Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
16 Capítulo 16 - O confronto...
Notas iniciais
Sentada na grande sala, com uma grande mesa e janelas com grades, esperava a aparição daquele que não via há anos e que um dia tinha sido seu herói. A presença de dois guardas não lhe dava a segurança necessária para manter sua calma. Ela estava tremendo. Não sabia classificar o sentimento que a dominava, mas sabia que era uma mistura de decepção, raiva e medo... O barulho da porta fez seu olhar inseguro direcionar-se ao som. Lá estava ele: com o uniforme de cor laranja da cadeia, algemado com as mãos para trás e o sempre irretocável sorriso superior:
Russel: Quinnie... [disse com a voz melodiosa, como se não tivesse feito nada de errado. A loira não respondeu]
Ele se sentou à sua frente, separado pelos centímetros da madeira da mesa, com a mesma pose que usava quando estava sentado à mesa de jantar.
Russel: Eu me perguntava quando você apareceria para me ver. [apresentava um sorriso assustadoramente seguro]
Quinn não conseguia falar. Era uma situação surreal e assustadora. Aquele homem à sua frente não parecia em nada com o pai que ela um dia tinha amado, mas ao mesmo tempo, ele era igual ao homem que a expulsou de casa. Seus olhos claros endureceram diante dele. Bastou pensar naquela pose superior que ele apresentava, tentando matar sua namorada.
Russel: O gato comeu sua língua, Quinnie? [seu sarcasmo era irritante]
Q: Não me chame de Quinnie! [disse brava]
Russel: Claro que chamo! Sou seu pai! [disse autoritário]
Q: Você não é mais meu pai! [esbravejou]
Russel: Sempre serei, Quinnie! [sorriu]
Q: Você disse que eu não era mais sua filha! [disse irritada]
Russel: Eu já não penso assim, Quinnie! [disse com uma calma assustadoramente carinhosa]
Q: PARE! PARE! [gritou nervosa]
Russel: Não grite comigo! [advertiu]
Q: Grito! [impôs firmeza]
Russel: Veio aqui pra isso? Pra gritar?
Q: Eu quero saber o porquê! [disse agoniada] Por que você fez isso? [começava a chorar]
Russel: Isso o quê?
Q: Não seja cínico! [atacou]
Russel: Ah... Acho que você se refere à vadiazinha judia? [sorriu sarcástico] A cantorinha?
Quinn se levantou bruscamente e avançou sobre a mesa para atacá-lo. O guarda mais próximo a segurou. Por quase nada ela não esmurrou Russel.
Russel: Judia vadia e medíocre! É isso o que aquela cantorinha é! [seu tom era de completo nojo pelo que dizia]
Q: Cale a sua boca! [gritava] Você é um ser desprezível! Eu espero que você apodreça nessa cadeia! [debatia-se para se soltar do aperto do guarda que a segurava]
Russel: Você sabe que não será assim! [sorriu] Bom... Você me perguntou o porquê, né?! Não está claro, Quinnie?! Ela está destruindo sua vida. Levando você para o pecado e afundando o nome da nossa família.
Q: Do que você está falando? Que família?! [enfim, soltava-se, mantendo distância da mesa, continuando de pé] Você já não faz parte da família há muito tempo. Você me renegou!
Russel: Isso é passado! Eu sei que você se regenerou. Você abandonou a bastardinha e não ficou com aquele judeu bandido do Puckerman.
Q: Seu antissemita nojento! [deu um passo para trás, tentando aumentar a distância dele]
Russel: Me respeite que sou seu pai! [disse bravo]
Q: Meu Deus! Você é louco! [levou as mãos à cabeça]
Russel: Não importa! O importante é que você se livrou da bastardinha e do judeu!
Q: Eu não me livrei da minha filha! [gritou] Eu precisei abrir mão dela porque você me deixou sem nada. Eu não tinha casa, um lugar para criá-la. [chorava] Eu não tinha condições de dar um futuro a ela se eu não tinha sequer condições de me dar um futuro. Eu vivi de favor na casa dos outros. Nem minhas roupas todas você deixou que eu levasse comigo. [chorava ainda mais] Por sua culpa eu precisei abrir mão dela! [soluçava] Não havia emprego naquela cidade que me desse condições de mantê-la. Os disponíveis não me davam condições de sequer comprar fraldas para ela. Você me deixou sem plano de saúde. Eu não tinha nada! Por sua culpa eu virei uma pessoa amarga. Desde sempre você se dedicou a dificultar minha vida. Desde sempre! Por sua culpa eu cresci solitária! [chorava sem parar]
Russel: Nada do que você diz é sério. [dizia calmo, sem nenhum remorso] Você está cega por causa daquela pecadora.
Q: Meu Deus! Você é mesmo louco! [começava a andar de um lado para o outro]
Russel: Quinnie, você não deveria ofender seu pai! [repreendeu]
Q: Você não é meu pai! [gritou novamente]
Russel: Principalmente se seu pai vai ser solto em breve...
Q: Você não vai ser solto!
Russel: Se você quiser viver no pecado, aproveite enquanto pode. Quando eu estiver fora daqui, vou terminar o serviço que não concluí... [ameaçava]
Q: Vocês estão ouvindo? [gritou para os guardas, que nada responderam] Ele está assumindo que vai fugir.
Russel: Eu não vou fugir, Quinnie. Vou sair pela porta da frente! [disse sorrindo]
Q: Que loucura é essa?! [indignava-se] Seu maluco! [esbravejava]
Russel: Se você não quer que eu conclua, deixe-a, como deixou a bastardinha e o judeu.
Q: Meu Deus! [levava as mãos ao rosto] Ele está fazendo ameaças! Vocês não vão fazer nada? [perguntava agoniada aos guardas, que se mantinham calados] De onde você surgiu? Por que você reapareceu? Por que você não continuou sumido? Por que não foi pro inferno? [gritava chorando]
Russel: Sabe... Eu até pensei em aceitar a bastardinha em nossa família...
Q: Cale a boca!
Russel: Mas eu pensei melhor e concluí que ela jamais será uma Fabray pura. Ela tem sangue daquele bandido judeu nas veias.
Q: Cale a boca! Cale a boca! [gritava]
Russel: Vamos reconstruir nossa família, Quinnie. Seremos, novamente, a família mais influente de Lima. Só preciso me livrar daquelazinha.
Quinn avançou novamente e dessa vez conseguiu pegá-lo pela gola do uniforme:
Q: Se você chegar perto dela, eu mato você! Entendeu?! [ela nunca tinha falado tão sério em toda a vida]
Russel: Você jamais faria isso! [deu de ombros]
Q: Eu mato você! [gritou, sem se importar com a presença dos guardas] Não ouse chegar perto da minha família. Não ouse chegar perto da Rachel de novo. Eu mato você sem qualquer remorso. [prometeu, olhando diretamente nos olhos dele]
Russel: O que é isso, Quinnie? Estamos vendo uma grande semelhança entre pai e filha? [arqueou a sobrancelha]
Quinn o soltou. Seu corpo tremia de raiva. Seu rosto estava vermelho e seus olhos eram puro ódio.
Russel: Veja só! Parece que não sou só eu quem usa a morte como opção para resolver os problemas. [piscou-lhe]
Estranhamente, os guardas presentes não se preocuparam em conter a loira. Deixaram que ela exprimisse toda sua raiva contra ele. Fingiram não ver nem ouvir o que ela fazia ou dizia. Ela não saberia dizer quantos tapas deu no rosto de Russel. Estava transtornada e só piorava ao ouvir as gargalhadas dele.
Q: Eu odeio você! Odeio! Eu espero que você morra! [gritava chorando]
Quando viram que ela perdia as forças, os guardas a seguraram e a afastaram dele. Um terceiro guarda entrou e forçou Russel a se levantar para levá-lo de volta à cela.
Russel: Nos veremos em breve, filha! E tudo será como antes... [disse sorridente]
Quinn estava aos prantos sob a chuva. Não conseguia entrar no carro. Buscou o celular com as mãos trêmulas e discou rapidamente o número que sabia de cor...
Q: Eu preciso de você! Por favor! Eu preciso de você... [chorava desesperada ao telefone]
Vinte minutos depois, Santana chegava num táxi, preocupada.
S: Por que você não me chamou para vir com você, Q? [perguntava abraçando a amiga]
Q: Só me tira daqui, S! Só me tira daqui! [implorava]
No caminho para casa, mesmo aos prantos, Quinn contou tudo à Santana, deixando a latina completamente chocada e furiosa.
Q: Eu não quero que a Rachel saiba que eu fui vê-lo. [chorava menos]
S: Certo. [concordou]
Q: E eu preciso arrumar um bom advogado para auxiliar a acusação. Eu sei que a defesa vai acabar alegando insanidade. Ele parece louco, Santana! Eu não posso permitir que ele seja declarado insano. Ele precisa pagar pelo que fez. Ele precisa ficar preso. [dizia determinada]
S: Um bom advogado deve ser caro...
Q: Não me importa! Eu vendo o carro, arrumo um emprego... Eu pago o que for preciso! [afirmou segura]
S: Eu vou pedir indicação aos meus professores.
Q: Por favor, faça isso! [pediu]
S: Eu posso fazer mais alguma coisa por você? [perguntou atenciosa, sabendo que a amiga estava péssima]
Q: Não, S! Obrigada... [disse fraca]
O resto do caminho foi em silêncio, até que Quinn avistou uma igreja:
Q: S, você poderia parar?
S: Está chovendo muito, Q!
Q: Eu preciso ir à igreja. Por favor! [pediu]
Havia um bom tempo que ela não entrava numa igreja de verdade. E se sentia mal por isso... A última vez que tinha chegado perto disso foi na capela do hospital, quando rezou pela vida de Rachel. A cada passo que dava pelo grande corredor, sentia como se sua fé lhe desse um pouco da paz que já não tinha. Escolheu um dos inúmeros bancos e se ajoelhou. Mais uma vez, começar a oração estava sendo difícil. Havia muita confusão em sua mente e coração... Respirou fundo:
Q: Senhor, peço perdão por faltar. Por não visitar Tua casa, por não orar com frequência. Por favor, me perdoe! Eu preciso de Tua força e do Teu perdão! Por favor, retira de mim este ódio que me sufoca! Me perdoa por senti-lo! Me perdoa! [chorava] Me perdoa por me descontrolar e ameaçar aquele homem terrível! Me perdoa por odiá-lo! Eu não quero ser igual a ele! Eu não quero carregar comigo tanto sentimento ruim! Eu me odeio! Eu não quero me odiar! Por favor, Senhor! Livrai meu coração de tanto mal. Por favor, me devolva a paz! Eu preciso de paz! Me perdoa! Me dá forças para suportar o medo e para proteger quem eu amo! Eu sei que estou pedindo muito e sei que não tenho sido uma filha exemplar, que não tenho orado como deveria. Mas, por favor, não me castiga! Não me tira o que tenho de mais importante e não me transforma numa pessoa má! Me dá forças, Senhor! Me dá forças...
Santana precisou intervir. Quinn voltava a chorar muito e a latina não sabia o que fazer além de tirá-la dali e levá-la pra casa. Por sorte, era dia de Rachel chegar mais tarde, então Santana pôs a amiga debaixo do chuveiro e lhe deu um banho quente, para tentar amenizar os efeitos da chuva. Depois que saiu da igreja, Quinn ficou em silêncio e não falou mais nada. Após o banho, deitou-se. Sua mente estava pesada demais para se manter de pé, mas precisou tomar um calmante para dormir.
Era quase noite quando Rachel chegou em casa. Santana já tinha saído, deixando Quinn adormecida. A morena foi até o quarto e estranhou o fato de a namorada já estar dormindo. No banheiro viu as roupas molhadas. Subiu na cama e tocou em Quinn, descobrindo que ela ardia em febre. Preocupou-se...
R: Quinn? Amor? Acorda! [chamava baixinho, mas não adiantava] Amor...
Rachel se preocupou ainda mais porque ela não acordava e foi ao 112 chamar Santana.
S: Calma, Berry! [tentou tranquilizá-la] Eu dei um calmante a ela porque ela não queria dormir. Ela tomou chuva e estava toda cansada, mas se recusava a dormir. Você sabe como ela é... [tentava convencê-la]
R: Mas, Santana! Agora ela está apagada e eu não consigo dar remédio para a febre dela! [disse agitada]
S: Relaxe! Ela vai acordar. Se ela não melhorar, chamamos um médico e ele dará o remédio intravenoso, ok?! Mas relaxe! Não é uma febre tão alta! [tentava acalmá-la]
Rachel voltou ao 110 e correu para o quarto. Pegou mais cobertores e cobriu Quinn. Molhou um lenço com álcool e ficou passando na testa dela. Se não poderia medicá-la naquele momento, usaria métodos artesanais para cuidar da loira.
Horas depois, Quinn acordou. Sua cabeça doía muito e seu corpo mais ainda. Tentou se levantar, mas se viu presa pelo abraço de Rachel. A morena havia adormecido depois de achar que a febre dela havia baixado. A loira se virou e a abraçou, despertando-a sem querer:
R: Quinn? [murmurou] Você acordou?
Q: Shhhh... Continue dormindo, meu amor! [pediu baixinho]
R: Eu preciso te dar remédio pra febre! [despertou acelerada, levantando-se]
Q: Mas...
R: Mas, nada! [interrompeu] Antes que você durma de novo...
A morena voltou à cama com o copo d’água e o remédio. Logo depois, mediu a temperatura da loira e voltou a deitar com ela, cobrindo-as.
R: Quando você melhorar vai me explicar direitinho o que deu na sua cabeça para pegar chuva. Sua roupa estava encharcada!
Q: É que...
R: Quando você melhorar, Quinn! [interrompeu] Agora eu vou cuidar de você! [beijou-lhe a testa, abraçando-a carinhosamente]
Quinn apertou ainda mais o abraço. Rachel pensou que fosse por frio, ou simplesmente o carinho de sempre. Não sabia ela que naquele abraço havia mais. Havia a necessidade de senti-la e de segurá-la. Segurá-la para sempre! Protegê-la para sempre! Tê-la pela vida inteira...
Notas finais
Aguardo comentários!
Beijos!
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