Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)

9 Capítulo 9 - Libertação...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Paramore - The Only Exception

Rachel voltou à sala e encontrou Frannie lendo um livro:


R: É uma característica Fabray gostar de ler? [entrou sorrindo]

F: Talvez sim. Mas ninguém lê como a Quinnie. [sorriu de volta]

R: Com isso eu devo concordar!

F: Cadê ela?

R: Continua dormindo. Ela me disse que você quer nos mostrar a noite londrina.

F: Quero! Tenho certeza de que vão adorar! [animou-se]

R: Você ficará chateada se eu pedir para sairmos apenas amanhã? [perguntou sem graça]

F: Não. Mas há algum problema? [preocupou-se]

R: Não. Não é isso. [fez questão de esclarecer] É que a Quinn tem dormido muito pouco. Eu não quero acordá-la.

F: Entendo. Claro! [sorriu] Deixaremos para amanhã. Está tudo bem?

R: Sim. Está. [respondeu incerta]

F: Não parece.

R: Se eu parar para analisar nossa relação, chegarei à conclusão de que ela tem se preocupado demais comigo. [resolveu desabafar]

F: Mas uma relação é assim.

R: Mas a nossa é completamente desequilibrada.

F: Como assim?

R: Eu pouco faço por ela. Ela sempre está um passo à minha frente. No fim das contas, ela me protege demais! [constatou]

F: E isso é ruim? [perguntou calmamente]

R: Não agora. Mas, no futuro, ela pode se cansar. Eu não quero que isso aconteça. Desculpe estar tomando seu tempo, mas eu acho que você é a única pessoa que pode me ajudar a entendê-la completamente. [havia quase que uma súplica no tom de Rachel, que precisava aproveitar a chance de falar com uma das pessoas que mais conheciam Quinn na vida] Eu não tenho coragem de conversar com sua mãe e a Santana sempre está armada para defendê-la.

F: Como posso te ajudar?

R: Eu queria entender sua família. Como ela se tornou tão preocupada? Ela sempre foi assim?

F: Protetora?

R: Sim.

F: Protetora não. Quinnie sempre foi controladora. Independente. Desde pequena. Acho que tem muito a ver com o fato de ser muito mais esperta do que todo mundo. Era difícil para ela se relacionar com outras pessoas.

R: Eu sei disso...

F: Então desde sempre ela se virou sozinha. As tarefas da escola eram muito fáceis para ela, é claro! Mas em tudo ela tentava não pedir ajuda. Eu vivia muito perto, ficava de olho, porque ela não perguntava as coisas. Ela simplesmente sabia e fazia por conta própria. Ela tinha uma luz linda quando sorria, mas se sentia sozinha, mesmo cercada por um monte de gente. Pessoas incapazes de perceber o quão sozinha ela se sentia às vezes. Até ela conseguir se adequar às mentes medianas que a cercavam, demorou um bocado. Não estranhe o fato de não vê-la pedindo ajuda. Muito menos estranhe o fato de ser tão protegida por ela. Ela sempre achou que as pessoas eram volúveis e as coisas finitas. Então sempre teve a sensação de que tudo escaparia de suas mãos. Ela vai sempre agarrar com unhas e dentes o que não quiser que lhe escape.

R: Santana já me disse algo parecido.

F: Quando eu vim pra cá, ela ficou muito chateada. Enviei dezenas de emails que ela não respondia. Demorou para que eu conseguisse quebrar a barreira que ela tinha construído entre nós. Mas quando Russel a expulsou de casa, ela sumiu pra mim. Eu tentei de todas as formas entrar em contato com ela, mas ela não queria saber. Como se cortar relação com toda a família fosse necessário para que ela se reerguesse. Ela virou uma rocha depois que Beth nasceu. Uma rocha impenetrável. Então eu fiquei muito feliz quando soube que vocês estavam namorando. Porque era a prova de que ela estava se abrindo novamente.

R: Eu não consigo imaginar uma Quinn Fabray solitária. [disse um pouco triste] Ela é tão magnética. As pessoas precisam ficar perto dela.

F: É que as pessoas certas ainda não tinham aparecido. Santana e Brittany eram suas únicas fieis escudeiras.

R: Ainda são. Mas não são mais as únicas. [sorriu suavemente, demonstrando alívio]

F: E fico feliz por isso! Minha Quinnie deveria ter sido cuidada por mim. Orientada e protegida. Por conta de uma bobagem, fomos privadas de tanta coisa... Mas eu não posso reclamar. Ela foi feita pra conseguir tudo o que quisesse. Quinnie não foi feita pra perder. E ela conseguiu. Ela é independente de verdade. Vive com você numa das maiores cidades do mundo e toma conta de suas vidas. [havia orgulho em sua voz]

R: Toma conta demais! [enfatizou]

F: Percebo que isso te incomoda muito.

R: Seu pai tentou me matar, Frannie. [disse intensamente, um tanto quanto incomodada] E tudo o que ela tem feito é me proteger, me distrair. Eu não a vi sofrer por seu pai. Afinal de contas, por mais que ele tenha feito coisas erradas, ele ainda é o pai de vocês.

F: Deve ser difícil pra você imaginar como ela se sente, já que você foi criada por dois pais maravilhosos. Minha mãe disse que os dois são pessoas excepcionais. Mas Russel não foi maravilhoso. Não chegou nem perto disso. Ele parecia um bom pai, quando éramos ingênuas demais para enxergar como as coisas realmente eram. Mas ele foi pior pra ela. Ele piorou os medos dela. A solidão que ela tinha aprendido a driblar voltou a acompanhá-la quando ela saiu de casa. Eu me senti terrível quando soube que ela estava morando de favor na casa dos amigos. E quando eu soube, já fazia um bom tempo. Ela tentou parecer normal, conseguiu ser popular, manteve a genialidade presa, tudo para atender às expectativas dele, que tinha traçado rígidas regras de comportamento. Ela não podia ser mais inteligente do que ele. Aquilo parecia uma afronta à autoridade que ele deveria exercer sobre ela. Imagine que você tivesse que ficar em silêncio porque seu talento incomodava seus pais...

R: Eu não consigo imaginar... [disse agoniada]

F: Quinnie viveu com a mente “enjaulada” por muito tempo. Era eu quem comprava livros para ela, ou dava os meus para que lesse. Ela tinha toda uma sabedoria aprisionada, sufocada por causa da mente retrógrada dele e da submissão de nossa mãe. O sorriso amplo de bom pai para a sociedade já não me enganava mais. Mas ela ainda era a princesinha do papai e tentava agir como tal. A Quinn que você tem hoje é uma sobrevivente. Alguém que passou a vida tendo que se limitar, que precisou entregar a filha para adoção porque não tinha para onde ir, nem como sustentá-la, nem ideia do que faria no futuro se ficasse com ela, deveria ser frustrada. Mas ela não é. Minha mãe me contou todas as coisas que vocês passaram. Porque muita coisa pode ter mudado, mas ela continua sem conseguir desabafar. Então... Tudo o que eu soube só me fez ter certeza de que ela se tornou uma linda e maravilhosa mulher. E o que mais me orgulha é que ela é produto de si mesma. Ninguém a fez assim. Ela se fez sozinha. [emocionava-se]

R: Você faz com que eu me arrependa de não ter enxergado meus sentimentos por ela antes. [confessou com os olhos cheios de lágrimas]

F: As coisas acontecem quando têm que acontecer, Rachel. [tentou tranquilizá-la] E você nem tinha como se dar conta de nada se a relação de vocês não era boa. A pior fase pela qual a personalidade dela passou foi quando assumiu a carapuça de capitã das líderes de torcida. Ali era a Quinnie contra o mundo. Era ela saindo da jaula. Tanto tempo “presa” fez com que ela explodisse em fúria. Quando ela colocou o uniforme das Cheerios, ela apenas via uma roupa capaz de torná-la popular, como toda adolescente deseja ser. Mas o poder que vinha com aquela roupa, era maior do que ela pensava. Foi o passaporte para a libertação. Então ela foi se moldando, ajustando, até chegar a quem é hoje.

R: Tudo isso que você disse é porque você estuda psicologia? Porque você não estava lá quando a maioria dessas coisas aconteceu.

F: Eu já sou psicóloga. Estou fazendo doutorado. Sim... É porque sou psicóloga, mas principalmente porque sou irmã. Quinnie é parte de mim. Eu não estava lá, mas o contato que mantivemos, quando ela não cortou, claro... E o contato com nossa mãe, me mantiveram a par das transformações pelas quais ela passou. Minha mãe era submissa e errou muito, mas ela me mantinha por dentro do que acontecia com a Quinnie. Pelo menos daquilo que dava para saber. O resto, eu sabia por ela mesma que me ligava ou escrevia, até que não o fez mais... Depois voltamos a manter contato e as coisas caminharam para vocês estarem aqui hoje. [sorriu]

R: Por que você não volta? Por que não vem pra Nova York? Sua presença faria muito bem a ela. Como nada mais faria.

F: Eu penso nisso. Não pretendo ficar aqui para sempre...


Em Nova York, Santana se preocupava com Quinn e Rachel. Pensava em ligar para elas, mas pensou que talvez pudesse atrapalhá-las. Brittany já tinha mandado a namorada relaxar e deixá-las em paz, mas a latina estava agoniada:


S: Eu não consigo relaxar, meu amor. Estou preocupada. Rachel saiu daqui com a cara estourada e a Quinn, você sabe, absorve toda a dor dela. [dizia angustiada]

B: Elas estão juntas, San. É só do que precisam agora. Quando voltarem elas terão que enfrentar essa realidade obscura, terão que enfrentar o processo do Russel. E estaremos aqui para dar todo o suporte que precisarem. Por enquanto, deixe-as sozinhas. Elas precisam se curtir.

S: Acho que você tem razão... [disse saindo do elevador]


Quando se aproximavam da porta do prédio, Santana colidiu com a última pessoa que ela imaginava encontrar e uma das últimas que ela queria rever na vida...


S: O que diabo... [gelou]

B: Finn?! [surpreendeu-se]

S: O que merda você está fazendo aqui, Hudson? Eu já não mandei você pro inferno? [começou a se irritar]

F: Oi Brit! [sorriu] Mandou sim, Santana. [encarou-a desafiante] Mas eu voltei pra ficar.

S: Você só pode estar brincando comigo! [começou a ficar furiosa]

F: Não estou não. Seremos vizinhos agora. [sorriu]

S: O QUÊ?! [gritou]

F: Estarei alguns andares abaixo de você, mas ainda assim seremos vizinhos. [piscou-lhe]

S: Brit, diz que estamos dormindo e que isso é um pesadelo desgraçado!

F: Eu adoraria ficar aqui conversando com vocês, mas eu tenho que continuar arrumando meu apartamento. Com licença...

S: Ei, escute aqui! [puxou-o pelo braço] Se você fizer alguma merda, eu arranco seus braços. Eu acabo com a sua raça! [disse entredentes]

B: Calma, San! [puxou-a]


Finn se afastou com um sorriso irônico e sumiu no elevador. Santana estava explodindo de raiva. Era muita audácia dele voltar. Principalmente para morar.


S: Elas vão voltar e vão dar de cara com esse paspalho, Brit! [revoltava-se] Imagina a merda que vai ser...

B: Vamos torcer para que não haja problemas. [tentou tranquilizá-la]

S: Impossível! Vai haver vários... Ele é o próprio problema!


Em Londres, Frannie servia vinho para ela e Rachel continuarem a conversa:


F: Eu entendo sobre esses ciúmes, mas é complicado dizer alguma coisa sem ouvi-la.

R: Mas eu não vou negar que sou ciumenta também. Sou muito mais do que ela. [enfatizou erguendo a taça de vinho] Só que meus ciúmes são imaturos e direcionados a tudo e a todos. [assumiu] Sou mimada e caprichosa. Já dá pra você ter uma noção das crises ridículas que eu tenho. [disse encabulada] Já a Quinn é centrada. Tenta se segurar a todo custo. Mas quando se trata do Finn, não há sanidade ou controle no mundo que a deixe segura. Graças a Deus não temos contato com ele, senão nem sei quantas milhares de brigas teríamos.

F: Grande ironia do destino o cara por quem vocês tanto brigaram continuar sendo pivô de brigas por motivos diferentes. [sorriu]

R: E bota ironia nisso! [bateu na mesa]

F: Vou preparar uma das minhas especialidades para o jantar. Você quer descansar um pouco antes de comermos?

R: Você não precisa de ajuda?

F: Não. Pode ficar tranquila!

R: Então eu vou voltar para o quarto. Eu não sei como te agradecer pela conversa... Eu precisava mesmo conhecer um pouco mais dela.

F: Você já a conhecia o suficiente e grande parte do que eu falei você já sabia.

R: Mas sua visão é diferente.

F: Cuide bem dela, por favor!

R: Ela não me deixa cuidar.

F: Não se limite aos cuidados óbvios. Quinnie é especial demais para ser comum...


Ouvir tudo aquilo que Frannie falou, deu mais peso a tudo o que Quinn já havia feito por Rachel. Não eram atos naturais ou automáticos. Eram expressões vivas de um forte sentimento que fez a loira se fortalecer. Era mais do que nítido que a presença da morena em sua vida fazia a loira se sentir estável. Fazia com que ela tivesse um porto seguro, algo que ela nunca havia tido. Tornou-se fácil, então, entender o porquê de tanta necessidade de controle e proteção. Quinn não assumia esse papel porque era a mais alta ou a mais forte. Assumia porque Rachel era tão valiosa para ela, que precisava mantê-la em segurança. Precisava garantir que a morena jamais se sentiria só, como ela mesma se sentiu por tanto tempo. Vê-la dormindo, tão indefesa, tão exausta, dava-lhe uma imensa vontade de colocá-la no colo e niná-la com muito carinho. E por que não fazer isso? Rachel subiu na cama novamente e se sentou apoiando as costas na cabeceira. Passou a acariciar os cabelos loiros com ternura, admirando o rosto angelical sereno. Ficou daquele jeito por minutos. Vários minutos. Quinn se remexeu e acabou, naturalmente, deitando sobre as pernas da morena. Uma sensação de alívio tomou conta de Rachel que não conseguiu evitar o deslizar das lágrimas por seu rosto.


R: Eu tenho sorte. Eu tenho muita sorte, meu amor... [murmurou]


Quinn permaneceu dormindo e Rachel continuou com as carícias, sentindo-se a mais agraciada das criaturas, porque ela tinha o amor de Quinn Fabray e nada poderia ser melhor do que isso...

Notas finais
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Beijos!