan, me fazendo de desentendida. Ela me respondeu em mesmo tom de expressão. –Como se chama mesmo...?
–Megan. –Falou em tom cínico demais. –Como James acabou de dizer.
–Perdão. Não escuto muito bem. –Sorri. –Não sabia que conhecia os gêmeos.
–Conhece, infelizmente.
Grunhiu Felly revirando os olhos. Megan fez o mesmo enquanto James olhava para a irmã com cara amarrada. Abri um sorriso um tanto vitorioso, mesmo sem motivos.
–Eu conheço sim...
Sorriu Megan em um tom tão safado e indiscreto para James, que senti vontade de vomitar meus pulmões. O loiro me olhou confuso e em seguida para Megan.
–Já se conhecem?
–Nos conhecemos no banheiro do restaurante. Ela estava lá com Nicholas.
–Ah.
Falou simplesmente deixando o assunto morrer. Abri um sorriso para Megan, rezando para que ninguém tocasse no assunto de que ele era meu irmão, pois enquanto o fato de eu ter “saído” com ele incomodava Megan, para mim era uma quase vitória.
–Bom, nós estamos indo. –Falou James finalmente puxando a garota pela mão. –Guardem um pouco para mim.
–Improvável.
Cantarolou Felly enquanto aos poucos o casal deixava a cozinha. Uma careta se abriu no rosto da menina que me olhou logo em seguida com o nariz torcido. Dei uma risada tentando ao máximo conter minha vontade de gargalhar. Megan e James poderia escutar e isso não seria legal.
–Megan te viu com Nicholas?
–Sim...
–Então isso explica a apatia. –Sorriu minha amiga, vitoriosa. –Ela não sabe que Nicholas é seu irmão, sabe?
–Por mim não. –Dei de ombros. –Não sei se James comentou... Por quê?
–Por quê? –Felly me ergueu uma sobrancelha. –Se ela descobrir vai querer ser sua amiga por interesse e não quero essa piranha grudada na minha amiga. Enquanto ela te odiar por pensar que estão namorando, para mim está perfeito.
Não pude deixar o sorriso em meu rosto morrer. Por mim, Felly tinha o total apoio... Mas... Nicholas e eu não estávamos exatamente longe do que Felicity queria fazer Megan pensar... Queria tanto poder esfregar isso na cara daquela loira metida! Mas essa verdade poderia custar minha amizade com Felly. O que ela pensaria de mim?
–O que rola entre você e a Megan de tão ruim?
–Pare de insistir nessa história, Sid. Não é realmente algo que se valha a pena comentar, nós só não gostamos e ponto. –Cortou mais uma vez minha amiga, enquanto apontava na direção de um armário sobre minha cabeça. –Agora pegue aquele pote para mim. Vamos iniciar nossa seção terror.
Assenti enquanto me esticava e pegava a tigela branca para ela. Eu estava cansada de ver Felicity desviar do assunto toda vez que eu mandava. O que poderia ter acontecido de tão ruim para elas? O que foi tão grave que custou a convivência das duas... Por um momento, não sei porque, uma coisa que a loira havia me contato, acertou-me em cheio e como uma flecha, senti uma suspeita bater contra a minha testa. Espere um pouco! Felicity havia contado um caso onde ela tinha traído a confiança da melhor amiga e ficado com Nicholas. Essa amiga era apaixonada por ele há muito tempo e... Isso explicaria a inveja nos olhos de Megan quando havia me visto com o moreno. Será que...? Será que Megan era a amiga de Felicity que havia sido traída? Será que era por isso que as duas se odiavam? Senti minha cabeça doer e por um momento, só um momento, senti dó de Megan. Mesmo se encaixando com as minhas suspeitas, a garota não me parecia bem o tipo de amigo que Felicity teria por perto com... Todas as roupas caras e tara por marcas. Era meio estranho. Mas enquanto ela não me abrisse a boca em relação a Megan, essa seria a verdade que levaria em minha cabeça.
Depois de colocar o chocolate derretido dentro do suporte e jogar todas as frutas picadas em um prato, subimos as escadas da enorme casa que parecia muito mais morta e assustadora agora que estava de noite, e não haviam jovens loucos bebendo no quintal. A verdade é que eu já havia ido para a casa de Felicity algumas vezes, mas nunca havia conhecido os seus pais. A loira sempre disse que eles eram bem ausentes, e observando isso bem agora, eu não podia reclamar de Jessica e meu pai saírem de noite pois... Era só de noite e eles sempre retornavam.
Me sentando confortável no enorme sofá branco que quase me engoliu, coloquei os pratos em cima da mesinha de centro e me concentrei em tentar não ficar presa naquelas almofadas deliciosas. Felly e eu estávamos o mais confortável possível: Com pijamas e enormes moletons por cima por causa do friozinho que fazia na casa. Eu até pediria para a loira ligar a lareira, mas não estava tão a vontade para isso, não por falta de cortesia da parte dela, mas sim pelo fato de eu não frequentar a casa dela tanto quanto eu havia frequentado a de Callie, por exemplo.
–Vamos começar por qual? –Perguntou Felly em um tom dramático. –Seria por... Tan tan taaaaaaaaaaaan! Drácula ou... Tan tan taaaaaaaaaaaan! Esse tio estranho com agulhas na face.
Não pude deixar de rir com a dominação da minha amiga em relação ao nome do monstro do filme, do qual eu também não me recordava. Eu sabia que ele era dos clássicos e no fim dos tempos, Nicholas era o viciado em terror, não eu. Eu só havia topado ver aqueles com Felly porque tinha Drácula e os outros não eram tão arrepiantes como o que Nicholas havia me feito assistir quando cuidamos de Sophie. Não pude deixar de sorrir ao me lembrar do dia do nosso primeiro beijo... Soltei um leve suspiro. Ok... Bizarro, bizarro, estava realmente pensando com tanto carinho assim de um episódio tão perturbador? Balancei a cabeça tentando voltar para a sanidade.
–Vamos de Hellraiser.
Pedi para Felly que assentiu parecendo se lembrar só então do nome do “tio das agulhas”. O filme foi colocado e logo aqueles cabelos de épocas antigas e imagem não tão boa quanto as HD de hoje apareciam na tela, tomando toda a atenção minha e da loira. Não pude deixar de pensar em Callie quando parei para prestar atenção onde me encontrava e como. Aquele era um típico programa que eu faria com minha amiga se ainda estivesse no Texas... Eu sentia tanta falta da loira! Ainda me perguntava quanto tempo faltava para eu revê-la de fato.
Felly e eu estávamos banhadas em chocolate quando nem metade do filme havia passado. A verdade era que os morangos haviam virado um desastre –além de deliciosos –e que comê-los em cima de um sofá branco estava realmente perigoso, mas nenhuma de nós parecia corajosa ou apta o bastante para se sentar no chão frio que havia naquela noite. A concentração era tanta no filme, que em algum momento em que a menina teimosa corria de um dos monstros que havia libertado com o cubo do inferno, foi o suficiente para tirar qualquer atenção minha e de Felly da vida real, que cobríamos os ouvidos e abríamos pouco os olhos para olhar para a televisão, a ponto de não escutar o barulho da porta se batendo e dos passos que subiram as escadas, nada silenciosos.
Eu não havia reparado também na aproximação daquele que havia chegado, tanto que quando finalmente pude ver que Felly e eu não estávamos sozinhas na sala, já havia saído o som que havia nos feito pular e gritar como duas idiotas.
–Bu!
–Vá se foder, James!
Exclamou Felicity jogando com força uma almofada sobre o loiro, que deu risada, achando graça da cena e caminhava em nossa direção, jogando as chaves do carro sobre a mesa e se sentando no espaço entre mim e Felicity. Eu ainda tinha o coração disparado e não conseguia pensar em mais nada além de como éramos idiotas por temer um filme tão mal feito, mas não comentei nada.
–O que estamos vendo?
Perguntou o loiro enquanto tirava a jaqueta de couro e os Converses, se sentando com as pernas de índio, assim como eu e a loira estávamos, parecendo prestar atenção na televisão. Não hesitou em pegar um pouco do morango com chocolate para si.
–Hellraiser. –Contei pegando para mim também. –Conhece?
–Clássico. –Sorriu o loiro. –Mas não. Digamos que sou mais uma ação.
–Você é nerd e gosta de Os Vingadores. –Felly revirou os olhos. –E todas essas porras da DC Comics.
–Primeiro... –James sorriu enquanto pegava mais uma das frutas. –Gostar de Os Vingadores não me faz exatamente nerd. E segundo... –Parou enquanto mastigava, indiferente. –Os Vingadores é da Marvel.
–Tanto faz.
Felly deu de ombros revirando os olhos. Dei risada enquanto dava um gole no copo de Coca Cola que havia levado para mim.
–Gosta de quadrinhos, mesmo?
Perguntei com um sorriso de canto no rosto, James me olhou por um momento, apoiando seu braço no encosto onde eu estava apoiada.
–Por que, Texas? Algo contra?
–Não. –Sorri. –Minha amiga, Callie, adora esse tipo de coisa. Eu não entendo muito, mas eu sei que ela lia direto.
–Quadrinhos são cultura. –Falou com aquele sorriso confiante no rosto. –E uma coisa que não consegui me desapegar da infância. Tipo a Felly com chocolate.
–Ei!
–Tinha que ver ela quando éramos pequenos. Mamãe cortava o seu cabelo bem curto e ela parecia um rapazinho. Éramos diferenciados pela barrigona dela.
–Cala a boca, James!
Gargalhei com o que ouvi sair da boca do loiro, enquanto ele mesmo dava uma risadinha e pegava mais um pouco do fondue que ele parecia ter adorado. Felly o olhava irritada, esquecendo completamente o filme ao retomar um dos seus traumas de infância. Balancei a cabeça negativamente com o sorriso estampado no rosto.
–Eu te entendo, Felly. Quando eu era pequena eu era bem gordinha. –Revirei os olhos. –Não tem ideia de como Nicholas me enche o saco por isso.
–Ah sim, o Nicholas. –Sorriu James olhando para o espeto em suas mãos. –Eu me esqueço que são parentes. Ele te zoa muito?
–Já zoou mais. –Dei de ombros. –Menos que você zoa Felly.
–Mas esse é meu trabalho. –Deu uma risadinha o garoto enquanto levava uma travisseirada na cabeça e olhava feio para a irmã. –Nicholas não é seu irmão de verdade, se tivesse crescido com ele seriam tipo eu e Felly.
–Sorte sua!
Exclamou minha amiga, fazendo-me sorrir. Olhei para James erguendo uma sobrancelha. Por que ele e Nicholas se odiavam tanto assim... A ponto de ele querer ficar falando dele? Pra mim. Seria tudo por rivalidade de escola? Estava começando a achar tudo aquilo meio tosco. Era só um jogo!
–Quando vocês vão e formar?
Mudei de assunto desesperadamente chamando a atenção dos gêmeos. Felly deu de ombros, enquanto enchia uma colher pura do chocolate pastoso.
–Temos um semestre pela frente ainda. –Sorriu. –Vai poder ficar do nosso ladinho.
–Vem para a West?
Perguntou James em um tom quase animado. Assenti sem muita certeza enquanto enchia minha boca com chocolate. Bem... Como eu poderia dizer isso para eles?
–Eu não sei ainda.
–Como não?
Perguntou Felly alarmada. Dei de ombros.
–Eu não sei para onde vou ainda... Se vou para a West ou para a P. J. Kennedy.
–Hm... Só está entre as maiores rivais. Muito sentido.
–Como assim, Sid? Tem que ficar comigo e com Chris! Como pode pensar em outra escola?!
Perguntou Felicity em tom alarmado até demais. James deu de ombros também comendo uma colher do chocolate. Olhei bem para aquela panela querendo poder me afogar ali... Mas temia que minha cabeça fosse grande demais.
–Meu pai quer que eu vá para a P. J. Kennedy. –Menti. –Eu quero ir para a West, é claro, mas não sei como fazer para convence-lo.
–Eu falo com ele, se for o caso! –Felly empinou o nariz, fazendo-me dar uma risadinha com a cena. –Eu estou me formando no final do ano e com certeza te quero no meu baile como Senior!
–Tudo bem... –Assenti agora vencida pela discussão enquanto voltava os olhos para a televisão. Eu nunca pensei que diria aquilo: mas estava em dúvida de qual escola eu iria querer. –O que achou do fondue, James?
–Acho que já pode casar comigo.
***
Eu estava no escuro e não conseguia enxergar para onde ir. Na verdade a escuridão era tanta, que eu não sabia dizer o que era eu e o que era paisagem. Eu não ouvia, não sentia nada. Era como se estivesse em um local a vácuo, completamente desprovido de qualquer tipo de luz e que me fazia andar, sem sentir nada além do frio que o chão gelado passava para meus pés na medida em que eu caminhava. Eu caminhava e eu não sabia para onde estava indo, só que estava indo. Eu sempre odiei o escuro, sempre achei que havia algo atrás de mim e que quando me virava não conseguia ver por falta da luz. Esse pensamento sempre me fez querer entrar em pânico e mais pânico. Eu queria correr, mas para onde? Estava perdida.
Com um simples estrondo todas as luzes se acenderam, e cega pela claridade, fechei os olhos sentindo a dor que a luz fazia ao queimar minha córneas. Pisquei algumas vezes, com uma careta para tentar melhorar a visão, e por um tempo funcionou, até que finalmente eu pude distinguir a paisagem onde eu estava pisando. Eu estava em meio a um campo de futebol americano e a luz forte que vinha em meu rosto era a de um daqueles holofotes que iluminavam o gramado. Eu estava parada exatamente no meio dele, e por um momento me senti confusa. Por que eu estava ali? Por que eu não estava na sala de casa ou na rua como sempre? O que eu estava fazendo em um campo de futebol? Aquilo era muito estranho.
Pela aproximação, pude ver do meu lado esquerdo James, que caminhava lentamente em minha direção, usando uma jaqueta de cor vermelha e branca com um leão desenhado apenas em silhueta no lado esquerdo do peito, onde ficaria o “coração”. A jaqueta que logo imaginei pertencer aos jogadores da West High. Do meu outro lado pude ouvir os passos de Nicholas, que caminhava com as mãos nos bolsos, os cabelos castanhos atrapalhados e os olhos azuis voltados em minha direção, vestido com a jaqueta azul e branca com o desenho de um deus grego ao, meu ver, do lado esquerdo do peito, que imaginei ser da J. Kennedy. EU não entendia o que aqueles dois estavam fazendo em meu sonho. Onde estava Jessica, meu pai e minha mãe? Meus olhos traçaram confusos o percurso até os dois para eu perceber então que eles não olhavam para mim e sim encaravam mortalmente um ao outro. Senti um frio na espinha e assim que ambos estavam perto o suficiente, senti a mão de cada um, tocar exatamente no mesmo momento, cada um em uma mão minha, segurando-a forte e não saindo do lugar. Eles ainda não olhavam para mim, era como se eu não estivesse ali. Era como se eu fosse uma espécie de barreira sendo esmagada entre o jogo de corpo raivoso dos dois garotos.
Ao longe, enquanto eu tinha cada mão segurada por um dos garotos imóveis, pude ver uma luz brilhar ao longe. Uma única luz em meio a arquibancada gigante e completamente vazia. Ao piscar algumas vezes, a luz foi se tornando nítida e aos poucos ganhando forma, mostrando a silhueta que eu já havia sentido falta em meu sonho e que eu temia que uma hora fosse aparecer: Minha mãe. Os cabelos loiros estavam atrapalhados e ela usava uma camisola longa branca. Estava descalça e como uma assombração, flutuou da arquibancada em direção ao campo, deixando os pés tocarem o chão, caminhando lentamente em minha direção, com os braços abertos. Por um momento, senti uma grande vontade de abraça-la e até tente fazer, mas assim que comecei a correr em sua direção, fui barrada pelas mãos que me seguravam forte, me impedindo de sair de onde eu estava, presa as duas estátuas, que continuavam a encarar um ao outro, e sequer olhar para mim, como se eu nem estivesse ali.
Olhei para minha mãe com desespero nos olhos, querendo correr em sua direção, vendo os delicados braços abertos para o nada. Eu queria abraça-la! Ela estava ali, como uma boba olhando para mim e eu não conseguia sair do lugar, eles não me soltavam. “Me Deixem!” eu queria gritar, mas dos meus lábios não saía som. O desespero foi tomando conta de mim e quando mais eu me debatia, mais as mãos pareciam ficar fortes sobre mim. Nicholas e James não se moviam, permaneciam estáticos. Era algo assustador, algo horrível. Eu queria me mover, mas não podia, meu peito estava a mil.
Depois de um tempo com os braços abertos, em desistência, minha mãe os fechou. Seus olhos não eram carinhos como sempre e sim magoados. Eles estavam mareados e a expressão em seu rosto era de uma sanidade tão delicada, que o menor toque parecia poder quebra-la. Eu sentia as lágrimas brotarem em meus olhos, mas elas se recusavam a descer. Era uma sensação horrível. Eu queria correr.
–Então é por isso? –Ouvi a voz sair carregada de mágoa, dos lábios da minha mãe. –É por isso que me esqueceu? Por um romance adolescente? Uma história doentia?
Balancei a cabeça negativamente. Eu queria correr, gritar, mas eu não conseguia. James e Nicholas moveram o primeiro passo, cada um para lados opostos, ainda segurando minhas mãos. Franzi a testa, observando-os se moverem pausadamente.
–Por isso, Sidney? Depois de uma vida toda te acolhendo? Eu te acolhi! Enquanto seu pai preferiu a outra família, eu estava do seu lado! E agora você está com ele, com eles. É uma traidora! Uma mal agradecia.
“Não!”. Eu queria gritar, mas não conseguia. Nessa medida, James e Nicholas estavam tão afastados que meus braços já estavam completamente abertos por cada um puxando de um lado. Mas o que era aquilo, meu Deus? Eles iam começar a disputar cabo de guerra comigo?
–Olhe bem o que te aguarda, minha filha. –Mamãe sorriu, fazendo meu corpo se arrepiar com o sorriso horripilante. –Veja o que te aguarda!
Meus olhos caíram para o lado de James, onde pude vê-lo se afastar cada vez mais, agora fazendo real força ao meu corpo que não tinha espaço para se afastar. Agora eu estava servindo de corda e estava sentindo o puxão de cada um dos garotos para direções opostas e estava começando a doer. Do lado do campo de James, pude ver atrás meus amigos: Felicity, Christian, assim como Megan e também algumas outras pessoas que não reconheci. Todos eles sorriam para mim, todos muito contentes. Em uma mudança de luz, ao piscar os olhos, todos os meus amigos pareceram envelhecer dez anos, onde estavam todos com expressões ruins e parecendo resmungões. Nenhum deles ousava olhar para mim, estavam todos de costas. Todos de costas para mim. Senti a tristeza crescer em meu peito com a cena, eu não poderia ficar sozinha!
Olhando para o lado de Nicholas, pude vê-lo assim como Jessica e meu pai. Jessica e papai estavam sorridentes, abraçados caminhando em nossa frente, dando risada e nos olhando sempre com um sorriso no rosto, enquanto escondidos, eu e Nicholas dávamos as mãos e caminhávamos como pessoas felizes. Mais uma vez tudo tremeluziu e a imagem que tive, foi do meu pai, com os olhos em chamas, acertando em Nicholas o murro mais forte que já vi alguém dar. Eu estava chorando em um canto, enquanto Jessica me xingava e xingava à Nicholas. Eu estava sozinha novamente e havia arruinado a vida do moreno, eu estava sozinha como com James. Como o destino me esperava.
–Por que está fazendo isso? –Consegui gritar finalmente, olhando raivosamente para minha mãe que parecia se divertir com minha dor. Os puxões de Nicholas e James agora eram tão fortes, que eu queria gritar de dor. Era como se estivesse sendo partida ao meio. –Por que está fazendo isso comigo?!
Acordar com um pulo na cama foi tudo o que me lembrei quando levantei naquela noite. Meu coração estava acelerado e meu corpo empapado pelo suor. Minha respiração estava alta, e pela escuridão no quarto de Felicity, ainda estava de noite. Como sempre, acordei completamente abalada pelo sonho que havia tido. Soltei um longo suspiro enquanto olhava para a loira, me certificando de que não havia a acordado com um grito ou coisa do tipo... Graças a Deus não. Olhei bem para o teto soltando mais um longo suspiro, tentando libertar todos os sentimentos ruins que o sonho havia me trazido. Eu não estava passando bem, definitivamente não. Eu queria matar a Dra. Eliane por estar fazendo aquilo comigo.
Com as pernas bambas, me levantei da cama, tomando cuidado para não cair por conta da minha pressão que deveria estar no chão naquele momento. Em passos lentos, tomei o maior cuidado para não acordar Felicity, enquanto de vagar eu caminhava em direção a porta do quarto, para poder sair no corredor e alcançar o banheiro que eu sabia que havia ali também. No quarto de Felly havia banheiro, mas ao ligar a pia eu provavelmente a acordaria e aquela era a última coisa que eu queria com minha amiga quase em coma pelo sono que deveria estar lhe tomando. Eu não era a pessoa mais silenciosa do mundo, mas graças a Deus, Felly também não tinha o sono mais leve do mundo e logo, eu já estava no corredor, sã e salva de qualquer barulho, caminhando em passos tortos em direção a porta no final do corredor.
Ao alcançar o banheiro, apoiei-me na bancada, olhando fixamente para o reflexo que se mostrou diante do espelho. Ali estava eu, mesmos olhos, mesmos cabelos, mesma pele pálida e mesmas bochechas rosadas. Bem, como se nada tivesse acontecido, como se nada estivesse errado. Como se minha mãe não estivesse abandonada em um maldito hospício e como se eu estivesse morando com minha família. Eu não estava. Eu sabia que não estava e que minha vida estava mais turbulenta do que nunca. Incesto! Eu estava cometendo incesto! Então qual era o meu problema para estar ali rindo e contente como se nada tivesse acontecido? Eu havia me tornado egoísta, eu havia caído em aceitação e era meu medo esse desde o princípio: Havia esquecido minha família.
Sentindo meus olhos arderem, abri a torneira, molhando as mãos e com elas levando água até o rosto que se misturava com as lágrimas que deixavam os meus olhos. Eu fui criada para ser forte, eu havia aprendido e não havia nada que eu mais detestava além de chorar. Odiava como eu parecia fraca quando fazia, como eu parecia... Uma adolescente. Eu nunca pude ser uma adolescente, eu sempre fui a mãe de uma. Minha mãe nunca havia envelhecido, nunca havia ficado boa... Sempre foi uma ilusão e eu, achando uma vida mais fácil, abandonei-a simplesmente, como uma pessoa realmente horrível faria.
Ouvi dois toques na porta bem a tempo de ver James encostado contra ela, e me fazer perceber que havia me esquecido de fecha-la. Seus olhos estavam curiosos em minha direção, e seus cabelos estavam em pé, como se tivesse ficado se revirando por tanto tempo na cama, que isso havia lhe dado um topete estilo Johnny Bravo. Os olhos verdes estavam voltados em minha direção, demonstrando preocupação. Enxuguei o rosto na toalha, bem a tempo de ouvi-lo dizer.
–Está tudo bem?
–Sim... –Comentei com um sorriso amarelo enquanto esfregava os olhos. –Pesadelo.
–Ah...
Falou simplesmente ainda parecendo estar dormindo. Abri um sorriso dessa vez um pouco mais real, pelo fato de ver o zumbi na minha frente. Mordi o lábio.
–Te acordei?
–Eu não dormi. Não consegui. –Deu de ombros enquanto ia em minha direção e abria a pia para também lavar o rosto. –Insônia. Creio eu.
–Espero que não seja doença ou algo do tipo. –Brinquei. –Felicity provavelmente culparia Megan por isso.
–Sem dúvidas.
Sorriu o garoto em tom irônico, enquanto se apoiava contra o balcão da pia. Mudei de posição desconfortável.
–Desculpe a pergunta, mas... Por que namora uma garota que sabe que sua irmã odeia?
–Francamente? –Me ergueu uma sobrancelha. –Você não namoraria alguém que Nicholas é contra?
–É diferente...
Dei de ombros, James fez o mesmo soltando um suspiro logo em seguida.
–Não culpo Felly por isso, sei que ela tem seus motivos, mas ainda não me da razão para não fazer, entende? E por favor não me encha o saco com isso você também...
–Ok... Desculpe.
–Não. –Respondeu simplesmente, ganhando meus olhares confusos. Eita. –Não peça desculpas, só... Não estraga, ok? Eu gosto pra caramba de você, Texas, não me faça perder esse afeto.
Piscou, fazendo-me dar uma risadinha. Senti meu rosto esquentar um pouco com a declaração de amizade. Aquilo era... Bem legal.
–Costuma gostar dos amigos da sua irmã?
–Não. Geralmente os amigos da minha irmã são meus amigos... Na maioria. –Sorriu. –Agora fiquei magoado por saber que não me considera um amigo.
–Não! –Exclamei apressada. –Não é isso! Eu considero! É que...
–Relaxa, Texas. –James deu risada com minha afobação. –Não vá ter um ataque cardíaco.
–Você é um saco.
Fiz uma careta lhe dando um tapinha no ombro, com um leve sorriso no rosto. James deu risada da minha ação, provavelmente pela semelhança com as frases costumeiras de Felicity para ele.
–Viu só? Já somos quase irmãos.
Nunca ele iria saber que por mim, essa frase poderia ser interpretada de várias formas.
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