Era madrugada quando Henry senta-se na cama e acorda Mary com delicadeza. Aos poucos, ela vai entendendo o que está acontecendo e senta-se para encarar o neto.

– Eu estava certo, Mary! – ele cochicha. – Vasco não existe mesmo!

– Henry, são duas horas da madrugada! Vá dormir!

– Não posso! Estive fazendo pesquisa e você não irá acreditar no que descobri!

Mary levanta-se da cama e veste um roupão para aquecer o corpo. Caminha atrás do neto até a sala de estar, onde se sentam para a conversa.

– Certo, rapaz! O que está havendo?

– Lembra-se de que eu me queixei sobre a perfeição do comportamento de Vasco e o histórico da vida dele?

– Sua mãe também citou isso e eu afirmei que Vasco pode ser uma testemunha protegida! Isso é comum!

Henry sorri e anima-se ao mostrar as páginas impressas.

– Busquei o nome dele na internet e encontrei várias pessoas homônimas, porém, o interessante é isso: ele entrega as folhas para a avó.

Mary apanha e começa a ler o resumo que o menino havia encontrado.

O romance, O Cavaleiro Inexistente, é baseado numa novela de cavalaria às avessas,onde a narrativa literária cujos grandes heróis medievais e seus cavaleiros eram exaltados dá lugar a uma comédia nada heróica, a começar pelo seu principal protagonista, Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, possuidor de uma particularidade inusitada: simplesmente não existia. O que permitia ao imperador Carlos Magno saber da existência de Agilulfo era a armadura alva, bem conservada, sem um risco, bem-acabada em todas as juntas e impecavelmente limpa”.

Mary olha para o neto e depois volta seus olhos para o papel.

“Agilulfo era um modelo. Conservador ético do mundo cavaleiresco medieval,sempre correto, impecável e preso aos seus valores, entretanto, apenas aparência. O essencial lhe faltava: uma corporeidade. A ausência de um corpo marca a não interação com o que está fora dele, restando-lhe apenas a norma e a rigidez de um código a ser seguido.”

– Está entendendo agora?

– Isso é ridículo, Henry! Vasco é um homem de carne e osso, com sentimentos e um pouco irritante, talvez!

– É um homem de carne e osso, assim como Rumple, Pinóquio, Grilo Falante, Príncipe Encantado, Capitão Gancho, Dr. Victor e todas as outras personagens saídas dos contos de fadas! Mary, agora eu consigo entender a perfeição na personalidade de Vasco! Ele não é um “cavalheiro”, mas sim um “cavaleiro”! Ele é Agilulfo, o Cavaleiro Inexistente, saído do conto de fadas italiano, escrito por ítalo Calvino!

Mary fica em silêncio. As observações de Henry eram pertinentes, haja vista a origem da maioria dos habitantes daquela cidade. Não havia como argumentar o contrário e tudo indicava que Vasco era também uma personagem saída de algum conto? Mas como?

Na manhã seguinte, antes de seguir para seu trabalho, Mary decide visitar Regina e obter mais informações que viessem a complementar a teoria do neto. A preocupação maior era a influência de Vasco sobre Regina e sua possessão.

Quem abre a porta é Vasco e ele não demonstra interesse em abrir espaço para que ela entre na casa. A olha sem qualquer expressividade, apenas inclinando a cabeça para o lado.

– Bom dia, Vasco!

– Bom dia, Sra. Nolan! Como está a sua família?

–Bem, obrigada! Eu gostaria de conversar com Regina.

– Regina está adormecida. Eu desci para fazer o desjejum e levar para ela. Aconteceu algo?

– Já que Regina não pode atender minha visita, vou aproveitar para perguntar algo a você. Serei breve porque tenho que atender meus alunos.

Vasco levanta o queixo e exibe um olhar de neblina à meia visão.

– Você nos disse que veio para esta cidade a cerca de um ano. Foi durante o período em que Henry esteve em Nova Iorque?

– Não entendi a sua pergunta, Sra. Nolan.

– Você veio para esta cidade quando Emma e Henry estavam vivendo fora daqui?

– Eu lhe disse que não entendi. Não disse que não havia escutado. – ele segura a porta e desta vez tranca o rosto. – A senhora tem ocupações e eu também. Minha esposa precisa de meus cuidados e depois tenho de dar atenção aos meus negócios e empregados. Pode dar licença?

– Eu já sei quem é você, Vasco. Então, seja prudente e não cause mal algum para Regina ou seremos obrigados a intervir.

Um sorriso cínico é a resposta inicial.

– Fazer mal para a mulher que amo? Que tipo de mal eu faria? Tirar o filho do convívio com ela? Matar a mãe dela? Destruir um relacionamento amoroso e a chance de um final feliz? É pouco provável que eu faça isso, porque já foi feito. Não seria original!

Mary vira as costas e desce os degraus, caminhando para o pequeno portão.

– Eu vim para esta cidade, porque Regina quis que eu viesse, Sra. Nolan! – a voz de Vasco faz Mary olhar por cima do ombro. – Somente ela pode fazer com que eu vá embora! É necessário que saibam disso!