Você sente minha falta?
1 Brilhe, louco diamante.
Notas iniciais
Remember when you were young, you shone like the sun.
Roger Keith Barrett não deveria ter cogitado mexer naquele troço velho. Aquela relíquia que celebrava o passado que tanto evitava falar, um álbum empoeirado e comido por traças. Havia encontrado aquela velharia em uma de suas faxinas no porão — tinha ganhado um gosto bastante peculiar por arrumar entulhos e material de pintura — e tinha certeza que havia jogado aquilo fora, mas como uma espécie de fantasma, ele estava ali. Suas mãos com certa relutância seguraram o objeto como se o mesmo fosse radioativo, caminhando com cuidado até uma cadeira forrada por uma coberta suja.
Havia se passado mais de trinta anos que evitava aquilo ou agia como se não soubessem do que falavam. Vivia muito bem e feliz no norte da Inglaterra com sua irmã, apesar de quase colapsar quando sua mãe havia morrido. Não precisava ficar remoendo o passado, mas aquela raridade entre os seus dedos demonstravam teimar em abrir suas primeiras páginas. Inspirou fundo, tossindo bastante da poeira abrindo o livro. Um sorriso típico que ainda brotava na sua face, mesmo que por curtos instantes.
Era uma foto de quando era um pré-adolescente e ainda havia aquele brilho que em algumas músicas e lendas que rondavam falavam que ele havia perdido. Parou atônito para a foto para a foto, deixando com que o álbum ficasse confortavelmente deitado nas suas pernas. Seus braços ficaram petrificados, com as mãos agarrando as beiradas do livro e ele só conseguiu encarar. Não havia tido uma reação de desespero, mas uma melancolia pareceu o percorrer. Queria poder lembrar daquela época com mais precisão, mas apenas um tempo turvo parecia passar em sua cabeça.
Uma de suas principais lembranças era que foi nessa época que conheceu ele. Nunca saberia o quanto o encontro com o rapaz de mesmo nome que o seu ocasionaria com ele. Era inegável que havia guardado amargura e frustração todos aqueles anos, havia sido destruído pela indústria fonográfica, pelos críticos, produtores, fanáticos e tabloides, mas não deixava de levar para o peito também as relações impessoais na banda. Na sua banda.
Roger Waters era filho de Mary Waters, professora de Barrett no “Condado” (apelido da escola) e vivia não muito longe dele, sendo praticamente na mesma rua do garoto. Eles não se falavam direito na época e seus laços só haviam crescido no ensino médio, mesmo assim, não podia ignorar aquele primeiro sinal. O velho Barrett não se recordava ao certo, mas tinha bastante certeza que estava brincando no quintal (fazia muito isso) quando atraiu a atenção da criança vizinha.
— O que você está fazendo?
Neste dia, Barrett estava concentrado em mexer no gramado sozinho, mas não se engana quem achasse que ele era uma criança solitária. Por conta do seu carisma, era um garoto repleto de amigos, era somente naquele dia em específico que havia resolvido ficar sozinho. Escutar uma segunda voz levantou o corpo do chão, olhando em direção a Waters com um típico que seria sua marca registrada por anos. Bateu nas calças sujas de terra e se aproximou do cercado. Seu corpo magro se apoiou sem discrição , causando um pequeno susto em Waters que deu um passo vacilante para trás.
— Eu estou brincando com os besouros. — Comentou Barrett, ainda sorrindo. — Quer brincar também?
— Desculpe, mas você não se suja? — Waters levantou o rosto, observando melhor as roupas bagunçadas do peralta.
— Minha mãe lava a roupa, então tudo bem.
A resposta havia saído com tanta naturalidade que Waters poderia acreditar que havia sido alguma espécie de grosseria, quando na realidade o humor de Barrett desde a infância foi extremamente característico. Uma careta confusa se mostrou na face de Waters, o olhando por mais longos instantes.
— Você quer? — Barrett repetiu a pergunta.
— Bem, então, tá bom. — Foi andando até a porta. — Como se brinca com besouros?
Barrett abriu a pequena porta dando passagem para Waters e apesar daquele ser o primeiro contato dos dois, não via nenhum problema em deixar um estranho — mesmo que praticamente da sua idade — entrar. Correu quintal adentro, fazendo um sinal para Waters que logo o seguiu sem muita relutância. Por alguma razão, a outra criança parecia transparecer bastante confiança, contudo, poderia apenas ser uma impressão.
— Eu sou o rei. — Iniciava as explicações, sentando-se no chão. — E os besouros são meus súditos. Eles me obedecem. Você pode ser o vice-rei se quiser.
— Mas não tem nenhum besouro aqui...
Waters percebeu rapidamente que no meio da lama só havia plantas, algumas formigas e outros insetos e minhocas, mas nenhum besouro. Agachou ao lado de Barrett, que riu como se o que ele tivesse dito soasse estúpido ou alguma piada muito hilária.
— Claro que não tem. Eu não os chamei. — Retrucou, olhando para a terra. — Mas logo aparecem, porque agora eu quero vê-los.
— Certo… — Waters continuou em silêncio, observando a brincadeira excêntrica do vizinho.
Se Barrett fosse menos aéreo perceberia que a outra criança parecia realmente concentrada no que tentava fazer. Era um misto de curiosidade e estranheza, porém ao mesmo tempo fascínio em ver como ele conseguia se entreter com algo tão simples quanto insetos. Mal percebeu quando em meio às observações pareceu se distrair um pouco em ficar olhando Barrett, só notando quando a voz do outro o despertou.
— Você é o filho da senhora Waters, não é? — Retornou a Waters com os seus luminosos olhos esverdeados.
— Hein? Sou. Sou sim. — Chacoalhou a cabeça para acordar, prestando atenção.
— Sua mãe é professora na escola que estudo. Ela também vem ver minha mãe às vezes.
— Você estuda no Cambridge? — Waters não se lembrava de vê-lo na escola, nem sabia qual poderia ser a turma dele.
— Estudo sim, mas não gosto muito de assistir aula. — Mostrou sinceridade nas palavras, esticando os joelhos para frente e se acomodando no chão.
Waters com pouco tempo de observação já podia concluir que o garoto era visivelmente desleixado, mas que criança da idade deles não era? Pouco depois do curto diálogo, sentiu um insight que não tinha percebido antes… E até mesmo havia entrado no quintal dele!
— Você não disse o seu nome.
— Não disse? — Pareceu sem graça, dando um pequeno riso de nervoso. — Eu sou Roger Barrett, meus irmãos me chamam de Rog.
— Uau. Eu me chamo Roger também! — Sorriu com a coincidência, parecendo se empolgar um pouco, apesar de se portar claramente um pouco mais quieto que o outro garoto.
— Oh, isso é um problema. — Barrett ficou sério praticamente em seguida. — Parece que um de nós terá que sumir ou mudar de nome. E não vai ser eu.
Waters pareceu assustado com o quase tom maldoso de Barrett, mas durou pouco, pois o vizinho soltou uma risada alta e estridente como uma zombaria amistosa. Um alívio percorreu o seu peito e se permitiu a rir também. Ao terminar as gargalhadas, ambos ficaram novamente em silêncio e o garoto daquela casa voltou a sua atenção aos besouros invisíveis.
Depois disso não ficaram próximos, apesar de morarem apenas algumas casas de distância, e Barrett não tinha ideia do quanto iria querer apagar aquele simples evento da sua vida. Se soubesse que conhecer Roger Waters faria com ele depois de alguns anos, teria corrido para dentro de casa no momento que ele aparecesse perto da cerca. Obviamente a amizade não havia sido o único fator e seria injusto que ele apontasse ele como culpado de todos os eventos no fim da década de sessenta e início de setenta, porém, talvez este encontro evitasse o que as outras folhas do seu passado iriam lhe mostrar.
Escapando do seu devaneio nostálgico em relação à infância, Roger Barrett mudou a página daquele velho livro de memórias...
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