Logo ela estaria ali. Liesel sabia. Deitada naquela cama, no auge de sua velhice, a idosa sabia que a Dama Fria estava lá, pairando ao seu lado, perto da cabeceira, assistindo silenciosamente os últimos batimentos de um coração já sem cor. Sem cor e sem forças para soca-la, assim como Max jurara fazer. Max...

- Mamãe, como está? – Seu filho mais velho questionou com preocupação.

-... Viva. – Respondeu sem emoção.

Não estava desapontada, não mesmo, afinal, era uma velha guerreira, e guerreiros tem o instinto de lutar até os últimos farrapos de vida. Porém também não estava satisfeita. Não devia estar ali, embora gostasse, mas não devia. Sua época havia passado, as palavras já haviam sido gastas, não necessitava de mais nada. Exceto...

- Venha cá, pequena Saumensch. – Chamou a neta mais nova. Esta se aproximou hesitante, sentando na beira da cama – Vou te contar uma coisa antes de meu coração parar de bater.

- Mamãe, eu não acho que isso seja apropriado para... – O primeiro filho interveio.

- Calado, Saukerl. – Ordenou, mesmo com a voz fraca e rouca, como se viesse de algum outro mundo – Escute com atenção. Quero que me prometa uma coisa.

- Qualquer coisa. – A pequena garantiu.

- Quero que tome cuidado com as palavras. Ame-as e as odeie. Pois, com as palavras certas, podemos adocicar o próprio Diabo.

- Mamãe! – A filha do meio interrompeu, indignada – Isso lá é coisa de se dizer para uma criança?!

- Mandei calar a boca, Saumensch. Não criei nenhuma porca surda. – Jogou as palavras duras contra a filha, mas o que mais poderia fazer? Devia falar, as letras queimavam em seus lábios, e o tempo não estava ajudando em absolutamente nada. Nem a presença impaciente ao seu lado – De tudo aquilo que te pode oferecer perigo, você deve se preocupar primeiro com as palavras.

- Como assim? – Indagou curiosa.

- Nos tempos dos piratas, como aquela história que li para você, eles destruíam navios com balas de canhão. Pois bem, se o capitão, ou imediato, não gritasse "Fogo!", as balas não seriam atiradas. – Respirou fundo com dificuldade. Estava pedindo tempo – Um ladrão não roubaria se uma voz em sua cabeça não dissesse "Vá, agora!". Em meio à isso, as palavras também podem te salvar. Se não fosse o que os professores dizem, ninguém saberia de nada. Se não fosse o que os livros sussurram, tudo que já aconteceu não passariam de lembranças inúteis. A História se torna importante porque o hábito de registrar não consegue ser controlado.

- Mamãe, como espera que ela entenda isso? – A filha interrompeu novamente.

- Cale-se, sua porquinha ingênua. Nós só procuramos saber mais porque alguém, lá atrás, na história, perguntou para o vento "Por quê?" e, junto a essas duas palavras, colocou outras e outras, fazendo com que todos se prendessem com a ilusão de que tudo tem um motivo e que todos devem sabe-lo. Mas, enfim, quero que me prometa que terá cuidado com as palavras. Não as odeie, porém não as ame.

- Mas...

- Saumensch, você promete ou não?

-... Prometo...

- Bom... – Suspirou – Muito bom... Agora vá fazer o que os porcos de hoje em dia fazem.

- Mamãe. – A caçula, se pronunciando enfim, chamou a atenção da mãe – Boa viagem. – Sorriu.

- Até, Saumensch. – Sorriu de leve e fechou os olhos, não sem antes ouvir um sussurro vinda da cabeceira de sua cama, feito por uma voz gélida e sem cor:

- Liesel Meminger, você me assombra.

Notas finais
Reviews? XD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!