Você Me Perdoa?
6 Monstro
Notas iniciais

Por Gaio
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Estava quase amanhecendo. Nami descansava solenemente por causa da anestesia dada a ela. Por muita sorte, a bala não atingiu nenhum de seus órgãos, mas deixou uma ferida no corpo dela que a fez agonizar de dor por muito tempo.
Após receber uma ligação de Kid, Law obrigou Koala a revelar a localização do abrigo dos Revolucionários, onde ele e seus homens não foram muito bem recepcionados, mas o cirurgião não estava preocupado com cerimonias, pois Nami precisava de cuidados imediatamente.
Law estava no batente da porta do quarto de Nami, guardando seu sono, olhando o rosto que agora parecia aliviado de toda dor que sentiu antes de chegarem ali. Os traços tão fortes e também tão infantis dela lhe hipnotizavam, como se o tempo tivesse paralisado para ela, conservando aquilo que tinha de mais puro e belo.
A cirurgia para remover a bala não demorou, mas cada segundo pareceram horas... Horas de suplicio para ela, e de castigo para ele.
Vê-la ferida lhe causou um medo que Law não sentia a muito tempo, despertando coisas dentro do cirurgião das quais ele jurava terem ficado no passado, enterradas em um lugar profundo e por lá esquecidas. Mas seus instintos ainda estavam completamente vívidos, acobertados pelos anos de vida pacata, esperando o momento exato para incendiar dentro dele. E aquela situação os traziam de volta pouco a pouco, por mais que ele tentasse evitar.
Eram como uma sombra. Escondiam-se nos lugares mais estreitos e perduravam até mesmo nos seus dias mais iluminados e felizes. Não importa o quanto Law ignorasse... quando o sol se punha, seus demônios ressurgiam pelas cinzas da sua dor, pequenos fragmentos que ainda residiam em si...
... mesmo que ainda não soubesse disso!
Ele sentia seu corpo mexer-se por conta própria, incentivado pelos sentimentos que cresciam devagar, mas que conseguiam retê-lo de uma forma poderosa, se alastrando rapidamente como um parasita letal; os músculos tencionavam, sua mente falhava em imagens do passado, o desejo lhe subia pela pele como um arrepio e o sangue corria mais rápido, cheio de adrenalina.
... vozes sussurravam... chamavam por ele...
Novamente... as feridas corriam como unhas arranhando a carne viva, e se ele permitisse, elas atenderiam pelo seu apelo.....
Law sacudiu a cabeça e passou a mão nos olhos.
Se algo acontecesse a ruiva, ele não conseguia sequer pensar no que era capaz. Só de olha-la nesse estado, seu corpo tremulava de furor numa medida em que desnorteava seus sentidos e lhe impedia de manter o autocontrole sobre seus atos.
Por que as coisas tiveram que mudar? Será que Nami não percebia que a única coisa que estava fazendo era colocando as pessoas que amava e a si mesma em perigo? Por que tinha que agir com tanta imprudência? E agora que ela conseguiu chamar a atenção de Doflamingo, essa historia ia mais longe do que o previsto. Dar um passo estava cada vez mais perigoso
Nami estava bem agora, mas não estava fora de perigo. E ainda tinha Rosinante, que continuava na mansão como prisioneiro. Tudo porque sua esposa não conseguia esquecer a ideia tosca de vingança.
Ele não deveria tê-la deixado sozinha, pois era claro que nada se resolveria apenas com uma conversa. Law esteve ignorando o problema porque achava que já havia sido resolvido, mas a verdade era que Nami não pararia enquanto não alcançasse seu objetivo.
O cirurgião fechou seus olhos e suspirou, fadigado.
Como se estivesse enterrado em areia movediça, Law se via afundar cada vez nessa briga, e não havia escapatória.
Ele se perguntava porque Doflamingo perdia o seu tempo com algo tão supérfluo, como se não pudesse resolver isso num piscar de olhos. O que raios estaria planejando? Quais eram suas verdadeiras intenções?
No final, nada disso importava, a única coisa da qual tinha plena certeza era que precisava proteger as pessoas que amava. Precisava proteger Nami da maneira que pudesse. Ele só estava fazendo isso porque sabia que ela se metia em algo que não conhecia. Porque ela era seu único ponto de luz, a única que conseguiu espantar os horrores do passado.
Ele não poderia perde-la. Não outra vez.
As dúvidas e ressentimentos do cirurgião eram tamanhos que talvez até transbordassem para fora do corpo, pois Kid ficou receoso em chamá-lo quando o viu; os olhos vidrados e o rosto transparecendo fragmentos do que sentia. O cirurgião havia mudado, parecia mais vulnerável depois de anos fora daquele mundo do qual ele ainda vivia, mas ainda sim, sem deixar que pudessem deduzir o que se passava pela sua cabeça.
Law percebeu o ruivo se aproximar, mas ficou em silencio. Kid parou a sua frente e também mirou Nami por alguns segundos, e um leve sentimento começou a arder nele.
— Da para ver que pelo gene... é a ruiva quem manda na casa, não é? – Começou ele, lançando um sorriso zombeteiro para Law.
— Por que você consegue ser inconveniente em todas as situações? – O cirurgião respondeu em tom baixo, mas do seu típico jeito frio.
— Ah, relaxa, Law! Sua garota está viva graças ao seu... xarope mágico e aquelas agulhas. Ao menos nisso você é bom, e alias... de nada mais uma vez!
Law ergueu uma sobrancelha olhando com desdém para o ruivo.
— Você que vive arriscando sua vida deveria saber o básico sobre medicina, me admira muito que você ainda esteja vivo. E eu também não tenho que te agradecer, esse é seu pagamento por todas as vezes que salvei sua vida! ... Falando nisso, como vai aquela glutã?
O cirurgião usava seu típico tom arrogante, Kid por sua vez respondeu apenas uma carranca na face enquanto veias estouravam na sua testa, pensando que essa aliança era uma péssima ideia. Law continuou.
– Ela ainda continua te usando para os planos dela, ou você decidiu acabar com os joguinhos entre vocês?
Law retrucou calmo e solene, desta vez sorrindo maliciosamente, pois adorava dilacerar o orgulho do rebelde, e ele conseguia fazer isso com muita facilidade, já que conhecia os pontos fracos do rebelde.
Kid desviou o olhar soltando uma risada cortada, pensando que o antigo Trafalgar Law ainda estava ali. Para seu bem ou mal.
— Você não mudou nada, Trafalgar! Continua a mesma pessoa insuportável de sempre. Deve ser por ser isso que sempre acaba sozinho.
— Deve ser! – Respondeu Law, indiferente.
— Venha – disse o ruivo enquanto se afastava – Estão te chamando lá embaixo. Aquele loiro consegue ser pior do que você em me tirar a paciência, então não demore, senão seu plano vai voar pela janela junto com ele.
...
Eles se reuniram na cozinha improvisada dos Revolucionários: Kid, Law e Sabo estavam sentados ao redor da mesa, enquanto os outros ficaram de pé, acompanhando a conversa com os nervos a flor da pele. Por mais que Law não quisesse guerra, Kid e ele levaram alguns de seus homens por segurança, já que não seria uma conversa nada fácil de conduzir, pois todos tiveram desavenças no passado, no tempo em que Law ainda era um rebelde.
— Isso não fazia parte do acordo. Eu não confio nesse aí, quem me garante que o informante não é alguém do seu grupo?
Kid se levantou bruscamente de onde estava sentado e apontava para Sabo com asco nas palavras, enquanto o Revolucionário apenas escutava em silêncio.
Os olhares desconfiados iam e vinham de integrante para integrante, e todos os membros presentes seguravam suas armas, prontos para um ataque.
Law fechou seus olhos e suspirou. Ele sabia que não seria fácil convencer Kid a trabalhar com os Revolucionários, mas eles não tinham muitas escolhas, e até mesmo Sabo sabia disso. Se agissem por conta própria, eles apenas se atrapalhariam e ninguém conseguiria atingir seu objetivo final.
Além do mais, Sabo era o único que tinha contato direto com os agentes do Serviço Secreto e com o Rei das Trevas, e Law precisava de todos agissem de acordo para que conseguissem resgatar Rosinante com vida.
Mas não era apenas o ruivo que achava a ideia de uma aliança uma coisa desagradável.
— Como é que é, seu cretino? — Belo Betty, comandante dos Revolucionários se aproximava de Kid, seus olhos ardiam de raiva – Meça suas palavras muito bem enquanto estiver entre nós. Nossos homens possuem honra, muito diferente de vocês, rebeldes, que saqueiam, traem e matam por prazer e sem nenhum pudor. – Ela ficou a centímetros do ruivo enquanto falava – E se esses dois estiverem aqui por ordem de Doflamingo, Sabo? Ou quiserem nos entregarar em troca do marinheiro?
A mulher levantava seu rosto de modo pedante e intimidadora, mas Kid riu dela.
— Honra? Você quer me falar sobre honra? Não seja hipócrita! — O ruivo baixou seu o tom de voz de modo assombroso, diminuindo ainda mais a distancia entre eles.
— Vocês iniciam guerras por causa de um discurso xucro de paz que nem vocês mesmos acreditam, e ainda carregam a vida de pessoas inocentes junto, pessoas que nunca fizeram parte disso e tiveram muito menos que todos vocês em toda sua existência insignificante. Onde há honra nisso?
Betty fitou Kid completamente desacreditada com as recentes palavras dele. Ele não apena havia lhe desrespeitado, como também fez pouco caso dos seus companheiros, insultando a luta que o Exército Revolucionário veio construindo por anos.
Eustass Kid sabia ser impiedoso mais do que qualquer um que já tinha visto.
As mãos dela tremiam de raiva.
— Betty... Doflamingo não é o tipo de pessoa que se esconde por trás de ações pequenas. Se estivéssemos aqui por sua ordem, ele faria questão de que soubessem disso. – Law respondia à pergunta da comandante calmamente, ainda de olhos fechados, tentando cessar a discussão. Mas não seria tão simples assim.
— E a sua presença já não significaria isso? – Desta vez, outro integrante dos Revolucionários, Bunny Joe, levantava acusações sobre Law.
— O que quer dizer com isso? – Law perguntou dirigindo um olhar gélido ao homem, segurando a espada que estava entre suas pernas. Sachi e Penguin estavam atentos a qualquer movimento que ameaçasse o cirurgião. Mesmo que já fizesse anos, eles ainda o consideravam como seu capitão.
Bunny Joe não se intimidou.
— Por mais que diga que não tem nenhum envolvimento com Doflamingo, ainda é irmão dele. Para mim, não há mensagem mais clara. – Respondeu.
— Sabo, eu também não concordo com isso! – Hack, que estava encostado numa parede, dava sua visão ao seu capitão. – Trafalgar Law já se mostrou ser alguém do qual nós deveríamos ter cuidado mesmo o tendo como aliado. – O homem se dirigiu a Law com os olhos semicerrados – Nossos companheiros têm marcas até hoje por sua causa.
Law sorriu, entrelaçando as mãos na frente do rosto.
— Ora... eu não sabia que você era do tipo que guardava rancor.
— Heh...! – Betty soltou uma risada sarcástica para o cirurgião – Me impressiona que a ruiva ainda esteja com você depois de todas as atrocidades que fez na vida! A não ser que você tenha sido covarde e não contou nada a ela.
— Betty! – Repreendeu Koala.
O médico apenas a olhou pelo canto dos olhos, e sabia que precisava rebater de uma maneira que não pudesse mais ser desafiado, porque se ela se atrevesse a ir mais longe, Law não se responsabilizaria por seus atos.
Assim, com um olhar petulante, o cirurgião sorriu de canto para a revolucionária.
— Ser uma incapaz que não consegue nem mesmo impedir que seus companheiros morram não parece ser algo pior para você?
E após essa declaração, Betty abriu seus olhos mais que o comum e passou a agir por impulso, apontando sua pistola para a cabeça do cirurgião. No seu movimento, todos os outros membros também reagiram.
Sachi protegeu Penguin mantendo os outros Revolucionários longe, enquanto este mirava em Belo Betty. Kid e Killer também não perderam tempo e movimentaram rapidamente, empunhando suas armas.
A mulher rangia os dentes e seus olhos ficaram levemente lagrimejados. Law permaneceu na mesma posição, e com o mesmo sorriso na face.
— E então... Betty? – Provocou.
— Seu desgraçado... eu vou–
— Já chega! Parem imediatamente com isso!
Sabo se erguia da mesa e colocava um basta naquela discussão.
— Não vamos chegar a lugar nenhum nos atacando, estamos apenas dando mais tempo para o nosso inimigo atuar antes de nós, e ele já fez isso. Abaixem suas armas, é uma ordem!
O loiro mudou completamente seu semblante calmo para algo mais severo, e havia falado não apenas com sensatez, mas como um líder que precisava manter a harmonia entre seu grupo e lhes lembrar do porque estavam ali. Seu olhar tinha uma força vigorosa, Law conseguia senti-lo mesmo que não fosse alvo dele. Ainda que receosos, os revolucionários seguiram a ordem do líder. Os outros os seguiram.
— Não precisam gostar da nossa causa e nem gostar um do outro, mas o fato é que precisamos de vocês tanto quanto vocês precisam de nós. – Continuava em tom firme, se dirigindo a Kid – Temos objetivos distintos, mas um alvo em comum. Podemos resolver isso de maneira rápida e sem que vidas corram perigo se trabalharmos juntos.
O loiro olhou para Hack, e logo depois para Betty com o rosto mais ameno. Era claro que aquela situação também lhe abalava, e ele não parecia nem um pouco preocupado em esconder isso.
— Devemos deixar nossos sentimentos e motivações pessoais de lado, ao menos por hora, porque é por algo maior.... Precisamos pensar em como vamos tirar o Corazon das mãos do Doflamingo, já que ele é nossa garantia de que o Serviço Secreto não vai atacar a cidade.
— Eu sei como!
Nesse momento, todos se viraram para a dona da voz que invadia a reunião, quebrando o clima denso.
Nami estava parada na entrada da cozinha, segurando o local onde fora atingida.
— Desculpem me atrasar para a reunião... mas, tive um pequeno imprevisto.
Ela sorria de uma maneira enigmática da qual Law não conseguiu compreender muito bem o sentido daquele sorriso. Enquanto Sabo e Koala foram até a ruiva para se certificarem de sua saúde, Law ficou estático. Parado no mesmo lugar, olhando atentamente sua esposa que parecia tão bem, mesmo sendo ferida de uma maneira que lhe impedisse de se mover por pelo menos uma, ou duas semanas.
Ela havia trocado de roupa: vestia uma regata estampada, uma calça de sarja clara e sapatilhas. Sua pele tinha voltado para a cor normal, mais seu rosto ainda estava vermelho e com leves sintomas de cansaço, talvez por causa da febre. Lhe surpreendia que conseguisse ficar de pé tão cedo.
Por um momento seus olhos se encontraram e seus corações dispararam instantaneamente. Foi um momento breve, mas o tempo permitiu que cada segundo durasse uma eternidade para que pudessem ler um ao outro com calma, e se apreciar esquecendo o resto do mundo.
A primeira coisa que Nami sentiu foi um alivio enorme por ver o cirurgião, a poucos metros de si. A preocupação que tomava conta de si fora dissolvida em outros sentimentos, tão familiares, e que se tornaram tão recorrentes nos últimos dias.
Ela sabia que ele só estava ali por causa dela, porque agira imprevidentemente, preocupando não apenas a ele, mas todos os membros dos Revolucionários que se esforçaram demais para que ela e sua irmã ficassem seguras e que também participaram do seu resgate. Mas ao mesmo tempo, ela pensava em qual parte dessa história ele estava envolvido.
Nami tinha muitas perguntas, muitos questionamentos, mas agora precisava relatar tudo o que lhe aconteceu e como eles poderiam tirar proveito disso.
Law ouvia atentamente cada palavra da ruiva, entretanto...
O que ele mais queria fazer era abraça-la; quebrar aquela barreira entre eles que parecia cada vez maior antes que fosse tarde. Antes que se transformasse em algo catastrófico. Parecia que ficaram longe um do outro por um extenso período, e toda vez que ele mirava a ruiva ela estava mais e mais distante, porque pela primeira vez ele se via diante de uma face da esposa da qual conhecia, mas que nunca tinha presenciado antes.
Nami mostrava a todos presentes que também podia fazer parte daquilo, não apenas como uma interlocutora, mas atuando na linha de frente.
Um receio avassalador começou a crescer dentro do peito do cirurgião, de que Nami pudesse se perder nas suas emoções, desconsiderando todos os riscos.
E isso ele não podia permitir.
— Isso pode ser o álibi que precisávamos. – Afirmava Killer após Nami contar seu plano.
— Se eu conseguir tirar Doflamingo de cena durante o baile, será uma brecha para resgatar Rosinante.... Por favor, me deixem fazer isso!
A jornalista olhava com muita convicção, mas Law via como seus braços tremiam quando ela se apoiou na mesa.
— Nami-san, você tem certeza? – Sabo perguntou a ela, claramente aflito com o fato dela estar machucada.
— Absoluta. Eu ainda tenho uma semana para me recuperar. Eu consigo.
Nami estava no auge da sua força, resistindo piamente, mas talvez ela tivesse subestimado sua febre, e antes que perdesse o equilíbrio, Law a acudiu, segurando-a pelos ombros. Eles se entreolharam pela segunda vez.
— Você precisa descansar! – Disse o cirurgião, e Nami concordou com um aceno singelo. Estava tímida.
Assim, a reunião fora encerrada, e voltaria assim que todos descansassem daquela noite agitada.
~•••~
Law levou Nami de volta para o quarto, um lugar muito mais agradável do que aquele que tinha ficado na primeira vez que a trouxeram para o abrigo. Era um cômodo um pouco maior, tinha uma cama de casal, um armário onde podia guardar suas roupas, uma escrivaninha, um banheiro próprio, e uma janela onde podia ver um pouco mais do céu.
O cirurgião ajudou a ruiva a sentar-se na cama com muito zelo, depositando-a sobre o colchão quase como se seu corpo fosse algo facilmente quebrável.
Nami observou o cuidado extremo que ele estava tendo com ela, mesmo depois de dar tanto trabalho a todos.
Law abriu a janela para deixar o vento entrar. Ele vestia suas típicas roupas; blusa preta de mangas compridas, calças e sapatos, mas diferentemente de todas as vezes, agora tinha uma espada amarrada em suas as costas que atiçava as memorias da ruiva.
— É exatamente como imaginei.... mas nunca pensei que a veria um dia. – disse ela sobre o objeto.
Law sorriu com o coração, se recordando de momentos onde eles madrugavam desbravando historias do passado. Ele como um rebelde, a procura de aventura, e ela como uma ladra, buscando sua libertação. Dois destinos muito parecidos que trilharam por uma trágica estrada de tristezas, sugando-lhes o encanto pelo mundo.
Eles já haviam passado por tantas coisas... era completamente errado deixar que Nami ainda sofresse daquela forma. Isso precisava de um basta.
Law apoiou sua espada no canto da parede e se aproximou da ruiva, agachando-se a frente dela e colocado a mão sobre sua testa.
— Como se sente? – Perguntou ele.
— Um pouco fraca... fadigada, e também com frio.
— É o efeito da febre. Precisa tomar os antibióticos que deixei para você, e repousar o máximo que conseguir.... Ainda sente dor?
— Não... estou bem!
O cirurgião apanhou um lençol que estava perto e cobriu a ruiva. Este pequeno ato acalorou o coração dela que guardava apenas agonia desde que ele a deixara no aeroporto há quase uma semana.
Além de tudo, era estranho estarem juntos novamente depois de terem dado adeus uma vez.
Nami fitou o rosto do cirurgião, se atentando para a nova cicatriz que ele tinha do lado direito da testa. Ela se lembrou que Rosinante e ele haviam sido vitimas de uma emboscada, ocasionando um terrível acidente, e se sentiu amargamente culpada por isso. Law havia se ferido e Nojiko teve que abandonar a fazenda: todas as suas tentativas de não envolver as pessoas que amava haviam falhado.
Ela levou suas mãos aos cabelos do cirurgião, que não se moveu e deixou que a ruiva se aproximasse, comprimindo a distancia entre seus rostos num leve e carinhoso toque, onde seus lábios ficaram a centímetros um do outro. Instintivamente, ela fechou seus olhos, sentindo a energia e o calor da pele e da respiração dele acoplada a sua.
— ... É tão bom... ter você aqui!!
Nami dizia centenas e centenas de palavras na sua respiração ofegante.
Ela havia se esforçado tanto para que ninguém sofresse as consequências dessa luta que travava contra os fantasmas do seu passado.
Nami sempre esteve na beirada do abismo, sem coragem de dar o passo decisivo. Se via presa num ciclo vicioso onde tentava vencer os próprios obstáculos, onde todas as vezes que tentava fazer algo certo, acabava enlaçada pelos seus medos que a trazia de volta para o escuro.
Precisou que corresse um grande perigo para entender seu erro.
E como fora tola.
Ela nunca conseguiria enfrentar seus medos e anseios se estivesse sozinha, e agora que se via tão perto de poder alcançar sua liberdade, conseguia enxergar com clareza... que se tivesse quem lhe segurasse pela mão, ela poderia vencer. Poderia realizar aquilo que sempre sonhou e se soltar daquele pesadelo que nunca abandonou seu coração... o pesadelo que nunca a deixou viver sua própria vida.
Aos poucos, Law também fechava seus olhos, inebriado naquele aroma agridoce tão aprazível que vinhas das madeixas ruivas. Ele escorregou seus dedos pelo pescoço, subindo vagorosamente pela pele aveludada, entrelaçando os fios dos cabelos dela nas mãos. Aquilo lhe trazia uma sensação nostálgica e sedenta. Seu corpo pedia incansavelmente por ela.
Há poucos dias ele pensou que nunca mais sentiria aquele perfume outra vez, engolindo a seco o fato de ter soltado aquela que afastava toda a escuridão do seu coração... Mas ela estava ali de volta, sua doce e frágil boneca de porcelana.
Ele tinha decidido que não a deixaria mais. Não admitiria que nenhum mal lhe acometesse, ou que se afogasse em magoas passadas.
Assim, Law recuperou o autocontrole e delicadamente segurou os pulsos femininos, encarando os orbes castanho. O que ele viria a dizer deixaria Nami extasiada e completamente confusa.
— Nami-ya... preciso que pegue suas coisas e saia imediatamente da cidade.
Nami permaneceu em silencio absoluto, piscando algumas vezes enquanto tentava achar sentido para o que acabara de ouvir. Aos poucos, ela se afastava do cirurgião, e uma expressão de perplexidade tomava conta do seu rosto.
— ..... o... o que? – Disse quase num sussurro.
Law se ergueu sem tirar os olhos dela.
— Não posso permitir que se arrisque mais do que já fez. Saia da cidade, e deixe que eu resolvo esse problema junto com o Revolucionários. Eu irei ao seu encontro depois disso.
Nami não conseguia se mover. Ela não podia acreditar naquele pedido que ia contra tudo o que ela esteve trabalhando arduamente. Mas se ela explicasse, talvez Law mudasse de ideia. Agora que aceitava sua posição, ele não podia pedir para que fugisse.
— Não pode me pedir isso! – Disse enquanto ficava de pé, frente a frente com cirurgião. Seu olhar estava repleto de suplicio. – São anos... anos em que estive reunindo forças para finalmente enfrenta-lo. Ele alimenta pessoas como o Along, que destruiu a minha vida, e continua destruindo a vida de muitas pessoas inocentes no Leste....
Law ouvia calado as palavras fervorosas da jornalista, palavras cheias de cólera e convicção.
— Eu jamais vou conseguir dormir se não fizer isso. Eu não posso simplesmente ficar de braços cruzados enquanto vocês lutam.
Nami havia diminuído sua voz e abaixado a cabeça de maneira defensiva. Para que o cirurgião não visse a tristeza em seu rosto, por que ela havia finalmente entendido suas duvidas e receios.
Ela não tinha noção de que enfrentar seu passado seria algo tão doloroso, e esperava que Law pudesse finalmente entender suas atitudes. Entretanto...
Sua explicação só serviu para deixar o cirurgião irritado... extremamente irritado.
Desde que essa confusão se iniciou, ele vinha sentindo um ódio crescente que se apossava dos seus sentidos. Memórias e cicatrizes que reabriam e revelavam as trevas que habitavam seu peito, e que ele escondia com tanto ímpeto... até mesmo dela.
— Isso não a ver apenas com você, Nami. É muito maior do que pensa, você não sabe aonde vai se meter.
— Você não confia em mim? – Nami voltou seus olhos para o cirurgião. – Eu sei de todos os riscos, e sei que posso fazer isso!!
Law respirou e tentou manter a calma. Ele não podia deixar que Nami se envolvesse nisso, e acabasse por se deparar com uma face que ele nunca lhe revelou antes.
— Por que insiste tanto nisso? A sua vida agora é outra, algo completamente diferente do que já foi um dia. Deixe o passado no passado.
“Convença-a.... Faça-a desistir.... ”
— Acha que eu já não tentei? – Nami elevou sua voz. Os olhos cintilavam como o reflexo da lua na água. Penosos e soturnos. – Eu não vou conseguir viver minha vida se não me livrar desse peso. Eu nunca vou ser a melhor pessoa para você se continuar a me esconder de mim mesma.
As palavras da ruiva caiam sobre o cirurgião como se fossem uma enorme onda, repleta das verdades que ele ignorava. O empurrava para uma direção que ele não queria ir, e toda vez que se desviava, era levado de volta a encarar sua verdadeira realidade.
Cada gesto dela lhe queimava impiedosamente por dentro como se álcool lhe fosse injetado na veia, lhe tirando de orbita e arrancando sua sanidade. Fazendo emergir seus piores temores e assombrações, revelando seus piores medos.
Por que Law não queria admitir....
... que fugir de si mesmo era exatamente o que ele fazia!
Por que ela precisava complicar tanto as coisas? Por que precisava remoer algo do qual ele já havia resolvido? Por que sempre fazia coisas que lhe irritavam tanto?
Elevado pela aflição, Law começou a falar em nome da raiva. Avassaladora e altamente feroz.
Lá estava ela... a faceta ocultada durante todos os seus anos de casado, e que ele sabia que uma vez em cena... não havia como voltar atrás.
— Você... está agindo como uma criança que não sabe a hora de parar. Confiar em você? Não me faça rir.
Law havia mudado completamente suas feições. Seu olhar estritamente ameaçador fez Nami recuar. Ela se sentiu tão pequena diante da ira do médico que encolheu os ombros na intenção de se proteger.
— Por que pensa que pode se comparar a pessoas que são claramente mais fortes do que você? Você já ia embora de qualquer maneira. Por que acha que suas ações fazem alguma diferença?
Law fala em tom baixo, o timbre grave de sua voz fazia Nami estremecer, e enquanto ele se aproximava ela teve uma vontade imensa de desviar os olhos. Nunca se sentira tão coagida antes.
— Se livre dessa síndrome de grandeza e admita de uma vez para si mesma... que não passa de um estorvo na caminho de quem realmente consegue fazer algo de útil.
Nami abriu seus olhos e antes que pudesse pensar já havia agido...
Deferindo um tapa certeiro no rosto do cirurgião.
— Você.... é um monstro!
Nami não desviou o olhar nem por um segundo, deixando que o brilho dos seus olhos se transformassem em lagrimas que ela estava evitando todo esse tempo, cuspindo cada palavra com grande repulsa.
Ela estava tão atônita que não conseguia nem mesmo respondê-lo... Aquela não era a pessoa com quem havia se casado.
— Isso tem a ver com Doflamingo, não é? – Law acendeu seus olhos com as suposições da ruiva. – Por isso você está hesitando, mas não tem importância. Eu não preciso de você para resolver meus problemas.
Nami o empurrou para o lado indo em direção a porta, e antes de girar a maçaneta, lançou um ultimo olhar para o cirurgião.
— Deveria olhar para si mesmo e repensar seus conceitos de fraqueza!
Assim, Nami bateu a porta atrás de si, deixando o cirurgião completamente sozinho.
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