Você não tem um "bambu"?
1 Você não tem "bambu"?
Notas iniciais
Boa leitura!
Bju bju da tia Jann
- Ahn. Os bebês...?
- É, papai. Os bebês. Como são feitos?
Sérgio pensou. As crianças estão cada vez mais precoces. Aonde esse mundo vai parar! Ele só começou a pensar nisso quando descobriu o significado da palavra “virgem”
- Bom, a... a Cegonha. Já ouviu falar na Cegonha, filho?
Bruno fez que não com a cabeça, em um movimento exagerado.
- Então, a Cegonha... – Sérgio fez uma pausa. Tinha que se preparar para contar a primeira mentira da vida de seu filho inocente de quatro anos. Dramático – Ela te trouxe de um lugar muito, muito longe daqui e...
- Muito longe quanto?
Sérgio abre os braços o máximo que pode e diz:
- Muito longe assim.
Bruno arregala os olhos. Acho que não esperava uma distância tão longa.
- Continua, papai. – Ele pediu.
- E daí, ela te trouxe enrolado num paninho que te protege de qualquer coisa...
- Até de um Tiranossauro Rex?! – Bruno pergunta, espantado.
- Até de um Tiranossauro Rex. – Confirmou Sérgio. – Posso continuar?
- Ah, sim, sim. E o paninho era azul, né?
- Por que, filho? – Maristella, a mãe do menino, quis saber.
- Porque rosa é de menina. – Bruno fez uma careta.
Maristella e Sérgio riram com o comentário.
- O que você tem com as meninas?
- Elas são nojentas, mamãe! – Bruno choramingou.
- Mas a mamãe também é uma menina.
- É, papai?
Sérgio confirmou com a cabeça. Bruno olhou para a mãe como se estivesse em dúvida: Pedir desculpas à ela ou ir para o lado que a natureza escolheu? Fez os dois:
- Mamãe, desculpa. Mas você não é como as meninas da escola. É uma menina grande.
Mamãe riu e perguntou à Sérgio:
- O que estava contando para essa pobre criança?
- Nada de mais. – Sérgio deu de ombros. – Ele só me perguntou como os bebês eram feitos...
- Ah, meu Deus! E você contou?
- Mas o que tem de errado na história da Cegonha, mamãe?
- Nada, nada, querido. O papai vai terminar a estória da Cegonha, não vai papai?
Maristella entra em casa com a desculpa de que o jantar não vai se fazer sozinho. Papai continua:
- Aquele paninho era muito especial, sabe por quê? – Bruno diz que não – Porque ele dizia pra qual papai e mamãe você deveria ir.
- E ele escolheu vocês? Mas não podia ter sido aquela... como que ela chama, papai? Ela estava naquela revista que o senhor sempre lê... Acho que é Angilina Joli.
- Não, filho. A Angelina Jolie já tem muitos filhos. Daí a Cegonha trouxe você para o papai e a mamãe.
- Mas papai, a professora disse que era uma sementinha.
- Eh... ela disse isso?
- Disse – Diz Bruno, cruzando os braços, numa atitude típica de sua mãe.
- E você quer que o papai conte a estória da sementinha?
- Quero!
- Tá legal, é uma sementinha que o papai planta na barriga da mamãe e...
- Mas quando eu passei na frente da sala do quarto ano, eu ouvi a professora Ana Paula falar que, pra uma plantinha crescer, precisa de luz e calor.
- Sim, mas é diferente disso. O que o papai planta é uma sementinha diferente.
- Mas não é escuro na barriga da mamãe?
- É, mas acontece que a barriga da mamãe tem a luz que precisa para a plantinha crescer bem saudável.
- E lá também é quentinho?
- É, lá é bem quentinho sim.
- Daí eu cresço que nem uma melancia?
- De onde tirou isso?
- A melancia é uma planta, papai?
- É, mas por quê?
- Porque eu tava procurando as revistinhas de colorir nas coisas da mamãe e achei um livro de fotos que a mamãe aparecia com uma barrigona grande igual a uma melancia.
- Ahh, é. Daí você cresce que nem uma melancia.
- Querido, o jantar está pronto. – Mamãe meteu-se na conversa.
- Já estamos indo, meu amor!
- Papai, eu ouvi uns meninos grandes dizerem que faziam amor com... – O pequeno fez uma careta – meninas. É a mesma coisa que você chama a mamãe?
- Ahn, não filho.
- E por que você chama a mamãe de “meu amor”?
- Porque eu amo ela.
- E qual é a diferença dos dois?
- Dos dois o que?
- Dos dois “amor”.
- É que um é sentimento e o outro é uma... ação.
- Mas como assim?
- Olha, eu vou chamar a mamãe pra te explicar, pode ser?
- Pode ser. MAMANHÊÊÊÊ!
- Que foi, filho?
- Querida, explique a ação do amor para ele, por favor. – Sérgio passa a responsabilidade para Maristella. Este se dirige até o banheiro, tomar um banho
A mãe ficou vermelha. Como explicar isso sem acabar com a inocência do filho?
- Ahn, certo. Bom, err... Bem, querido... Ahrr, o que tem dentro da sua calça?
- Meu bambu?
- Bambu?! Esse é o nome que você dá para o seu... esquece.
- É.
- Então, o seu... Eu tenho que chamar esse negócio de “bambu” mesmo?
- É assim que eu chamo.
- Bom, o seu “bambu”, é... bom, ele...
- E o seu, mamãe? – Bruno pergunta, curioso.
- Ah. Ah. A mamãe não tem “bambu”, filho.
- A senhora nasceu com defeito?
- Não, filho. A mamãe tem outra coisa no lugar.
- Como chama?
- A mamãe tem tipo um... buraquinho. E o “bambu” vai dentro do buraquinho.
- É tipo uma chave entrando na fechadura?
- É! É, é isso mesmo! Ufa, ainda bem que entendeu, filho.
- Mas daí é só isso, mamãe?
- Bom daí sai tipo umas... formiguinhas brancas do “bambu”.
- É? E depois?
- Depois, essas formiguinhas saem correndo atrás de uma bolinha dentro do corpo da mamãe.
- Como se fosse uma bola de açúcar?
- Como se fosse uma bola de açúcar. Depois, uma única formiguinha consegue entrar na bolinha de açúcar. E a bolinha e a formiguinha viram o bebê.
- Querida, o jantar queimou e...
- Ai, meu Deus! O arroz! Por que não desligou, Sérgio?
- Desligou o que?
- O fogão, seu idiota!
- Mamãe – Os dois se viram para o pequeno -, não é melhor a senhora ir desligar o fogão em vez de ficar gritando com o papai?
O pai dá uma piscadinha para seu filho e a mãe sai marchando para dentro de casa. Logo depois, eles (e a vizinhança toda) ouvem o grito de alegria de mamãe:
- O ARROZ NÃO QUEIMOU, IMBECIS! NÃO QUEIMOU! – Junto de uma risada maquiavélica, de dar medo em qualquer um – SÉRGIO, ABRA O VINHO DO NATAL! VAMOS COMEMORAR!
- Meu Deus, querida, você está bem?
- ESTOU ÓTIMA, OBRIGADA! BRUNINHO, MEU BEM. LEMBRA-SE DAQUELE CARRINHO QUE VOCÊ QUERIA? VAMOS AO SHOPPING!
- Mas mamãe, eu ainda não colori todos os meus desenhos.
- Ora, vamos, filhinho. Não estrague a alegria da mamãe. VAMOS AO SHOPPING, QUERIDA!
Anos (muitos anos) depois, Bruno entendeu o significado de toda aquela estória mal inventada que seus pais contaram. E entendeu do melhor jeito possível: Ele seria pai.
É claro que não, né gente. Ele aprendeu tudo aquilo no quinto ano, em uma aula de ciências do corpo humano. Mas só entendeu porque seu pai chamava sua mãe de “amor” quando descobriu que sua namorada estava grávida. E sua mãe teve a mesma reação de quando descobriu que o arroz não havia queimado:
- EU VOU SER VOVÓ, IMBECIS! VOU SER VOVÓ! SÉRGIO, ABRA O VINHO DO ANO NOVO! VAMOS COMEMORAR!
E depois:
- O QUÊ?! COMO ASSIM EU NÃO POSSO PERMANECER NO HOSPITAL? ME SOLTA AGORA, SEU MURO AMBULANTE! QUERIDO, TEMOS QUE PASSAR NO SHOPPING PARA COMPRAR O ENXOVAL DO BEBÊ! E QUERIDA, NÃO SE PREOCUPE COM NADA. FIQUE BEM CALMINHA, TÁ LEGAL? VEJO VOCÊS NA FRENTE DO CARRO! – As vozes de “mamãe” foram sumindo conforme ela era arrastada do hospital.
O bebê nasceu nove meses depois, às 17:24. 3,4 Kg. Nome? Sérgio, como o avô.
Quatro anos depois, Bruno fez uma pergunta a Sérgio (o filho):
- Ahn. Os bebês...?
- É, papai. Os bebês. Como são feitos?
Notas finais
Bju bju da tia Jann
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