Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
46 Capítulo 46 - Sem luz...
Notas iniciais
Não podia ser sonho, afinal, ela ainda não havia dormido... Rachel tinha certeza de que tinha ouvido a voz de Quinn. Moveu-se rapidamente para acender a luz do abajur ao seu lado:
R: Quinn? [chamou baixinho]
A loira permanecia com os olhos fechados, aparentemente dormindo...
R: Quinn?
Q: Não... Não cor...te...
O murmúrio baixo não deixava dúvidas: ela estava falando! Rachel não era capaz de lembrar um momento em sua vida em que sentiu alívio maior do que naquele segundo.
R: Amor? Você está me ouvindo? [manteve a voz baixa]
Quinn não moveu os lábios, nem emitiu som algum. Apenas assentiu levemente com a cabeça.
R: Oh meu Deus! [exclamou mais alto] Meu amor!
A morena começou a chorar. Sentou-se na beirada cama, como havia feito mais cedo e segurou a mão da loira novamente, entrelaçando seus dedos e beijando cada um deles. Seu corpo tremia acompanhando seu choro pesado de alívio. A felicidade era tanta que ela sequer se deu conta de que a primeira coisa que Quinn falou tinha relação com sua ideia de cortar os cabelos.
R: Eu vou chamar os médicos! [percebeu que já deveria ter feito isso]
Q: Não...
Apesar de fraca, a voz de Quinn se fazia escutar...
R: Não? [estranhou]
Q: Não... Espe...ra um pouco...
E a loira parecia despertar gradualmente. Sua fala parecia ir se fortalecendo conforme os segundos passavam.
R: Eu tenho que chamar alguém pra ver se você está bem...
Q: Eu... [respirava um pouco mais] Só você... [tentava articular a frase] Um pou...co... Só quero...
R: Só quer a mim um pouco?
A loira assentiu novamente com a cabeça. Rachel sorriu. Não sabia o porquê, mas sorriu. Não era uma situação comum, muito menos normal, mas Quinn só queria ficar um pouco com ela. Deus! Ela estava acordando de um coma! A morena saiu de seu transe e resolveu agir com prudência:
R: Desculpe, meu amor! Eu não posso... [desceu da cama para apertar a campainha que chamava as enfermeiras] Eu preciso deixar que examinem você...
Q: Não...
Antes que Quinn se esforçasse mais para falar, Rachel se aproximou o máximo que pôde, depositando um beijo demorado em sua testa:
R: Eu te amo tanto! Que bom que você voltou pra mim! [chorava sem conseguir se controlar]
Era óbvio que não estava sendo fácil para Quinn retornar. Sentia a cabeça pesando, como se acordasse de uma enorme e interminável ressaca. A dor não era nada do outro mundo, mas incomodava. Seu corpo inteiro pesava mais do que estava acostumada...
Não demorou muito para o quarto ficar cheio de médicos e enfermeiras. Mais uma vez Rachel foi afastada da cama enquanto Quinn era examinada. Mas dessa vez, a loira estava consciente e reclamava sua presença:
Q: Rach... [murmurava]
R: Estou aqui, meu amor! [voltou a ficar ao lado dela, segurando sua mão]
Q: Não sai...
R: Não vou sair! Não vou! [garantiu]
Os médicos tiveram que fazer seu trabalho com Rachel por perto. Quinn era um caso importante e sério do hospital. Havia passado um bom tempo em coma e não tinha apresentado sinais significativos recentes de que poderia acordar a qualquer momento. Esperavam algo mais gradual, não tão repentino...
Dr. Adam: Quinn, você sente isso? [cutucava as pernas da loira, até chegar aos pés]
Q: Hum hum... [limitou-se a responder]
Dr. Adam: Quem é Rachel? [começava a fazer perguntas básicas a fim de avaliar sequelas cognitivas]
Q: Minha Rach... Namorada... [respondeu devagar]
A morena sorriu orgulhosa!
Dr. Adam: Muito bem, Quinn! Você tem irmãos?
Q: Uma...
Dr. Adam: Você estuda? [ela assentiu com a cabeça] Onde?
Q: Co...lum...bia...
Dr. Adam: Ótimo! Sente alguma dor?
Q: Algumas...
Dr. Adam: É normal! Ok?! Vamos cuidar de todas elas! [disse sincero e animado]
Durante todo o tempo, Quinn permanecia de olhos fechados, demorando poucos segundos e às vezes nada para responder. Tinha Rachel segurando sua mão firmemente. Não lembrou de perguntar por ninguém...
Com cuidado, sua cama passou a ser elevada na região das costas, para que ela continuasse a ser examinada.
Q: Não... [murmurou]
R: Parem!
Rachel não precisou que Quinn explicasse. Percebeu que aquele movimento a estava incomodando. Tontura ou enjoo... Não importava. Eles tinham que deixá-la quieta.
Dr. Adam: Desculpe, Quinn! Mas precisamos te examinar.
R: Examinem assim. Por favor, não façam com que ela se sinta pior. [virou-se para a loira] É tontura, meu amor? [a loira assentiu] Então, não a movam se for pra ela se sentir mal!
O tom de Rachel era demandante e extremamente protetor. Por um momento, toda a emoção de ter Quinn acordada ficou para trás. Naquela hora sua namorada precisava de seus cuidados, de sua autoridade.
Já não era preciso haver tantas pessoas naquele quarto e o Dr. Adam dispensou a maioria delas. Constatou que a sensibilidade dos membros de Quinn estava intacta, assim como a memória da loira, pelo menos à primeira análise. Batimentos cardíacos, pressão... Tudo bem, dentro da situação. Com sua lanterna o Dr. Adam se aproximou ainda mais de Quinn, pedindo que abrisse os olhos. A loira demorou um pouco para obedecer, mas o fez:
Dr. Adam: Certo... Agora eu preciso que você siga a luz.
A lanterna se moveu para a direita. Quinn piscou os olhos devagar, três vezes seguidas. A lanterna já havia se movido.
Dr. Adam: Quinn... Eu preciso que você siga a luz...
Q: Qual?
Rachel não entendeu! Como assim “qual?” Fez sinal para que uma enfermeira apagasse algumas lâmpadas do quarto para ajudar Quinn a focar na lanterna. Novamente o Dr. Adam se colocou a mover a lanterna.
Dr. Adam: Você pode seguir essa luz, Quinn?
A loira não respondeu. Nem seguiu a luz... Rachel a olhou preocupada. Era compreensível que Quinn estivesse lenta. Ela havia acabado de acordar e não deviam esperar que ela já estivesse muito desperta e pronta para sair dali.
R: Amor? Você pode fazer o que o Dr. está pedindo? [perguntou o mais calma que pôde, tentando disfarçar sua aflição]
Quinn fechou os olhos novamente e manteve-se em silêncio por alguns segundos.
Q: Não há... luz...
R: Como assim?
A lanterna foi desligada e voltou para o bolso do jaleco do médico:
Dr. Adam: Ela não está enxergando... [respondeu com a voz calma]
R: Isso é uma piada, não é?! [encarou o médico na luz fraca do quarto]
Logo as outras luzes foram se acendendo.
Dr. Adam: Não! [respondeu naturalmente] Essa era uma das sequelas possíveis.
R: Possíveis? [exclamou irritada] Ninguém me disse nada sobre isso!
Dr. Adam: A senhorita se recusou a saber! A família dela sabe de todas as possibilidades. E a sua, inclusive, também sabe.
R: Dane-se o que todos sabem! [esbravejou]
Q: Rach... [chamou com dificuldade]
Por um momento a morena havia perdido a noção do lugar em que estava. Era absurda a hipótese de Quinn não enxergar! E ela precisava tirar satisfações com alguém...
R: Oi... [aproximou-se dela novamente] Desculpe! [sabia que seria repreendida]
Q: Não é... nada demais! [tentou amenizar]
Deus do céu! Como Rachel poderia lidar com aquilo? Quinn estava ali, numa cama de hospital, sem enxergar, tentando mantê-la calma diante da situação...
R: Como não é nada demais? [choramingou]
Q: Vai ficar tudo bem... [garantiu]
Não demorou muito para que todos estivessem no hospital. À exceção de Puck, que ficou em casa com Beth. Rachel não havia saído de perto de Quinn um segundo sequer, mas também não teve a chance de ficar a sós com ela desde que o primeiro médico havia posto os pés naquele quarto.
Dr. Adam: Ainda faremos todos os exames mais específicos, mas Quinn apresenta todos os sintomas de cegueira cortical. Pela trajetória da bala, essa possibilidade é a mais adequada ao caso.
J: Mas o que significa isso? [perguntava aflita, enquanto Frannie a abraçava de lado]
Dr. Adam: Significa que os olhos da Quinn estão perfeitos, mas o cérebro dela não processa as imagens. É como se ele não se conectasse com os olhos. [explicava com calma] Há vários estágios desse tipo de cegueira e precisamos analisar com cuidado em qual nível está a de Quinn.
J: Mas tem cura? Ela vai ficar bem?
Dr. Adam: Eu não tenho como lhe dizer isso agora. Ainda precisaremos avaliar com calma. Ela acabou de acordar e há muito o que assimilar. Há muita emoção envolvida. Por agora, nossa preocupação maior era saber sobre seu estado vital e ela está bem. Respira bem, tem sensibilidade nos membros e a memória parece intacta. Faremos todos os exames possíveis para constatar que tudo está bem amanhã, quando ela estiver mais disposta. Só que quanto à visão, já sabemos que teremos um caminho complicado a trilhar, mas Quinn terá os melhores profissionais da área para cuidar dela e descobrir os melhores caminhos para tornar a vida dela mais fácil.
J: Eu quero que ela fique curada, doutor! [exigiu]
Dr. Adam: Se houver chance de cura, tenha certeza de que a alcançaremos!
Frannie havia demonstrado toda sua sensatez controlando o fluxo de pessoas no quarto. Apenas ela, Judy e Rachel tiveram acesso direto à Quinn. Ainda era cedo para barulho e estava muito tarde para visitas.
O incrível de tudo era que Quinn não parecia abalada com aquela sequela. Ela respondia aos estímulos de sua mãe e irmã, mesmo que baixo, mesmo que devagar. Mas não havia lágrimas da parte dela. Não havia nenhuma reclamação. Ela não gastava suas forças falando sem necessidade. Por um longo período, Rachel se manteve calada. Quinn só sabia que ela estava presente pelo cheiro e por suas mãos juntas. O sono voltou a lhe atacar...
Q: Dormir... [murmurou cansada]
J: Oh, filha! Vamos deixar você descansar! [beijou-lhe a testa carinhosamente, ato imitado por Frannie]
Ninguém precisou discutir sobre quem dormiria ali. Era óbvio que aquele lugar era de Rachel. Quinn não tinha forças para fazer muitas perguntas. Para entender tudo o que houve, há quanto tempo estava ali, onde estava especificamente...
Q: Fala... comigo... [pediu com um pouco de dificuldade]
Rachel não conseguiu. Ela estava chorando. Se falasse, Quinn saberia. Mas como ela pôde pensar que Quinn não perceberia se seu fungado já estava bem sonoro?
Q: Não... chora...
Rachel estava odiando a si mesma! Ela deveria ser forte! Era sua obrigação dizer à Quinn que estava tudo bem! Obrigação! E, no entanto, ela estava se desfazendo em lágrimas.
R: Desculpa... [murmurou chorosa]
Q: Deita de novo... [pediu]
Rachel obedeceu. Com cuidado, deitou-se, ocupando a mesma posição ocupada anteriormente, aconchegando-se delicadamente ao corpo de Quinn:
R: Eu senti tanto a sua falta! [desistiu de esconder que chorava]
Quinn virou o rosto um pouco na direção dela. Seus rostos encostaram...
Q: Estou aqui... [muito baixo, mas audível]
R: Me desculpe! Eu queria...
Q: Shhhh... [murmurou] Eu te ouvia...
Rachel soltou sua respiração pesada. Saber que Quinn a ouvia tirou dela a obrigação de falar tudo de novo, de encher a cabeça da namorada com tantos sentimentos em um momento tão delicado. A morena moveu o rosto e deu um beijo no canto dos lábios da loira, sem se deixar intimidar pelo delicado tubo de oxigênio preso ao nariz da namorada.
R: Eu queria saber pôr em palavras tudo o que estou sentindo agora. Toda a felicidade que é ter você acordada... Eu esperei tanto por esse dia e esperaria a vida toda se necessário! Mas que bom que não foi preciso! Porque é tão difícil ficar sem você! Tão difícil não ouvir sua voz! [chorava levemente]
Q: Sono... [murmurou]
R: Dorme, meu amor! Descansa... [sussurrou carinhosamente]
Q: Amo...
R: Eu também te amo! [sorriu levemente, beijando-lhe delicadamente os lábios]
Rachel pôs a cabeça no ombro de Quinn novamente e sentiu a loira apoiar o rosto sobre seus cabelos. Era tão bom ficar daquele jeitinho... Rachel não sabia mais o que dizer. Além de falar de amor, ela já não sabia mais como se expressar. Não sabia dizer que tudo ficaria bem. Ela não sabia se ficaria. E ela não queria mentir. Ela estava feliz. Ela estava apavorada...
Não. Não era fácil! Não era fácil ficar ali deitada por tanto tempo. Quinn sabia o tempo todo que estava no hospital. Quinn ouvia a voz de Rachel, mas seu corpo não respondia. Ela ordenava a ele que funcionasse, que se levantasse, mas nada... Foram dias, noites intermináveis... Dores de cabeça, corpo dormente... Parecia que aquela prisão dentro de sua mente seria para sempre. Mas Rachel estava lá. Ela sentia! Ela ouvia... Demorou até que seu corpo, finalmente, obedecesse às suas ordens! Respondeu. Ela articulou uma frase e a falou. Antes disso havia movido a mão. Vitória! As coisas pareciam caminhar corretamente. Pernas funcionando, braços, memória. O que poderia dar errado? Não havia luz. Ela não demorou a perceber isso. Rachel não tinha visto quando ela abriu os olhos pela primeira vez. Estava entretida beijando os dedos de sua mão. Naquele momento Quinn já soube que havia algo errado. Não havia mais luz alguma... Ela não chorou. Ela não se lamentou. Não fez nada disso porque Rachel já estava fazendo por ela. E a dor de Rachel lhe doía mais do que sua própria! Ela não ia chorar ali naquele momento. Não. Ela não faria isso. Guardaria seus medos, sua angústia... Ela havia acordado e não haveria mais lágrimas...
O abajur do novo quarto de Beth estava aceso e Noah abriu a porta para desligá-lo. Encontrou o Nemo de pelúcia no chão, enquanto a garotinha estava deitada, encolhida, com os olhos ainda abertos:
N: Hey, princesa! Você já devia estar dormindo! [repreendeu carinhoso] Seu Nemo caiu no chão. [abaixou-se para pegar]
B: Eu “jogou”! [respondeu triste antes que Noah o pagasse]
N: Jogou? Por quê? [sentou-se à beira da cama]
B: Eu “num gosta” mais dele! [choramingou]
N: Por quê, princesa?
B: Porque a “Kim num” gosta mais de mim... Ela “num” quer me ver mais... [escondeu o rosto choroso no travesseiro]
N: Hey! [exclamou] Quem disse isso?
B: Ninguém... Mas todo mundo “vê ela”, mas ela “num” quer me ver...
Noah entendeu que Beth ouviu alguma das conversas dos adultos e deduziu que todos encontravam Quinn, mas que Quinn não queria mais vê-la. Puxou Beth para seu colo e seu coração partiu ao ver sua filhinha chorando. Era cada vez mais incrível a ligação que ela tinha com Quinn!
N: Princesa, a Quinn está dodói! [explicava com calma] Por isso que ela ainda não veio.
B: Dodói? [arregalou os olhos surpresa]
N: É... Ela não veio porque não pode vir. E os adultos a viram porque ela está no hospital e não é um lugar bom pra criança ir. [continuava a explicar calmamente]
B: Mas “eu quer” ir! [disse brava] Eu “quer” ver a “Kim”! Eu “quer”! [insistia]
N: Amanhã eu te levo, ok?!
A garotinha assentiu freneticamente com a cabeça, apertando-se no abraço do pai. Afastou-se um pouco para esclarecer sua dúvida maior:
B: Então a “Kim” gosta de mim ainda? [perguntou temerosa]
N: Ela te ama! [respondeu sorrindo] E ela sempre vai te amar! [garantiu]
B: “Eu ama” ela também! [disse orgulhosa]
N: Eu sei!
Beth pulou do colo do pai e pegou o Nemo de pelúcia do chão, abraçando-o com força:
B: Desculpa, Nemo! Eu “num” fiz por mal...
[CONTINUA...]
Notas finais
No próximo capítulo veremos como está a saúde completa de Quinn e como as coisas serão daqui pra frente. Beth irá ao hospital e será fofa. ;-) Veremos o desenrolar da reação de Rachel e da própria Quinn. Teremos Santana e Britt também.
Meus planos de postar hoje mais cedo e, assim, postar MR e EAST na sequência, parecem ter frustrado, pois, pela hora, acho que não consigo mais postar "hoje". Devo postar durante a madrugada então. Mas não esperem. Não quero que ninguém deixe de dormir. :-) Amanhã vocês lêem.
Se tudo der certo, amanhã à noite, postarei o próximo de VSEEM. Mas não me pressionem, por favor! kkkkkkkkkkk Sem promessas! Sem cobranças!
Comentem!
E "Mel", feliz aniversário! Espero que goste do capítulo!
:-)
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