Você De Novo?

2 Avise-me Quando Acabar


Notas iniciais
Bom galera, aqui vai o primeiro capítulo de verdade! Espero que gostem!
Boa leitura ^^

Washington DC – Moradia do Inferno dia 1

Tudo bem, quando meu pai me buscou no aeroporto e me levou para a casa em que estavam morando, me surpreendi ao ver que não se tratava de um castelo épico assombrado pelo conde Drácula, com fosso e jacarés cobrindo a ponte levadiça. Na verdade a casa era bem... Comum. O bairro era realmente de uma classe média bem alta –o que me fez pensar em como o meu pai estava bem de dinheiro –onde haviam enormes casas, não muito parecidas umas com as ouras e que usavam de todo o espaço para construir algo realmente legal. A nossa casa era a mais rústica dali, sim. Tinha varandas, alguns detalhes em pedra, mas não era pintada de cor escura e tinha uma arquitetura um tanto que bem elaborada, era sim uma casa bonita. Me perguntei por um momento se meu pai havia projetado aquela casa. Sim, ele era arquiteto, e dos bons. Tudo bem que por um tempo foi meio incompreendido por odiar esse lance de arquitetura moderna, mas ele parecia ter achado um elo bem interessante entre essa arquitetura e o gótico, e o resultado havia sido maravilhoso.

Saltei da Mercedes na qual ele havia ido me buscar no aeroporto e onde eu estava começando a me sentir sufocada com todas aquelas perguntas banais de “como você vai?” ou então “está namorando?” e também “como vai sua mãe?”. A verdade era que eu sabia que ele não se importava com nada daquilo, nunca se importou. Então por que começar agora? Para a minha sorte, Jessica não havia ido com ele e isso havia me dado um tempo para me preparar psicologicamente para o que estava por vir. A casa era bem grande, talvez se eu aprendesse a andar bem por ela, eu conseguisse me locomover na medida em que meus passos não se encontrassem com os dela nunca. É... Isso poderia ser bom.

Com um sorriso, papai tirou os óculos escuros mostrando os olhos azuis, e jogou para trás os grossos cabelos negros que havia claramente puxado dele. Tirou minha mala do carro, apontando para a porta.

–Deixamos o seu quarto todo arrumado, caso não goste de algo podemos reorganizar.

–Hm... Ok.

–Cindy...

–Sidney.

–Cindy... –Ignorou minha cortada pelo apelido enquanto me abria um sorriso bobo. Odiava quando ele fazia isso. –Por que não vai dar oi para o pessoal?

Ah claro. Grande ideia. Sabe, tem uma coisa em meu pai que eu sempre odiei, e mesmo com o passar de dez anos, parecia não ter sido mudado, em qualquer aspecto. Digo, ele ainda tinha todos os fios de cabelo na cabeça, seus olhos não demonstravam a sua idade e ele era jovial até demais para um homem com quarenta anos. Aposto que quem o visse lhe daria trinta no máximo. Não só pelo físico, não é isso o que me irrita. Meu pai tem algumas tatuagens espalhadas pelo braço e está sempre fazendo piadas e dando risada, acho que ele nunca cresceu. Nem ele nem Jessica, que pelo menos antigamente pareciam um casal saído de um filme dos anos setenta.

Ignorando o sarro que ouvi na voz do meu pai, entrei na casa, sentindo-me um tanto que hesitante enquanto apertava a alça da bolsa contra meu ombro. Sim, eu estava nervosa. Meu pai entrou logo atrás de mim com as bolsas enquanto eu apertava os passos a adentrar a construção... E ali era maravilhoso. Não tinha cor nem sofisticação como minha casa antiga, mas algo nas paredes com revestimento de madeira e as escadas, com algumas luzes de parede, nos fazia parecer estar em meio a uma mansão dos tempos antigos. Havia televisões e um enorme telão na sala de TV, haviam muitas coisas que veríamos em casas modernas, porém ali havia sido estruturada nos mínimos pedaços para ser aconchegante... E querendo admitir ou não, eu estava começando a me dar bem com o ambiente novo. Olhei para as escadarias imaginando onde seria o meu quarto. Provavelmente teria uma grande varanda.

–Oh meu Deus como ela está crescida e linda!

Os gritos puderam ser ouvidos da cozinha, que ficava do lado oposto de onde estavam. Só a voz aguda e o sotaque forte fizeram o meu corpo se arrepiar e eu entrar em um estágio de congelamento que eu pensei que nunca fosse passar. Oh não, não, não! Ao olhar para o lado em receio, pude ver o leve sorriso se abrir no rosto do meu pai, enquanto dava um beijo na mulher de mais ou menos a minha altura, de cabelos loiros e corpinho de modelo de vinte e dois anos, mesmo tendo mais ou menos dez anos a mais do que isso. Me abraçou como se fossemos as mais íntimas amigas, sufocando-me no perfume forte francês que usava. Tentei não morrer ou tossir, mas a careta não pude evitar de fazer.

–Sidney! Como cresceu! Pensei que fosse ficar bochechuda e gordinha, mas olhe só você! Está uma gata.

Abri um sorriso completamente sem graça e sem vontade enquanto ela me soltava, cambaleando em meus calcanhares retomando o equilíbrio. Funguei tentando desintoxicar minhas narinas.

–Hm... É eu emagreci... Oi Jessica.

–Filha, o seu quarto fica do lado direito, é a segunda porta...

–Quer que eu leve você lá?

Se ofereceu Jessica. Olha... Eu não queria ser rude, mas acho que não pensei muito nisso, quando agarrei as malas das mãos do meu pai desesperadamente e saltei para as escadas, tropeçando em meus próprios pés enquanto corria. Dei uma risadinha cínica enquanto subia as escadas sem dar tempo de ela protestar.

–Não precisa! Eu encontro sozinha!

Garanti enquanto em passos rápidos contando as portas e encontrando na segunda porta ao lado direito. Estava fechada. Colocando minhas coisas no chão, junto com algumas caixas que havia trazido, puxei a maçaneta, empurrando a porta e abrindo espaço para o maior quarto que já sonhei em ter. Ele não era colossal, quero deixar claro que não estava morando em uma mansão, mas ele tinha espaço para minhas coisas e ainda muito mais... Não que ele não estivesse perfeito com todos os móveis que já tinham ali, com o chão de madeira, paredes pintadas, uma de rosa choque e as outras de branco, espelho, uma cama de casal maravilhosa e...

–Eu tenho uma televisão dessas só pra mim?

Perguntei pasma, mesmo sabendo que não havia ninguém ali para responder minha pergunta. Por um momento me perguntei se entrei no quarto certo. Na parede havia uma enorme televisão de uma porrada de polegadas, uma cama com um colchão tão delicioso que por um momento me perguntei se era de água. Um espelho enorme que pegava o meu corpo todo, uma mesa de estudos e até mesmo uma penteadeira. Nas paredes haviam alguns vinis e alguns enfeites de bandas clássicas que papai sabia que eu gostava. Uma poltrona maravilhosa e meu telefone era em forma de sapato de salto alto! Papai realmente se perguntou se eu não ia gostar daquele lugar?

Ainda encantada, flutuei até o banheiro vendo o que ali me esperava. Havia uma pia, um pequeno rádio onde eu poderia conectar o meu iPod, um chuveiro e uma... Banheira! Eu finalmente poderia relaxar em um banho enquanto escutava uma das minhas músicas no rádio! Perfeito! Com as minhas coisas, o quarto viraria meu porto seguro e ali eu conseguiria respirar um pouco com os afogamentos que Jessica e meu pai jogariam para mim. Eu não estava feliz por me mudar, não era isso! Ainda sentia saudades dos meus amigos, ainda queria voltar para a minha vida, mas... Descobrir que o lugar onde eu passaria o resto de todo o meu verão era agradável foi realmente uma coisa boa no meio da merda. E eu iria começar com um banho de banheira!

Ouvi algumas batidas na porta, enquanto abria minha mala para tirar um roupão de banho, quando liberei a entrada de seja quem estivesse ali. A cabeça do meu pai surgiu por entre a fresta, observando se estava tudo bem, mas parecendo um pouco receoso em “invadir” meu espaço. Adorei o gesto. Pude ver o sorriso satisfeito em seu rosto.

–E aí, o que achou?

–Dá pro gasto.

Dei e ombros. Papai ergueu uma sobrancelha.

–“Da pro gasto”? É isso o que eu ganho por dias trabalhando com a decoradora.

–Ficou ótimo, pai. Perfeito. –Revirei os olhos enquanto pegava o roupão finalmente. –Melhor?

–Muito. –Sorriu satisfeito. –Nicholas deve estar em casa logo mais, vamos jantar todos juntos, ok?

Ouvi o que disse, mas não movi um músculo. Prendi a respiração enquanto pensava em Nicholas estar chegando logo. Droga. Eu havia até me esquecido da existência daquele babaca! E logo ele chegaria! Inferno. Forcei meu corpo a me obedecer e dei de ombros indiferente ao pedido para o jantar do meu pai. Pude ouvir um suspiro sem conseguir me virar em sua direção, mas e tinha certeza que o sorriso idiota continuava em seu rosto.

–Ok... Sei quando uma menina precisa de espaço.

–Pai...

Estreitei os olhos. Ele deu risada erguendo as mãos em rendição.

–Certo, certo. –Sorriu. –Tem duas horas.

–Ótimo...

Assenti enquanto separava as roupas que colocaria em seguida, Papai ameaçou sair, mas antes que fizesse colocou a cabeça mais uma vez para dentro do quarto e abriu um sorriso. Olhei para ele em canto de olhos.

–Filha... Estou realmente feliz de você estar aqui.

–Ok.

Respondi simplesmente enquanto ele saía, dessa vez de vez, fechando a porta do quarto. Deixei o tecido de minhas roupas pesadas caírem para fora do meu corpo e me enrolei em meu roupão cor de rosa enquanto ia para a banheira e abria as torneiras. Com os passos lentos enquanto ela enchia, caminhei em direção a varanda do meu mais novo quarto –a qual eu acertei, era enorme –e me apoiei na grade preta, abrindo um sorrisinho ao olhar para a vizinhança. Tudo aquilo parecia tão normal que chegava a ser estranho. Tudo tão silencioso... Pacífico.

Como se fosse um “cale a boca, Sidney”, aos meus pensamentos, um barulho alto de música pode ser escutado, ganhando a atenção dos meus olhares para um carro de cor preta que se aproximava do jardim. Era enorme e conversível, provavelmente um dos carros prêmios de papai que estava sendo dirigido por alguém muito cuidadoso e que não tinha medo de morrer. Estreitei os olhos para enxergar com todo aquele sol, enquanto uma imagem do que eu poderia dizer ser meu pai saltar para fora do carro... E que me surpreendi ao ver que não. Usava jeans surrados e uma camiseta branca que mostrava bem os braços não muito musculosos, mas completamente definidos. Os óculos aviadores que antes escondiam os enormes olhos azuis foram retirados, enquanto os cabelos lisos e pretos eram tirados do seu rosto, e a silhueta de corpo perfeito e galã tirado de um filme de Hollywood entrava dentro de casa. Senti meu coração disparar e minha pressão cair de uma vez só. Ah não.

Nicholas caminhou em direção a porta, mas parecendo perceber que estava sendo observado, ergueu os olhos para a varanda dando de cara com... Bem, eu de roupão de banho felpudo que era a última coisa menos atraente. Senti meu rosto esquentar, pela primeira impressão que eu tinha dele em dez anos, ter sido provavelmente oposta a impressão que ele havia tido de mim. Antes que pudesse escutar ou ver mais qualquer coisa, disparei para dentro do quarto, fechando as cortinas e me espremendo contra a parede, levando a mão ao peito sentindo o coração batendo forte. Oh Meu Deus. Meus olhos voltaram-se para o banheiro onde agora meu banho estava quase pronto e corri, fechando as torneiras para não transbordar. Toquei a água quente, deliciando-me com a temperatura.

Tirando o roupão deixei-o cair no chão, e tranquei a porta só por precaução de que nenhum acidente fosse acontecer. Lentamente entrei na enorme banheira, sentindo a água quente contornar meu corpo e sorri, apoiando a cabeça contra o mármore dos enfeites e deixando os meus músculos finalmente relaxarem depois de um dia... Ou melhor, de alguns últimos anos muito estressantes que havia passado em minha vida. Oh céus. Finalmente eu parecia relaxar e aquilo era delicioso. Todos os meus problemas estavam sendo levados pela água e logo a angelical voz da Simone Simons tomou meus ouvidos. E tudo pareceu bom, mesmo sabendo que por trás daquelas portas estavam me esperando os meus maiores pesadelos.

(...)

Eu não queria me sentar para jantar naquela noite, mas eu não tinha escolha. Jessica estava na cozinha, cortando alguns legumes e meu pai estava na sala, assistindo a reprise do jogo de basebol de semana passada do seu time. Agora um pouco mais relaxada por conta do banho, e tentando ao máximo controlar a vontade que eu tinha de agarrar um salgadinho e correr para meu quarto, desci as escadas, agora com os cabelos secos, em parte tentando compensar a primeira impressão de roupão que tive com Nicholas, em parte tentando ganhar a atenção de Jessica que mesmo inconscientemente havia me chamado de feia quando mais nova. Eu não estava agindo como se aquela fosse minha casa, porque era claro que não era. Não tinha o porquê de me sentir confortável.

Caminhei em direção ao sofá onde meu pai estava sentado, me preparando para sentar-me no lugar vago ao seu lado, mas antes que eu pudesse fazer isso, um vulto de cabelos negros passou minha frente, se jogando no sofá, como se sequer tivesse me visto. Arregalei os olhos indignada pela falta de cortesia, enquanto Nicholas se ajeitava no sofá e colocava os pés sobre a mesinha de centro. Seus olhos caíram em mim logo em seguida, assim como os do meu pai.

–Ops. Você ia sentar?

O garoto tirou sarro enquanto recebia um olhar feio do nosso pai. Respirei fundo.

–Saia daí, Nicholas. Cadê os modos?

–Pode deixar, pai. –Grunhi olhando para o garoto em desdém. –Eu posso me sentar em outro lugar.

–Nossa quanta cerimônia. Não sabia que tínhamos lugar marcado em casa.

Nicholas deu de ombros enquanto se acomodava no sofá e virava sua atenção para o jogo. Me sentei na poltrona completamente irritada e indignada por ver que as coisas não haviam mudado nada, desde dez anos. Ele havia crescido, mas ainda era a mesma criança de sempre. Pude ouvir a voz de Jessica soando da cozinha chamando meu pai, que não respondeu por estar vidrado na televisão.

–Ah vamos lá! Isso é reprise de semana passada!

Gritou a mulher, tirando-o finalmente dos devaneios. Bufou enquanto se colocava de pé e gritava da sala.

–Estou indo!

E finalmente teve a guerra vencida. Balancei a cabeça negativamente só de pensar em como os dois pareciam um casal. Eles não eram um casal, o casal era minha mãe e meu pai, agora era só ele... E a outra.

Havia sido o segundo ponto do time do meu pai, quando os olhos azuis do meu “irmão” se desgrudaram da TV e resolveram finalmente me dar uma pequena atenção, que usou para me analisar. Ergui uma sobrancelha ainda de cara amarrada. Pude ver uma certa confusão em sua face.

–O que?

–Nada.

Dei de ombros me virando para a televisão. Fingi não ouvir a risadinha que escapou dos seus lábios.

–Então... Você vai morar aqui agora.

–É o que parece.

Revirei os olhos em tom irritado. Nicholas franziu a testa.

–É... Por que está assim?

–Assim como?

–Não parecendo...

–Feliz? –Ergui uma sobrancelha. –Porque eu não estou feliz. Não queria mudar pra cá.

–Na verdade eu ia dizer: Interessada. –Deu de ombros, fazendo-me corar de leve pelo desabafo não necessário. Nicholas abaixou o volume da televisão. –Mas por que não quer morar aqui?

Olhei para ele por um momento o vendo se virar para mim. Eu havia realmente conseguido o interessar em um assunto? Acho que era a primeira vez na vida. Soltei um suspiro, ainda com a minha mesma expressão teimosa e irritada que havia decidido que seria a que eu usaria para conversar com ele.

–Só acho que não vai dar certo Queria ficar com a minha mãe.

–Mas sua mãe não está drogada ou algo do tipo?

Arregalei os olhos completamente pasma com o que ouvi sair da sua boca com tanta naturalidade. Ele era idiota ou algo assim?!

–O que?! Não! Ela está internada por problemas!

–Tá. Louca, não drogada. Foda-se.

Me coloquei de pé, sentindo a raiva tomar conta de mim. Como ele podia falar daquele jeito?! Babaca! Imbecil! Eu realmente preferia quando ele não conversava comigo. Abri a boca para começar a xinga-lo de todos os nomes, enquanto ele me observava com aquela expressão de dúvida, mas antes que eu pudesse sequer terminar com o meu:

–Escute aqui...

–Jantar na mesa.

Cantarolou Jessica, ganhando nossa atenção imediatamente. Nicholas e eu trocamos olhares antes de eu tomar um longo respiro, e deixar a sala em passos pesados. Ridículo. Me sentei na mesa de forma pesada, observando sem apetite a comida preparada por Jessica. Como ele poderia falar daquela forma da minha mãe? Noicholas se sentou com um sorriso bobo e se serviu do macarrão, comendo-o como se fosse a lagosta mais deliciosa do mundo. Não falei nada. Desviei todos os assuntos que mandaram para mim e comi um pingo em silêncio, contando os segundos que faltavam para mim até eu poder voltar para o meu quarto. Família ridícula, casa ridícula, irmão ridículo. Eu queria ir embora, e a pior parte era que eu havia acabado de chegar.

Notas finais
Gostaram? Deixem um review então! Me digam o que acharam!