Um mês após o casamento, tudo parece organizado na vida de Regina. A casa alugada por Vasco havia sido entregue ao locador e seus pertences estavam agora dividindo espaço com os pertences de Regina dentro do casarão.

Embora feliz, Regina ainda não permitia modificações em seu comportamento e personalidade. Era a mesma mulher autoritária e impaciente de sempre, com respostas afiadas e desdenhosas para quem a desagradasse. Mas de quando em quando era flagrada em momentos de suavidade e ternura, admirando a aliança em seu dedo.

No meio daquele dia, Henry chega ao escritório de Vasco e dá algumas batidas leves contra a por entre aberta. Recebe um gesto do homem, autorizando sua entrada. O garoto entra e senta-se diante da mesa repleta de papéis ricamente organizados e etiquetados.

– O prazo era de vinte e quatro horas, meu amigo! E eu já esperei trinta horas, contabilizando seis horas de tolerância! O contrato é claro e objetivo e vou exigir o cumprimento dele: cancelamento e o pagamento de multa! – Vasco fala ao telefone e caminha de um lado a outro na sala. – Quando fechamos o contrato, sabíamos da existência de imprevistos e por isso deixei um prazo longo, porém você não obedeceu!

Ele fica em silêncio apenas ouvindo e leva seus olhos grandes e atentos para o rosto do visitante. Sequer se altera com o sorriso dado pelo garoto.

– Não estou em negociação, meu caro! Eu tenho prazos, clientes, taxas e sou um homem de palavra! Por sua causa vou deixar meus clientes sem matéria prima e correrei o risco de perder meus investimentos e minha credibilidade!

Novo silêncio. O comportamento arrogante de Vasco provoca incômodo na alma de Henry. Estava vendo Gold esculpido naquela figura, apenas mais jovem e mais bonita. Era a encarnação perfeita da figura do seu avô.

– Quem não tem competência, não se estabelece! Não quero mais a sua mercadoria e devido a sua incapacidade, terei de ordenar a saída de um de meus caminhões, para conseguir essa matéria prima em outra cidade, simplesmente porque me envolvi com amadores! Saiba que não teremos mais assuntos e deverá tratar com minha advogada a partir de agora!

Ele desliga o telefone e vai sentar-se para atender Henry.

– O que houve, Vasco? Por que a fúria?

– Não recebi a matéria prima solicitada, porque o fornecedor alegou problemas com o clima da região onde estava o barco.

Henry sorri e dá de ombros.

– Killian sempre diz que aquele que depende do clima, precisa ser amigo dele. O clima é alguém imprevisível. Eu seria mais tolerante nesse assunto, se fosse comigo.

– É por isso que você é um empregado e eu sou um patrão.

– Ah! Mas na minha idade você não era patrão! – o menino sorri.

– Na sua idade, eu ainda não existia. Mas o que o trouxe até aqui? – ele se inclina para frente.

– Bem, hoje acontecerá a noite dos Pais na Escola. Meu avô David e meu padrasto Killian irão...mas eu gostaria que você também fosse. A partir das oito da noite...

Vasco estreita as sobrancelhas e fica silencioso por alguns segundos. Abre sua agenda e lê alguma coisa ali.

– Não tenho nada programado para este horário. – ele volta seus olhos para o garoto. – Mas se seu avô e seu padrasto irão, por que quer mais uma pessoa?

– Ora, porque você é meu padrasto também! Minha mãe Regina ficaria feliz com sua participação em minha vida e eu adoraria envolver você em minhas atividades! É tão difícil assim?

– Não. Apenas não há lógica. – o homem dá de ombros.

– Precisa ter lógica em relacionamentos familiares?

– Em qualquer relacionamento, Henry Mills.

O menino levanta-se e mostra-se irritado.

– Caso você encontre lógica em meu pedido, poderá ir à escola e eu estarei lá! Seu nome estará no rol de meus convidados! Mas caso não encontre, eu aceitarei a sua ausência e entenderei a sua postura!

– Hum! Isso é ótimo! É sinal de maturidade.

Na manhã seguinte, Mary serve o café da manhã para o neto e senta-se para alimentar-se também. Já havia alimentado o guloso bebê e queria dar atenção para o jovem.

– Você está contrariado, Henry?

– Incomodado, Mary. Aquele cara com quem minha mãe está casada, não pode ser real!

Mary dá risada e bebe um gole do café.

– Sua mãe o ama, é amada e está feliz! Nenhum de nós pode dar a atenção que ela precisa e Vasco está exercendo esse papel muito bem.

– Você e as mulheres com quem converso defendem Vasco como se ele fosse o verdadeiro Príncipe Encantado da Floresta Encantada!

– Não seja rude, Henry! Ele é um cavalheiro perfeito e não há nada que desabone a conduta dele. A verdade é que não existem homens com o comportamento dele, nos dias de hoje.

O garoto acha graça.

– Esse é o problema: não há nada sobre ele! De onde veio? Como chegou à nossa cidade? Qual é a história dele? A qual conto ele pertence?

– Henry, nem todas as pessoas desta cidade pertencem a contos de fadas!

– Vasco não pertence a conto algum, Mary! Ele surgiu a cerca de um ano e estabeleceu sua vida aqui! Mas não há histórico! Eu vi uma pasta com um dossiê sobre ele, entre documentos de minha mãe e não há informações!

– Já pensou na possibilidade de Vasco estar englobado no serviço de proteção às testemunhas? E se ele recebeu nova identidade para ser protegido?

O menino abre e fecha a boca, como se fosse um peixe respirando e não consegue responder.

– Você está fazendo coro com David, Killian e Gold. É implicância com Vasco e nada do que vocês falarem ou pensarem irá mudar o sentimento de Regina por ele. Como ele se portou ontem em sua escola?

Henry gargalha desdenhoso.

– Ele foi o príncipe da noite! Não havia somente pais, mas muitas mães foram ao evento e ficaram derretidas pela gentileza dele! Meus professores e professoras ficaram encantados com o Primeiro Cavalheiro da cidade de Storybrooke! Ele chamou mais a atenção do que os projetos que estavam expostos! O evento deveria ser chamado de A noite de Vasco na Escola!

– E isso despertou ciúmes em você?

– Não, Mary! Despertou desconfiança! Ele é perfeito demais, limpo demais, penteado demais, elegante demais, inteligente demais e...

– Bonito demais! – ele complementa e ri ao ver a expressão do rosto do neto. – Ele apenas demonstra ser o homem com quem toda mulher sonha, querido! Mas tenha a absoluta certeza de que por baixo dessa fachada, há algo errado. Vasco apenas sabe esconder. Ele não é perfeito!

Henry concorda. Bebe mais um gole do seu chocolate.

– Isso me preocupa muito, Mary! Posso estar errado, porém defendo a tese de que Vasco é um ser humano perigoso e vai exibir a verdadeira face, em breve. E se ele for a Máscara da Morte Escarlate?

– Eu diria que ler os contos de Edgar Allan Poe é demais para garotos de sua idade!