Você Logo Será uma Mulher
2 As penas e o retorno da raposa
Já era noite quando os três jovens chegaram à aldeia, as tipi brancas e marrons ocupando a paisagem. As aves em revoadas migravam, anunciando o fim do dia. Várias pessoas transitavam por elas, carregando baldes de água, nos preparativos para se recolherem.
— Garotos, chegaram tarde! — Avisou um sentinela. — Vocês não sabem? Sikyaleeto voltou de viagem hoje!
— Sikyaleeto! — Palakwemu empolgou-se, jogando os braços para o alto. — É sério? Você está brincando? — O homem riu divertidamente.
— Você gostava muito dele não é, Palakwemu? Vá cumprimentá-lo! Ele tem muitas histórias pra contar! — O garoto saiu correndo aldeia adentro, deixando os amigos para trás.
— Faz muito tempo que Sikyaleeto partiu em viagem, não? — Observou Tosipaiuka, intrigado com a empolgação do amigo.
— Sim, faz tanto tempo! Eu ainda era tão pequena quando eles foram embora! — Kwisowi fazia esforço para resgatar memórias tão distantes. — Já devem ser umas quatro ou cinco primaveras!
— Eles? É mesmo! Tinha mais um com ele.
— Tuvahimu, irmão de Sikyaleeto. — Lembrou-se ela.
— Nossa, você tem boa memória! — Admirou-se Tosipaiuka, um ano mais velho que Kwisowi, e ainda assim julgando-se novo demais pra lembrar de homens que partiram havia tanto tempo. — Vamos, Kwisowi! Eles provavelmente vão servir um grande banquete pra celebrar o retorno deles! Não está com fome? — Os dois correram agitados em direção ao interior da aldeia.
O viajante era gigante, com 1,90 de altura, a face ruborizada pelo álcool que lhe fora generosamente oferecido desde sua chegada. Usava uma bandana de couro na cabeça ornada com penas coloridas, algo que Kwisowi nunca tinha visto antes. Sentado num banco de madeira enquanto falava empolgado sobre sua viagem, ele pousava suavemente sua mão imensa sobre o ombro de Palakwemu. O garoto ao seu lado apenas o observava taciturno, após cumprimentá-lo com um caloroso abraço.
— Ah, vocês aí! Vocês são os filhos das filhas da líder não é? — Ele os saudava enquanto acenava energicamente. — Vocês cresceram muito! Como se chamam mesmo?
— Kwisowi e Tosipaiuka, Sikyaleeto. — Lembrou-lhe uma mulher da roda.
— É mesmo! Como pude esquecer? — Riu-se o homem. — Venham! Aproximem-se! Eu trouxe presentes para vocês também! — Tosipaiuka, alegre, acatou o pedido, mas Kwisowi estava intimidada com a alegria do homem, e se aproximava com passos hesitantes, o rosto inclinado.
— Menina linda! Você é muito parecida com a sua mãe quando era criança. — Observou o homem. — Pra você eu trouxe um lindo colar. — Uma das mulheres da roda lhe passou uma sacola de couro de búfalo, onde ele trouxera as lembranças da sua viagem.
Sikyaleeto tirou da sacola um colar cujo pingente apresentava maior variedade de cores que Kwisowi jamais havia visto. Verde, marrom, amarelo, vermelho e até azul. Onde teriam achado penas daquelas cores? A que pássaros pertenceram? Mas, o colar era lindo, isso Kwisowi não tinha como negar. Ainda hesitante, ela se aproximou com passos incomodamente lentos e os braços timidamente estendidos até tocá-lo.
— Obrigada. É lindo. — Ela agradeceu finalmente.
— Você brincava muito com o Palakwemu naquela época. E logo será uma mulher. Tenho boas esperanças para o futuro. — Declarou o homem. Sua declaração otimista soou para Kwisowi como tendo uma nota de sarcasmo.
Kwisowi abriu a boca, pronta para responder, mas foi interrompida por um adulto.
— Deixe esse assunto para depois, Sikyaleeto. Continue falando da sua viagem.
— Não se preocupem. Eu vou contar tudo em detalhes na fogueira. Nos próximos dias. É muita coisa pra se contar numa noite só. Agora quero ver as crianças. Você, garoto. Tosipaiuka, não é? O que acha dessa tiara? Vai ornar muito bem essas tranças bonitas que você tem. — Ele ofereceu, da sacola, uma bandana semelhante à que usava, mas era ornada com uma única pena vermelha.
— Obrigado. É muito bonita. — Agradeceu Tosipaiuka.
— Tem muitas coisas feitas de pena nessa sacola! — Observou Kwisowi. — Você deve ter caçado muitos pássaros em sua viagem. — O homem riu em resposta.
— As pessoas que conheci na viagem são exímias caçadoras de aves, e fazem muitas outras coisas incríveis que vocês nem imaginam! Mas, tenham calma. Vou contar tudo em detalhes na fogueira. — Mais um copo de curau foi-lhe oferecido, e o homem continuou bebendo enquanto conversava empolgado.
Intimidada por aquele ambiente, Kwisowi afastou-se, escondendo-se atrás de uma tipi qualquer para admirar seu novo colar à luz da lua. Lua. Muuyawungu, a líder da aldeia, a mãe da lua, era mãe de sua mãe. Quando criança, seu nome era Owasowigwa, o veado do rochedo, mas ao crescer e assumir sua posição de liderança, precisava de um nome mais imponente, combinando assim o astro que governa a noite e o seu imponente papel de mãe. Ela teve muitos filhos e filhas, de fato, incluindo a mãe de Kwisowi e também a mãe de Tosipaiuka. Como a filha mais velha, a mãe de Kwisowi tinha perspectiva de assumir o lugar de Muuyawungu quando ela fizesse a passagem, e Kwisowi, naturalmente, seria a próxima na linha. Não queria ser líder, mas era a única filha de sua mãe. Por que não deixar Tosipaiuka ser o líder? Eram questões a se pensar.
Mas, a menina notou que Palakwemu e Sikyaleeto eram muito próximos. Notou como o garoto recebeu empolgado o viajante e como o homem parecia feliz em ter o garoto ao seu lado, mesmo sem dizer uma palavra, como se fosse seu filho. Lembrou-se de sua infância, anos antes, como Palakwemu sempre se empolgava ao ver Sikyaleeto, e de um dia em que ele até mesmo deixou de brincar com ela para observar o homem se preparando para sua caçada, a qual ele queria, mas não teve permissão de acompanhar.
Parecia que Kwisowi tinha se esquecido da admiração do garoto pelo homem nos anos de ausência do último, mas agora que ele havia retornado de viagem, ela parecia mais forte do que nunca. O lobo vermelho e a raposa dourada, certamente dois espíritos parceiros. Sikyaleeto, que parecia corresponder muito bem à admiração de Palakwemu, provavelmente esperava ver o garoto formando uma família com Kwisowi, e com isso elevando-se à liderança da aldeia. Muito precipitado. Duplamente precipitado. Mas era cedo para pensar nessas coisas. Ela queria saber a história do colar e das penas. E queria também saborear a suculenta carne de veado que estava sendo preparada para a fogueira.
Toda a aldeia, cerca de sessenta pessoas, sentou-se diante da fogueira sob o céu estrelado naquela noite. A primeira a falar foi a anciã, Muuyawungu, com seu robe branco a combinar com os cabelos prateados, ela se punha entre a robusta fogueira e o povo que liderava.
— Queridos filhos e filhas, os Kachina foram generosos conosco hoje nos trazendo de volta um honrado e corajoso membro de nossa tribo! Ouçamos com atenção o que nosso irmão Sikyaleeto tem a dizer!
O recém-chegado viajante tomou então o lugar da anciã em frente à imensa fogueira. Sua altura substancial, reforçada pelas exóticas penas sobre sua cabeça, projetava uma sombra escura e imponente sobre a multidão.
— Queridos irmãos e irmãs, estou muito feliz por estar de volta. Foi há cinco primaveras que eu e meu irmão Tuvahimu partimos desta aldeia com nada mais que uns peixes na mochila e uma imensa vontade de descobrir o mundo. Aos que repararam na ausência do segundo viajante, eu lhes comunico que meu irmão Tuvahimu fez a passagem no primeiro verão após nossa partida, na queda de um penhasco que tentávamos descer.
Kwisowi notou como os adultos ao seu redor, quase todos, fizeram em sincronia o gesto de baixar o rosto para o chão e levar a mão ao peito, numa pequena e silenciosa lamúria pelo conterrâneo perdido.
— Vocês talvez tenham pensado que, se ele estivesse vivo, talvez não tenha voltado porque conheceu uma mulher pelo caminho e resolveu formar família com ela. Bem, na verdade, isso aconteceu comigo. Eu conheci não apenas mulheres, mas pessoas de ambos os sexos, maravilhosas, nos anos em que vivi com o povo ao norte daqui. Os presentes que lhes trouxe, feitos de penas, foram todos confeccionados por mulheres desse povo, que são muito habilidosas na tecelagem. Eu me apaixonei por uma delas. Ela me convidou para ficar e formar familia com ela. Mas eu preferi voltar. Os laços que os Kachina teceram do meu espírito com minha terra natal foram mais fortes. — Todos riram.
— Esse povo tem grandes habilidades na caça, na dança, na medicina e, como vocês podem ver, na confecção de roupas e ornamentos. A peça mais bonita que vi em toda a minha vida foi o ornamento que os líderes usam na cabeça, chamado de waphaha. Ele tem muito mais penas que qualquer peça que eu tenha lhes trazido, as penas de águia vão da cabeça até os braços, cobrindo os ombros. Eu não pude lhes trazer um exemplar, na verdade eu mesmo nunca usei um, porque essa distinta peça é reservada aos caçadores mais honrados da tribo. Pouquíssimos têm permissão para usá-la. Mas vamos começar a história do início. Eu e Tuvahimu resolvemos seguir para o norte, para ver onde nasce o nosso querido Palavayu. Seguindo as planícies pelo norte, nós encontramos. . . .
A história ainda continuaria por várias noites. Saciada com a carne de veado, Kwisowi dormiu enquanto ouvia o homem falar. Quando acordou pela manhã, dentro de sua tipi, perguntou preocupada à mãe o que havia perdido. Queria saber mais sobre o povo das penas. A mãe lhe tranquilizou dizendo que Sikiyaleeto não havia chegado àquela parte da história ainda.
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