Você De Novo?
4 O Dia em Que a Terra Parou
Notas iniciais
Primeiro de tudo eu gostaria de dizer que eu recebi apenas 4 reviews nesse capítulo e que por favor, para uma história que tem mais de 15 favoritos, 4 reviews é muito pouco. Eu só estou postando mais uma vez por causa dos meus leitores que vem acompanhando desde o início, mas por favor né? Deixar uma palavra pra um review não arranca pedaço de ninguém, e se vocês tiram vinte minutos para ler a história, tirar menos de um para escrever alguma coisa é o mínimo.
Para aqueles que continuam presentes, muito obrigada e espero que gostem desse capítulo!
Boa leitura! :)
Leitores fantasmas, desapareçam e.e
Casa no Inferno – Dia 3
Eu poderia que dormi como um anjo, pensando em Christian e que no dia seguinte havia acordado tão bela e descansada quanto uma modelo da Victoria Secrets... Mas aí eu estaria contando uma puta de uma mentira. A verdade, é que ontem eu havia ficado tão encucada com esse negócio de encontro que eu acabei me esquecendo de uma coisinha necessária... E que me custou toda a noite de sono.
Eu estava parada na sala de casa do Texas, olhando para o sofá, e me decidindo se me sentaria de frente para a televisão, ou então pegaria o livro que eu deveria ler para a matéria da aula seguinte. Minha preferencia era obvia, mas eu sabia que a tarefa valia nota e eu estava realmente em dúvida do que fazer, afinal, ainda acho que diversão é mais importante do que saber. Enquanto eu encarava os meus dois pontos de foco na sala de televisão, um barulho alto pode ser ouvido e então um grito. Meu corpo se congelou de uma só vez e pude sentir meus batimentos cardíacos irem a mil em menos de um segundo. Oh céus. Correndo em direção ao barulho, pude ver, em meio a sala, puxando um homem pela mão, minha mãe com os loiros cabelos atrapalhados e com o rosto cheio de lágrimas. Ela tinha genuíno desespero em seus olhos e do ângulo em que eu olhava, parecia prestes a entrar em uma depressão profunda. O homem que ela segurava fazia força para se mover, e continuava a andar em direção a porta, arrastando-a que com as pernas rígidas fazia de tudo para permanecer no mesmo lugar, sem sucesso. Sua respiração estava tão alta que eu conseguia ouvir.
-Não vá! Não pode! Vai destruir essa família!
-Me poupe Helena! –Pude ouvir a voz irritada do meu pai, que continuava a tentar caminhar em direção a saída de casa. –Não posso ficar aqui!
-Mas é claro que pode! –Retrucou mamãe em tom desesperado. –Você tem que!
-E viver infeliz? Com você? Com ela? Nunca! –Seus olhos caíram em mim, que assistia assustada a cena do outro lado da sala. Meu coração estava acelerado e meu estômago era uma ervilha. Ele estava indo embora. Eu sabia. E então tudo ia começar. –Você é uma desgraça, Sidney. –Grunhiu em tom rouco. –Você é uma desgraça de filha! Nunca deveria ter nascido!
-Cale a boca! –Gritou mamãe tão alto que sua voz saiu falhada. Seus olhos estavam arregalados. –Não fale assim com ela! Cale a boca!
-Vocês duas são desgraças! Eu não te amo! Eu não amo você também, Sidney! Ambas não passam de uma fase e um acidente! Não podem me prender aqui! Isso é o inferno!
Meus olhos ardiam enquanto sentia cada palavra que saía de sua boca me perfurar como facas afiadas. Como ele poderia dizer isso de mim? Eu era sua filha! Aquela era sua mulher! Eu não era uma desgraça! Não era! Não era! Eu queria correr em sua direção e soca-lo! Mamãe tinha os cachos loiros agora grudados ao rosto molhado pelas lágrimas, a cena era devastadora, papai arrastava o tapete junto com os pés rígidos de minha mãe sobre ele.
-Robert! Por favor!
-Vá para o inferno!
-Não fale assim com ela! –Dessa vez foi minha voz que saiu alta, pegando os olhos dos meus pais, surpresos. Meu corpo estava a mil, eu respirava alto. –Não fale assim com ela! Cale a boca! Não fale!
Com um só movimento, papai bateu o punho fortemente, fazendo minha mãe cair no chão de uma só vez, e em passos pesados caminhou em minha direção. Seus olhos estavam frios, ele tinha o punho cerrado. Meu coração disparou e senti meu corpo congelar. Ele ia me socar, ia me matar, eu nunca havia o respondido antes. Não... Recuei um passo enquanto engolia em seco. Eu queria correr, eu precisava correr. Por que era sempre assim? Por que ele sempre tinha que deixar a gente? Aquilo era tão doloroso...
-Não fale assim comigo. Eu. Sou. O. Seu. Pai!
Exclamou pausadamente enquanto me puxava pelo cabelo arrastando-me até o outro lado da sala. Dos meus lábios saíram gritos de dor, pelo puxão que recebia e eu me debatia tentando me soltar. Eu estava vendo tudo! Eu ia morrer! Os olhos demoníacos do meu pai brilhavam na mais tremenda fúria, eu poderia dizer até que mudaram de cor. De uma só vez fui jogada contra o sofá, e seu peso se sobrepôs ao meu corpo. Me debati gritando o mais alto que eu podia. Não! Não! Eu tentava o socar, tentava fazer de tudo, mas não conseguia me libertar. Por que ele estava fazendo aquilo?! Meu rosto estava banhado pelas lágrimas e mamãe observava a cena impotente, em choque. Eu não sabia o que fazer. Era o meu fim... E então os olhos azuis... Não eram mais os do meu pai.
Nicholas prendia-me forte contra o sofá, com aquele sorriso irônico e misterioso que sempre tinha em sua face. Seu corpo prendia o meu, e eu mal conseguia me mover. O que estava acontecendo? Aproximou o rosto do meu levemente, enquanto eu sentia seus lábios macios tocarem meu ouvido, trazendo-me arrepios que nem em um milhões de anos eu poderia explicar. Pude sentir as mãos escorregadias pelas extremidades do meu corpo.
-Relaxe, anjo... Você está comigo.
Eu nunca pensei que as palavras “relaxe” e “anjo” fossem soar tão ameaçadoras, mas soaram. Meu coração ainda batia forte contra meu peito e o arrepio estava nítido em mim. Olhei para o lado onde minha mãe estava antes, e me surpreendi ao ver o chão vazio. Onde ela estava? Nicholas puxou cada uma de minhas pernas, encaixando-se e pressionou meu corpo, grudando os lábios nos meus. Não me movi. Por que eu não estava o matando? Por que não o soquei bem em meio ao rosto? Isso era um mistério... Ao sentir os lábios carnudos e macios contra os meus, nada pude fazer, além de seguir e cair no mais delicioso beijo. Sim, eu beijava meu irmão, e a pior parte de tudo isso, era que eu estava gostando. As mãos de Nicholas subiram por minha cintura, apertando-a e fazendo-me abrir um sorriso bobo, tentando ao máximo não separar o beijo... E era bom. Nossos lábios se desgrudaram e então os olhos se encontraram. Cinzas e azuis. Os cabelos negros dele estavam atrapalhados e ele tinha a expressão confiante que eu tanto amava. Nicholas se inclinou em minha direção, levando os lábios à minha testa e me deu um beijo terno, que até mesmo me surpreendeu. Arregalei os olhos engolindo em seco.
-Acorde Sidney!
Gritou, fazendo-me observa-lo na mais completa confusão... Mas o que?
-Acorde!
Gritou de novo, e então tudo começou a girar, e o mundo se quebrou em milhões de pequenos pedaços.
Estava me debatendo em minha cama enquanto mãos tentavam agarrar meus braços para tentar me acalmar. O pânico era alto, eu só conseguia me debater e estapear seja lá quem estivesse perto de mim. Queria-o longe! Longe!
-Ai! Ai! Sidney! Ai! Pare! Acorde!
E então o foco voltou aos meus olhos. Aos poucos a imagem foi se tornando nítida e pude ver dois grandes olhos azuis arregalados em minha direção. Os meus dois olhos azuis que haviam me beijado agora pouco em meu sonho. Oh céus, eu havia tido um sonho romântico com Nicholas? Senti o enjoo tomar conta de mim e de uma só vez me sentei na cama, por reflexo cobrindo meu corpo com o cobertor e olhando-o na mais completa surpresa por estava aquela hora da noite no meu quarto.
-Nicholas?! O que está fazendo aqui?!
-O que eu estou fazendo aqui? –Perguntou indignado. –Pesei que estivesse sendo estuprada, sei lá!
Corei ao máximo com o que ouvi, desviando o olhar de uma só vez. Merda. Havia acontecido de novo, só porque eu havia esquecido o raio do remédio. Soltei um suspiro alto, enquanto cobria o rosto com a mão.
-O que eu fiz?
-O que você fez? Acordou a vizinhança! –Falou em tom alarmado, parecendo ainda um tanto que em pânico. –Eu... Sei lá! Pensei que tivesse morrido, estava gritando que nem louca até eu chegar aqui!
-Ah é?
Perguntei ainda escondendo o rosto com as mãos.
-É. Mas depois que eu cheguei você acalmou... Até demais. Pensei que tivesse morrido ou algo assim.
Senti meu rosto esquentar mais e naquele momento tive certeza que eu estava um pimentão. Havia me acalmado porque sonhei que estava o beijando. Mas é claro que ele não precisava saber daquilo. Limpei a garganta, olhando-o de canto e soltei um suspiro pesado. Eu odiava quando aquilo acontecia. Odiava mesmo.
-Obrigada por correr pra cá, eu costumo... Você está de cueca?
Interrompi todo o meu pensamento, quando finalmente reparei que Nicholas estava de frente para mim, com os cabelos em pé, provavelmente por eu ter o acordado e usando nada mais do que uma samba canção. Meus olhos se arregalaram e mais do que nunca senti meu rosto esquentar. Ai que vexame. Meu irmão olhou para seu próprio corpo e em seguida para mim, erguendo uma sobrancelha como se isso fosse normal.
-Sim, estou. Vai ter que se acostumar a me vez assim pela casa. –Deu de ombros, ainda me olhando como se eu fosse um E.T ou algo do tipo. –Que merda foi essa?
-Eu costumo ter... –Comecei a falar, me perdendo mais uma vez na cena do garoto de cueca em minha frete. Tentei não corar. –De vez em quando eu... –Me perdi de novo, levando a mão ao cenho. Foco! –Eu... Argh! –Exclamei frustrada. –Será que pode sair daqui ou pelo menos colocar uma calça?!
Nicholas mais uma vez ergueu uma sobrancelha olhando para o seu corpo e em seguida para mim. Estreitou os olhos, analisando-me cuidadosamente.
-Isso te incomoda?
-Sim!
-Então não.
Olhei para ele indignada pela criancice enquanto ele dava risada. Mas como era idiota! Me coloquei de pé, pronta para expulsa-lo do quarto, mas hesitei completamente em empurra-lo pelo peito nu. Olhar para ele me fazia lembrar do meu sonho, e lembrar do meu sonho fazia-me querer morrer. Nicholas olhou-me dos pés a cabeça, reparando em meu pijama de verão e fazendo-me de uma só vez querer pular para debaixo das cobertas. Pude ver o canto dos seus lábios se entortarem.
-Belo pijama.
-Vá se foder.
Grunhi enquanto voltava para minha cama e cobria meu corpo mais uma vez. Como ele conseguia me tratar daquela forma? Eu era sua irmã, caralho!
-É assim que me agradece por vir ver se estava tudo bem? Nem me dizer o que você tem, você disse!
-Eu tenho que tomar um remédio, ok?!
Exclamei irritada, enquanto jogava os braços para cima. Nicholas observou-me curioso, mais uma vez como se eu tivesse uma doença contagiosa e aquilo me irritava. Se dissesse que eu estava ficando “louca” como quando falou da minha mãe, juro que arrancaria seus olhos.
-Um remédio? Tipo pra dor de cabeça?
-Tipo uma porra de um calmante de tarja preta.
Soltei sem medir consequência, enquanto mais uma vez ele me examinava curioso. Pude ver parte da sua expressão sarcástica, sumir.
-Por que toma isso?
-Porque eu tenho pesadelos. –Dei de ombros. –Fortes.
-Toma remédio por causa de pesadelos?
Perguntou em um tom quase ridicularizando o meu problema. Respirei fundo e contei até três como mamãe havia me ensinado. Eu tinha aqueles pesadelos desde pequena, quando meu pai havia saído de casa. É claro que a cena real não havia sido daquela forma agressiva, e quem estava xingando quem no momento era minha mãe à meu pai. Eu nunca me envolvi na história, era uma criança... E para falar a verdade nem mesmo em meus sonhos. Aquela foi a primeira vez que me intrometi, e eu me sentia estranha. Mas em fim. Depois de algum tempo de psicóloga, ela disse que aquilo era uma causa do trauma que eu tive, e que eu precisava tomar aqueles remédios para não dormir, e sim apagar, sem ter sonhos em relação a esse fato, e conseguir acessar uma parte mais banal da minha mente. Mas sempre que eu me esquecia dele –o que era raro –eu acabava tendo pesadelos horríveis, cada um diferente do outro, de formas diferentes do meu pai ir embora e eu acordava gritando. Nicholas nunca esteve em nenhum dos meus sonhos, principalmente como nesse que havia tido. E eu me sentia um lixo.
-Tomo remédio por meus problemas que, aliás, não são da sua conta.
-Credo, Sidney. –Ergueu uma sobrancelha, espantado por minha falta de paciência. –Vamos esclarecer isso logo. Eu vejo como você me olha, você fala comigo diferente, eu sei que não gosta de mim, mas o que eu te fiz?
Pisquei algumas vezes, olhando-o descrente. Ele estava realmente me perguntando aquilo? Me perguntando o que ele me fez? Como se não soubesse! Respirei fundo tentando ao máximo escolher as palavras e não simplesmente jogar os infinitos defeitos sobre ele, mas estava difícil. Eu sentia que podia bater nele com um abajur naquele momento. Como uma pessoa poderia ser tão sem noção?
-Ah eu não sei... Talvez o fato de você ter arrancado a cabeça de todas as minhas Barbies quando mais nova. Ou então de você me dizer que comer pimenta era gostoso. Ou então você sempre colocar a culpa de tudo em mim. Desde pequeno você vem usando sua “sabedoria avançada” pra foder comigo. Agora acho que eu passei você em questão dessa sabedoria, porque, vamos encarar. Até mesmo com dezoito anos, você pensa como uma criança de oito.
-Ou. Ou. Ou. Não precisa vir para os xingamentos também. Você está falando de mim, Sidney, mas é você quem guarda rancor de dez anos atrás.
-Eu guardo rancor? Eu...? –Respirei fundo fechando os olhos enquanto levava a mão ao rosto e contava até três. Só sua existência naquele momento me irritava, e eu queria ele longe. Engoli em seco enquanto apontava para a porta sem abrir os olhos. –Fora.
-O que?
Perguntou surpreso, continuei inexpressiva.
-Fora.
Repeti, mas não ouvi sons de movimento. Nicholas bateu o pé algumas vezes no chão, mas obviamente não havia deixado o local onde estava, pelo jeito estava protestando por estar sendo enxotado.
-Não.
-Não? –Abri os olhos, fuzilando-o ainda sem mover um músculo. Repeti em claro e bom som. –Fora.
-Não vou sair.
-Esse é meu quarto!
-Ah é? –Sorriu. –Foda-se.
-Sai daqui Nicholas!
-Não vou.
Deu risada, se divertindo pelo jeito com meu nervosismo. Mas que merda! Estávamos parecendo duas crianças! Bom. Se era para agir assim, eu iria fazer direito. Me coloquei de pé, nem aí por ele estar vendo meu pijama, e com a voz mais alta e chata que consegui achar, juntei todo o ar em meu pulmão.
-Paaaaaaaaaaaaaai!
Exclamei bem alto para que ele pudesse escutar do outro quarto, mas não obtive resposta. Nicholas continuava a me observar com uma sobrancelha arqueada, enquanto agora balançava a cabeça negativamente. Franzi a testa confusa. Onde estava o pai?
-Eles saíram.
-Saíram? -Perguntei confusa enquanto olhava para o relógio. –Mas são três da manhã!
-Eles vão para a boate de sábado. –Deu de ombros. –Mas valeu a tentativa.
Boate? Meu Deus. Eles não tinham jeito mesmo, pensavam que tinham vinte anos ainda. Meus olhos caíram irritados em Nicholas que se mostrava agora mais pentelho do que nunca. Acho que eu preferia que ele continuasse arrancando as cabeças das minhas Barbies, pelo menos ele fazia isso longe de mim.
-Nicholas! Vá embora!
-Não vou sair, Sidney! –Insistiu. –Fale logo!
-Quer saber por que te odeio? –Gritei, agora completamente irritada. –Porque você acabou com a minha vida! Meus problemas! Tudo! Todos eles são culpa sua!
Nicholas recuou um passo, provavelmente espantado por minha resposta e o tom que usei para dá-la. Pude o ver engolir em seco e então me observar um tanto espantado, antes de mudar a expressão para descrença. O que ele não tinha intendido? Eu queria soca-lo! Se Nicholas fosse espero ia sair correndo do quarto naquele momento! Mas obviamente ele era muito, e muito burro!
-Como eu posso ter arruinado a sua vida, menina?
-Você não entende né? –Dei uma risada sarcástica. –Se não fosse por você, seu maldito filho da puta, meus pais ainda estariam juntos! Meu pai não teria deixado minha mãe! Eu não tomaria a porra dos remédios por causa de porras de pesadelo sobre essa porra desse trauma! E eu não teria você na minha vida! Seria perfeito! Magnífico!
-Ah, por favor. –Nicholas deu uma risada, me surpreendendo. Ele achou que eu estava brincando? Não... –Acha mesmo que o pai teria ficado se não fosse por mim? Se filho prendesse homem, ele teria ficado com as duas. O pai é feliz, não vê?
-Ele poderia ser feliz com minha mãe.
Grunhi. Nicholas balançou a cabeça em negativo, deixando-me completamente ser argumentos.
-Não. Ele a deixaria de qualquer forma e você sabe disso. Só quer arranjar alguém pra botar a culpa.
Abri a boca para falar, mas de primeira não saiu nada. Não! Ele não sabia do que estava falando. Era só um babaca sem noção de vida! Eu havia o mandado sair do meu quarto!
-Eu não queria vir, eu não vou ser feliz aqui.
-Porque não quer.
Ele deu de ombros. Balancei a cabeça negativamente.
-Eu quero ser feliz, mas não como você.
-Como eu? –Sorriu em tom cínico. –Como assim?
-Não importa. –Dei de ombros, o fuzilando com os olhos. –Agora vá embora.
-Vai ver o pai saiu de casa porque sabia que você ia ser uma filha meio doidinha.
-Cale a boca.
-O que? –Sorriu cínico. –Não posso te atacar também? E ainda são apenas verdades! Sabe como é... Tal mãe tal...
Nicholas não terminou a frase, porque naquele momento eu levantei a mão para lhe dar o mais forte e lindo de todos os tapas da história... Que ele segurou. Gritei frustrada enquanto tentava soltar meu pulso preso em sua mão. Nicholas me observava um tanto que conformado, como se soubesse que eu ia lhe dar um tapa uma hora ou outra... Por mais obvio que fosse. Grunhi.
-Me solta!
-Pensa que é assim? Pode ser da minha família, podemos ter o mesmo sangue, mas não venha pensando que pode chegar na nossa casa, reclamar de tudo, e ainda tentar agredir todo mundo a sua volta. O pai tá se esforçando, não vê?
-Não tentei bater no papai.
-Não quis dizer fisicamente, esperta. Você está atirando em todo mundo desde que chegou. Isso não está certo.
-Quem é você agora? –Lhe dei um empurrão, fazendo-o me soltar. Apertei o pulso dolorido. –Algum tipo de psiquiatra?
-Estou mais para conselheiro.
-Não quero seus conselhos.
Grunhi. Meu irmão deu de ombros.
-Quer que eu saia, já entendi. Eu vou. Mas quer um conselho?
-Não.
-Então te dou dois. –Sorriu enquanto agarrava minha caixinha de remédios e analisava. –Primeiro, tente ser legal, pessoas não gostam de meninas marrentas. E segundo... Tome a merda do remédio.
Falou indiferente enquanto jogava a caixinha em minhas mãos e finalmente deixava o quarto. Despenquei na cama de uma só vez, sentindo toda a tensão da nossa conversa horrível cair de uma só vez. Nicholas era um idiota, e eu havia acabado de perceber que o odiava mais do que pensava. Ele faria de tudo para minha vida ali ser um inferno e agora eu tinha certeza disso. Mas não ia ficar assim. Não ia ficar barato. Se ele quisesse me fazer viver no inferno, eu iria mostrar para ele o quão cruel Satã pode ser.
(...)
-Sidney! Que garota pontual! –Brincou Christian enquanto olhava no relógio. –Acho que já ganhou alguns pontos comigo.
Não pude deixar de sorrir quando ouvi os comentários saídos da boca daquele em quem pensei por tanto tempo... Que não era Nicholas. Ok! Ok! Eu sei! É perturbador a ideia de eu ter sonhado com o meu irmão e eu também sentia nojo de mim. Mas desde a maldita conversa ontem a noite e o sonho... Ele não saía da minha cabeça. Eu havia sim, ido ao shopping com Christian, mesmo tendo sido super complicado tirar as orelhas negras que estavam em meus olhos. Eu provavelmente havia usado metade do meu corretivo e não estava feliz com isso, mas olhando para o gato ruivo com quem eu estava saindo, as coisas pareciam voltar a valer a pena. Era impressionante como Christian era estiloso! Usava uma calça jeans escura, com All Stars e uma jaqueta que eu diria ser de couro, mas que mesmo assim não dava a ele aquele ar valentão como as que Nicholas usava... Na verdade Christian fazia muito mais o tipo de gatinho gostoso do que de bad boy e isso realmente era bom. Tinha o sorriso perfeito já armado quando cheguei e estava realmente gato, com o cabelo ruivo liso jogado para o lado e os olhos verdes brilhantes me observando como se fosse a melhor coisa que havia acontecido em seu dia, e cá entre nós, Christian estava sendo o ponto alto do meu dia.
Havia me arrumado bastante, isso não posso negar. Coloquei minha melhor sapatilha, junto de um short com tachinhas e uma bata em tom azulado, que caía perfeita com o look. Eu estava bem arrumada, eu poderia dizer até mesmo... Bonita. O que? Eu havia caprichado, não posso não? Meus cabelos estavam soltos e caíam como sempre até abaixo do peito, havia feito uma maquiagem que não me deixasse com cara de morta como eu estava e voi la. Uma Sidney pronta para um encontro. E seja lá em que parte eu havia acertado, Christian estava contente.
-Claro, sou uma garota que leva as coisas muito a sério.
Brinquei com um sorriso bobo, enquanto o ruivo se desencostava da grade e olhava para mim sobre os óculos, com uma expressão impressionada forçada. Sorriu.
-Muito bem. –Ergueu a mão para mim. –Madame.
Brincou em reverencia enquanto lhe dava a mão, onde ele depositou um beijo. Sorri mais uma vez por ainda achar o gesto muito fofo. Eu realmente poderia me acostumar com ele. Christian puxou-me pela mão e lentamente começamos a caminhar pelo local que estava na verdade até que com um bom movimento. O shopping era bem grande e parecia ter um senhor cinema. Talvez o lugar escolhido para o inicio do tour não fosse tão ruim assim.
O que aconteceu comigo e Patrick em seguida não foi muito importante. Caminhamos um pouco, conversamos e demos risada. Na verdade ele me contou que não era daqui e sim de Oklahoma, que pude perceber só depois pelo sotaque fofo, mas bem escondido que ele tinha. Da pra imaginar? Até nisso ele era perfeito! Eu não tinha ideia do que aquele garoto fazia, mas eu estava tão afim dele que era surreal. Assistimos um filme de romance que eu estava louca para ver, e achei muito fofo da parte dele ter assistido comigo. Garotos geralmente odeiam esse tipo de filme, mas ele até mesmo pareceu gostar! Fofo, sensível, bonito, acho que havia encontrado o príncipe encantado e aquilo era simplesmente inacreditável. A única coisa que me decepcionou de fato em relação a Christian, é que eu havia sentado bem pertinho dele na cadeira, havia deixado minha mão esbarrar na dele várias vezes quando comíamos pipoca, havia me escondido próximo dele quando fingia que levava um susto... E nada. Nem mesmo uma tentativa de beijo. Ele apenas sorria e como um fofo me acolhia, mas não senti um pingo de intenção do garoto se aproximar de mim... E isso me incomodou muito. Se ele não estava afim, por que havia me chamado para ir ao cinema? Alguma coisa estava errada, e eu só fui de fato perceber isso quando deixamos a sala de cinema.
Christian e eu estávamos de mãos dadas e só esse fato já estava me fazendo andar nas nuvens. Algumas garotas me olhavam torto, provavelmente por estar com um garoto tão gato e elas sozinhas, mas eu nem ligava! Na verdade eu adorava aquela sensação! Eu estava com ele e andava de nariz empinado, pode parecer fútil, mas foi perfeito. Suas mãos eram macias e seu toque leve, indicava que ele deveria ter um beijo suave e muito romântico, o que na verdade eu estava louca para descobrir. Ele não havia tentado nada, mas... Nem eu havia dado certeza para ele do que eu queria, então era só esperar uma chance para fazer.
Paramos um pouco depois da saída enquanto algumas pessoas continuavam a deixar a sala. Um sorriso se abriu no rosto de Christian enquanto ele dava risada de nossos comentários sobre o filme. O mais legal de assistir filme com quem vê de fato, é comentar a história depois e como existem alguns erros que provavelmente nem o diretor reparou, e era impressionante como Chris notava tudo aquilo. Ele era um puta de um observador! Estava perplexa.
-A cena em que a Jennifer pula no Miguel. –Deu risada ao se lembrar da cena cômica, fiz o mesmo. –Pode perceber que quando ele a puxa para um beijo, a mão dele bate de leve na testa dela. Aposto que isso não estava no papel.
-Eu não reparei! –Arregalei os olhos, dando risada ao me lembrar que era realmente verdade. –Meu Deus! Você é impossível!
-Sou uma pessoa observadora. –Sorriu dando de ombros. –Isso é um dom e uma maldição ao mesmo tempo.
-Por que maldição?
Perguntei com um sorriso bobo, Chris deu de ombros.
-Vejo defeito em tudo.
Vish. Será que ele havia visto algum defeito em mim e por isso parecia desinteressado? O sorriso sumiu do meu rosto no mesmo momento em que as hipóteses horríveis se passavam por minha mente. Será que eu estava com mau hálito? Ou então havia falado demais? Será que minhas roupas estavam muito curtas? O que eu havia feito de errado? Ao perceber meus olhares confusos, pude vê-lo ficar sem graça e então de uma vez, me tomar em seus braços e me abraçar. Sorri idiotamente enquanto o abraçava de volta e via todos os pensamentos se dissiparem de uma vez só. Oh meu deus.
-Obrigado pela tarde, Sid. Foi muito boa.
-Vai mesmo me chamar de Sid? –Brinquei dando uma risadinha, ainda em seus braços. –Isso me lembra a preguiça da Era do Gelo.
-Eu acho ela sedutora.
Brincou Christian fazendo-me dar risada e corar ao mesmo tempo. Dei de ombros.
-Então pode me chamar de Sid.
Não sei se foi a frase que teve o duplo sentido desejado, ou então se foi porque naquele exato momento nossos olhares se cruzaram e rolou uma química nítida, mas de repente o ar se tornou pesado e eu senti que não conseguia desgrudar os olhos dos dele. Olhos verdes com olhos cinzas, uma mágica surgiu no ar e eu nunca tive mais vontade de avançar em alguém como daquela vez. Os lábios que pareciam ser deliciosos, o sorriso que me tirava o fôlego... Christian era sensível, fofo, bonito e perfeito para mim. Eu queria provar aqueles lábios mais do que nunca e eu sentia isso gritar dentro de mim, qualquer um que me olhasse poderia ver. Um sorriso se abriu no rosto do garoto, mas antes que eu pudesse sequer pensar em me aproximar mais, seus olhos desviaram-se dos meus, indo diretamente para uma tela, onde passava o trailer do mais novo filme do Johnny Depp. Juro que vi seus olhos brilharem.
-Ah! Eu amo o Johnny Depp!
-Hein?
Perguntei, voltando só então para a realidade, virando-me naquela direção. Jura? Ele havia quebrado o clima pra comentar sobre um filme? Bufei enquanto revirava os olhos. Eu também amava o Johnny Depp, mas alô!
-Eu gosto dele também.
Dei de ombros. Christian abriu um sorriso encarando a tela, enquanto soltava um suspiro.
-Eu sou apaixonado com ele desde os doze anos. Acho que é o meu sonho de consumo.
E foram essas duas frases... Que puxaram o tapete sob meus pés. O que?! Eu tive vontade de gritar. Ah não... Apaixonado? Aquele olhar fofo que ele dava para a televisão... A forma como ele havia quase chorado ao meu lado no filme de romance... Eu não conseguia acreditar que Christian era gay! Não! Não! Não! Aquilo não estava acontecendo! Senti minha pressão cair de uma só vez e a maior decepção e frustração tomar conta de mim. Apontei para o banheiro feminino e sem falar mais nada corri para lá, nem ligando para o que ele pensaria daquela cena. Eu não acreditava no que havia acabado de acontecer!
Apoiei-me na pia tentando ao máximo soltar toda a frustração em meu corpo. Tudo bem, ele poderia ser gay, mas eu fiquei sonhando o tempo todo com um cara que eu nunca vou ter? Aquilo era uma merda! Havia me iludido por tão pouco! Respirei fundo. Eu havia saído correndo de perto dele para ele não me embaraçar mais e ter certeza de que eu estava assim afim dele, ao perceber minha cara de desolação com o fato de ele ser apaixonado com o Johnny Depp e não comigo. Eu até sentia uma vontade inexplicável de chorar. Acho que eu nunca havia ficado afim daquela forma de um cara e quando aconteceu... Era essa merda.
Abri a pia, pegando um tanto de água e jogando sobre o meu rosto cansado. Eu queria ir pra casa, eu não havia dormido, eu estava emotiva e não queria mais pensar em nada. Queria me isolar em meu quarto e em meus desenhos. Enxuguei o rosto com o papel, esperando para tomar coragem para sair e quando finalmente fiz... Tive vontade de voltar correndo. Chris estava encostado contra a parede, mexendo no telefone celular, do qual desprendeu completamente a atenção quando me viu. Franziu a testa observando-me preocupado.
-Está tudo bem?
-Sim. –Menti, abrindo um sorriso fraco. –Acho que já deu minha hora, Chris. Vou pra casa.
-Mas já? –Perguntou decepcionado. –A gente está aqui há tão pouco tempo!
-Eu estou cansada. –Admiti. –Acho eu vou cair aqui daqui a pouco.
-Tudo bem... –Ele assentiu enquanto caminhava até minha direção. Abri um sorrisinho. –Eu te levo.
-Não! –Exclamei até rápido demais. Ele franziu a testa confuso. –Não precisa.
-Claro que precisa. Está escuro. Venha.
Me puxou pela mão enquanto me levava em direção ao seu JEEP preto. Oh céus. Não dava para ficar pior. Além de apaixonada por um gay eu ainda estava sendo levada para a casa por ele. Eu não queria me livrar de Chris, mas... Eu queria pensar, e ele não estava me dando espaço.
O caminho até minha casa foi completamente em silêncio, sem palavras da minha parte ou da dele, deixando aquele clima um tanto... Desconfortável. Christian parou o carro na frente da casa, enquanto me abria um sorrisinho fraco, que fiz questão de devolver antes de abrir a porta. Prendi a respiração, tentando pensar em palavras que não fossem inconvenientes.
-Hm... Foi ótimo... Er... Obrigada pela carona.
-Ah, por favor. –Chris revirou os olhos ganhando minha atenção. Franzi a testa, deixando a porta do carro aberta, mas sem sair. O que? –Você odiou.
-O que? –Arregalei os olhos, espantada. –Não!
-Então por que está assim? Você mudou de repente. Eu não sou idiota, Sidney.
-É que... Não... Não é que eu odiei. É só... Complicado.
-Com... –Christian interrompeu a própria frase, parecendo então ter um elo telepático comigo e de repente saber exatamente do que se tratava. Seus olhos se arregalaram, enquanto ele tampava a boca com a mão. –Oh, você pensou que... Ah, Sidney! Me desculpe!
-Não é culpa sua! –Dei risada revirando os olhos. –Eu só fiquei surpresa, só isso.
Corei um pouco. Era meio foda falar disso. Christian deu risada, cobrindo o rosto com a mão, envergonhado. Envergonhada era eu quem deveria estar.
-Mas você não me odeia, certo? Quer dizer! Não tem nada errado com você! Se eu jogasse pro seu time, eu com certeza ficaria com você!
Ok... Não consegui segurar a gargalhada, e na verdade, nem Christian conseguiu e quando percebi, o clima pesado havia sumido completamente. Um sorriso bobo estampava o rosto de ambos, que se olhavam indignados, sem saber o que fazer com o outro... E só então fui perceber algo que deveria ter notado. Eu havia adorado Christian, não só romanticamente, como amigo também. Talvez o fato de ele ser gay, houvesse me causado um certo choque, mas... Eu não o queria longe de mim. Na verdade, constando com o tanto que a gente se parecia e havíamos nos dado bem, Christian era o melhor amigo que eu iria fazer em toda a minha vida por ali. E o dia havia sido ótimo! Eu não podia jogar tudo no lixo simplesmente. Soltei um suspiro enquanto balançava a cabeça.
-Te juro que o dia foi ótimo. Vamos marcar de novo.
-Com toda certeza. –Garantiu com uma risada. –Mas antes... –Abriu a porta do seu lado e saltou, erguendo a mão para mim e me ajudando a descer. Dei risada. –Um cavalheiro sempre leva sua dama á porta.
-Muito educado...
Fiz uma reverência, enquanto Chris e eu caminhávamos em direção a porta de casa, que só então percebi que não queria entrar. Suspirei enquanto olhava para a porta, e sem pensar duas vezes lhe dava um abraço. Apontei para o celular em minha mão, dando risada em seguida.
-Nada de me enrolar. Quero que me ligue logo.
-Não prometo.
Brincou dando uma piscadela, enquanto pegava minha mão e como de costume lhe dava um beijo. Sorri, ainda tímida com o gesto. Pouco depois do gesto carinhoso de Christian, a porta de casa se abriu, e distraído, olhando para o celular, Nicholas saiu, quase esbarrando em mim e no ruivo que estávamos parados ali. Seus olhos analisaram-me e logo em seguida por um tempo mais curto fizeram o mesmo no ruivo. Um momento de silêncio se alastrou, enquanto ele parecia organizar os pensamentos. Fez uma careta logo depois.
-Hã... Perdão. Tô saindo.
-O pai sabe?
Perguntei seca. Nicholas assentiu.
-Obvio.
E com essas respostas pulou dentro do conversível que lhe cabia tão bem. Assim que o carro sumiu na esquina, fui então reparar na face do ruivo, que tinha os olhos levemente arregalados e a boca aberta. Gargalhei de sua expressão, enquanto ele me observava confuso. Revirei os olhos.
-Tinha que ver sua cara!
-Que gato!
Exclamou encantado. Dei risada enquanto abria a porta.
-Meu irmão.
-Pra que time ele joga?
Perguntou todo interessado. Dei risada, fazendo uma careta por não saber a resposta com certeza, mas por imaginar. Dei de ombros.
-Acho que não para o mesmo que o seu.
Chris fez um bicão, fingindo estar decepcionado, que mais uma vez me fez cair na gargalhada. Deu risada, enquanto mais uma vez me dava um beijo na mão.
-Boa noite, Sid. Te ligo amanhã.
-Esperarei.
Pisquei, enquanto o via caminhar de volta para o seu carro e eu entrava dentro de casa fechando a porta atrás de mim. Suspirei. OK. Aquele dia não havia sido sequer de longe como eu esperava, mas... Christian parecia ser um bom amigo e eu... Bem... Eu havia gostado muito dele. As coisas por lá poderiam estar melhorando, e agora eu via que melhoras tinham muitos caminhos de onde vir. Mesmo que não fosse necessariamente, o primeiro caminho escolhido por nós.
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