Você Logo Será uma Mulher
3 De Lebre a Mulher
Os dias seguintes foram um turbilhão para Kwisowi. O agito do verão árido das mesas durante o dia e a longa, longa história de Sikyaleeto à noite, suas aventuras com seus amigos no rio e no canyon e a aventura muito maior do viajante em terras distantes, sobrepondo-se, entrelaçando-se, ocupando seus sonhos de noite e de dia.
— Mas, depois de dois anos vivendo com o povo das planícies do norte, eu senti saudades de casa. Amava dormir em suas tipi feitas de pele de búfalo que nos protegem do frio, mas sentia falta de me abrigar nas kiletsi para me refrescar do calor. Alguns amigos da tribo notaram que eu estava deprimido e sugeriram que eu me consultasse com o ancião do vilarejo. O ancião me olhou profundamente nos olhos e disse que podia ver de longe meu deslocamento. Que todos ali gostavam de mim, que eu gostava de estar naquela comunidade e, ainda assim, eu não pertencia àquele lugar. Ele me disse que eu precisava voltar pra casa.
“Não foi uma decisão fácil. Demorou semanas pra que eu finalmente decidisse partir. Quem mais se opôs foi Matowin, a mulher-urso, a mulher que mais amei na minha vida. Ela me pedia todos os dias para que eu ficasse e formasse família com ela, e eu me sentia tentado a me unir a ela, mas algo em meu íntimo dizia que aquele não era o propósito dos deuses para minha viagem.
“Quando finalmente decidi partir, Matowin pediu para vir comigo. Ela disse que viajaria comigo até o fim do mundo e se uniria ao nosso povo, mudaria de nome se necessário fosse. Eu lhe expliquei que na nossa sociedade são as mulheres que trazem os homens para viver com seu povo e não o contrário.
— Não teria nenhum problema tê-la trazido, Sikyaleeto. — interveio Muuyawungu. — Ela é uma estrangeira, ela não precisa seguir nossos costumes, ela seria apresentada a eles. Você poderia ter formado família com ela no meio do nosso povo, e os seus filhos com ela cresceriam aprendendo nossos costumes.
Palakwemu, ouvindo atentamente aquele diálogo, acariciava o próprio rosto com uma espiga de milho, pensando em como seria se casar com uma mulher estrangeira. Ele pensou, naquele momento, que viver numa terra estrangeira parecia muito melhor que trazer uma estrangeira para viver em suas terras.
— Mas não me parecia certo tirá-la do meio de seu povo. — Continuou Sikyaleeto. — Acredito que se Sotuknang criou o povo do norte e nós, o povo do sul, o mundo está equilibrado com essa divisão. — Ele fez uma pausa prolongada, olhou para o céu, e sorveu mais um pouco de curau, marcando a introdução de um novo tópico em sua história. — Então, meus amigos me levaram até um lugar chamado Itasca, habitado por seus vizinhos do leste. Eles diziam que em Itasca nascia um rio que poderia me guiar de volta ao sul e, meus irmãos, eu nunca imaginei em meus sonhos de criança que poderia existir no mundo um rio tão grande como aquele. Mas, agora está tarde e eu continuarei contando minha história amanhã.
Um burburinho cresceu entre o povo reunido ao ouvir aquelas palavras, entrecortado por risos jocosos. Ninguém queria parar de ouvir a história, sobremaneira interessante que era. Mas ela continuaria no dia seguinte. O sol sempre volta a nascer no dia seguinte. Os ciclos são contínuos e ininterruptos, tais como feitos por Tawa, e mais um ciclo se fecharia no dia seguinte para que eles continuassem ouvindo a história.
Sob o olhar dos falcões-peregrinos que sobrevoavam suas cabeças em altura relativamente baixa, Kwisowi e Tosipaiuka se banhavam no Palavayu. Tosipaiuka gostava de boiar deitado até a margem, deixando que as águas o levassem, mas naquele dia notou que Kwisowi, normalmente a nadadora mais agitada, estava parada como uma pedra no rio, deixando que as águas a atravessassem.
— O que houve, Kwisowi? Por que está tão pensativa? — Perguntou o garoto.
— Estou pensando. — Disse ela, sem conseguir colocar um complemento nominal em sua frase.
— Isso qualquer um pode ver. — Brincou o garoto. — Quero saber no que está pensando.
— Na história de Sikyaleeto.
— Ah! — Fez o pato. — Uma história incrível, não é? Quão longe será que ele foi?
— Por que a mulher da tribo do norte se chama mulher-urso? — Indagou Kwisowi, com o olhar perdido.
— Nossa, mas você ainda está pensando nisso? — Estranhou o garoto. — Aquele povo deve ter uma visão diferente da que a gente tem dos ursos, Kwisowi. Talvez para eles, os ursos sejam animais especiais, como os búfalos e as águias.
— Sikyaleeto falou muito dos búfalos e das águias, mas não sobre os ursos. As águas são usadas para fazer roupas, coroas e colares, são um animal sagrado para eles. E os búfalos são o maior presente de seus deuses, porque lhes dão roupa e comida.
— Ele disse que os tais búfalos são parecidos com veados, mas são encorpados como ursos, e até maiores que eles. Dá pra imaginar um animal assim? — Tosipaiuka começava a engajar no exercício da imaginação, mas recebeu uma intervenção sardônica:
— Você não precisa imaginar, Tosipaiuka. Você pode ir até a planície e vê-los.
— Palakwemu! Há quanto tempo está aí? — Surpreendeu-se Tosipaiuka.
— Deve estar derretendo com essa roupa. Aproveite para tirá-la e vir nadar com a gente. — Observou Kwisowi, em tom sério. Palakwemu sorriu e resolveu acatar o conselho da amiga.
Enquanto ele se despia e pisava com cautela nas águas avermelhadas, Tosipaiuka foi logo objetando à sua ideia:
— Quantos dias de caminhada levaríamos pra chegar lá, Palakwemu? Além disso, o caminho é perigoso. Lembre-se que Tuvahimu morreu fazendo esse caminho!
— Mas, se Sikyaleeto conseguiu, nós podemos conseguir também! — Provocou Palakwemu, antes de imergir completamente nas águas geladas, a fim de se refrescar. Quando emergiu, o fez dramaticamente, espalhando esguichos em seus dois amigos. — Você por acaso pretende ficar o resto da sua vida aqui, no nosso vilarejo? Não gostaria de ver o mundo?
— Eu nunca pensei nisso. — Confessou Tosipaiuka.
— E você, Kwisowi? —Provocou Palakwemu. A menina não respondeu. — Ouvir a história é como ver um bravo xamã usando máscaras de kachina sem saber o que ele esconde atrás dela. — Palakwemu continuou, empolgado. — Você quer ver o que tem por trás, nao é, Kwisowi? Você sempre se atraiu pelos mistérios do mundo!
— Sim, mas. . . . — começou a dizer uma absorta Kwisowi. “Eu vou ser uma mulher” ela completou em pensamento.
— Mas já tem muito pra se ver aqui na nossa terra. — Continuou Tosipaiuka. — Sabe quantos tipos diferentes de milho existem?
— Eu não entendo vocês dois! — Kwisowi finalmente falou energicamente, saindo do rio e apanhando suas roupas de algodão. — Tosipaiuka, você parece tão preso ao que já conhece que não demonstra o menor interesse na descoberta incrível que o Sikyaleeto fez em terras distantes! Palakwemu, você só pensa na aventura e na viagem, não percebe o quanto essas pessoas de outras culturas têm pra ensinar pra gente! Será que eu sou a única que quer saber sobre os búfalos, o rio e a planície? Meu Deus!
Palakwemu riu gostosamente, enquanto Tosipaiuka alternava seu olhar deslocando entre seus dois amigos, como se se sentisse ameaçado por ambos.
— Mas Kwisowi, para aprender, você não precisa viajar? — Indagou Palakwemu, em tom lúdico.
— Não, porque o Sikyaleeto já fez isso por mim. — Disse ela, se vestindo. — Quero saber o que ele tem pra contar antes de eu mesma partir numa aventura perigosa.
— Que tal irmos até o Sikyaleeto e perguntarmos a ele? — sugeriu Tosipaiuka, também saindo do rio e finalmente tomando a palavra. — Eu também quero saber. Se perguntarmos agora, não interrompemos a história dele na fogueira à noite.
— Eu apoio essa ideia, Tosipaiuka! — Concordou Palakwemu. — Vamos, Kwisowi!
Naquela corrida de volta ao vilarejo, pela primeira vez, Kwisowi ficou por último.
Sikyaleeto era sempre muito receptivo com as crianças, nunca se sentia incomodado em recebê-las e sempre o fazia sorrindo, mesmo que elas estivessem atrapalhando seu trabalho, como era o caso naquela ocasião, em que o homem estava trabalhando na irrigação da plantação de abóboras.
— Crianças! Voltaram cedo hoje! O que aconteceu? — Indagou o gigante, sendo atacado por seis olhos curiosos. Ele gentilmente abaixou-se, apoiando seu joelho esquerdo no chão, para que seus olhos ficassem na mesma altura dos olhos que o investigavam.
— Eu queria saber, Sikyaleeto. — Kwisowi começou a dizer, hesitante. — Sobre a Matowin.
— Ah! — Fez o homem, despejando mais um balde, sorridente. — A mulher que conheci no norte? Ela é muito inteligente e simpática, assim como você, Kwisowi. — A garota não se aprazou no elogio. Parecia um elogio genérico.
— Mas você disse que o nome dela significa mulher-urso. Como pode? — Ele riu.
— Foi o nome que você estranhou? Bom, isso é o de menos. Os ursos lá do Norte são diferentes dos ursos daqui. Eles são marrons, e não pretos e são muito maiores que os nossos ursos pretos, e muito mais ferozes. São a criatura mais poderosa da planície. À noite, no céu estrelado, vemos a constelação da grande mãe ursa, que foi até o céu para proteger seus filhotes. Um caçador perseguia um alce e a ursa perseguia o caçador. À noite ainda podemos ver suas figuras no céu. — As crianças vibraram em uníssono ouvindo aquela história, como que antecipando as emoções da fogueira.
— Então a ursa inspira nomes de mulheres? — Indagou Kwisowi com um sorriso discreto.
— Toda a natureza inspira, Kwisowi. — concluiu Sikyaleeto. — O povo do norte, assim como o nosso povo, entende que todos nós, humanos e animais, predadores e preza, somos parte da mesma natureza. — Uma resposta que soou satisfatória para Kwisowi. Ela agradeceu Sikyaleeto com uma saudação tímida e retirou-se, presumivelmente voltando ao rio.
Tosipaiuka a seguiu, desajeitado, mas Palakwemu não queria deixar a presença do homem que tanto admirava. Nunca se cansaria de fazer perguntas a Sikyaleeto.
— Mas a jornada é muito difícil e perigosa, não é, Sikyaleeto? — Perguntou o garoto, quando se tornou a única criança no entorno. O homem acariciou-lhe a cabeça.
— Vejo que você também quer participar de grandes aventuras Palakwemu. Você logo será um homem e grandes coisas te aguardam. Mas tenha paciência. Sotuknang criou um mundo que abriga a todos nós. Um dia as teias dela te mostrarão o seu caminho também. Por enquanto, não se preocupe com isso e vá brincar com seus amigos. — O garoto torceu o nariz, mas acatou a admoestação. Queria ficar perto de Sikyaleeto, mas também não queria atrapalhar seu trabalho na plantação.
Afinal, sempre haveria mais a se ouvir. A história da viagem ainda não havia acabado. Ainda havia muito a se contar na fogueira. A história continuou naquela noite.
— Meus amigos me disseram que o rio que nasce em Itasca seguia pelo sul até o fim do mundo. Eu não acreditei. Era um riacho pequeno, muito menor do que vários outros que eu já havia visto antes. Supus que em poucos dias eu encontraria seu delta. Meus irmãos, eu não poderia estar mais enganado. O nosso grande rio do norte parece um pequeno riacho depois de eu ter conhecido o grande rio do leste. Ele é tão imensamente infinito que tem vários nomes, dados por vários povos que navegam, pescam e se reúnem nele. O povo do leste, que me apresentou ao rio, o chama simplesmente de O Grande Rio, mas o povo do lobo o chama de Rio de Muitos Peixes, enquanto outros povos ainda o chamam de Rio do Homem Velho, Rio Poderoso e Pai das Águas. O segui por um ano inteiro e não vi seu fim.
“Mas, quando eu já havia andado umas boas horas pelo curso do pequeno riacho que nasce em Itasca e seu leito começava a se alargar no horizonte, mostrando que ele logo seria mais que um pequeno riacho, eu senti que alguém me seguia de longe. Eu me virei rapidamente e não houve tempo dela se esconder atrás de uma árvore. Era Matowin, surpresa por eu tê-la visto. Será que ela pretendia me seguir até aqui? Até minha casa? Isso seria loucura, a viagem dura mais de um ano. Mas, quando a vi, ela se aproximou, se despediu de mim com um beijo e me deu um último presente.
Ele tirou da sacola de couro de búfalo um objeto duro e cor de creme, com arredondamentos nas bordas por onde se podia deslizar suavemente os dedos.
— De todos os presentes que eu trouxe, esse com certeza é o que veio de mais longe. Pelo que Matowin me contou, isto é um chifre de um animal chamado alce. Ele é muito diferente dos veados e renas que temos aqui. Ele tem chifres que formam uma placa sólida acima de sua cabeça, algo nunca visto antes. Os alces vivem mais ao norte que o povo que me hospedou, cruzando os grandes lagos que marcam o limite da planície. Num lugar coberto de gelo, onde poucos mesmo entre os mais corajosos aventureiros se atrevem a ir. Eu queria saber o que mais existe por lá.
Kwisowi sorriu com a última frase, na qual muito se identificou. Ao seu lado na plateia, Palakwemu também sorriu, mas com sentimento diferente. Com a previsão de que um dia seria ele o homem do vilarejo a descobrir.
— Eu chorei por vários dias pensando que nunca mais veria Matowin de novo. Mas esse pensamento não podia interromper minha viagem. Eu tinha que voltar pra casa. Depois de já ter seguido por mais de um mês, conheci um povo que navega pelo grande rio. É o povo do lobo. Eles andam com turbantes e faixas de couro na cabeça. Troquei alguns dos presentes que eu trazia do norte por suas penas coloridas e seus tecidos macios, foi assim que obtive a tiara que dei de presente a Tosipaiuka.
“Mas o que o povo do lobo me ensinou de mais importante foi a navegação. Usando suas canoas feitas de árvores muito maiores do que as que temos por aqui, eu pude deixar que as águas do grande rio me levassem ao sul. É uma jornada muito perigosa, contudo. O rio é habitado por monstros que eu nunca vi iguais. Certa noite, navegando, com as árvores gigantescas quase tocando o céu nas duas margens, vi sair da água uma criatura absolutamente assustadora, mais monstruosa que jamais vi.
O suspiro da multidão servia como um pedido ansioso pela descrição da criatura e narração do encontro, ao que o discurso do viajante seguiu fornecendo com entusiasmo:
— Ela se parece um pouco com os grandes lagartos que vemos tomando sol nas rochas lá no Ongtupqwa, mas é muito, muito maior e sua pele é verde. Suas escamas parecem cascalho recobrindo sua pele como uma armadura. Seus olhos amarelos são cortados por pupilas que formam uma linha vertical e olham atentamente para os lados, buscando presas. Ele também tem o focinho mais comprido que eu jamais vi em qualquer animal, mais longo que os bicos das aves.
“Quando ele abriu sua boca, parecia que iria engolir o mundo inteiro. Nunca vi uma bocarra tão grande e amedrontadora. Sua boca era amarela por dentro e seus dentes, meu Deus, os dentes! Eram dentes com os de um urso, mas eram muitos, muitos mais, cobrindo todo o perímetro de sua bocarra, que por sua vez se abria por todo o seu comprido focinho.
“Para minha sorte, aquele monstro se movia devagar, se arrastando com suas grandes patas pela margem verde do rio, cada passo como um tapa violento no solo, sempre colocando força em suas quatro grandes garras. Ele é esperto, contudo. Ele não persegue suas presas na corrida, como os ursos e os lobos fazem. Ele as espera pacientemente, deitado com parte de seu corpo dentro da água. Quando a presa chega perto, com um movimento rápido com a cabeça, aquele monstro os estraçalha com a mordida mais poderosa do mundo, e levanta desajeitado sua enorme cabeça para poder engolir o corpo de sua infeliz vítima, como que exibindo ao mundo a potestade de seu pescoço engolidor.
— Que exagero! Não pode existir nenhum animal assim! — Resmungou alguém da plateia. Sikyaleeto riu.
— Eu também pensaria o mesmo se estivesse no seu lugar. Mas o vi com meus próprios olhos. E foi a coisa mais amedrontadora que jamais vi.
— Você ficou com medo, Sikyaleeto? — Perguntou Palakwemu, esperando uma resposta ousada, mas foi surpreendido pela franqueza na resposta do viajante:
— Claro que fiquei. Caí sentado quando o vi devorando um roedor. Acho que nunca senti tanto medo assim na minha vida. Mas, aquele monstro do rio não me atacou. Na verdade, parecia nem ter percebido que eu estava lá. Às vezes a gente sente medo, mas o perigo não é real. É só a natureza nos mostrando o quão imponente ela é, pra nos lembrarmos de como somos pequenos.
— A natureza é mesmo maravilhosa. Assustadora e inspiradora ao mesmo tempo. — Admirou-se Kwisowi, com um suspiro.
Tosipaiuka e Palakwemu a olharam alegres, simultaneamente. Gostavam de ver a amiga feliz, embora nem sempre fosse claro para eles o que a deixava feliz.
Na tarde seguinte, Kwisowi não brincou com Tosipaiuka nem Palakwemu. Eles a chamaram para brincar, mas ela dispensou. Ela se sentou à sombra do zambro mais distante que encontrou para contemplar o deserto infinito, descendo no horizonte.
Ficou pensando em quão aterrador foi o encontro de Sikyaleeto com o monstro do rio. As feras da natureza, realmente, foram deixadas espalhadas pelo mundo pelos deuses, e qualquer pessoa poderia encontrá-las quando menos esperasse, vendo-se diante de uma criatura totalmente diferente de tudo que já viu antes.
Ela começou a pensar em como seria se ela mesma se visse nessa situação, como lidaria com esse medo. Foi com esse pensamento que ela adormeceu à sombra do zambro, para ter o sonho mais louco que jamais tivera em toda a sua vida. Ele envolvia Palakwemu navegando pelo rio, na imagem que sua cabeça podia projetar do que era uma canoa, baseada no relato do viajante, e na imagem que havia formado do tão assustador monstro do rio. Ela acompanhava Palakwemu na canoa, enquanto o monstro os perseguia pelo rio. Do rio saíam águias e gaviões, e logo a canoa também começou a voar, cruzando o Ongtupqwa pelas alturas, chegando em seguida às kiletsi pequenas e amareladas lá embaixo.
— Viu só, Kwisowi? Nós fomos a terras distantes e voltamos! Nós podemos! — disse-lhe Palakwemu, conduzindo a canoa voadora.
— Mas, Palakwemu, você não está com medo? — Perguntou uma aflita Kwisowi, em consideração a altura monstruosa em que voava.
— Você está com medo, Kwisowi?
— Claro que estou! — Exclamou ela. — Não vê que estou urinando na calça?
— Kwisowi, isso não é urina. — Foram as palavras em seu sonho que a fizeram despertar assustada e banhada de suor.
Tão logo acordou, pôde ver que eram verdadeiras. Sua calça estava molhada e malcheirosa, mas não era urina. Ao levantar-se, viu que estivera sentada sobre a maior poça de sangue que jamais vira em toda a sua vida.
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