Você Sempre Vale a Pena
34 Capítulo 34: Stiles
Notas iniciais
Duas semanas depois
A chuva caia furiosamente, os trovões e relâmpagos me faziam estremecer. Então um trovão soou ridiculamente alto e fez com que todas as janelas tremessem. Me encolhi assustado e Derek passou seu braço sobre mim, me trazendo junto ao seu peito. Ele não disse nada, apenas me manteve abraçado e seguro. Eu estava sentindo falta desse contato, mas não tinha certeza se o merecia. Ficamos assim por mais alguns minutos até que outro trovão alto cortou a noite e as luzes da casa se apagaram.
Ouvi um pequeno choro acompanhado de uma fungada sair da babá eletrônica e rapidamente me levantei.
— Que foi, babe? — Derek perguntou ao me deixar sair do aperto dos seus braços. Ainda que ele usasse aquele apelido carinhoso, eu podia sentir a distância entre nós, uma distância que eu mesmo coloquei e que agora não sabia como quebrar.
— Malia, acho que ouvi ela chorar. Vou checar se tudo está bem com ela.
— Não... Eu vou. Está tudo bem. — Derek disse se colocando para fora da cama. Um suspiro escapou dos meus lábios e pensei em deixá-lo ir.
“Stiles, deixa de ser insuportável. Vai lá pegar a criança. Derek ainda está machucado!”
— Pode deixar. Eu vou ver o que ela tem. — Falei e saí do quarto, antes que Derek insistisse em ir. Eu não estava certo que seguiria em frente se ele dissesse que queria ir ver a menina.
“Babaca. Ela não tem culpa disso!” Joe rosnou e eu me imaginei dando um soco nele.
Bem calmamente entrei no quarto dela e fui até a cama. Ela estava encolhida embaixo das cobertas e podia ouvir seu pequeno choro ali debaixo. Quando me sentei ao lado daquela pequena montanha que Malia formava, outro trovão caiu e até eu gemi de susto.
Puxei a coberta de cima dela e a encontrei deitada na cama, uma trilha de lágrimas marcavam seu rosto e suas mãozinhas estavam fechadas em torno do pequeno lobo de pelúcia que Derek havia dado a ela no hospital.
“Stiles, é só uma criança. Ela está segurando o primeiro brinquedo que ela ganhou. Não leve para o lado pessoal.”
— Eu não quelia fazer balulho. Diculpa! — Ela disse, pronta para começar a chorar novamente.
— Shiii... Está tudo bem. Você não fez barulho. — Disse mansamente para ela. Afaguei seus cachinhos dourados e ela soltou um soluço. Era a primeira vez que eu a tocava por escolha, desde que descobri de quem ela era filha.
— Tudo ficou escuro. Fiquei com medo. — Malia sussurrava timidamente.
— Deu um problema na rede elétrica do bairro. Todos estamos sem luz. — Ela se sentou na cama e me olhou profundamente, o medo estava presente naqueles olhinhos castanhos e por algum motivo, queria fazer com que ela se sentisse melhor. — Você quer vir comigo? — Ela deu um aceno quase imperceptível segurei a mãozinha dela com uma mão e com a outra peguei seu lobo de pelúcia.
“Pacote completo, então.”
Cheguei com Malia no quarto bem a tempo de outro trovão fazer as janelas tremerem. Senti Malia agarrar minha mão mais forte e soltar um soluço.
— Alto... Muito ruim.
— Está tudo bem agora. Você está segura aqui, princesa. — Derek disse, abrindo os braços para que ela se escondesse ali. Para ele era tão natural aquilo.
“Claro. Ela é prima dele. Eles têm uma ligação de sangue,” pensei.
Ela saiu correndo pelo quarto e pulou na cama ao lado de Derek se deixando ser afagada por ele.
— Vocês tão blavo? — A pergunta sussurrada deixou meu coração um pouco pesado. Eu queria saber o que fazer para acalmá-la, mas eu não dava conta. O que ela precisava agora, eu não podia oferecer.
“Casa, família bem estruturada... Pais.”
— Não. Sempre que você tiver medo, pode chamar a gente. — Derek falou enquanto se deitava e colocava Malia no meio da cama. Quando me deitei ao lado dela, Malia colou seu corpo ao meu, colocando sua cabecinha dourada em meu peito. Para evitar que ela prolongasse aquele contato, me levantei e disse que procuraria uma luzinha de emergência. Malia precisava de alguém que pudesse dar a ela, a segurança que ela havia perdido e essa pessoa era Derek, não eu.
“Eu mal consigo me manter seguro, imagina você.” Pensei amargamente. Eu não conseguia lidar com meus próprios pesadelos, então era óbvio que não podia ajudar ela.
— Eu gosto daqui. — Ouvi ela dizer timidamente a Derek, enquanto eu procurava pela luzinha no meu criado mudo. Usei meu celular como lanterna e quando achei a pequena luz recarregável, a acendi, causando uma fraca luminosidade no quarto.
Na manhã seguinte, acordei primeiro que Derek e Malia e fiquei os observando dormir por um longo tempo. Eles pareciam tão perfeitos juntos, como uma família normal. Derek tinha um braço passado sobre Malia protetoramente e ela dormia em um sono tão tranquilo que me perguntava se alguma vez essa criança tinha vivido tão tranquilamente.
Olhei para Derek e senti meu peito se apertar. Nós estávamos nos afastando e isso me destruía lentamente. Eu queria ter forças para lutar, mas sinceramente, eu já não sabia mais se valia a pena tentar remendar. Com um suspiro cansado, me levantei da cama e fiz meu caminho para fora do quarto.
Fui para a cozinha tomar meu café da manhã sozinho, como havia feito nas últimas semanas. Eu não estava afastando apenas Derek e sim de todo mundo, por isso fiquei bastante surpreso ao ver Scott sentado na mesa, me encarando.
— Bom dia. — Disse, me servindo de uma grande xícara de café.
— Olha... Ele fala. — Scott respondeu sarcasticamente e eu o encarei.
— Tchau. — Me virei para sair da cozinha e ele pigarreou.
— Eu te dei um prazo, você sabe disso. E não vou te pressionar até o fim dele, mas no momento em que aquela doce menininha sair da sua vida, você vai ter que me encarar e falar.
— Falar o quê, Scott? Não é como se eu tivesse muito assunto, não é? Você quer uma exclusiva sobre meu crime?
— Você está de brincadeira, não é? Isso já foi julgado! Você é inocente e mesmo que não fosse, não ia mudar nada entre eu e você.
Uma semana atrás, havia sido o meu julgamento por ter atirado e matado Peter. Eu sabia que seria inocentado e esperava que depois disso, fosse me sentir melhor, um pouco mais leve e menos culpado. Mas não foi bem isso o que aconteceu. Eu estava me sentindo cada vez pior.
— Desculpa. Eu só... Sei lá. — Disse sem me preocupar se fazia algum sentido a minha frase.
— Tudo bem. Você terá seu tempo para refletir sobre isso, só que você deveria parar de se isolar. Não só de mim, mas de Derek. Ele tem conversado comigo, sabe? E ele está bem mal.
— Nós estamos bem. Eu só preciso ficar sozinho um pouco. — Scott acenou em concordância e saiu da cozinha, me deixando ali. Terminei de comer e acabei voltando para o quarto, a tempo de ver Derek terminar de arrumar Malia.
— Ela vai passar a tarde com a Allison. — Ele disse para mim. Tentei fazer alguma expressão que não fosse minha típica “Eu não me importo”, mas ao ver Derek me olhar tristemente, percebi que não havia dado conta.
Enquanto Derek se ocupava com Malia, liguei meu computador na TV e comecei a ver alguns filmes que havia alugado on-line, pretendia passar o resto do meu dia assim. Eu não tinha nada para fazer, mais uma vez eu havia ganhado uma licença do trabalho, porém eu não queria passar mais uma tarde ao lado de Derek e toda essa situação estranha que entramos.
Estava no final do segundo filme quando Derek entrou no quarto e puxou o fio que ligava a TV no computador.
— Nós precisamos conversar, babe. — Derek disse.
— Não estou disposto. — Murmurei e me preparei para sair do quarto. Eu iria para qualquer outro cômodo, ou até mesmo para o apartamento do meu pai, mas não queria ficar ali com ele.
Eu não queria conversar com Derek, ou qualquer outra pessoa. Todos eles estavam esperando que eu começasse a falar, mas eu não queria. Estava me sentido relativamente bem vivendo na minha “Bolha da Solidão”.
— Stiles! — Derek gritou e eu me assustei. Essa era a primeira vez que ele gritava comigo. — Eu não vou mais admitir isso!
— O que você não vai admitir, Derek? — Respondi no mesmo tom. Eu não queria gritar com ele, mas eu não consegui conter minha fúria. Eu odiava que gritassem comigo sem motivos.
— Você está se afastando cada vez mais! Sei que você está sofrendo, mas eu também estou! Mas que merda! — Ele gritou em frustação. — Essa situação toda está horrível! Estou cansado disso.
— Se está tão ruim assim, porque você não desiste logo? Eu te disse que não era material de namoro!
— Não é essa a questão! Pare de fugir de mim! Se você não quer falar sobre o que aconteceu com Peter, tudo bem. Mas não podemos ignorar o fato que agora temos a filha dele aqui!
— O que você está esperando de mim, eu nunca vou poder te dar! Eu não sou como você! Só tenho 22 anos! Você espera o quê? Que eu de repente vire um pai de uma criança de quatro anos? Eu não consigo nem cuidar de mim! — Nossa conversa estava sendo regida a gritos e Derek abriu a boca para revidar, mas de repente, ele ficou em silêncio, olhando para a porta entreaberta do quarto.
— Vocês tão bligando? — Ela perguntou timidamente, agarrada a porta. Derek olhou para mim e depois para Malia.
— Ei, anjinho... Você devia estar com a Tia Allison. — Derek disse calmamente. Tão calmo que nem parecia que segundos atrás ele gritava comigo.
— Ela tá demorando, então eu vim falar com você. Vocês estão blavos?
— Não com você. Venha. Vamos ligar para Allison. — Derek se abaixou e a pegou no colo. Quando ele virou para mim, havia uma fúria contida em seu olhar e sua frase soou ameaçadora. — Eu quero você no playground. Voltarei em alguns minutos.
— Vá cuidar dela. Eu vou para o meu apartamento.
— Você não vai sair dessa casa antes de termos uma conversa. Eu não estou brincando, Stiles.
Derek saiu carregando Malia e quando a porta do quarto se fechou, me aproximei da cama e soquei o travesseiro. Eu estava tão furioso que sentia que ia explodir. Minha primeira vontade era de apenas ignorar Derek e ir para o meu apartamento, mas tinha certeza que se eu saísse da mansão, Derek iria atrás de mim e tudo só pioraria.
“E tem como piorar?” Joe me alfinetou.
Tem. E muito.
Desci pelo elevador até o playground e fiquei jogando no meu celular até Derek voltar. Mais de quinze minutos haviam se passado quando ouvi a porta do elevador abrir e ele saiu. Derek me olhou de cima abaixo e se aproximou de mim, ou pelo menos tentou, já que quando vi ele andando em minha direção, me levantei e afastei.
— Você está fugindo de mim? De novo? — Derek rosnou. E continuou a andar em minha direção. Fui andando da direção oposta e só parei quando minhas costas bateram na parede. Sem pensar duas vezes, ele colocou seus dois braços ao redor da minha cabeça e me manteve preso ali. — Que porra está acontecendo com você? Eu tentei dar espaço para você, acreditando que era isso o que você precisava, mas cada dia mais eu vejo você escapar um pouco mais.
— Derek, eu não posso. Eu não acho que você entenda o que está acontecendo.
— Então me explique. — Ele pediu, olhando bem no fundo dos meus olhos.
— Eu não posso... — Disse, escapulindo por debaixo dos braços dele. Mas para minha surpresa, Derek ainda conseguiu me agarrar.
— Se você der mais um passo, eu juro que vou te amarrar na cama e te deixarei ali até você estar disposto a conversar comigo!
Então eu soltei um grito e violentamente puxei meu braço das mãos de Derek.
— Você não entende! Você nunca vai entender!
— Stiles, eu estou aqui para te ajudar! Pare de fugir de mim!
— Eu matei uma pessoa! Não só uma pessoa! O pai daquela menininha tão inocente que está ali em cima! Você sabe como é ter que olhar para ela todos os dias e me perguntar o que vão dizer para ela quando ela crescer e compreender as coisas? Cada vez que ela chega perto de mim, a culpa me consome! Cada vez que eu me olho no espelho, odeio o que vejo! Peter destruiu muito mais do que minha pele. Ele destruiu minha alma! E eu não posso mais lutar contra isso. Talvez eu não queira lutar. — Falei mais baixo, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto.
— Então pare de lutar. Pare de se preocupar com coisas que não fazem sentido. Você sabe que Malia nunca usará o meu sobrenome. Ninguém saberá quem ela é biologicamente, nem ela mesma. — Eu ouvi a dor em seu tom de voz e quando olhei em seus olhos encontrei uma quantidade de mágoa quase sufocante.
“Ele quer ficar com ela.”
— Se você quer tanto ficar com ela, fique. Eu não vou me opor... É a última pessoa da sua família de sangue que você tem.
— Eu não vou ficar com ela, Stiles. Isso seria o mesmo que decretar o fim do nosso namoro.
— Você não deveria deixar que esse nosso relacionamento fracassado dite as regras da sua vida. Não é como se fossemos durar muito tempo depois que ela for embora. Você sempre vai olhar para mim e se perguntar se fez a escolha certa... Talvez esse seja o começo do nosso fim. Ou talvez nosso fim tenha começado quando saímos daquele hospital e encaramos a realidade de nossas ações. Nós fomos feitos para nos apaixonarmos, mas não para ficarmos juntos. — Disse dando as costas para Derek e indo em direção ao elevador.
Mais uma vez eu estava terminando com ele, mas dessa vez era para sempre. Nossas vidas estavam tomando rumos diferentes e não via como podíamos continuar. Estava próximo de entrar no elevador, quando Derek me agarrou e me jogou na cama.
— Não me dê as costas! Você não vai fugir de mim de novo! Não é assim que as coisas funcionam! — Ele estava mantendo minhas mãos acima da minha cabeça
— Quem é você para achar que pode me dar ordens? — Perguntei tentando me livrar dele. Derek parecia não se importar com minha pergunta e com uma facilidade impressionante, ele puxou algumas restrições que mantinha na cama e me prendeu.
— Eu sou seu chefe, seu Dom e até onde me lembre, seu namorado. Você não vai declarar o fim dos nossos relacionamentos e sair andando!
— Me solta! Agora! — Gritei e puxei as restrições.
— Não! Você vai me ouvir dessa vez! — Ele gritou e depois me encarou. Eu podia ver que Derek estava muito nervoso e parecia que ia explodir a qualquer segundo. Porém, nem ali eu tive medo dele. Mesmo que ele estivesse a ponto de destruir o quarto, ele não encostaria em mim para me machucar.
— O que é que você tem para dizer para mim? Olhe só para nós Derek! Não há mais nada para dizer!
— Não... Nós não faremos isso até eu me acalmar. — Então Derek saiu de perto de mim e caminhou para o banheiro do playground.
Continuei forçando as restrições e quando percebi que não teria como sair dali a não ser que Derek me soltasse, parei de puxar. Ouvi o barulho do chuveiro ser ligado e depois de um longo tempo, Derek voltou para o quarto. Eu o olhei de cima a baixo e mesmo que estivesse puto por ele ter me deixado amarrado, senti tesão ao ver aquele cabelo tão perfeito úmido, com algumas gotinhas de água caindo. Até em momentos de ódio, meu corpo ainda o desejava. Meus olhos continuaram percorrendo o corpo dele e quando vi as cicatrizes em seu peitoral um enorme bolo se formou dentro de mim.
Eu olhei para meu próprio corpo, completamente marcado por Peter. Eu não enxergava agora, mas eu sabia que existiam pequenas linhas brancas, cicatrizes do chicote dele, a cicatriz em meu peito.
Como Derek podia ficar com uma pessoa tão destruída quanto eu? O que eu tinha para oferecer? Eu nem mesmo me achava bonito o suficiente para ele agora.
Foi como aproximar um balão do fogo. Em questão de milésimos eu rompi e desabei. Eu estava cansado demais de guardar tudo dentro de mim. Derek provavelmente esperava que eu voltasse a gritar com ele, pois ao me ver chorando, ele se assustou e correu até mim.
— Stiles... — Ele me chamou, mas meu choro me impedia de respondê-lo. Suavemente, Derek me soltou e me puxou para seu peito. — Saia da sua cabeça, babe. Eu não vou deixar você se afastar de mim.
— Me desculpe. — Implorei, ainda agarrado a ele. — Eu não estou pronto para encarar o que fiz, ou para ficar com a Malia... Eu queria poder fazer isso por você, por ela. Mas eu não posso.
— Está tudo bem, Stiles. — Docemente Derek afagava minhas costas, me trazendo uma agradável sensação se acolhimento. — Eu não estou te pedindo para ficar com ela. Eu jamais faria isso com você. Não depois de tudo que você viveu nas mãos do Peter. Eu só quero que você pare de me afastar...
— O que você vê de tão interessante em mim, Derek? Olha o tanto de problema que eu te coloquei, quanto drama eu trouxe para você, olhe para mim... Cheio de marcas permanentes.
— Todo o “drama” que vivemos hoje, foi causado pelo meu passado, babe. Pare de assumir toda a culpa sozinho, ou de carregar isso sozinho. — Olhei para Derek cheio de culpa e pesar. Eu havia feito ele andar por um inferno. — Eu também não sei o que te torna tão interessante e talvez seja isso. — Derek suspirou e olhou no fundo dos meus olhos. — Stiles, eu sei como é carregar as marcas que Peter provocou. Eu fui o primeiro a viver sob esse fardo. Mas elas não te definem, só o deixam mais forte. Como uma armadura. Foi o que você me disse na primeira vez que você viu minhas cicatrizes e agora, eu digo o mesmo para você.
— Eu não quero mais usar essa armadura. Eu quero minha vida como antes.
— Antes de me conhecer? — Ele perguntou e aquilo me quebrou.
—Não! — Respondi sem nem mesmo pensar. — Antes do meu aniversário. Eu quero voltar para Aspen, para qualquer lugar em que a ideia de Peter me atacar fosse apenas isso, uma ideia. Eu quero minha pulseira de volta... Minha aliança. Quero tudo que ele tirou de mim! — Disse essa última parte chorando. — É fútil, mas eu quero.
Derek me abraçou mais apertado e deixou que eu chorasse por um longo tempo. Eu estava me sentindo ridiculamente culpado por estar sentindo falta dele.
“Eu moro com ele, dormimos no mesmo quarto, mesma cama... E ainda sim eu estava morrendo de saudades do toque dele.”
— Se for isso o necessário para te trazer de volta, nós vamos para Aspen, eu abro uma nova franquia de joalherias, apenas para eles fazerem a sua pulseira de novo. Eu farei, Stiles, você sabe disso.
— Obrigado. — Funguei.
— Mas apesar de tudo, eu ainda irei puni-lo. — O tom de voz dele continha um mistério que foi capaz de me fazer arrepiar.
— Por quê? — Perguntei curioso. Eu imaginava alguns motivos, mas sadicamente, eu queria saber até que ponto eu havia quebrado Derek e se ainda existia salvação para nós.
— Por se afastar de mim, por ter gritado comigo, por ter mais uma vez fugido e por qualquer outro motivo que eu queira. Você está em apuros, mocinho.
Ele me soltou e pegou minha mão, me guiando até a parede que estavam penduradas algumas correntes. Em silêncio, Derek tirou minha camisa e trabalhou em prender meu braço direito. Eu não sabia dizer o que ele estava pensando, pois de repente, ele havia parado de olhar para mim e aquilo me incomodou muito mais do que a ameaça de punição.
— Alguma coisa a dizer? — Ele perguntou friamente, se afastando de mim.
Não sabia exatamente por onde começar, nem mesmo o que dizer, mas eu precisava tentar. Eu queria que Derek me perdoasse por ter agido como um idiota nesses últimos dias.
— Me desculpe, Senhor Hale. Mais uma vez, eu fugi quando eu deveria ter conversado. Novamente eu te magoei.
— O que vai garantir que você não fará isso novamente? É a terceira vez, Stiles. — Ele parou em minha frente, com as mãos para trás e me encarava com um misto de fúria e mágoa no olhar.
Derek tinha um bom ponto. O que garantia a ele que eu não fugiria novamente quando tivéssemos mais problemas?
— Eu não sei. De verdade... Eu espero que você seja capaz de me impedir de fugir de vez. Ou que não tenhamos uma próxima vez... — Disse. Não era uma boa defesa, mas era o melhor que eu tinha.
“Se esse é o melhor, eu estou fodido,” pensei tristemente.
— Não haverá uma próxima vez. E eu garantirei isso. — Derek falou e trouxe as mãos para a frente, me mostrando o que ele tinha nela. Ao ver o balançar suave do chicote de rosas, estremeci.
Eu já havia visto esse chicote no castelo. De cores diferentes, mas o mesmo formato. Seu cabo grosso de couro trançado, se ligava a uma dúzia de pequenas tiras que em sua ponta tinham um origami em forma de rosas. O chicote de Derek era cruelmente bonito e eu assisti maravilhado Derek deslizar ele por meu estômago. Seu cabo e as rosas eram de couro vermelho, dando a ele uma beleza sombria.
— Gosta do que vê? — Ele perguntou e eu neguei com a cabeça. Nunca havia usado esse chicote, mas eu sabia pela experiência dos outros subs que ele era mais punitivo do que para excitação.
— Não, Senhor. — Murmurei, quando Derek me moveu na parede e por fim prendeu meu braço direito, me fazendo ficar de costas para ele.
Ele distribuiu pequenos beijos sobre as marcas que o chicote de Peter havia me causado enquanto retirava minha calça e minha cueca. Derek parecia estar fazendo de propósito, pois depois de retirar minha roupa, ele se afastou e vi, pela minha visão periférica, que ele estava dobrando cuidadosamente minhas roupas. Depois disso ele pacientemente caminhou em minha direção e parou atrás de mim.
— Tão belo, tão encantador. — Derek disse passeando com o chicote em minha bunda. — E ao mesmo tempo, capaz de causar uma dor terrível. — Senti ele me golpear e soube que ele não estava elogiando o chicote e sim, eu.
Eu havia machucado ele, ao me afastar. Minhas costas se inclinaram com o golpe nas minhas coxas. Foi, de longe, a punição mais dura que ele já tinha me causado e talvez a pior que eu havia recebido desde que entrei no BDSM.
“E isso com apenas um golpe.”
Era como se uma dúzia de punhos estivessem me atacando. Derek fez uma longa pausa, acariciando minha bunda, mas aquilo só me deixou ainda mais apreensivo.
Quando o segundo golpe me atingiu, agarrei firmemente a corrente e a repuxei. Ele bateu de novo e sem uma pausa, bateu mais uma vez. As lágrimas corriam pelo meu rosto e eu não consegui abafar um grito, quando ele me golpeou novamente. Foi a primeira vez que ele usou algo que era tão profundamente doloroso, que eu não tinha certeza se suportaria. Estava bem próximo de usar minha palavra segura quando ele parou e me acariciou por alguns segundos.
Sentia suas mãos deslizarem suavemente pela minha bunda e depois sua respiração quente em minhas costas. Derek começou a distribuir pequenos beijos ao longo da minha coluna e quando ele se aproximou da minha nuca, suas mãos saíram da minha bunda até meu pau que surpreendentemente estava semiereto. Ele começou a me masturbar e quando estava bem próximo de gozar em sua mão, Derek parou. Um gemido de desaprovação escapou de mim e pude ouvir Derek rir.
Alguns segundos se passaram antes que Derek tornasse a me masturbar. E mais uma vez, quando eu estava perto de gozar, ele parou.
— As rosas não foram seu castigo, babe. — Ele falou asperamente em meu ouvido, me acariciando de novo. — Você quer saber qual é a sua punição?
Neguei com a cabeça, fazendo meu melhor para não me entregar ao orgasmo poderoso que ameaçava tomar contar do meu ser. Involuntariamente empinei minha bunda e tentei me esfregar nele, mas ao fazer isso senti minha pele sensível protestar. Derek agarrou minha bunda e começou a acariciar minha entrada, enfiando lentamente seus dedos em mim. Ele estava me levando ao limite de propósito e quando ele tocou meu ponto doce, achei que não conseguiria me controlar.
— Você não irá gozar até eu decidir que você merece e se o fizer sem minha permissão, vai ficar um mês sem gozar! — Ele disse e entrou em mim brutalmente, como se isso também fosse um castigo.
Não percebi ele tirando sua calça, apenas o senti entrar duramente em mim. Derek se moveu furiosamente e depois de alguns minutos ele gozou com um gemido alto e selvagem.
— Por favor! — Implorei, quando ele saiu de mim e me causou uma enorme sensação de abandono.
— Não até você merecer! — A firmeza no tom de voz de Derek me deixou revoltado. Ele não iria ceder.
Derek me deixou ali por alguns minutos até voltar e me soltar. Estava tão esgotado e frustrado que não me movi, fazendo com que ele tivesse que me carregar até a cama. Quando chegamos até a cama e Derek me deitou, me surpreendi com o fato de que ele amarrou meu braço direito novamente. Havia bastante folga entre meu braço e a algema de couro, mas não o suficiente para fazer minha mão deslizar dela.
— Você está com medo que eu vá tentar fugir? É por isso que ainda estou amarrado? — Eu perguntei a ele, já que ele nunca tinha feito isso antes. Derek sempre havia me dado mais prazer do que dor.
— Sim. Agora, chega de perguntas. — Ele me cortou duramente. — Tudo o que você precisa fazer agora é dormir e quando acordar, sua punição estará terminada.
Tentei me virar e olhar em seus olhos, mas Derek me manteve firme no lugar. Eu sentia sua enorme ereção prensada atrás de mim e aquilo não estava ajudando em nada na minha batalha de pegar no sono. Mas por fim, acabei caindo em um pequeno cochilo, para ser acordado horas mais tarde, com uma agradável sensação tomando conta do meu corpo.
A medida que o sono foi me deixando consegui perceber que essa sensação agradável, era causada por Derek, que me chupava deliciosamente.
— Derek... Por favor! — Implorei. Eu estava no meu limite e eu não conseguia me segurar mais.
— Você quer isso? — Ele perguntou, parando de me chupar e passando sua língua pelo meu abdômen.
— Eu preciso disso, Senhor Hale. — Disse desesperado. Se Derek não me levasse ao orgasmo eu explodiria em lágrimas.
— Mas você não está merecendo...
— Derek! — Eu era incapaz de segurar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. De repente o orgasmo já não era mais um desejo e sim, uma necessidade. Derek desceu suas carícias e começou a acariciar minha entrada, me fazendo gemer. Ele permaneceu me alargando por alguns minutos e depois sem aviso prévio me penetrou. Gemi e minhas paredes internas o apertaram.
— Você é tão deliciosamente apertado. — Ele gemeu em meu ouvido. Derek se moveu e começou a me estocar. O suor escorria pelo meu rosto e eu apertava firmemente a corrente em busca de uma forma para controlar meu corpo. — Você quer gozar, amor?
— Sim... Por favor... — Murmurei de olhos fechados.
— Venha para mim, babe. — Derek me penetrou mais uma vez antes de gozar e acertar meu ponto, me fazendo ter um orgasmo alucinante. Era tão forte que mal conseguia me conter. Um gemido alto escapou dos meus lábios e Derek me silenciou com um beijo intenso.
Ele caiu deitado ao meu lado e me puxou para seu peito.
— Obrigado. — Murmurei, me deliciando com aquela sensação.
— Pelo que? O orgasmo? — Seu tom risonho e leve, me trouxe uma calma interior imensa.
— Por isso também... Mas obrigado por mais uma vez ter insisto em mim. Qualquer outra pessoa já teria se cansado de mim.
— Eu já lhe disse desde o início que fomos feitos um para o outro, e eu realmente acredito nisso. As coisas vão ser mais duras e complicadas do que o normal por um tempo, por causa do que aconteceu com Peter, por estarmos mantendo a Malia aqui, até mesmo por nada demais. Mas estou te implorando, Stiles. Por favor, fique do meu lado. Não me abandone, nem mesmo me peça um tempo. Eu não quero mais ficar sem você.
Doeu um pouco que ele não confiasse em mim, mas eu sabia que era minha culpa. Eu mesmo havia provocado isso
— Eu não vou, Derek. Eu vou ficar, mesmo que todos meus instintos gritem para eu fugir, eu ficarei. Eu te amo, ainda que não pareça ou faça sentido. E eu não quero acordar um dia e perceber que deixei a melhor coisa da minha vida ir embora, por medo.
Seu rosto ficou um pouco menos tenso, como se as palavras ainda fossem um choque para ele.
— Obrigado. Eu amo você, também. Mais do que minha vida.
Eu não gostei dessa última parte. Eu sabia que ele falava sério sobre se sacrificar por mim e aquilo me levou de volta para o galpão com Peter.
— Por favor... Não. Eu não quero pensar em você se sacrificando por mim. Nunca mais.
— Não vai mais ser preciso, babe. Estamos seguros de agora em diante. Ninguém mais vai ser capaz de te machucar ou tentar nos separar.
Derek se levantou e foi a enorme estante de cremes do playground, de onde tirou um pequeno vidro de creme. Ele voltou para a cama e me encarou longamente.
— Que foi? — Disse sem jeito.
— Nada demais... Só admirando você. Eu senti sua falta. — Derek estudou minha bunda por um longo tempo, mas não disse nada, apenas beijou suavemente as marcas que ele havia deixado lá com suas rosas vermelhas de couro. Ele espalhou um creme calmante na pele e depois me entregou um Advil.
— Você já está subindo? — Perguntei com um biquinho.
— Allison me ligou. Ela já voltou com a Malia.
— Quantas horas? — Perguntei assustado.
— São sete da noite.
— A gente passou a tarde toda aqui?! — Disse em choque.
— Nós descemos eram quase uma da tarde. E você precisava de uma longa soneca depois de tudo. Vou colocar Malia para dormir. — Ele disse, beijando minha cabeça e estendendo a mão para que eu pegasse. — Você vai subir?
Me enrosquei nele e o beijei. Eu não queria sair dali, mas tínhamos mais coisas para fazer do que apenas sexo.
— Sim, vou buscar algo para comermos. Algum pedido? — Perguntei. Nós não havíamos jantado e imaginava que ele deveria estar morrendo de fome, bem como eu.
— O que você trouxer, eu aceito. — Ele sorria enquanto entrava no elevador.
Aproveitei que Derek demoraria e tomei um banho. Quando a água quente caiu em minha bunda, soltei um gemido. Minha pele estava sensível demais e eu sabia que essas marcas ficariam ali por pelo menos dois dias.
“O que são dois dias, quando você o machucou por duas semanas seguidas?” Joe estava certo. Eu havia sido tão egoísta, pensando só em minha dor e culpa, que acabei esquecendo que Derek também estava sofrendo. Ele estava perdendo sua prima, a última Hale viva, para poder ficar comigo, mas eu também estava o afastando cada vez mais.
“Ele estava perdendo nós dois.”
Terminei meu banho e fui em direção a cozinha, onde preparei um sanduíche natural para Derek, juntamente com um suco de morango. Coloquei tudo em uma bandeja e deixei em nosso quarto, indo logo em seguida para o quarto de Malia para chamar Derek para ele ir comer.
— Derk... — Ouvi a voz de Malia chamar Derek. Não contive o sorriso quando ela pronunciou o nome de Derek errado, eu achava aquilo um máximo. Mesmo que eu me sentisse culpado pelo que fiz ao pai dela, ainda achava bonitinho ela falando.
— Oi, minha princesa. — Aproximei da porta do quarto e vi Derek ajoelhado de costas para a porta enquanto colocava Malia para dormir.
— Você e o Estaius ainda estão bravos? — Sua vozinha tão tímida e preocupada me deixou com a consciência pesada. Eu não deveria ter gritado com Derek mais cedo, ainda mais na frente dela.
— Não, claro que não. A gente já conversou e tudo está resolvido.
— Ele gritava comigo. Toda hora... Eu não gosto disso... — Vi Malia se encolher embaixo da coberta e a sensação de culpa piorou.
“Não é só você que sofre com pesadelos.”.
— Desculpa, princesa. Nós não vamos mais gritar, tudo bem? Eu prometo.
Ela ficou alguns minutos em silêncio, acariciando o lobo dela, antes de falar novamente.
— Estaius não gosta de mim, não é? Ele não gosta quando eu chego perto dele. É por que eu sou má?
Aquela frase me atingiu trinta vezes mais forte do que Derek e o chicote de rosas. Tudo o que eu queria era ir até ela e abraçá-la. Dizer que ela era inocente e tudo não passava de problemas criados pela minha mente confusa.
— Não! Claro que não, anjinho. Ele só tem medo de te machucar... Você é tão pequenina e parece tão frágil.
— Mas ele é bom. Ele fez o flio ir embola uma vez. Ele não vai me machucar... Nem você...
— Nunca, anjinho. Ninguém aqui vai te machucar intencionalmente.
— Você me deu banho, cuidou de mim e me colocou para dormir. Isso faz de você meu pais?
Ao ouvir essa referência senti meu corpo inteiro travar.
“Como ela se lembra disso?” Pensei profundamente preocupado com o que mais ela lembrava. Naquele dia quando nós estávamos presos no cativeiro do Peter e eu dei uma definição para ela do que são pais eu nunca imaginei que ela guardaria aquilo na sua cabecinha. Aquilo fez meu coração se apertar.
— Isso é complicado, anjinho. Veja bem... Você já tem um pai, ele só não pode mais cuidar de você.
— Eu tenho um pais?
— Sim, você tinha um pai e uma mãe, Malia. Mas eles não podem mais cuidar de você.
Malia deu um suspiro triste e se deitou na cama.
— Então eu não tenho mais ninguém? Que nem o Eduardo?
— Sim, que nem o Eduardo. — Derek havia assistido inúmeros episódios de “Mansão Foster para Amigos Imaginários” com Malia e por isso, havia decorado o nome de todos aqueles personagens. Mas eu sabia, mesmo afastando ela, que Eduardo era um bicho roxo peludo, que ela vivia desenhando. — Você tem eu por enquanto, anjinho. Agora deita que eu vou te contar uma história.
— Oba! — Ela bateu palminhas e Derek deu uma risada. Eu não sabia dizer o motivo pelo qual estava ali parado observando aquela cena. Talvez inconscientemente gostasse de ver Derek agir como um pai.
— Era uma vez, em um reino muito distante morava uma família Real. E eles viviam muito felizes, cercados por amigos e famílias. Até que um caçador muito malvado invadiu o castelo e colocou fogo nele. Toda a família real morreu, menos o príncipe. Então o príncipe se tornou o rei, mas ele vivia triste. Ele não tinha mais sua família e era muito solitário. O tempo passou e o Rei se casou com um outro Rei, o Rei Consorte. Os dois viveram felizes por um longo tempo. Mas então, o caçador voltou para o reino e tentou matar os dois reis.
— Esse caçador é muito mal! — Malia exclamou.
— Sim ele era. Numa tentativa de conseguir realizar seu plano, o caçador levou o Rei Consorte para sua casa, no meio da floresta. Lá ele machucou muito o Rei Consorte e o deixou trancado numa masmorra. Só que esse caçador tinha um grande segredo.
— Qual? — Malia estava tão interessada na história, bem como eu.
— Ele tinha uma filha. Mas ele não gostava da filha dele e era malvado com ela também. Por isso ele tinha trancado ela na mesma masmorra. Então, o Rei do palácio organizou uma enorme busca pelo Rei Consorte e depois de procurar por todo o reino, ele encontrou a casa do caçador sozinho. O rei e o caçador brigaram feio e depois de um duelo, o Rei venceu o caçador e conseguiu libertar o Rei Consorte e a filha do caçador. Muita gente ficou em dúvida sobre o que fazer com a menina, mas o Rei Consorte sabia o que fazer. Ele anunciou diante de todo o reino que ele e o Rei iriam ficar com a filha do caçador e que agora, ela seria a Princesa.
— Eu queria ser essa princesa. — Ela murmurou.
— Você será a princesa de alguém um dia. — Ouvi a dor e a incerteza na voz de Derek e quando vi o dar um beijo na testa dela, me senti o pior homem do mundo.
Não era justo com os dois que eles sofressem por causa dos meus medos. Derek estava mesmo apegado a Malia, mas ele não tentaria ficar com a guarda dela por minha causa.
“Mais uma vez você está deixando seus medos atrapalharem a vida de Derek.”
— E o que aconteceu depois? — Malia perguntou.
— Eles viveram como uma família feliz, para sempre. Agora durma, pequena. Se você tiver medo já sabe, não é? — Ele apontou para a babá eletrônica e Malia assentiu. Estava me preparando para sair da porta quando Malia olhou para a porta entreaberta e me viu.
— Estaiuuuuus! — Ela cantarolou meu nome. Ela tinha um sorriso genuinamente feliz por me ver. Aquele tipo de sorriso que só uma criança poderia ter. Me aproximei da cama dela e ajoelhei ao lado de Derek. Ao me ver aproximar, Derek sorriu e apertou minha mão. Nesse mesmo instante o telefone de Derek tocou e ele saiu do quarto de Malia, me deixando a sós com ela.
— Você já está pronta para dormir? Escovou os dentinhos? Tomou banho? Se não tomar vai nascer um cogumelo nesse seu pezinho! — Perguntei, mesmo sabendo que Derek já havia feito isso. Fiz um afago nela e ela deu uma risada gostosa de ouvir.
— Derk me ajudou a tirar os cogumelos dos dedos do pé! — Ela tirou o pezinho de debaixo das cobertas e balançou seus dedinhos. Fingi que ia morder os dedos dela e ela deu um gritinho, seguido por uma risada mais alta.
Tornei a ajeitá-la na cama e depois dei um beijo na sua testa.
— Boa noite.
— Eu gosto de você. Você é bom comigo e eu vou sentir sua falta quando a Madame Foster chegar. — Ela disse, ainda abraçada a mim. E naquela hora, todos meus medos foram jogados por terra. Não havia medo de não ser o suficiente para ela, nenhum “não mereço” ou “não consigo” permaneceu. Ela era minha agora e ninguém tiraria essa criança da minha vida.
— Eu também gosto de você, princesa. E talvez a Madame Foster não venha.
— Se ela não vier, eu vou ficar aqui? — Um pequeno brilho de esperança estava naquele olhar.
— Você ia gostar de ficar aqui? — Acariciei seus cabelos e quando ela assentiu, sorri para ela.
Apaguei a luz do abajur e deixei ligado só a lâmpada de chão, que produziu uma fraca claridade. Caminhei para o meu quarto com Derek e o encontrei na varanda, olhando para a bela vista do nosso quarto. Mas alguma coisa em sua postura me dizia que ele estava profundamente triste.
— O que foi, meu amor? — Perguntei abraçando ele por trás. Derek apenas suspirou e saiu do meu abraço caminhando para dentro do quarto de volta. Chegando lá ele colocou o celular na mesa de cabeceira e me respondeu.
— Nada que eu não esperava. — Ele suspirou e me deu um beijo. — Vou tomar um banho.
— Quem era no telefone? — Perguntei, segurando seu braço. Dessa vez era ele quem estava me afastando e eu não cometeria o erro de deixá-lo ir.
— A assistente social. Até segunda-feira eles virão para levar Malia.
— Acharam um lar adotivo? — Perguntei angustiado. Ela não podia ser jogada em qualquer casa. Não depois de tudo.
— Não. É um orfanato.
— Orfanato? Eu achei que ela seria encaminhada para um lar adotivo.
“Não, eu não vou deixar ela ir embora. Não para ir parar em um orfanato qualquer!”
— Nem todas as crianças conseguem. Não seria muito diferente com ela também. Há alguns lares tão abusivos quanto os orfanatos. Malia não terá uma vida fácil. — Ele murmurou o final e senti que eu deveria deixar claro para ele minha intenção.
— Sim, ela terá. — Derek me olhou nos olhos e me surpreendi com a raiva contida ali. Então tratei de continuar logo, antes que ele explodisse. — Ela tem alguém que é capaz de dar a ela o que nenhum desses lugares vai dar.
— Você achou alguém da família da mãe dela que está disposto a ficar com ela? — Ele parecia ansioso com minha resposta.
— Não. A família da mãe é uma hipótese descartada, eles não merecem ficar com ela. Mas ela tem você... E eu pensei que talvez pudéssemos adiantar aquela conversa sobre ter filhos que marcamos para daqui a cinco anos.
— Adiantar a conversa? O que você quer dizer com isso?
— Ela merece crescer perto da única família de sangue que ela conhece. Eu sei que disse que não conseguia olhar para ela sem me sentir culpado, que não estava pronto para assumir tal responsabilidade e talvez eu nunca esteja preparado para ser pai. Mas se você estiver comigo, então há uma boa chance de que as coisas funcionem. Se você ainda quiser, eu pensei em pedir para ficarmos com a guarda dela.
Derek fez então a coisa mais aleatória em todo nosso relacionamento: explodiu em lágrimas.
— Nós vamos mesmo ficar com ela? Assim, para sempre?
— Eu não conheço muito bem o sistema de adoção, mas tenho a leve certeza que essas coisas são para sempre. Eu vou precisar de muita ajuda para conseguir ser um pai aceitável para ela, mas eu pretendo dar o meu melhor.
— Eu te amo tanto... Eu nunca deixaria você ser um péssimo pai, Stiles. — Ele sussurrou contra meus lábios. Eu sentia o sabor salgado das suas lágrimas naquele beijo, mas também sentia todo o amor que ele tinha por mim.
— Talvez eu deva dizer a Malia que a “Madame Foster” pode nunca chegar.
— Ela irá adorar saber disso. — Derek disse com um sorriso enorme no rosto.
— Como ela não poderia? Ela já tem tudo o que ela precisa para seguir em frente. Ela é uma criança e conseguirá superar tudo isso sem maiores danos. — Eu disse com uma certeza em minha voz.
— Como você pode ter tanta certeza disso, Stiles? Ela pode não superar completamente.
— Mas ela irá. — Eu olhei orgulhoso para ele. — Porque ela tem o exemplo perfeito. E ela é uma HALE.
Fale com o autor