Você De Novo?
8 Geração Perdida
Notas iniciais
Aqui vai mais um!
Boa Leitura!
Moradia no Inferno –Dia 8
Eu não queria pensar em casa quando saí naquele dia. Eu já havia pedido ao meu pai permissão para ir à casa de Felly e devo admitir que fiquei mais contente ainda quando a loira me chamou para ir para lá mais cedo. A verdade era que eu ainda estava completamente irritada pelo que havia acontecido com Nicholas na noite anterior, e para variar ainda não queria olhar para a cara dele. Eu o queria o mais longe de mim possível... E eu já estava cansada de repetir as mesmas infelizes frases para mim o tempo todo.
Eu não havia me arrumado muito, digo, era uma festinha casual e ainda a luz do dia. Havia colocado meu melhor short jeans que adorava, com alguns spikes e uma bata com a bandeira americana com um corte bem curto, que se eu levantasse levemente os braços, mostraria minha barriga. Para completar meu look um tênis dourado que eu tinha e meus óculos de sol. Pronto! Um look lindo, nada de brilho e perfeito para um dia de sol. Eu não queria que meus amigos se acostumassem com a visão de mim que não era real: Uma eu que esportiva sempre com roupas de ginástica.
Felicity me esperou na porta da casa para que eu não me perdesse e bem... Eu não me perderia mesmo que quisesse. A casa da garota era simplesmente gigante, e qualquer um poderia a enxergar de longe. Com um lindo estilo grego, a mansão tinha as paredes brancas e longas janelas de vidro modernas, com uma entrada igualmente grandiosa, e que me dava a certeza de que se não vigiasse bem meus passos ali, poderia me perder. Com o sorriso no rosto e uma enorme trança nos cabelos loiros quase brancos, observou-me com os grandes olhos azuis, e como costumeiramente pareceu muito feliz em me ver.
-Sid! Você chegou! Ainda bem que é pontual! Pode nos ajudar com o resto dos preparativos.
-Não ia negar o seu pedido de ajuda.
Dei uma risadinha, enquanto ela assentia e dava espaço, permitindo minha entrada. Agradeci enquanto passava pela porta, deslumbrada com a decoração interior daquela divina construção.
-Quer que eu te mostre a casa? Sei que seu pai é arquiteto, nunca se sabe se tem o mesmo amor que ele.
-Arquitetura não é o meu lance. –Adiantei dando de ombros. –Mas eu ia adorar ver...
-Quem está aí? Sidney chegou?
Pude ouvir a voz conhecida gritar de longe. Felly revirou os olhos dando uma risadinha.
-Sim, Christian! Estamos subindo!
-Fale pra ela que eu desejo ela!
-Acho que ela já ouviu!
Gritou Felly de volta. Senti meu rosto esquentar com a frase, imaginando só quem poderia estar ouvindo. Dei risada revirando levemente os olhos.
-Desejo você também, Chris!
Gritei, podendo assim ouvir sua risada vindo de algum lugar da casa. Oh céus. Meu amigo era louco e isso todo mundo poderia enxergar... Mas fazer o que? Pessoas normais eram muito chatas.
-Bom, a casa fica pra depois, amiga. Vamos subir lá pro quarto antes que a princesa dê cria.
-OK...
Assenti com um sorriso enquanto seguia a loira escadas acima. Meu Deus tudo aquilo era incrível... Como já devo ter dito um milhão de vezes. Na sala onde havíamos entrado estava um enorme radio ligado a uma televisão gigantesca que tinha quase o meu tamanho. Pelas escadas pude ver algumas fotos de família e pude reconhecer os gêmeos de algumas delas... Tão fofinhos. Os passos de Felly me levaram inicialmente para a confusão, a escada era larga e dava algumas voltas, mas finalmente alcançamos seu fim e diante dos meus olhos, abriu-se a maior sala de estar que já havia visto em toda a minha vida. Sofás que abrigavam cerca de vinte pessoas estavam virados para prateleiras, enfeitadas com uma enorme lareira e decorada da forma mais aconchegante possível. Minha vontade naquele momento, foi ligar a lareira e me afundar naquela sala, mas é claro que eu não faria isso.
-Bem... Essa é a sala de estar.
Apresentou Felly, o obvio, fazendo-me abrir um sorrisinho e observar o local com um brilho nos olhos.
-Legal...
-Felly.
A voz chamou antes que eu pudesse parar de viajar em meus pensamentos de como seria legal sair rolando por aquele tapete. Virei-me de uma vez só, alarmada não sei bem por que, bem a tempo de ver diante de nós a o garoto de cabelos loiros, que assim como a irmã era a descrição da perfeição... Porém em versão masculina. Senti meu rosto esquentar um pouco por ele parecer me perceber só em segunda instancia... Será que eu era tão invisível assim perto de toda aquela gente bonita?
-James... Onde você pensa que vai?
-Eu vou buscar as bebidas que você pediu. –Abriu um sorriso danado, parecendo uma criança tentando se redimir por uma bronca que já sabia que levaria. –Já que não fiz isso ontem quando você mandou. E oi, Sidney.
-Oi James.
Sorri um pouco boba, enquanto minha amiga cobria o rosto com as mãos e revirava os olhos.
-Ok, vá lá. Mas não demore, a gente precisa da sua ajuda também.
-Felly, eu coloco isso... Olha só, Sidney! Que gata!
Exclamou Chris enquanto corria até nós segurando uma caixa cheia de gelo e carne que provavelmente seria nossa comida de mais tarde. Dei risada com o que escutei e balancei a cabeça negativamente corando um pouco. Ah Christian... O garoto colocou a caixa de lado por um momento para me dar um beijo no rosto. Mas que desperdício era aquele amigo que eu tinha. Christian se vestia como qualquer garota sonharia que seu namorado se vestisse um dia... Impecável, sexy, cheiroso... Estava pensando seriamente em trocar de sexo para poder ficar com o ruivo.
-Bom, minha gente. Vou-me indo... –Sorriu James enquanto agarrava a chave do carro. -Cinco minutos.
-Você nunca demora só cinco minutos. -Grunhiu a loira, revirando os olhos. –E não se esqueça de nada!
-Não vou, coisa chata. –Sorriu James, dando um beijo na testa da irmã. Tive que sorrir com a cena. –Confie no seu irmão.
Sabe, aquilo era muito legal entre os dois. Felly era estressadinha e vivia brigando com James, mas no fundo, tudo me parecia apenas uma brincadeira dos dois. James tinha o jeito brincalhão de acalmar a irmã e manda-la se foder da mesma forma, Felicity parecia se preocupar com ele como uma mãe. Era uma relação que eu realmente apreciava e achava bonita... Algo que eu nunca nem em um milhão de anos teria com o meu irmão.
-Eu não deveria. –Sorriu a loira enquanto soltava um suspiro. –Sidney, não quer ir com ele, não?
Eu tive que ser puxada dos meus devaneios momentâneos para só então captar o que estava acontecendo naquele momento. Hein? Os olhos de James caíram em mim, assim como os de Christian e os de Felly que aguardavam por uma resposta minha. Senti-me ficar pequena e logo a timidez tomar conta de mim. Mas que merda! Por que eu estava agindo daquele jeito? Nunca fui tímida! Respirei fundo e com vontade, abri um sorriso, dando de ombros, e me dirigindo à James logo em seguida.
-Se não for se incomodar com minha versão de babá.
-Bem vinda a bordo. –Deu de ombros o garoto, enquanto guardava a chave no bolso traseiro do Jeans e pegava das mãos de Felicity o que me parecia uma lista. Sorriu. –Melhor que tenha meu copiloto mesmo. Assim minha irmãzinha fica feliz.
-Muito feliz. –Sorriu Felly, satisfeita. –Juízo os dois.
-Nós vamos fugir para Londres.
-Então que levem dinheiro pelo menos.
-Ok.
Sorriu James, enquanto com um aceno pedia para que eu me movesse e juntos descíamos a escada. Me perguntei pro um momento se James conhecia Nicholas, ou se os dois um dia se falaram. Decidi que não. James era muito legal para se envolver com meu irmão ou com qualquer outra pessoa que andasse com eles. Eram completamente diferentes. Descendo por um terceiro andar misterioso da casa, chegamos à garagem onde haviam alguns carros estacionados. O loiro abriu a porta de um JEEP preto que havia ali, e agradecida pelo gesto, adentrei-o, colocando o cinto e quase estupefata pelo ato de cavalheirismo que pensei estar extinto. Aquilo era quase engraçado.
-Então... Alguma loja em especial?
-Falou com a pessoa errada, amigo. –Sorri, dando de ombros. –Tudo o que conheço daqui é a praça e o shopping.
-Já é um começo. –Deu risada. –Jack ou The Hushter?
-Qual não vai pedir identidade?
-Jack.
-Então Jack será.
Decidi. James deu risada assentindo, enquanto ligava o carro e me dava a lista que antes trazia consigo. De uma só vez acelerou, tirando o automóvel da garagem e fazendo-me automaticamente, cravar as unhas no banco de couro onde eu estava sentada. Arregalei os olhos para ele, vendo-o só então soltar uma risada gostosa, que eu com certeza adoraria ouvir de novo.
-Não vou te matar, Sid. Ainda falta um ponto para eu perder minha carteira.
-Bom saber! –Falei em tom agudo proposital, fazendo-o rir mais. Sorri. –Será que posso confiar?
-Tem que. –Deu de ombros. –Você é meu copiloto.
-Então, minha vida está em suas mãos, senhor.
***
-Grab Somebody Sexy And Tell Them Hey! Hey!
Era o que saía da boca de Felly enquanto erguia os braços para cima com sua batida de maracujá nas mãos e dançava com toda a vontade a música do Pitbull que tocava naquela hora. O churrasco estava rolando há umas três horas já, e eu realmente não imaginava que vinte pessoas fossem tanta gente assim. Chris estava engraçadíssimo sob o efeito do álcool, contando várias histórias e até mesmo fazendo os seus efeitos sonoros. James estava na churrasqueira enquanto conversava com algumas meninas ali ao seu lado e Felly dançava tão animadamente com Callie e Elanor, que eu estava quase me juntando à elas. Eu e Chris estávamos sentados com um pessoal na mesa do jardim enquanto o ouvia contar algumas histórias sobre como foi engraçado a vez em que haviam saído de trailer pelo país. Está aí uma coisa que eu nunca nem em um milhão de anos seria permitida fazer, mas adoraria. Abri um sorriso enquanto via o ruivo gesticular animadamente.
-E então nós não vimos o rio e... Oh! Olhe quem chegou!
Meus olhos se dirigiram a porta do quintal quando saiu conosco um garoto de cabelos castanhos e pele escura, com uma garrafa de vodca na mão e um sorriso belíssimo que chamou minha atenção. Meus olhos voltaram-se a Chris e depois ao garoto bonito, ele tinha uma expressão muito simpática no rosto.
-Agora a festa fica animada!
-Por que demorou tanto?
Perguntou Chris levantando para cumprimenta-lo. O garoto sorriu, cumprimentando a todos na mesa, inclusive eu, que fui puxada por Chris e forçada a me levantar.
-Eu tive que resolver umas coisinhas.
-Ah sim... Essa aqui é a Sidney! Ela é nova!
-Olá Sidney. –O rapaz sorriu enquanto me erguia a mão sedutoramente. Senti meu rosto esquentar, mas retribuí com um sorriso. –Meu nome é Arac Pad Pajish Smaj Babagadush. Mas para você, me chamo Babagaduchê.
Piscou para mim, fazendo-me soltar uma alta risada involuntária. Eu não queria rir do garoto, vai que aquele era realmente seu nome, mas a sua expressão ao falar e os copos de vodca que já havia tomado, não permitiram que eu me contivesse.
-Olá Arac... Ar... Ah meu Deus, vai ter que me ensinar a falar isso.
-Combinado.
Piscou o garoto fazendo-me sorrir. Chris revirou os olhos me dando um meio abraço com uma risada.
-Ele é popularmente conhecido como Ryan.
-Não acaba com a minha graça.
O rapaz reclamou fazendo-me rir de novo. Então seu nome era Ryan... Bem, eu acho que Arac combinava mais com ele agora, eu só tinha que aprender a falar!
-Arac...
Grunhi mais uma vez tentando. Ryan deu risada dos meus esforços me dando um meio abraço também.
-Gostei dela!
Brincou enquanto pegava o copo de Chris bebia de suas mãos. O ruivo protestou enquanto eu ria com a cena. Meu Deus. Ryan era muito bonito e o braço com que me abraçava era realmente forte. Era impressão minha ou eu estava ficando atirada? Era melhor parar de beber antes que eu resolvesse ficar com o piadista, com Felly, Chris e James.
-Eu estou um pouco tonta. –Fiz uma careta. –Vou pegar um pedaço de carne com James. Alguém quer?
-Não, obrigado.
-Eu quero uma linguiça.
Sorriu Chris malicioso, fazendo-me rir alto. Balancei a cabeça, indignada enquanto dava um beijo forte na bochecha do meu amigo. Como eu o adorava!
-Arranjo uma pra você rapidinho!
Garanti enquanto subia a escada para a sacada da churrasqueira, espantando algumas das meninas que cercavam o loiro. Pude ver um sorriso se abrir em seu rosto maravilhoso.
-Quando sai uma carninha aí, Jamezito?
-Acho que alguém exagerou em quantidade alcoólica, hein? –Brincou. –Cinco minutinhos. Aguenta esse tempo do meu lado?
-Me esforçarei.
Brinquei enquanto me apoiava na parede ao seu lado. O loiro me abriu um sorriso, dando um gole no seu copo de cerveja. Ofereceu-me enquanto eu dava um leve golinho e lhe devolvia com uma caretinha. Pude ver a diversão em seu rosto.
-O que?
-Não sou fã de cerveja.
-Aceitaria um champanhe nesse caso?
-Talvez mais tarde.
Pisquei dando risada em seguida, James me observou com um olhar divertido enquanto abria um sorriso. Ele tinha covinhas? Oh meu Deus.
-Acho que eu gosto mais de você assim.
-Como assim?
Perguntei com um sorriso bobo. Ele deu de ombros.
-Mais divertida.
-Você quis dizer bêbada.
Corrigi. O garoto deu de ombros.
-É, talvez.
Lhe dei um empurrãozinho, o que o fez cair na risada se equilibrando com o espeto na mão. Virou a carne, prendendo o pedaço de um no espeto e observou bem o coração de galinha, aproximando seus lábios dele para assoprar. Não sei porque, mas observei a cena quase hipnotizada. Os lábios carnudos eram muito atraentes... James ergueu para mim a carne com um sorriso, arrancando-me dos meus devaneios.
-Vê se está bom.
Com cuidado para não tocar o espeto com a boca, mordi o coração que estava preso ali e mastiguei-o saboreando. James era um ótimo churrasqueiro, isso ninguém poderia negar. Assenti com uma expressão boa no rosto. O loiro sorriu satisfeito enquanto despejava o resto sobre a tábua.
-Tem que me ensinar a fazer churrasco depois.
-Tem certeza? Acho que a parte legal é não fazer nada e beber com os amigos.
-Está reclamando do seu emprego?
-Temporariamente. –Piscou enquanto pegava a tábua e me puxava pela mão. –Vem.
Acho que corei um pouco com o toque, mas não me importei. James me puxou até onde o pessoal estava sentado, e com uma comemoração coletiva, ofereceu a carne que acabou em menos de um momento. Encheu o copo de cerveja enquanto se sentava, puxando-me para o seu lado. Abri um sorriso para Chris que inexplicavelmente me deu uma piscadela.
-Isso está uma delícia, James! Acho que já sei sua vocação.
Brincou Felly fazendo-o revirar os olhos e dar uma risadinha. Pegou um pedaço de picanha, assentindo.
-Mas é claro, maninha. Você limpa e eu cozinho.
Eu juro que vi um pão de alho vindo em nossa direção e logo todos demos risada. Era muito engraçado como as coisas funcionavam ali. James era o palhaço sarcástico e Felly era a louca nervosinha, era um equilíbrio fantástico. Chris observou-nos dando um gole na batida, ofereceu o copo para mim, que não hesitei em aceitar.
-Isso, Chris, embebede mesmo a menina.
James sorriu enquanto o ruivo pegava um pedaço de linguiça. Chris deu uma leve risada.
-Estou ajudando o meu amigo.
Piscou para o loiro, fazendo-me quase engasgar. Felly sorriu animada enquanto se sentava no colo do ruivo.
-Isso seria incrível! –Riu. –Bem melhor do que a Megan.
-Lá vamos nós.
Cantarolou Ryan, erguendo uma sobrancelha para mim, dei risada tentando não ser escandalosa enquanto ouvíamos a discussão dos irmãos mais uma vez sobre a misteriosa Megan. Aquilo era muito curioso, digo, a razão pela que Felly não gostava dela.
-O que eu posso dizer? Ela não passa de uma vadia!
-Sabe? Eu e Sid vamos dar uma volta!
Ryan se colocou de pé, passando o braço pelo meu ombro e fazendo-me abrir um sorriso. Assenti enquanto me colocava de pé também e acenava para os dois.
-Não, morena! Não me deixa aqui no meio!
Choramingou Chris. Dei risada, sentindo uma pena absurda do meu amigo, mas antes que eu pudesse fazer, Ryan foi mais rápido.
-Venha ruiva, você é convidada para o clubinho do mal.
-Poxa. Me deixaram de fora?
Choramingou James, fingindo-se triste. Dei risada enquanto balançava a cabeça negativamente.
-Sinto muito, churrasqueiro. O clube é só para os especiais.
Sorri. James estreitou os olhos, observando-me com um sorriso de canto muito sexy em seu rosto... Meu Deus, aquilo não era possível. James respirava Sexy!
-Vai provocando, Sid. Depois eu te pego por aí e você não vai poder chorar.
(...)
Eu não sei que horas eram quando eu cheguei em casa, mas o sol já havia ido embora há muito tempo e eu suspeitava que logo ele iria nascer. Quando eu saí da casa de Felly, haviam algumas pessoas dormindo no chão, outras desmaiadas, uma loucura só. Minha amiga até me chamou para dormir lá, mas eu disse que e não podia. Papai já ia ficar puto o bastante de eu chegar tarde em casa, quem diria então se eu não voltasse. Christian não me deixou ir sozinha, então caminhamos juntos até minha casa que já estava toda apagada e completamente em silêncio quando abri a porta na maior cautela. Eu até chamaria o ruivo para dormir lá, mas meu pai poderia não encarar muito bem o fato de eu dormir com um cara e eu estava começando a ter liberdade com ele agora, eu não podia simplesmente acabar com tudo.
Com os sapatos nas mãos e abrindo a porta com a maior cautela, me senti uma filha rebelde que havia fugido de casa e estava com medo de acordar os pais. Nas pontas do pé atravessei a sala, contente por ver que ninguém me esperava lá como naqueles filmes de máfia, e subi as escadas no silêncio, tomando cuidado para não cair na escuridão. O breu era total e eu não enxergava por onde eu passava. Meus olhos escorregaram pelos cantos, mas eu sequer sabia o que ali era eu e o que era ambiente. Em passos cuidadosos, ergui a mão tentando me guiar pela parede, o que funcionou bem, até eu passar pelo armário do corredor, e sem enxerga-lo, meter com todas as forças o joelho em sua quina, resultando em um alto barulho e uma dor aguda que se espalhou por minha perna. Segurei o grito, apertando forte o lugar e praguejando, enquanto me sentava no chão esperando me recuperar da dor. Afaguei o machucado, sabendo que ficaria roxo pela manhã.
-Meu Deus, Sidney!
Pude ouvir a voz irritada vindo não de muito longe e logo em seguida a luz se acender. Nicholas segurava forte um taco de basebol e me observava com uma expressão assustada, como se tivesse acabado de lhe dar o susto do ano. O observei calmamente, enquanto ele pousava o taco e levava a mão ao peito. Imaginei o estrago que ele teria feito em mim caso não tivesse me reconhecido. Algo me dizia que Nicholas sabia bem como jogar basebol, mesmo com a cabeça de alguém.
-Me desculpe. –Grunhi entredentes. –Eu não queria que minha cautela tivesse sido em vão.
-Você... –Nicholas olhou para mim e em seguida para o armário, só então parecendo juntar as peças. E seja lá o que tenha percebido, achou engraçado, porque sua risada irritante foi o que ouvi em seguida. –Meu Deus, você é tão desastrada.
-E silenciosa como um caminhão. Uhum. Já sei.
-Você só voltou do churrasco agora? –Franziu a testa, confuso. –Sabe que horas são?
-E quem é você? Minha mãe?
Perguntei irritada enquanto ele me erguia a mão para me levantar. Recusei de má vontade enquanto me colocava de pé. Nicholas franziu a testa, observando-me com os olhos azuis confusos.
-O que você tem?
-Eu não quero papo com você.
Dei de ombros enquanto andava em passos mancos até meu quarto. Eu teria sido mais rápida, se não tivesse sido abatida pelo armário, e por conta disso, Nicholas conseguiu alcançar-me parando meu trajeto. Observei-o irritada enquanto tentava sem sucesso desviar.
-Está brava por causa do lance com o seu amigo? Não acha que você exagera um pouco?
-Exagerar? –Perguntei indignada. –Eu não... –Prendi a respiração e fechei os olhos antes que eu começasse de novo a gastar saliva com quem não merecia. Bufei. –Sai da minha frente.
-Olha Sidney! Que saco, me desculpa! Eu não deveria ter falado aquilo.
Pisquei algumas vezes completamente indignada. Ele... Ele estava me pedindo desculpas? Acho que eu não conseguia acreditar naquilo. Fiquei por um momento em silêncio tentando raciocinar o que eu ouvia. Prendi a respiração. Eu deveria filmar aquele momento.
-Você jura?
Tentei manter o ar sarcástico, mas acho que estava impressionada demais para isso. Nicholas deu de ombros, enquanto levava a mão até a nuca, parecendo sem jeito.
-Eu... Sim. Olha, você não é uma pessoa fácil de se lidar também. Eu estou tentando, sabe? Mas não importa o que eu falo, você sempre da um jeito de ficar brava comigo...
-Mas é claro que não! –Grunhi, indignada. Agora a culpa era minha? –Escute aqui...!
-Viu só? –Me interrompeu Nicholas, soltando um suspiro. –Chega de me odiar, vai. Eu não sei mais o que eu faço.
-Então quer que eu crie um afeto por você? Do nada assim? –Ergui uma sobrancelha, achando o papo suspeito. –Não vai rolar.
-Não é do nada. –Nicholas estreitou os olhos. –Você não me odeia de verdade.
-Obvio que eu odeio!
Exclamei mais em defensiva do que eu queria. Nicholas franziu a testa parecendo reparar em uma coisa que não havia percebido antes. Entortou o nariz.
-Você está bêbada?
-Não!
Menti. Meu irmão revirou os olhos, balançando a cabeça em desaprovação. Franzi a testa.
-Ótimo. Agora você não vai lembrar desse papo todo amanhã.
-Queria eu. –Grunhi. –Queria não me lembrar de você também.
-Quer saber, Sidney! –Suspirou o moreno, erguendo as mãos para o ar e soltando em seguida. –Eu desisto. Eu não vou mais bancar o bonzinho, você não merece isso.
-Você? Bonzinho?
Revirei os olhos como se as palavras não fizessem sentido juntas. Nicholas balançou a cabeça negativamente.
-Sidney... –Olhou-me em um tom de hesitação, como se estivesse se perguntando se era certo falar seja lá o que estivesse em sua cabeça. –Eu penso o tempo todo em você.
Pisquei algumas vezes observando-o, curiosa. O que? Ele estava realmente... Senti meu estômago embrulhar e meu coração acelerar de uma só vez. Mas que merda era aquela? Fiz uma careta tentando ao máximo não amolecer pela expressão lamentável e fofa estampada no rosto lindo do garoto de olhos azuis que era meu irmão. Prendi a respiração tentando voltar a minha mente para mim. Por que ele estava tão atrativo? E por que não me parecia diferente do normal? Eu estava bêbada! Isso! Só podia ser. Recuei um passo, enquanto balançava a cabeça em negação.
-Você é nojento.
Cuspi as palavras. Pude ver a decepção nos olhos do meu irmão. Assentiu.
-Eu sei. E me abomino por isso, mas... Eu não consigo te tirar da cabeça, acho que você deveria saber.
-A gente não conta esse tipo de coisa.
-Então quer dizer que você também?
-O que? Não!
Exclamei mais uma vez. Nicholas me ergueu uma sobrancelha, com aquela expressão lindamente irritante de desconfiança.
-Então por que está na defensiva?
-Não estou!
-Está sim...
-Eu não...
Antes que eu pudesse terminar, como havia acontecido uma vez, Nicholas avançou em minha direção, grudando os lábios nos meus e me afogando naquela maciez do doce beijo que me dava. Mais uma vez nossas línguas brigaram e a sensação era simplesmente maravilhosa. O que estava acontecendo? Por que eu gostava tanto do seu beijo? Eu sabia o que estava acontecendo, diferente da última vez, mas não separei. Na verdade, talvez tenha sido efeito das bebidas, mas o que eu resolvi fazer foi puxa-lo para mais perto de mim e arrastar as mãos por aquelas costas definidas maravilhosas, que faziam o favor de com toda a sua força, me prender o mais forte possível contra a parede. Papai não estava em casa, eu podia adivinhar. As mãos quentes de Nicholas escorregaram para minha cintura, onde apertaram-me com força e mais uma vez, puxou-me para mais perto ainda do seu corpo, onde eu já me sentia esmagada, mas eu gostava. Me impulsionando do chão, enrosquei as pernas na cintura do garoto, o que deve tê-lo surpreendido um pouco, mas que o estimulou ainda mais a fazer o que estava fazendo. Agora eu sentia seu corpo contra o meu e eu sentia o contato entre nós. Eu estava presa entre a parede e o corpo rígido de Nicholas, que se movimentava lentamente na medida em que ele mudava a posição do nosso beijo acelerado. Eu sentia a excitação crescer dentro de mim como nunca havia acontecido, e antes que eu pudesse sequer reparar, os lábios sedosos, desciam por meu rosto em direção ao meu pescoço. Estiquei o corpo para facilitar seu acesso e fechei os olhos sentindo a delícia que aquela carícia me dava. Tão bom... Soltei um projeto de gemido, mais por manha do que por qualquer coisa, quando ele soltou meu pescoço voltando a atacar meus lábios. Meu coração batia forte assim como o seu, que eu podia sentir tão próximo de mim. Dessa vez fui eu quem tomou a iniciativa de escorregar os lábios pelo rosto do garoto e com toda a vontade que já senti em uma vida, dei um chupão no pescoço do garoto que o fez soltar um suspiro. Seus olhos se arregalaram e antes que eu pudesse sequer reparar, ele se afastou, derrubando-me no chão por pouco, enquanto eu tentava retomar o equilíbrio de minhas pernas bambas. A mão do garoto parou no pescoço, onde ele me observava agora espantado.
-Merda.
Meu corpo estava a mil e eu já sabia o que havia acontecido. Eu havia lhe deixado uma marca, o que daria um trabalho para Nicholas explicar aquilo para o pai. Levei a mão ao rosto e sem conseguir pensar em nada, senti o peso na consciência por uma coisa: Eu o beijei de novo, e pior... Eu havia de fato o desejado. Senti meu estômago embrulhar e então a tontura tomou conta de mim, minhas mãos suavam frias. Com todas as forças em minhas pernas, abandonei Nicholas no corredor, e disparei em direção ao meu quarto, fechando a porta logo atrás de mim, e me apoiando sobre o vaso em meu banheiro, sentindo a bebida ardente voltar por minha garganta. Gemi irritada enquanto agia como uma adolescente que havia bebido pela primeira vez.
Merda. Eu havia bebido demais, eu havia chegado em casa tarde demais, e havia feito a coisa mais errada que poderia fazer em toda a minha vida. Aquilo era desumano e não era natural, e naquele momento eu sentia o maior nojo, não de Nicholas, mas sim de mim.
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